Capítulo XIII - O Desejo de um Deus

1559 Words
Elinor não caiu no sono dessa vez. Os remédios faziam cada vez menos efeito conforme o passar dos anos. Dormir era uma tarefa que requer força que a princesa nem sempre conseguia reunir, considerando que a distração sempre foi sua melhor forma de lidar com a dor. Os corredores lúgubres dos andares mais altos do palacete tinham as paredes cobertas por cortinas aveludadas avermelhadas, como se sangue abraçasse o mármore frio e mofado. Por entre fendas do veludo, candelabros se esticavam para o topo, iluminando o teto pintado a mão com velas finas e esbranquiçadas. Um belo mural da guerra contra Aeter, o dragão que amaldiçoava toda Nyamie até os dias de hoje. A princesa parou no meio daquela imagem, sua camisola de noite raspando contra seus calcanhares. Ela levantou os olhos azuis-esbranquiçados como duas luas cheias, relendo a pintura como se fosse a primeira vez. Dali, a bruxa Alethea empunhava uma espada, bravamente enfrentando a maior ameaça para os seres vivos do reino, o queixo levantado, peito erguido. Elinor jurava que seus olhos de cornalina se moviam para baixo sempre, encarando-a do topo com desprezo. Odiava a pintura. Olhava para ela todos os dias. Seguindo corredor abaixo, ela percorreu os dedos pelas cortinas, deslizando para dentro de uma das fendas. A pedra antiga estava úmida e gelada, como sempre. As rachaduras ainda se espalhavam pelas paredes, como se cansassem de sustentar o palácio. Elinor empurrou a porta para trás, seus braços ossudos tremeram com o esforço e seu estômago subiu para a garganta. Se segurando dentro do túnel, Elinor cobriu a boca e fechou os olhos, puxando ar e força para continuar andando. Precisava se distrair. O poder da princesa se esticou pelo mármore bruto, e ela caminhou pelo pequeno labirinto cegante, seus pés nus acertando cada passo até uma das portas de saída. Ela se sentou no chão frio, encostando a testa no mármore. O cheiro de pedra molhada e mofo já era familiar. Atrás da parede, duas criadas conversavam. Uma delas Elinor já conhecia bem, seus aromas doces lhe acalmaram as veias que saltavam no pescoço da princesa, e ela apertou os dedos contra a pedra. Siena. Seus olhos marrons como caramelo, seu toque era como um dia ensolarado que Elinor nunca havia visto e sua voz era como se deitar em uma cama de dandelions. A princesa não precisava enxergá-las para saber o que Siena fazia com suas mãos calejadas. Seus dedos trabalhavam habilmente ao desossar os peixes e piranhas com o cutelo. A criada ao lado de Siena fazia o mesmo, jogando os pedaços cortados em uma grande tigela. Um bocado alta demais, os cabelos pretos como obsidiana estavam presos e a pele acinzentada faziam com que suas raras escamas no pescoço se destacassem. — Eles trouxeram menos quilos dessa vez — disse Siena, balançando a cabeça. — Não sabem que isso é pra fazer a princesa se sentir melhor? — ela murmurou, acompanhada de uma bufada baixa. Elinor sorriu contra a pedra, como se pudesse mostrar a Siena seu agradecimento. — Ela vai superar — disse a outra criada. O sorriso de Elinor se dissipou, e ela se aproximou um pouco mais da f***a, observando as duas criadas na grande cozinha. O cutelo de Siena afundou na tábua, e ela virou seus olhos de caramelo para sua colega. — O que disse? — Não é como se a princesa só tivesse isso pra ser feliz — ela murmurou de volta. — Ela tem o mundo todo aos seus pés. — Ela é filha dos deuses. É assim que deveria ser. A criada negou com desdém, voltando a arrancar a espinha do peixe com as unhas afiadas. — O que foi? — perguntou Siena, lentamente voltando os olhos para seu próprio trabalho. Garras subiam na nuca de Elinor, lhe arranhando para reagir cada vez que via a criada arrancar um osso, como se estivesse lhe ferindo diretamente. — Nada. — Não é nada, você sempre age assim quando falo da princesa Elinor. A mulher segura o braço de Siena, lhe puxando para mais perto. Comparada com outros imortais e elfos, Siena parecia humana. Era pequena, tinha a pele marrom-clara dourada, os olhos arredondados e as bochechas rosadas. No entanto, não se via o terror e poder que ela escondia por baixo do lenço na cabeça. — Quer falar baixo? Você sabe como essas coisas são aqui. Espalham igual elfos atrás de sangue brinket. O estômago de Elinor bateu forte contra sua garganta, a areia do mármore bruto subindo pelos seus dedos, seu poder sugando o material da parede. Os olhos de lua da princesa se focaram naquelas garras ensanguentadas se afundando nos braços pequenos de Siena. — Você tá escondendo alguma coisa — ela murmurou, os olhos desafiadores. — E nem consegue agir como inocente. A fera desapareceu. A voz de Siena virou aquele campo de dandelions, e ela se desvencilhou do toque da criada com facilidade. — Não precisa esconder nada de mim — mentiu ela, usando sua aparência frágil em sua defesa. — Eu só… Sou um pouco cética quanto a tudo isso. Quanto aos deuses, quanto a ela. Não acho que ela vai conseguir salvar ninguém — ela murmurou baixinho, quase como se tivesse vergonha de suas crenças.  Os cortes de Siena ficaram mais brutos. A criada continuou. — Elinor está mais frágil e feia do que um cadáver humano em decomposição. Não é nenhuma deusa. Não é poderosa. Simples. — Vossa alteza ainda é jovem — disse Siena, olhando de soslaio por cima do ombro na direção da f***a na parede. — Ela irá brilhar como as profecias dizem. A bruxa Alethea estava certa. — Alethea é a única que acho que pode nos ajudar. Elinor se arrastou para fora do corredor mórbido e frio, os olhos fervendo em lágrimas de ódio. ~ A princesa tinha acabado de sair de seu café da manhã ao ouvir vozes desesperadas do corredor principal. Elinor pisou do lado de fora, o vestido azul escuro como a noite lhe envolvia em sua cintura perfeitamente, subindo para o b***o com lapelas mais largas do que seus ombros, lhe aumentando a silhueta. Ela descansou as mãos pálidas na frente do corpo, os olhos curiosos nadando de um guarda para o outro. — Não se preocupe, alteza — o guarda mais próximo dela sussurrou. — Parece que aconteceu um acidente nas traseiras do palácio. Ela avançou escadas abaixo até o salão do trono. O rei deitava no trono, a cabeça preguiçosa encostada na almofada, sua capa transbordando para fora de seu assento. A rainha se sentava estreita, as mãos delicadas e anormalmente longas repousavam em seu colo, a clavícula totalmente exposta com o vestido de decote baixo, expondo suas tatuagens brancas em seu pescoço. O grupo de elfos no pé do altar viraram-se para a princesa quase imediatamente, esquecendo o tumulto para prestarem seus respeitos à Elinor. Ela sorriu gentilmente para seus súditos, os olhos vazios a procura de Siena nos cantos do salão. Lá estava ela, destacando dos outros elfos, pequena e radiante. Seus olhos caramelos pulsavam com uma energia que fazia Elinor querer levá-la para os jardins para ficarem sozinhas novamente. Então, a princesa levou sua atenção até o tumulto inicial. Uma elfo sendo carregada em uma maca, morta, seu corpo encharcado de água venenosa. Sua pele acinzentada estava coberta de buracos que revelavam suas entranhas em todos os lugares: bochechas, lábios, olhos e garganta. Elinor desceu seu olhar para as garras que tinham sido quebradas — ou arrancadas. Respirou fundo e ergueu o queixo, lembrando-se de desfazer o sorriso e tomar uma expressão de horror. — O que aconteceu com essa jovem? — Ela perguntou, a voz fraca ecoando pelo salão, descendo as escadas até se aproximar da maca. Os olhos de Selina continuavam firmes e fixos na princesa. Um dos guardas gentilmente pôs sua mão à frente de Elinor, avisando do perigo de encostar no cadáver. — Suas mãos, alteza. Suas belas mãos irão derreter. Elinor passou seus dedos pelos seus cabelos dourados como fios de ouro e os colocou para trás. — É preciso respeitar o ritual — ela murmurou, se inclinando sobre a maca, segurando ambas bochechas da criada morta. Os sussurros se espalharam pelo salão, e o rei se endireitou no trono. A rainha fazia menção de se levantar, os olhos preocupados grudados em sua filha. Elinor beijou a testa do cadáver, sua magia absorvendo a pele da criada para recriar seu rosto como era originalmente, sem todos os buracos horrendos. — Descanse nas estrelas, nossa amada… — ela parou, percebendo que sequer sabia o nome da criada. Alguém murmurou: “nossa amada, Zalia” junto da princesa, o que a fez completar a prece. — Nossa amada Zalia — disse ela finalmente, seus lábios e mãos intactas ao veneno. — Que os deuses te recebam de braços abertos. Ela levantou suas costas novamente, os colares de ouro batendo contra sua lombar nua até sua nuca, sua coroa não havia saído de lugar de todo. As preces foram cantadas pela multidão, e a apreciação à princesa pelo seu ato de bondade também. Ela sorriu, virando-se para seus pais com esperança em seus olhos, como uma criança à procura de aprovação. O rei se recostou no trono novamente e a rainha assentiu, com os olhos macios para sua querida filha.  
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