Capítulo XII - As Memórias Guardadas Nas Estrelas

2006 Words
Elinor percorreu os dedos delicados pelas folhas secas dos arbustos, os cabelos loiros presos em um coque solto. Estava descalça, permitindo que seu corpo absorvesse o máximo da natureza possível. Seu vestido branco era leve como uma camisola, sendo levantado pelo vento dos jardins ao alto. Uma pequena flor rosa escura desabrochava entre a grama e os arbustos, com dificuldades a sobreviver às condições nada ideias. A princesa se abaixou, sentando na grama. Encostou a ponta do seu dedo indicador na pétala, e assim, criou mais flores, explorando o caule e miolo da flor com a sua mão, logo enchendo aquele canto com flores que não seriam corroídas pela névoa. Elinor observou seus sentinelas, que a aguardavam do lado de dentro para não se exporem. Aquelas caminhadas pelos jardins eram os únicos momentos quando a princesa poderia realmente se sentir sozinha. Às vezes era r**m, ela não gostava de se sentir sozinha. No entanto, era comum sua mente pedir por alguns minutos do lado de fora do castelo, sentir o ar e os cheiros do mundo exterior. Como naquele momento. Ela não sabia o que fazer. Tinha sido colocada nesse mundo com o único propósito de salvar todo o reino e não parecia haver qualquer saída para a questão da sua doença. Ela se lembrava perfeitamente da primeira vez que tinha decepcionado seus pais. Ainda era jovem, tinha doze anos. Já tinha sido infectada, seus poderes eram fracos demais. O rei tinha interrompido as lições de Alethea e exigido de sua filha alguma demonstração da sua evolução. Elinor escolheu tentar recriar um feijãozinho, mas sequer conseguiu o formato ou tamanho adequado. A magia tinha caído por todo lado, espalhando-se pelo chão em um estrondo. O rei descontou suas frustrações na bruxa, reenforçando o quão crucial era que Elinor conseguisse usar seus poderes com maestria. O pior não tinha sido as palavras que seu pai tinha dito, mas o fato de que ele sequer a encarou depois que tinha falhado. Não a viu lacrimejar ou abaixar a cabeça em vergonha. Tinha sido descartada assim que cometeu um erro. Naquele dia, a pequena Elinor mordia o interior da bochecha para não chorar. Sua mãe dizia que princesas fortes não choravam. Alethea despensou a menina pelo resto do dia, permitindo que ela descansasse e tirasse aquele pequeno erro da cabeça. Ela nunca foi capaz de esquecer aquilo ou qualquer incidente parecido. Uma elfo adentrou os jardins, os pés hesitantes em pisar naquela plataforma a milhares de metros do chão. Ela ajeitou o avental e se aproximou da princesa por trás, que já tinha sentido sua presença por causa do cheiro de canela emanando da entrada. — Eu disse que iria te encontrar na cozinha — disse Elinor, colocando um sorriso rápido no rosto. — Não precisava sair aqui. A criada se ajoelhou ao seu lado, escondida dos guardas pelos arbustos, o rosto coberto pela máscara para se proteger da névoa. — Não se preocupe, não faz m*l — disse ela, o cabelo coberto por um tecido preto. Seus olhos marrons desceram para as flores que Elinor criou e ela sorriu por baixo da máscara. — Você deixa esse lugar tão mais bonito — ela sussurrou, admirando o trabalho da princesa. Elinor sorriu em agradecimento, colhendo a flor que lhe parecia a mais bonita. Ao contrário da criada, não conseguia ver a cor das pétalas, mas lhe parecia saudável o suficiente, sem qualquer pequena área apodrecendo. Siena observou em silêncio conforme a princesa levava a flor até seu rosto, cuidadosamente colocando o caule entre o tecido e seu cabelo, logo acima de sua orelha. — Você soube? — Elinor perguntou, abaixando os dedos delicados, traçando uma linha pelo seu braço. A criada abaixou o olhar, as mãos contidas no abdômen, seu rosto perdendo o brilho de entusiasmo que estava ali presente. — Todos ouvimos sobre — ela murmurou. — Sinto muito, Eli. A princesa manteve seus ombros erguidos, tensos, até. No entanto, seus olhos estavam perdidos no horizonte, como se pudesse ver além da névoa. — Ainda temos esperanças — Elinor garantiu. Siena levantou o tronco, abraçando a princesa com carinho. Elinor afundou seu rosto no ombro da criada, a postura de princesa caindo, se concentrando naquele aroma de canela e baunilha e seu peito se acalmou, o nó em sua garganta afrouxou. — Já te disse pra tirar a máscara falando comigo — disse Siena, sem se referir à nenhuma máscara literal. — Não consigo evitar às vezes. Siena não sabia como consolar sua melhor amiga, então se limitou a acariciar seus cabelos de ouro em silêncio, lhe dando o conforto e a segurança de saber que haveria alguém ali para ela. Alguém que a veria como Elinor primeiro, e depois como a princesa de Nyamie. ~ Não puderam ficar muito tempo juntas no jardim. Siena teve de voltar para seu trabalho, e Elinor para suas responsabilidades de princesa. No cair da noite, ela retornou para seus aposentos com os seus sentinelas, o corpo protegido por um manto de veludo, mantendo-a aquecida. O estômago de Elinor já embrulhava novamente, as pernas tendo dificuldades em mantê-la em pé. A princesa adentrou o quarto m*l iluminado e deixou o manto arrastar pelos seus braços nus, largando as sapatilhas junto. Ela sentiu o carpete felpudo em seus pés descalços, arrastando-os até as poltronas em frente à lareira. Despencou contra o couro, os olhos fechados, a cabeça pendendo para trás. Não conseguia se concentrar nos aromas de carvão e leve fumaça. Conseguia ouvir sua respiração pesada e a lareira a farfalhar. Ela desabotoou o b***o do vestido, seu peito ardendo. De todas as coisas que ela podia fabricar com os seus dedos, uma pele saudável para se curar era a única coisa que ela falhava em conseguir dominar, mesmo sendo capaz de fazê-lo para outra pessoa. As lágrimas cheias de dor pareciam ácido, cortando pela sua bochecha até seu pescoço. Seu peito acelerava, a respiração curta e ofegante. Ela levou sua mão até a garganta, apertando as unhas contra a pele frágil em uma ameaça contra si mesma. Apertou os olhos, empurrando o corpo para frente, enterrando seu rosto nas mãos. Tudo que ela queria era não ter que viver o próximo agoniante segundo. ~ Adormecer tinha sido fácil com a dose extra de remédios que Elinor tomou. Depois que os criados lhe deram um banho e lhe vestiram em uma de suas camisolas de algodão, a princesa caiu no sono. Quando as estrelas reinavam no jardim do céu, a porta do quarto da princesa se abriu. As paredes cinzentas eram decoradas com tapeçarias artísticas que a própria princesa havia feito em ordem cronológica. Sua primeira obra era a mais caótica, fios de cores que não combinavam entre si lutando para ocuparem mais espaço, as figuras desformadas e abstratas. Conforme o tempo foi passando, as obras de Elinor perderam a cor e admitiram uma paleta pastel, saindo do abstratismo para o realismo. A mais recente era quase tão perfeita como uma pintura, grande o suficiente para cobrir uma árvore inteira, pendurada na parede. Era um retrato de algumas moças da nobreza, comportado e digno da princesa Elinor. Os candelabros manchavam os móveis com uma luz amarelada, fracas velas acesas no fundo do quarto, como a princesa gostava. O carpete cobria todo o chão, a lareira levantada alguns degraus como medida de segurança. Siena se aproximou da cama, hesitante em acordá-la. Não faria isso se aquele dia não tivesse sido tão r**m. — Eli? — Sussurrou Siena, subindo na cama lentamente. Não tinha a máscara no rosto, mas seus cabelos continuavam cobertos pelo tecido. — Eli, acorda — ela segurou a mão gelada de Elinor, soprando um pouco de ar quente em seus dedos delicados. A princesa abriu os olhos lentamente, grogue com os efeitos do remédio. Precisou de alguns segundos para ajustar a visão e perceber que Siena estava ali. — Siena… O que aconteceu? — Ela perguntou, apoiando os cotovelos na cama, franzindo a testa. Não era comum vê-la ali no meio da noite. — Eu quero te mostrar uma coisa. — Agora? Eu preciso mesmo dormir, Siena — murmurou Elinor, esfregando a testa para tentar acordar melhor. — Sim, agora. Isso não acontece todos os dias. Siena se ajoelhou na cama, ajudando Elinor a tirar os cabelos do rosto, segurando suas bochechas gentilmente. — Acho que vai valer a pena. Confia em mim. Elinor se deixou ser confortada naqueles olhos marrons chocolate. Não precisava sair para lugar algum contanto que ela estivesse ali, mas iria mesmo assim. — Tudo bem. Onde vamos? — Elinor perguntou, se sentando na cama com a ajuda da criada. — Lá fora. Pegue um manto, está frio. Elinor assentiu, respirando profundamente. Ainda não tinha recuperado seus sentidos totalmente, mas estava consciente o suficiente. Então, vestiu um manto e um capuz, emprestando a Siena algo para cobrir seu rosto da névoa. A princesa abriu as portas do quarto, os sentinelas quase adormecendo com o tédio de estarem ali a noite inteira. Ela não viu o que Siena fez, mas ambas esgueiraram-se para fora do quarto e não foram vistas. Elinor sentiu o cheiro da magia no ar, mas deixou os questionamentos para depois. Siena lhe segurava a mão, mantendo-a aquecida conforme as duas jovens se enfiavam nos corredores menores do palácio até chegarem em uma escada espiral. Definitivamente não era por ali que a família real subia para lugar algum, as pedras desgastadas e mofadas, algumas goteiras ecoando lá de cima. Ainda sim, Elinor conhecia aquela passagem. Tinha passado tempo demais quando criança se esgueirando do seu quarto para explorar o castelo, já que aquele era o único local que ela poderia ficar. Bateram as pernas, subindo escada acima para o último andar do castelo. Como ambas eram elfos, não se cansaram tanto quanto um humano comum, mas chegaram no topo ofegantes o suficiente, suor escorrendo pela testa de Siena. Elinor se encostou na parede, exausta com todos os efeitos dos remédios e das dores de sua doença. — Chegamos. — Por que viemos pro jardim da minha mãe? — Sussurrou Elinor entre as puxadas de ar, um sorriso confuso no rosto. Era um de seus lugares favoritos no castelo, mas Siena detestava. A criada tinha pavor de alturas e se recusava a pisar em qualquer lugar mais acima do que o jardim de Elinor, que era a dezoito andares abaixo. — Você vai ver — ela assertou, ajeitando a máscara no rosto. Então, estendeu sua mão mais uma vez, a outra pronta na maçaneta. Elinor encarou a porta por alguns segundos, confusa. Desde quando ela tinha criado coragem de entrar ali? Tomou a mão da criada e a porta foi aberta. O vento quase as empurrou para trás, mas manteram os pés firmes. Siena reuniu forças o suficiente para ir contra o impulso ar e fechou a porta das escadas, guiando Elinor até o centro. Aquele jardim era o ponto mais alto do palácio, as árvores finas e altas formando o contorno da plataforma, os arbustos floridos e saudáveis com toda a vegetação que Elinor criou enfeitavam as muretas nos cantos. Não haviam lampiões, o que possibilitava a visão perfeita das estrelas. Elinor raramente pôde ver um fenômeno como aqueles, tantas luzes prateadas brilhando dos céus, os olhos dos deuses lhe abençoando com a sua presença. Manchas de luzes prateadas e brancas, como em uma dança de almas iluminadass. Ela sorriu quase boquiaberta, esticando sua mão como se pudesse tocar cada um daqueles astros. Siena se deitou e Elinor seguiu o exemplo, a grama lhe abraçando o corpo. A princesa virou o rosto para a criada, os olhos azuis cristalinos brilhantes com emoção. — Você precisava se lembrar de onde veio — Siena murmurou, o rosto fixado nas estrelas, nos deuses. — Os deuses nunca falham. Você vai encontrar um jeito de sair dessa… Eu sei que vai. Elinor sentiu seu coração apertar em desejo por alguma coisa, as lágrimas ameaçando escorrer eram muito diferentes das de mais cedo. Ela poderia continuar ali deitada para sempre.
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