O quarteto voltou para a entrada da casa de Donovan, agora fora da vista da ursa-mãe que logo iria acordar e retornar para sua toca, onde seus filhotes estiveram o tempo inteiro. Callie ajeitou seu casaco, cruzando os braços, encolhida ao lado da bruxa, como se sua magia fosse radioativa.
— Por que você mora tão perto da montanha? — Perguntou Gael, reconhecendo algumas daquelas estradinhas de pedra.
Muitas vezes Anakin e seus amigos drogados passavam por ali.
— Acha que morar na cidade é barato?
Alethea subiu o olhar para seu santuário no topo. Precisaria voltar lá para buscar alguns dos itens que seriam necessários para atrair a serpente. Seu plano era simples: levar as crianças ingênuas até a ilha onde a criatura mora, matá-la, recuperar a pedra e se livrar dos três.
— E o que fazemos agora? — Interrompeu Callie.
Donovan se sentou na mureta de tijolo, o dente bem guardado na mochila.
— Teremos que ouvir dos nossos mais novos integrantes. Aliás, qual é o nome de vocês?
Gael endireitou os ombros, as mãos largas enfiadas nos bolsos da calça.
— Eu me chamo Gael — ele virou a cabeça na direção da bruxa para apresentá-la, mas se deu conta de que não sabia se deveria dizer seu verdadeiro nome. — E ela é…
— Alethea.
— Igual à bruxa? — perguntou Callie, surpresa. — Por que seus pais te dariam esse nome?
— Minha mãe era uma fã — respondeu ela, dando de ombros levemente.
Donovan ficou calado, observando a bruxa. Não conseguia engolir a mentira muito bem, mas não sabia porquê. Nunca a tinha visto, e as lendas e histórias de terror descreviam-na ou como um demônio vivo, ou como uma mulher vestida de preto, olhos vermelhos e um colar de sangue no peito.
— Então, o que fazemos agora, Alethea? — ele perguntou, concentrado nela como um predador observa sua presa.
— Precisaremos ir para algum lugar longe da cidade, em uma ilha deserta e realizar um ritual.
Os três jovens permaneceram em silêncio, parte por concentração quanto por receio do plano. Callie não tinha certeza se ela não era a única questionando suas motivações para fazer isso, mas tinha certeza que era quem questionava mais depois de ter visto o que aconteceu com aqueles elfos pessoalmente.
— Não deve demorar muito para ela chegar, mas devemos fazer o ritual em condições específicas. Precisaremos de alguns materiais, também.
— Que tipos de materiais? — Donovan questionou.
— Algumas velas, o dente, sangue de Brinkets, sal.
Callie engoliu em seco, abaixando a cabeça, subindo sua mão para o colar de jade.
— Posso te conseguir tudo isso — ele respondeu, olhando para Callie de soslaio. — Menos o sangue.
— Não consegue matar um Brinket?
— Consigo — Donovan revirou os olhos. — Não consigo é matar as criaturas que vão vir quando o sangue pingar.
Alethea levantou o queixo, ligeiramente surpresa com os conhecimentos dele de magia.
— Então capture um.
— Podemos tentar — disse Gael, incerto de tudo naquele grupo.
Ele sentia tensão e desconfiança demais, fora o medo mútuo que emanava de todos menos da bruxa.
— Callie — Donovan chamou, se virando para ela.
A garota estava muito imersa em seus próprios pensamentos, se lembrando da sensação da água gelada conforme ela aprofundava no oceano, os cadáveres aparecendo como se estivessem saindo da névoa para pegá-la. Não importaria quantas horas ou dias tivessem passado, se nenhum animal devorasse aqueles elfos, eles permaneceriam daquele jeito para sempre, seus corpos incapazes de se decomporem.
Donovan repetiu seu chamado, e ela piscou, virando o rosto para o jovem ladrão em um susto.
— O quê?
— No barco eu te vi levantar uma âncora como se fosse uma caixa de peixes. Como fez aquilo?
Callie franziu a testa com a pergunta.
— Eu não sei, só levantei — ela deu de ombros.
— Não é normal uma pessoa “só levantar” aquilo daquele jeito, principalmente com os seus braços — ele apontou o queixo para os braços magros da garota.
— Eu concordo — Gael intrometeu.
— Minha mãe sempre me disse que eu sou mais fortinha do que o normal, mas nada… muito fora do normal, também.
— Temos duas pequenas aberrações aqui, então — Donovan murmurou, virando sua atenção para Gael dessa vez. — E você? O que você faz?
Gael riu nervoso em um certo constrangimento.
— Nada demais, eu acho.
— Talvez ela seja mais forte que você.
Callie balançou a cabeça, um leve sorriso brincalhão no rosto.
— Olha pro tamanho dele, não tem como.
— Se já terminaram, eu tenho um lugar para estar agora — Alethea interrompeu. — Reúnam os itens, nos encontraremos aqui hoje quando amanhecer.
Donovan torceu o nariz, nada contente com Alethea tomando as rédeas do grupo e tratando sua casa como ponto de encontro para um grupo de, agora, ladrões. Não queria envolver sua família em nada disso.
— Como podemos te encontrar se precisarmos de você? — Perguntou Callie.
— Não irão precisar de mim. Tenham cuidado, não incluam mais ninguém no plano. Não podem saber da serpente, senão chegam até ela antes de nós.
Os jovens assentiram.
Quase me sinto responsável por essas crianças, pensou Alethea.
— Assim que amanhecer, estarei aqui.
~
Alethea caminhava pela rua principal, um tanto mais vazia do que o normal por ser madrugada. Se lembrava de andar naquela mesma rua há uma centena de anos atrás, como uma bruxa amadora e jovem demais, ingênua, explorando a chance que lhe foi dada de viver em um corpo humano. m*l se lembrava dos acontecimentos antes de receber um corpo, quando era somente uma alma flutuando pelo mundo. Muitas de suas memórias de milhares de anos foram apagadas, reduzidas a somente as mais recentes, como a dona daquele corpo.
Ainda estava viva, em algum lugar dentro daquela mulher de cabelos de cobre, mas já não tomava controle. Sua alma enfraqueceu demais ao leito de morte, e foi salva pelos deuses por unir Alethea à mulher. Ou melhor, castigada, porque agora tudo observava e nada fazia.
Os seus primeiros anos de vida como bruxa foram os mais complicados. Alethea demorou muito tempo para deixar de se ver como uma parasita que sugou o direito da jovem de morrer em paz. Tinha percebido, depois de alguns anos, que ser humana não era tudo aquilo que ela tinha imaginado e romantizado quando não possuia uma forma física. Tinha visto mortes, dor e arrependimento demais.
Ela se lembrava, ainda, do nascimento da princesa. Os céus escureceram, a névoa levantou, os raros animais nas montanhas gritaram. Dentro do palácio, ninguém dizia uma palavra. O salão inteiro a espera da revelação da princesa salvadora da pátria, o rei e a rainha fundindo sua magia em uma bebê quase humana de aparência. Então, ela foi levantada ao povo. Gritando os pulmões para fora, com dificuldade em respirar, a pequena bebê não pôde ver sua mãe assim que abriu os olhos. Não, ela viu seus súditos. Ela se viu diante deles, no topo, assistindo-a desde seu primeiro momento de vida, e o mais vulnerável. A princesa Elinor foi então passada de nobre a nobre, recebendo as bençãos de cada pessoa importante no castelo até ser colocada em um berço e levada para seu quarto, sem sequer ver sua mãe ou seu pai.
O sangue de Aeter no anel e no colar de Alethea esquentaram e se tornou preto ao se aproximar de Elinor, reconhecendo-a porque compartilhavam o mesmo sangue.
Alethea parou logo na entrada do cais, a área que menos tinha mudado com o tempo. Não havia tanto o que mudar, mesmo. Era somente água, plataformas de madeira e algumas feiras.
A bruxa removeu as mãos magras e frias dos bolsos, o anel com o sangue de Aeter se apertava em seu dedo anelar, inquieto, atraído por algo. Ela olhou em volta, apenas alguns marinheiros passando, alguns guaras da polícia real investigando o roubo de um navio. Alethea continuou adentrando o cais, a bolha de ar dentro do anel passeando por todos os lados.
O garoto estava de pé na parte de cima de seu barco, os olhos preocupados escaneando o que conseguia da cidade, a máscara abaixada. As veias negras subiam do pescoço, enraizando em sua mandíbula, os cantos de sua esclera vermelha de sangue. Elwin ainda esperava que Callie voltasse para o barco.
Alethea desceu o olhar para o anel mais uma vez, o sangue agitado na direção do jovem. Ela também pôde sentir a presença da magia.
Sangue de Brinkets corriam nas veias de Elwin, e era exatamente o que ela precisava.