Capítulo X - Os Caminhos Cruzados

1875 Words
O céu estava plúmbeo, a névoa menos densa do que o normal, permitindo que os sons ecoassem melhor pelas ruas estreitas da cidade. Os mercadores atraíam os cidadãos com ofertas irresistíveis, promoções e novidades. Como quatro planetas em suas órbitas, Callie, Donovan, Alethea e Gael atravessavam a mesma rua, uma dupla a caminho de entrar em colisão com a outra. Os dois jovens pararam logo na virada de um beco, com mais um homem que Donovan conhecia. Alto, um rosto de poucas amizades, largo dentro de seu casaco grosso.   — Já falei que não tenho tempo, Donovan — ele disse entredentes, ajeitando sua recém-colocada máscara. — Se a minha mulher me vê aqui fora, ela vai ficar doida. Ainda mais com uma garota como ela junto — ele apontou com o queixo para Callie, os olhos passeando por ela de cima a baixo. Donovan ignorou suas reclamações. — Foco. Preciso que me diga o que é isso. Ele removeu o enorme dente da mochila, escondendo-o da rua com as costas. O homem desceu o olhar para aquilo. Que tinha ficado boquiaberto era evidente, mesmo com a máscara tapando. — Isso é mais obviamente um dente, mas nunca vi algo assim tão grande… Callie apertou a borda do capuz, se aproximando um pouco mais de Donovan. — Quer dizer que não sabe a quem isso pertence? — Ela perguntou, admirando as veias escuras e já mortas da base. — Não sei, onde encontraram isso? O homem pegou o objeto, analisando-o de perto, os olhos cobertos de curiosidade e um certo fascínio. — No mar — Donovan respondeu, enfiando as mãos nos bolsos. — Poderia ser de algum… tubarão mutante, bem grande. Os dois jovens se encararam. Callie tinha certeza que não teria sido um tubarão, os elfos teriam conseguido lidar com um peixe tão pequeno comparado com a quantidade de criaturas que poderiam ser encontradas no oceano. — Algo maior? — perguntou Donovan, inspirando profundamente. Ele precisava de alguma resposta, de alguma pista que apontasse onde a pedra poderia estar. No entanto, tudo já se parecia perdido para ele. Mesmo se descobrissem qual foi a criatura que fez isso, não haveria jeito de recuperar o Lítio de volta. — Não faço ideia, Don. Alethea virou o rosto para o beco, avistando somente os dois jovens de costas e o homem curvado para frente. — Espere, isso não é um dente comum — ele começou. — Isso é um dente inoculador. Donovan franziu a testa, olhando para Callie em dúvida. — Que reserva e libera veneno — ela respondeu à pergunta silenciosa dele. — Então… Isso é de uma serpente gigante? A bruxa pousou uma mão a frente de Gael, puxando o capuz para cima. — É o que parece. Mais uma das aberrações que os deuses criaram. Callie suspirou, enfiando as mãos nos bolsos. Agora já não tinha noção do que fazer de todo, e se sentia mais decepcionada do que esperava. Talvez Donovan tivesse estimulado demais a esperança de poder curar seu irmão. — E agora? — Aposto que conseguem vender isso por uma grana preta — disse ele para Donovan, devolvendo o dente. — Até eu mesmo quero comprar. Os olhos do homem se distraíram do jovem para a mulher na janela da loja, sua esposa. Ele inspirou profundamente e se apressou, fazendo menção de sair. — Me avisa se for vender, vou pôr uma oferta. Tenho que ir agora — ele se desviou rapidamente dos adolescentes, caminhando apressado para a loja. Não havia mulher alguma na janela. — Agora eu tô completamente perdida… — Callie disse, encostando as costas na parede. — Não temos mais nada pra fazer. Acho que ninguém vai conseguir. É um caso perdido. Donovan bufou, pendendo a cabeça para trás. Não conseguia aguentar pensar que voltaria para casa fracassado mais uma vez, tinha falhado naquilo que escolheu fazer desde que abandonou a escola. Mesmo se conseguisse vender o dente da serpente mutante, não era garantia de um futuro certeiro. Muito provavelmente não seria sequer o suficiente para bajular alguns guardas na fronteira. — Vocês estão buscando a serpente? — uma voz ecoou da a******a do beco, e lá estava ela, a bruxa Alethea. — Eu sei como encontrá-la. Ele se virou para ela rapidamente, a analisando de cima a baixo, os olhos estreitos. — E poderemos ter o que você e eu queremos tanto — ela continuou, os brilho em seus olhos avermelhados oscilando como se fosse um rubi. — O Lítio. — Como? Você me parece humana o suficiente. — Isso interessa para você agora? O que importa é que estou dizendo que posso pegar a pedra da serpente. Callie abriu a boca, a voz tímida ecoando pelo beco. — Por que está dizendo isso para nós? Alethea desceu o olhar para a garota sem mover sua cabeça, mais imóvel do que o normal. — Porque não podem deixar essa informação escapar, e para conseguir encontrar a serpente, vou precisar disto — ela olhou para o dente da cobra. Gael permaneceu calado, tentando seguir o conselho que ela o havia dado há algum tempo. Falar menos, observar mais. — E por que vamos confiar em você? — Retrucou Donovan, achando até graça na ousadia da desconhecida. — Podemos descobrir sozinhos como encontrá-la. — E então terá outro dente contigo, mas empalado no seu peito. Acha que consegue se livrar de um monstro marinho? — Olha, eu acho que talvez tenha mais chances do que você — ele disse indignado, franzindo a testa. — Vou interromper — disse Gael. — Eu trabalho na ferraria algumas ruas abaixo, acho que a srta. Suvniru me conhece. Callie olhou para o jovem ferreiro e se lembrou. Aquele dia não tinha sido a primeira vez que tinha pago pelos serviços dele na forja, então o rosto lhe era familiar. — Conheço… — Apesar de que vocês podem até ter me visto por aí, não me conhecem, então minha palavra não é assim tão confiável pra vocês. Mas eu tenho certeza quando eu digo que se tem alguém que pode parar a cobra, é ela — ele apontou com o queixo para Alethea. Callie encostou no braço de Donovan para chamar sua atenção por alguns segundos. — Talvez ela tenha algum tipo de magia… Existem vários tipos de mutantes hoje em dia — ela sussurrou. Donovan considerou a hipótese, apertando o dente da criatura nos dedos. Ele se virou para a bruxa novamente. — Você tem algum tipo de magia? Alethea considerou a hipótese de matá-los ali mesmo, pegar o dente e sair. Gael reprovaria, e tornaria aquela aliança ainda mais complicada. Muitos sentimentos alheios para se preocupar, ela preferiria trabalhar sozinha. No entanto, precisava seguir os desejos dos deuses, e eles lhe pediram para se juntar a esse humano. — Pode-se dizer que sim. — Preciso de um exemplo. — Muito bem — ela respondeu sem dificuldades, agora levantando a cabeça. A atmosfera em volta dos jovens ficou menos densa, como se um peso tivesse sido removido da área. — Como quer que eu demonstre? Donovan hesitou, quieto, pensativo. Se lembrou, então, de um incidente que incomodava a sua família há alguns meses. Se ela conseguiria derrubar uma enorme serpente, um urso não seria problema. — Perto da minha casa tem uma caverna — Donovan começou. — É a casa de alguns ursos e eu nunca consegui matar eles. — Não pode só espantar os ursos, precisa matar eles? — perguntou Callie, as sobrancelhas abaixando em pena. — A carne seria útil — ele retrucou como se fosse óbvio, olhando para Calliope de soslaio. — Consegue? — Ele perguntou à bruxa. Alethea sorriu ligeiramente por baixo da máscara com a pergunta. — Lidere o caminho. ~ Alethea percebeu, ao se aproximar da casa, de que conhecia àquela família. Eram os desmiolados que ousaram se instalar perto demais da montanha para o gosto dela. Haviam diversos tipos de criaturas dentro do terreno, ela não sabia como alguns humanos gostariam de ser vizinhos disso. Donovan observou sua casa, as luzes apagadas. Ninguém estava ali, sequer sua mãe. Franziu a testa, mas não se permitiu demonstrar aquela confusão por tempo demais, se virando novamente para a bruxa. — É ali — ele apontou na direção das árvores maiores, um buraco formado em um relevo da montanha. As folhas secas tapavam a entrada como uma cortina, estranhamente posicionadas ali. A bruxa observou as árvores e o local em volta. Se abaixou, pegando em suas mãos delicadas uma pedra média e pesada. Calliope engoliu em seco, segurando o ombro da mulher com hesitação. — Tem certeza disso, moça? Ele disse que tem mais do que só um urso ali, parece ter uma família inteira. Ela se esquivou do toque da garota como se não fosse nada e encarou o ladrão. — Fiquem aqui. Ele esperava que ela se preparasse. Removesse o capuz e talvez o manto também. Não, ela caminhou do mesmo jeito que estava na direção da caverna. Parou alguns metros antes da entrada e abaixou a cabeça, observando as pegadas no chão. Grandes e pequenas. Também haviam filhotes. Ela arremessou a pedra para dentro da caverna, escutando um rosnado grave ecoando para fora da caverna. As folhas secas foram esmagadas, como se estivessem se preparando para se levantarem. Seus poderes rastejaram pelo chão, a névoa alaranjada se extendendo até as cabeças dos ursos. Eles então sentiram o cheiro de carne fresca, a visão de um tigre inimigo com uma de suas crias na boca. A mãe urso rugiu, confusa e em desespero, porque já não conseguia ver sua cria no chão atrás de si. Ela correu para fora, as garras se destacando de suas patas grandes e pesadas o suficiente para esmagarem a garganta de Alethea. Ela esperou, esperou até que a mãe urso pudesse ser vista pelos dois jovens no fundo. Não poderia perder o momento certo. Seus olhos de barro se tornaram rubis, e ela inclinava o queixo para baixo até permanecer imóvel. A mãe urso fez menção de pular, a mandíbula aberta para arrancar pele e osso daquele tigre que machucava sua pequena filhote. Sua mente foi invadida de vez, e o rugido foi cortado no meio com um choro alto, seu cérebro latejando com imagens e sons que a mãe-urso não conseguia processar. Callie deu um passo hesitante a frente, sentindo seu peito apertado em ver o sofrimento da ursa. Ela logo não tinha controle de sua mente mais, e despencou inconsciente na terra. Alethea, então, deu alguns passos para trás, olhando para Donovan por cima do ombro. — Temos um acordo? O jovem ladrão engoliu em seco. Já sequer sabia se tinha opção de concordar ou não. Se sentiu aliviado de que não havia ninguém em casa, caso ele fosse cair morto em alguns minutos, não precisariam ver. Calliope manteve seus olhos na ursa, que não estava morta. — Temos um acordo — ele murmurou, assentindo. A bruxa se afastou da toca, respirando fundo. — Então me sigam. Donovan segurou seu pulso antes que ela fosse embora, confuso. — Não vai matar os ursos? Ela travou os olhos com os dele, sentindo-o encolher em sua ousadia quando os olhos da bruxa voltam a cor de barro. — Não sou sua empregada.
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