Capítulo IX - Os Caminhos Traçados

1335 Words
Callie já não queria mais ouvir a voz de Donovan. Ele tagarelava e tagarelava sobre as possibilidades do paradeiro da pedra que todos tanto procuram, chegando até a sugerir conclusões absurdas como “o dono desse dente engoliu”. Ela só queria poder esquecer as imagens que tinha visto lá embaixo, queria poder voltar para seu barco, onde era seguro. Não tinha sido a primeira vez que Calliope tinha visto cadáveres. Durante sua infância, houve um acidente que afetou dezenas de pessoas. Uma família de mercadores plantou cenouras em terreno envenenado, o que acabou matando todos os compradores do alimento no mesmo dia que o consumiram. Os corpos foram jogados em uma barca estacionada no cais, onde a pequena Callie estava com seu irmão. Ela se lembrava de como Elwin tinha ficado aliviadíssimo em não ter comprado aquelas cenouras, mas sim uma torta demasiado doce da padaria Marivaldi. — E agora estamos empacados. Não temos nada além desse dente — continuou Donovan, andando de um lado para o outro no convés. Callie estava deitada no banco, os olhos fechados como se pudesse dormir apesar dele falar tanto. Continuou quieta, deixando que ele conversasse consigo mesmo. — Eu acho que é possível o bicho ter engolido o Lítio. Parte do navio foi arrancada pra fora e não está lá embaixo. Ou seja… Donovan passou a mão pelo capuz com impaciência. Se esse fosse o caso, seria impossível recuperar a pedra. Ele foi distraído de seus pensamentos por um raio de luz embaçada vindo do horizonte. Se aproximando da beira do convés, ele apertou os olhos, na tentativa falhada de enxergar através da neblina. — Callie? — Por favor, me deixa pensar… — ela sussurrou, mas para variar ele não ouviu. — Callie, acho que tem gente vindo. Ela apoiou os cotovelos no banco, ainda sem entender porque aquilo seria um problema. — Não podemos ficar aqui, vão nos arrancar tudo que encontramos — Donovan continuou. — Você mesmo disse que só encontramos o dente. — Ainda é alguma coisa que podemos pelo menos tentar vender. Anda, precisamos sair daqui. Calliope percebeu o tom de seriedade do seu parceiro e se levantou em um pulo. De qualquer forma queria sair dali, a razão pouco lhe importava. Ambos entraram na cabine mais uma vez, Donovan puxando o binóculo para si. Não era possível enxergar qualquer coisa através da névoa, no entanto, a luz ficava cada vez mais intensa, anunciando a chegada de outro navio. — Voltar pro porto é um problema — disse Callie, puxando a alavanca do motor. — Já devem ter notado que esse navio desapareceu de lá, e acho que os donos não vão ficar assim tão felizes conosco só porque estamos devolvendo-o. Donovan se encostou na parede, deixando o dente desconhecido guardado dentro de uma das gavetas. — Eu ainda não tinha pensado nessa parte — ele admitiu. — Tem algum lugar em volta da cidade onde podemos atracar? — Sem sermos notados pelos guardas? Não. Ele passou as mãos pelos cabelos agora descobertos, puxando o ar entredentes, agoniado. Desceu a mão para o peito e encarou Callie de costas para ele, se concentrando em tirá-los dali primeiro. — Podemos… Parar o barco um pouco antes da cidade e nadar — ela sugeriu ao perceber o silêncio dele. — Não temos nenhuma outra opção? — Nada que me tenha vindo em mente no momento. Ele suspirou, encostando a cabeça na parede também. Callie lhe encarou por cima do ombro em busca de uma resposta, e ele assentiu. — Tudo bem. Vamos fazer isso. ~ Alethea e Gael caminhavam pelas ruas da cidade em direção ao santuário no topo da montanha. Eles não haviam trocado muitas palavras após o incidente com Kamahl, mas o jovem ferreiro não queria que fosse assim. Afinal, estariam juntos por um tempo, precisariam se entender. — Você mencionou mais cedo que já tem décadas de vida — disse ele, em um tom baixo e tímido, carregando sua mochila no ombro. — Quantos anos você tem? Alethea não dirigiu o olhar para ele, mantendo as mãos enfiadas no casaco para proteger do frio e da névoa. — Por quê? — Não posso saber? — Eu sou oito vezes mais velha que você — disse ela, alguns de seus anos mais marcantes passando como uma onda em seus pensamentos. Se lembrou o quão cansada estava de viver. — Oito vezes dezessete? Uh… — Que bom que não te pedi para se juntar a mim pelo seu cérebro — ela sussurrou. — Cento e trinta e seis. Gael arregalou os olhos, quase boquiaberto. — Caraca, isso é muito. Ela deu de ombros, apesar de pensar o mesmo. — Como ainda não ficou entediada? Com um suspiro em hesitação em responder perguntas tão pessoais, Alethea parou de andar, se virando para o jovem. — Eu tive muitas eras de vida que eu não vou compartilhar contigo, senão ficaremos mais cento e trinta e seis anos aqui. Gael assentiu, também de frente para ela. — Concordo, pode mesmo ser muita coisa. Então… O que você faz? Ela franziu a testa, removendo suas mãos dos bolsos e cruzando os braços. — Como assim? — Bom, ninguém aqui tem qualquer ideia do que a bruxa de Nyamie faz. Você acorda naquele santuário… E aí? Fazia um bom tempo que alguém já lhe tinha perguntado algo parecido. A maioria dos elfos temiam Alethea o suficiente para não lhe ousarem perguntar nada pessoal. Gael também parecia ter o mesmo medo, mas arriscava mesmo assim. Ela não estava acostumada em ter algum tipo de atenção positiva em si, como aquela curiosidade pura que ele tinha. — Depende todo dia. — Então, hoje. O que fez hoje, antes de me encontrar no seu terreno? Ela ficou em silêncio, considerando se deveria mesmo compartilhar aquilo. — Fui ao palácio de manhã, tinha deveres com a princesa Elinor. Gael também não estava muito acostumado em ouvir o nome da princesa assim tão livremente, uma figura quase mais adorada que os próprios deuses pelos elfos. Entre os humanos, não era assim tão grande coisa. Muitos já são céticos, ou perderam esperança na salvação divina. — Como ela é? — Disse Gael, retornando a andar. — De aparência? — Também — ele deu de ombros. Alethea virou seus olhos de barro em direção do seu santuário, manipulando seus próprios pensamentos para poder vê-lo apesar da névoa. — O que posso dizer… Ela se parece com a mãe. Loira, as orelhas longas, mimada. Ele lhe lançou um olhar surpreso por cima do ombro. — Mimada? — Como não podia ser? Ela foi colocada nesse mundo não pelo amor dos pais, mas pelo dever de salvar o mundo. Todos estiveram caídos nos pés dela desde então. Dão tudo a ela. — Ouvi dizer que ela é tão… perfeita. Humilde — ele explicou, abaixando o tom de voz ao passarem perto de outras pessoas na rua. — Nunca a conheceu? — Não. — Ela fez uma visita a cidade há alguns anos atrás, não foi ver? Gael riu constrangido, balançando a cabeça. — Não, na época eu m*l queria saber da realeza. Tinha ouvido meus amigos falarem tanto da visita que tomei raiva. Foi bobo, mas eu era jovem. — Você ainda é jovem. — Sim, ainda sou. Bom, eu era mais jovem. Ela assentiu, permanecendo em silêncio. — Você não parece gostar da princesa — ele comentou. Alethea inspirou profundamente, achando que as perguntas tinham acabado. — Fui eu quem disse ao rei e à rainha que Elinor precisava nascer. Que precisava existir uma princesa. Eu assisti aquela garota crescer, é mais uma história longa demais para eu te contar. — Você também treinou a magia do rei e da rainha? Ela parou de andar novamente. — Você faz perguntas demais — ele abaixou a cabeça. — Vou te dar uma dica, Gael. Se quiser sobreviver nesse mundo, fale menos e observe mais. As respostas sempre estarão na sua frente, você só precisa saber onde procurar.
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