Capítulo VII - A Ira de uma Raposa

2025 Words
A caminhada montanha abaixo foi silenciosa. Gael não tinha o que dizer para a bruxa, e não tinha certeza se queria ouvi-la falar de qualquer maneira. Ele tinha certeza, no entanto, que não poderia confiar nela. Entrar em parceria com ela já parecia uma ideia terrível, ainda mais para uma aventura com tanto potencial para o desastre. Alethea trocou o manto preto por um vestido simples, verde pastel na saia de cintura alta. A parte de cima era cor creme, com bordados que se estendiam até as mangas compridas. Por cima, colocou uma capa para cobrir seu pescoço e uma máscara. Ela manteve seus cabelos de cobre presos em um r**o baixo, cobertos pelo capuz. Ela olhou Gael de cima a baixo. Para um jovem, era muito alto. Já tinha noção de que era forte e pesado, porque carregá-lo para o santuário foi um desafio. No entanto, ela conseguiu encontrar dois ursos em seu bosque amaldiçoado para levá-lo, ainda sim pareceu ter sido difícil. Alethea se perguntou o que esse jovem ferreiro poderia fazer para mudar a história de Nyamie, considerando que os deuses lhe deram o sinal de que deveria salvar a vida dele. Por quê? Eles não respondiam. A comunicação sempre tinha sido assim, eles lhe davam um sinal e cabia à Alethea interpretá-lo e passar pelas consequências depois. “É assim que os deuses são”, ela ouviu uma vez de uma senhora no castelo real. Não havia questionamento nos deuses escondidos atrás das estrelas e da lua. Só se confiava neles. Ela estranhou ver a cidade de tão perto de novo. Não conseguia lembrar a última vez que tinha andado naquelas ruas como se merecesse estar ali. Muito havia mudado desde seus primeiros anos como bruxa. Os festivais da cidade, as cores, os aromas das padarias exalante pelas janelas abertas foram todos engolidos pela névoa, pela morte do dragão Aeter. Já não haviam grupos de jovens cantando em troca de moedas de prata nas esquinas. As pessoas andavam encapuzadas, silenciosas para não respirarem mais do que o necessário, mascaradas. Muitas casas estavam cobertas por mofo, as janelas seladas e cortinas fechadas. Os lampiões guiando o caminho pela estrada principal, que um dia fora tão iluminada pelos sorrisos dos habitantes. Alethea abaixou a cabeça, se recusando a olhar mais. Gael parou e se virou para a bruxa, a mão pousada na maçaneta da porta da ferraria. — Meu pai deve estar aqui dentro, ele provavelmente vai te encher de perguntas. Isso tende a ser um pouco… chato — ele avisou, hesitante em levá-la para dentro. — Eu tenho idade o suficiente para saber lidar com homens chatos — ela respondeu, observando-o desviar o olhar um tanto constrangido, assentindo. — Mas obrigada pelo aviso. Ele abriu a porta, e a voz do seu pai ecoou pela sala. — A placa de “estamos fechados” não é enfeite. Alethea abaixou o capuz, percorrendo os olhos pela casa. De certo mais confortável do que seu quarto no santuário, mas com uma energia tão viva quanto as ruas da cidade. — Sou eu, pai — disse ele, grunhindo baixo ao tirar o casaco. O efeito das ervas medicinais que Alethea lhe dera tinha durado pouco tempo. Kamahl saiu da forja, limpando as mãos manchadas em um pano. Ele travou o olhar no filho, apertando o tecido nas mãos. — Anakin passou por aqui. O tom de voz dele foi o suficiente para avisar Gael de que ele estava com problemas. A cada passo dele para frente, o jovem ferreiro se sentia como se fosse criança mais uma vez, encolhendo diante seu pai, que somente crescia em tamanho para machucá-lo mais uma vez. — Esse é o nome dele? — Interferiu Alethea, fazendo Kamahl notar sua presença. — Quem é você? — Ninguém importante. Estamos de passagem — disse ela, passando pelo dono da casa, abaixando sua máscara. — Pegue as suas coisas, Gael. Ele olhou para o seu pai, que não tirou os olhos da mulher. Gael não gostaria de ver o que aconteceria se seu pai perdesse a paciência. — Ele não vai em lugar nenhum — disse Kamahl, apontando a mão para Gael como um aviso. — Você é uma prostituta, é? Alethea parou na frente da lareira apagada, observando os jarros artesanais. Diversos detalhes cuidadosamente carvados no barro e porcelana, a pintura impecável. Ela virou os olhos para as mãos do ferreiro. — Não fez esses jarros, fez? Gael engoliu em seco, percebendo que ela se referia aos trabalhos de artesanato que sua mãe havia feito há muitos anos. — Afasta da lareira — o pai cuspiu, já largando o pano em cima da mesa. — Um brutamontes como você certamente não conseguiria fazer essas pétalas — disse ela, levantando os dedos para acariciar o jarro. Em uma questão de segundos, Kamahl já tinha avançado. Tinha a mão ao alto, fechada em um punho apertado, incapaz de acertar o soco. Alethea o encarava por cima do ombro, os olhos oscilando vermelho sangue. Ele tremeu, seu olhar perdido em algum lugar em sua mente, incapaz de falar ou se mexer. O estômago de Gael se esfriou em um instante. — Não machuca ele — ele pediu, com receio de se aproximar. Kamahl grunhiu, a mão tremendo no ar se abaixando. Ele se ajoelhava lentamente aos comandos da bruxa. — Para! — Não estou fazendo nada demais — disse Alethea, se virando de frente para o ferreiro lentamente. — Se você machucar meu pai, eu não vou em lugar nenhum com você — disse ele, finalmente engrossando a voz, tomando coragem. — Nós temos um acordo má- — Eu não quero saber da porcaria da magia. Se ele se machucar, eu não vou. A bruxa encarou o jovem por longos e cruéis segundos. Ele sequer conseguiu respirar. Os olhos de Alethea voltaram a cor de barro, e Kamahl despencou no chão de vez. — Pegue suas coisas, Gael — ela repetiu. — Não temos tempo a perder. Gael fixou seus olhos no seu pai, exalando em alívio ao perceber que seu peito ainda movia. — Ele está dormindo, só — disse a bruxa, revirando os olhos. — Não teríamos paz se não fosse assim. Ela se sentou em uma das poltronas, pousando as mãos delicadas no colo como se estivesse em um chá da tarde. — Escuta, Alethea — disse ele, desacostumado a dizer o nome dela com tanta casualidade. — Isso não vai funcionar se eu não puder confiar em você. — Eu deveria ter simplesmente aceitado o soco do seu pai, Gael? — Perguntou ela, cruzando as pernas. — Não, mas- — Só porque você não se defende não significa que eu tenha que fazer o mesmo. E eu não fiz nada demais, não precisa exagerar. — Não use seus poderes assim, vão descobrir sua identidade muito fácil. Ela deixou escapar um ligeiro sorriso surpreso, passando os dedos nus pela saia. — Quem diria que depois de décadas viva, um garoto de 17 anos iria me dar ordens sobre como usar meus poderes. — Não estou tentando dar ordens. É que… A gente precisa trabalhar junto. Precisamos poder tentar comunicar primeiro e depois… A sua magia. Alethea encostou a cabeça na poltrona, as luzes abraçando seu rosto angelical, pintando sua pele em um tom dourado. — Vou considerar enquanto você se prepara. ~ Mergulhar novamente foi uma péssima ideia, Callie pensou enquanto nadava para o navio afundado mais uma vez. Ela tentou não olhar por tempo demais para os cadáveres, tentou não se lembrar dos membros decepados enfiados na areia a poucos metros de distância. Tinha que lutar contra a vontade assoladora que lhe dissolvia o estômago de voltar para a superfície e sair dali. Todo aquele sangue ainda iria atrair tubarões, então não havia tempo a ser disperdiçado. Ela ficou grata de ter treinado a respiração tantas vezes desde criança com seu irmão. Eles gostavam de se enfiar embaixo da água para ver quem conseguia ficar por mais tempo, e ela sempre ganhava. Callie pegou a bússola mais uma vez, o ponteiro verde escuro apontando para todos os lados, indeciso. Ela se segurou em um dos varões empalados na areia para não boiar de volta à superfície, olhando em volta. Ela apertou o metal quando parou os olhos em um cadáver a encarando diretamente de volta. O elfo tinha a pele vermelha-clara, os olhos destacados do rosto, as orelhas pontudas para os lados. Atravessando seu corpo, enormes crateras que pareciam ter sido mordidas, a carne já podre dentro da água por tanto tempo. Em um dos buracos havia algo branquelo, como se fosse um osso. Callie apertou os olhos, percebendo que não era um osso, mas sim um dente. Seu peito apertou com a necessidade de respirar, e ela se impulsionou para cima, batendo as pernas até chegar novamente à superfície. Callie se sentou no convés com a ajuda de Donovan, sentindo a névoa lhe queimar os pulmões quando respirou fundo. — Encontrou alguma coisa? Callie passou a toalha pelo rosto, colocando a máscara de volta. — Tem tanta coisa pra todo lado lá embaixo. Nem sei o que poderia ser o Lítio. — Nada diferente? Ela deitou as costas na madeira, observando o céu embaçado. — Não sei, tinha uma pedra que parecia ser diferente e um dente… Gigante. Donovan ficou agitado, virando o rosto para a água. — Por que não trouxe os dois? — A pedra era só uma pedra, e eu não quero chegar assim tão perto do dente. — Lítio é uma pedra também, criatura. Traz pra cá — disse Donovan, apontando para a água. Callie apoiou os cotovelos no convés, alguns cachos ensopados caindo em seu rosto. — Não era Lítio, é uma pedra comum. — E você lá sabe como Lítio é? Traz a pedra e o dente. Ela se lembrou do cadáver alguns metros abaixo de si. m*l conseguia imaginar chegar perto o suficiente para puxar aquele dente para fora. — Não vim pra cá pra desistir assim — continuou Donovan, pressionando Callie para voltar para a água. Passando as mãos pelos olhos, ela assentiu, respirando fundo. Precisava cumprir sua promessa, já que prometeu ajudar durante aquela noite. Em poucos minutos, ela se jogou na água novamente, permitindo que seu corpo afundasse para perto dos destroços e corpos. Ela seguiu o caminho que sua memória traçou, encontrando novamente o coitado do elfo empalado no dente de uma criatura desconhecida. Callie travou a garganta, desejando poder voltar para seu barco no cais da cidade. Agarrou a mesma pedra que tinha mencionado para Donovan. Guardando a bússola na roupa, ela nadou até o elfo lentamente, como se temesse acordá-lo. Ele já não tinha pernas, o que fez Callie estremecer em imaginar o que teria partido ele ao meio daquele jeito. Os dedos tremendo, roxos com o frio, encostaram na base do dente maior do que a palma de sua mão. Ela puxou devagar, com dificuldade em manter a respiração presa. Callie puxou o dente e o corpo do elfo despencou em cima de si. Ela gritou, respirando água contra sua vontade, empurrando o cadáver para qualquer lado, contanto que não estivesse mais em cima dela. Então, os pulmões incomodados com a água salgada, ela empurrou os pés no chão, desesperadamente procurando oxigênio. Ao chegar na superfície, parecia estar tossindo as amígdalas para fora, a garganta arranhada, o sal ardente com a névoa. Ela jogou os itens no convés e Donovan ajudou puxando seus braços. Callie permaneceu deitada na madeira, engasgada, batendo a mão no peito como se fosse resultar em alguma coisa. Donovan deu alguns tapinhas em suas costas e olhou para os itens que ela trouxe, pegando a pedra e a examinando de perto. — É a porcaria do Lítio? — Ela cuspiu, apoiando as mãos dormentes na madeira fria. — É uma pedra comum — ele resmungou, jogando-a de lado. Callie bufou alto, se arrastando para a cabine. Donovan ignorou as reclamações dela, e então sua atenção desceu para o dente. Seus olhos brilharam com curiosidade e terror, imaginando a quem pertencia aquilo. Definitivamente algo maior do que um simples elfo.
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