Capítulo VI - A Ambição de um Ladrão

2342 Words
O frio já não incomodava Callie tanto quanto antes. Agora, ela só conseguia se concentrar em não pensar em sua mãe e Elwin encontrando o bilhete, ou em como poderia estar se metendo em uma grande fria. Donovan não tinha muito no que participar durante a viagem até o local, mas era inquieto demais para ficar deitado no sofá o tempo inteiro. Ele abriu todo armário e gaveta, perguntando para Callie o que cada pequena coisa era. Ela o respondeu com paciência, na maioria das vezes, mas agora era sua vez de perguntar. — Donovan, onde você conseguiu essas coordenadas? Don se sentou perto da janela, cruzando os braços. — Por quê? — Porque ninguém sabe exatamente onde o navio afundou. Ele levantou o queixo, perfeitamente ciente disso, um ligeiro sorriso orgulhoso em seus lábios. — Eu tenho minhas próprias habilidades. — Eu imagino que tenha, mas quero saber como conseguiu. Donovan percebeu que ela puxava de volta aquela mesma alavanca para desligar os motores e franziu a testa. m*l tinha dado conta do tempo passando e o local parecia tão ordinário. Nada além de água. Até mesmo a névoa era mais escassa ali. — Por quê? Callie levantou a máscara preta. — Porque eu achei um navio naufragado logo na nossa frente — disse ela, permitindo expressar sua felicidade através de um sorriso pequeno. Já ele parecia ter encontrado o ouro em si, os olhos brilhando com satisfação. — Me deixa ver — ele apontou para o binóculo embutido no navio, gentilmente colocando Callie para o lado para espreitar por si mesmo. — Como vamos achar uma pedra no meio de um navio tão grande? — Callie perguntou, removendo seus sapatos mais uma vez, se preparando para entrar na água. — Eu tenho isso resolvido também. — Como? Donovan afastou o rosto do binóculo, os olhos ainda brilhantes com entusiasmo. — Eu achava que seria maior — comentou ele. Calliope puxou o binóculo para si e franziu a testa. — Maior? É enorme, Donovan. — Não parece. Ela lentamente girou a lente em baixo da água e engoliu em seco. — É porque parte do navio foi arrancado e quebrado ao meio. — Caramba — ele murmurou, puxando a máscara para cima, saindo da cabine para o convés. — Cada um fica com uma parte? — perguntou Callie, o seguindo pelo navio. Ele desviou da pergunta, apoiando os braços no corrimão. — Aqui é surpreendentemente não tão fundo quanto eu esperava. Callie percorreu os olhos pelo oceano em volta, ou até o mais longe possível. No caminho para cá, ela percebeu diversas ondulações anormais na profundidade do mar, e o navio naufragado estava, convenientemente, em uma das montanhas de areia. Não sabia explicar porque, no entanto. Aquele tipo de formação não acontecia nas áreas de pesca ou em qualquer lugar que a família Suvniru iria de navio. — Se chegarmos um pouco mais pro lado, vai ser bem fundo — comentou Callie, puxando a âncora e as correntes. Donovan olhou por cima do ombro, se virando para sua nova parceira. Observou conforme a garota levantou a âncora sem dificuldades aparentes e arremessou-a na água. Resolveu ficar quieto no momento, considerando como deveria dar a notícia para ela. — Podemos começar agora — disse ela, garantindo que a corrente estava devidamente presa no navio. — Então — ele começou, até um pouco nervoso. Cruzou os braços na frente do corpo, desviando a atenção dela para a água. — Eu não pretendo entrar na água. Callie piscou algumas vezes, processando as palavras. — Você não sabe nadar? — Sei, mais ou menos, mas não é por isso. — Então é por quê? Ela pensava em coisas melhores para se dizer, ou em como se ela fosse Elwin, diria que ele estava se aproveitando demais da ajuda dela e fazendo pouco demais pela causa. — Não gosto de entrar no mar, o porque não vem ao caso. E é até melhor um de nós ficar aqui em cima caso qualquer coisa aconteça. Callie abriu a boca para argumentar, mas Donovan continuou. — Imagina se chega um tubarão. Aí seria muito conveniente se eu estiver aqui em cima pra jogar aquelas pedras verdes de mais cedo — disse ele, o sorriso sapeca atravessando qualquer máscara. — Faz sentido, mas… Não sei. Mergulhar em mar aberto requer muitas coisas que a gente não tem. — Tipo? Esse navio é de uma família rica, tenho certeza que eles têm o equipamento aqui em algum lugar. — Não é questão de equipamento — Callie puxou as mangas do casaco, cruzando os braços. — É questão de confiança. Donovan se calou por alguns segundos, considerando sua fala. Ele não tinha dado motivos para ela confiar nele, muito pelo contrário. — O que você acha que eu posso fazer? Por que eu te trouxe até aqui se não for pra trabalharmos juntos? — Eu sei disso, mas quem garante que se aparecer uma criatura enorme pra devorar nós dois, você não vai me abandonar na água? Donovan sorriu novamente. — Eu não sei pilotar o navio, Callie. Não iria conseguir fugir mesmo se quisesse. — Você ficou me assistindo pilotar — ela retrucou. Ele respirou fundo e entrou na cabine, puxando as chaves da ignição. Retornando para o convés, estendeu a mão para ela. — Ponha isso no seu colar. Não vou poder sair daqui sem você. Callie levou a mão até o pingente de jade em baixo do tecido. Ela sequer sabia que Donovan tinha visto o colar, e se perguntava se ele pretendia roubá-lo dela também. Pegou as chaves mesmo assim, se afastando do ladrão. De costas para ele, enroscou as chaves no colar, enfiando-o dentro da roupa novamente. — E pra ajudar na busca, temos isso aqui — ele levantou uma bússola que tirou do bolso. Era diferente de uma bússola ordinária. A prata em volta era grossa e antiga, que se desenroscava em uma argola no topo, para prendê-la em algum lugar. O ponteiro era verde escuro e permanecia parado, apontando para somente uma direção. — O que é isso? — Junto com as coordenadas que eu ro- que eu consegui, também achei essa pequena beldade que consegue captar minérios em volta. Deve ajudar a achar o Lítio — ele a entregou a bússola, que agora já se movimentava indecisa.  Callie respirou fundo, deixando a bússola em cima de algumas das caixas do convés. Ela se sentou, tirando seus sapatos mais uma vez. O cabelo ainda umido já estava preso em um coque, apesar de que alguns cachos não aceitavam ficar presos para trás. Então voltou para a cabine, abrindo a gaveta perto das camas, pegando os óculos de mergulho. Enganchou a bússola na roupa e se pôs de pé novamente, se aproximando da ponte. Não sabia porque estava tão nervosa, o estômago inquieto e frio, os dedos ligeiramente dormentes. — Se eu não voltar em cinco a dez minutos, você vai ter que entrar na água — disse ela, colocando os óculos apertados o suficiente para não entrar água. — Você vai voltar, não se preocupe. Callie retirou a máscara e sentiu a névoa congelante empregnando em sua pele, fazendo cada poro arder. Ela deixou seu casaco de lado junto com a máscara, já pulando na água para tomar coragem de uma vez. A água era mais fria do que perto da cidade. Os ossos de Callie se contorceram de dor, sua pele parecia ser espetada por milhares de agulhas mais finas que um fio de cabelo. Callie bateu as pernas, se aproximando do navio naufragado. Uma grande parte estava destruída, pedaços arrastando por uma longa trilha à esquerda. As janelas estavam quase todas quebradas, os fungos do mar começando a cobrir todo o metal. Um arrepio percorreu a espinha de Callie conforme ela se aproximava e a garganta apertou-se com a visão que teve a seguir. Diversos cadáveres de elfos espalhados pela areia e pelo navio naufragado, os olhos abertos e esbugalhados com terror, partes do corpo completamente amputadas, peitorais rasgados e mastigados. A areia estava escura com o sangue infiltrado, seguindo a mesma trilha para à esquerda que os destroços seguiam. O estômago de Callie revirou, e ela exalou todo o ar que tinha prendido em um grito de horror. Aquelas mãos mortas pareciam se esticar para ela, puxando-a para afundar-se com eles. Desesperadamente bateu as pernas mais uma vez, já perdendo o fôlego. Fixou seus olhos na luz que o navio onde Donovan estava emitia e usou toda a força do corpo para sair logo dali. Com um pulo para a superfície, Callie puxou o ar com força, agarrando as correntes do navio e se puxando para o convés. Ela arrancou os óculos de mergulho, se arrastando para o mais longe da ponte o possível. Donovan se assustou, também se afastando do corrimão, os olhos oscilando da água para a garota. — O que aconteceu?! Ela colocou as mãos na barriga, sentindo sua garganta travada. Não conseguia respirar, não conseguiria nem vomitar. — O que você viu? — Ele repetiu, se abaixando na frente dela. A névoa lhe sufocava, pressionava sua garganta como um elefante pisando em seu pescoço. Donovan escancarou a porta da cabine, puxando a garota pelos braços para lá dentro. Então, trancou os dois lá dentro, mais uma vez se abaixando em sua altura. — Estamos seguros aqui, tá tudo bem. Respira — disse ele, incerto se deveria encostar nela mais uma vez para tentar ajudar de qualquer forma que fosse. Ela agarrou o primeiro balde que viu pela frente e se inclinou, finalmente vomitando tudo que se revirava no seu estômago. Donovan torceu o nariz, se sentando no canto oposto da cabine, evitando encará-la para não a deixar mais desconfortável ainda. — Eu não posso voltar pra lá — ela conseguiu dizer, a voz quebrando. — O que aconteceu? Callie fechou os olhos cheios de lágrimas, sua garganta ardendo pela violência que tinha vomitado. Seus dedos tremiam e sua pele ainda estava arrepiada. Seja lá o que tinha acontecido com esses elfos, tinha sido terrivelmente brutal e nesse exato lugar. Precisavam sair dali. — A gente tem que sair daqui agora. — Não. Não podemos, ainda não conseguimos a pedra. — Eu não vou voltar pra lá! — Ela levantou a voz, arrancando a chave do colar, juntando forças para ficar de pé e cambalear até o painel de controle. Donovan a seguiu, segurando seu pulso antes que ela pudesse enfiar as chaves na ignição. — Não podemos sair daqui ainda, Calliope, então fala comigo. O que você viu? Ela puxou o braço de volta para si mesma e passou as mãos pelos olhos molhados de tanto a água salgada quanto as lágrimas. — Eu vi todos eles — ela choramingou, as palavras entaladas na garganta. — Toda a tripulação que foi atacada. Donovan engoliu em seco, virando o rosto para o oceano. — Nunca viu um cadáver antes? Callie tapou os olhos com as mãos, mas mesmo assim ainda conseguia ver aquela atrocidade logo abaixo dos dois. — Eu já vi cadáveres, Donovan. Isso é mais do que só gente morta — ela disse entredentes. — Eles foram… rasgados, mutilados- Ela não conseguiu continuar, já estava chorando. Conseguia sentir aquelas mãos geladas de um elfo subindo pelas suas costas, agarrando sua nuca e a puxando para o fundo d’água com eles. — Achei que os animais iriam comer eles todos… Ou então iriam se decompor. — O náufrago aconteceu há alguns dias, e elfos não se decompõem — disse ela, seus joelhos fraquejando. Ela se encostou na parede, as unhas roxas com o frio. — Eu quero ir pra casa agora — ela choramingou mais uma vez. Donovan passou as mãos pelos cabelos. Não tinha noção de que Calliope seria assim tão sensível, e agora precisava encontrar uma forma de fazê-la voltar para lá. — E o seu irmão? Ele se aproximou dela lentamente. — Seu irmão vai logo virar tão mortinho quanto eles se você não encontrar um jeito de curar a doença dele. É pra isso que estamos aqui. Callie balançou a cabeça, passando a mão para a garganta, sentindo as lágrimas escorrerem pelo seu rosto e pingarem no chão. Não fazia diferença, já que ela própria já estava encharcando o mármore fino. — Não me faz voltar pra lá — ela suplicou. — Pensa no seu irmão, Callie. Eles já estão mortos, não vão fazer nada com você. Os dois se encararam de novo, e Don hesitou. Lhe correu pela cabeça o que ele pensaria se sua irmã estivesse fazendo tudo aquilo por ele, e não lhe agradou nem um pouco. — Estamos mais perto do que qualquer um, Callie. Só precisamos ir pegar a pedra… E vamos ter tudo o que sempre quisermos. Você vai poder curar seu irmão e eu vou poder levar minha família pra fora daqui. Calliope pensou sobre Elwin. Era difícil para ele fazer coisas simples todos os dias, comer, se lavar. A doença lhe devorava por dentro a fora, ele não iria durar muito mais tempo. Não só isso, quanto seja lá o que corre nas veias dele atrai criaturas terríveis, o que resultou no incidente que causou a perca do pai da família. Detestava imaginar em perder sua mãe também pelo mesmo motivo. — Você só precisa mergulhar e usar a bússola. Eu estarei aqui contigo o tempo todo. Não era grande conforto, mas as palavras macias de Donovan manipulavam Callie para reconsiderar entrar na água novamente. Ela passou a mão pelo rosto, respirando fundo, seu coração ainda acelerado no peito. — Ninguém sabe onde o navio está sem ser a gente e de quem eu roubei as informações. Eles vão reencontrar as coordenadas e vir, Calliope, estamos muito perto de ganhar e perder ao mesmo tempo. Ela limpou as lágrimas e balançou as mãos, tentando não entrar em pânico mais uma vez. — Vai voltar? Callie abaixou a cabeça, segurando o pingente de jade com força. — Pelo Elwin. Pelo meu pai também, ela pensou.
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