Capítulo 38

1392 Words
Anna pegou Eva nos braços e a levou para a sala de jantar no andar térreo. A menina chorava desconsoladamente, assustada com os gritos do pai e com o movimento apressado de Anna ao pegá-la no colo. —Não chore, meu amor —sussurrou ela com doçura. —Seu pai está conversando com aquela senhora, mas logo virá buscá-la, eu prometo. Mas a angústia de Eva era muito grande, ela nunca tinha visto seu pai gritar, muito menos com tanta raiva. Anna descia lentamente as escadas, acariciando suavemente seus cabelos. Aos poucos, Eva foi se acalmando, suas lágrimas se transformaram em pequenos soluços até que finalmente ela apoiou sua cabecinha no ombro de Anna. A sala de jantar estava deserta àquela hora. O pessoal que fazia os turnos da noite quase nunca o utilizava, mas as luzes estavam sempre acesas e a máquina de café funcionando. Anna sentou-se com a menina em uma cadeira. Ela a embalava com o corpo e sussurrava em seu ouvido. Finalmente, Eva levantou um pouco a cabeça e Anna, suavemente, pegou um guardanapo da mesa para limpar seu rostinho cheio de lágrimas. Ela sorriu para ela para tranquilizá-la. —Você ficou com muito medo, não é? —perguntou Anna com ternura. —Sim —respondeu Eva, ainda com a voz um pouco trêmula. —Sinto muito, Eva —sussurrou Anna—. Você gostaria de comer alguma coisa? A menina balançou a cabeça negativamente. — Quando o papai vai chegar? — perguntou com os olhos arregalados. Anna a abraçou um pouco e deu um beijo em sua bochecha. — Seu pai vai descer daqui a pouco, não se preocupe. Enquanto esperamos, você gostaria de brincar um pouco? — sugeriu Anna, tentando soar animada. Eva olhou ao redor e viu uma pilha de papéis que estavam destinados à reciclagem. Ela apontou animada e exclamou: —Figuras de papel! —Que legal! Você sabe fazer figuras de papel? —Sim! Anna ficou aliviada; parecia que Eva estava voltando ao normal. —Que bom, porque sou especialista em fazer figuras —disse Anna, sorrindo. Anna pegou algumas folhas e elas se sentaram bem juntas para dar forma aos papéis. Eva observava fascinada como Anna dobrava os cantos com precisão e marcava as dobras com o dedo. Então, com suas mãozinhas, tentava imitá-la. Quando Owen desceu para buscá-la, elas já tinham feito uma quantidade considerável de pequenas figuras. —Pai, olha tudo o que criamos com a Anna! —gritou Eva com um sorriso radiante ao ver seu pai entrar na sala de jantar. Owen se aproximou delas lentamente, com os ombros caídos e o olhar perdido. Ele olhava, mas sua mente parecia estar a quilômetros de distância. O nervosismo inicial de Anna por saber que ele estava em seu escritório e que poderia vê-la se transformou em uma profunda tristeza. —Fiz um barquinho! —disse Eva entusiasmada quando ele se aproximou. Ela o ofereceu e Owen o pegou. —Que lindo, meu amor —respondeu ele, mas sua voz estava apagada. — Anna é incrível, fez muitas flores e pássaros — continuou Eva. Owen assentiu levemente, com o barquinho de papel nas mãos. Ele o olhou por um longo momento, seus dedos o giraram lentamente, estudando as dobras. — Obrigado, Anna — murmurou Owen, com a voz exausta. Anna sustentou seu olhar por alguns segundos, sentindo a tristeza apertar seu peito. Ela queria atravessar a distância entre eles, abraçá-lo, consolá-lo, como ele havia feito por ela. Eva, por outro lado, continuava entusiasmada. A pequena pegou uma das figuras de papel que haviam dobrado e a mostrou a Anna, orgulhosa. — Olha, Anna! Este é um cachorrinho, você gosta? Anna sorriu suavemente, olhando para a menina. — É lindo, Eva — sussurrou, sorrindo suavemente enquanto acariciava a cabeça da menina. Owen respirou fundo, como se algo dentro dele estivesse desmoronando completamente, e deixou o barco de papel sobre a mesa. — É melhor irmos embora — disse ele finalmente, voltando o olhar para Eva. — Já está ficando tarde, meu amor. Eva fez uma pequena careta de desapontamento, mas não protestou. Pegou a mão do pai e recolheu algumas de suas figuras de papel com a outra. —Podemos fazer mais amanhã? —perguntou ele, dirigindo-se a Anna. —Claro. —Boa noite, Anna —disse Owen, em voz baixa. —Boa noite —respondeu ela, tendo de se conter para não dizer mais nada. Ela o via caminhando de mãos dadas com a filha, sem se manter tão ereto como sempre. O sofrimento de Owen e de sua filha, uma menina tão doce e alegre, a doía. A dor de Owen estava incrustada em sua alma; ela a tinha visto em seus olhos. O pânico que se refletiu neles quando seus olhares se cruzaram antes de levarem Eva. Anna suspirou profundamente, esfregando as mãos nas calças de trabalho para afastar a tristeza. Ela sabia que precisava continuar com suas tarefas. Voltou para a porta e começou a subir as escadas. Ela tinha visto o conflito em Owen muitas vezes, a luta silenciosa contra os fantasmas do passado que continuavam a afundá-lo. Aquela noite que compartilharam foi o resultado dessas contradições que o atormentavam. Anna parou para descansar; uma certa decepção se instalou em seu coração. Ela não sabia quando o veria novamente. Owen pegou Eva nos braços assim que saíram da sala de jantar e se dirigiram para a saída do prédio. Mas antes de atravessá-la, ele olhou várias vezes para fora, temendo que Elena pudesse reaparecer. O peso de sua filha e seu perfume o trouxeram de volta à realidade; ele precisava se recompor, Eva não poderia sofrer novamente por causa de sua mãe e, se ele não se mantivesse firme, era isso que iria acontecer. Ele acomodou Eva em sua cadeira e eles partiram. —Papai, Anna me ensinou a fazer uma flor muito bonita —Eva contava alegremente enquanto Owen dirigia. —Que bom, querida. Você precisa fazer uma para mim —respondeu ele, tentando que sua voz não soasse tão distante. —Eu gosto da Anna —afirmou Eva com segurança. —Ela é bonita e tem um perfume que cheira a biscoitos —concluiu com um sorriso. Owen a observava pelo espelho retrovisor e acenava com a cabeça. De repente, lembrou-se por que tinha ficado com Eva: para vê-la. Se Elena não tivesse aparecido, Owen poderia ter passado mais tempo com Anna, talvez até olhado nos olhos dela e encontrado consolo em seu sorriso. Mas a sombra de Elena continuava manchando tudo. Ultimamente, Owen sentia todas as derrotas em dobro. Anna continuou com seu trabalho, mas de vez em quando ficava pensativa e balançava a cabeça; pelo menos tinha conseguido conter Eva. Seu rostinho todo concentrado tentando dobrar o papel como ela indicava para criar uma flor. Seu pai tinha lhe ensinado, mas ele usava o papel metálico que vem dentro das caixas de cigarro. Sempre que faziam uma flor dessas juntos, ele contava que teve que dobrar muitos desses papéis para que sua mãe aceitasse um encontro com ele. A alegria de Eva cada vez que conseguia fazer as pontas coincidirem e como seu dedinho passava várias vezes sobre o papel para marcá-lo. Ela pôde observá-la com atenção e percebeu que ela se parecia muito com sua mãe. Mas, ao contrário de Elena, seus olhos eram duas centelhas de felicidade. E ela também era muito perspicaz e entusiasmada, não desistia, mesmo que as figuras ficassem tortas. Entre todos os problemas e tristezas, Anna se viu sorrindo diante das imagens da pequena e doce Eva. Pena que seu pai tivesse que passar por aquela situação tão horrível. Ela pensou em como Owen devia se sentir solitário. Olhou ao seu redor, o andar silencioso, os escritórios escuros. Não era muito diferente de como estava agora seu apartamento; de como o encontrava quando chegava à noite. Antes, pelo menos, reconhecia a presença de Alex roncando na cama, os vestígios que demonstravam atividade no local: como os pratos sujos, a televisão ligada ou as roupas espalhadas por todos os cantos. Mas ali, entre as poltronas altas e as mesas, ele não se sentia tão gelado. Ele não queria pensar nas contas, nos seus problemas nem na tristeza de Owen. Então, colocou os fones de ouvido e terminou seu turno, como todos os dias, de segunda a sexta-feira.
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