Capítulo 37

1747 Words
Às cinco horas em ponto, enquanto os funcionários começavam a sair do prédio, Owen esperava sua filha na entrada. Assim que a menina desceu do carro de mãos dadas com a avó e o viu, correu em sua direção com a alegria de sempre. —Papai! —ela o cumprimentou, esticando os bracinhos para que Owen a pegasse no colo. —Oi, linda —ele respondeu enquanto a menina o abraçava pelo pescoço. —Obrigado por trazê-la, mamãe —disse ele, dando-lhe um beijo na bochecha. —Não foi nada, filho. Mas não fique até tarde —acrescentou ela, entregando-lhe a bolsa de Eva. Eles entraram no elevador, e Eva contava com detalhes cada desenho que havia feito com as aquarelas que sua avó lhe deu. O avô Dolfo, pai de Owen, a surpreendeu com uma linda boneca que ela carregava na bolsa. —Uma casa com blocos? —perguntou Owen, já no andar superior. —Sim, papai. Ela tinha uma janela rosa e eu coloquei os bichinhos do lado de fora... Eva era a única constante na vida de Owen. Com ela, ele podia ser ele mesmo: rir, correr pelo parque, deixar-se levar pelo entusiasmo e pela curiosidade da filha. Ao entrar em seu escritório, a pequena descobriu que seu pai a esperava com um delicioso lanche com todos os bolos que ela tanto gostava. Ele a acomodou no sofá e compartilharam juntos o chocolate e as sobremesas com creme. Owen Walker tinha muitos sucessos em seu currículo. Ele havia conquistado uma posição e ganhado o respeito do mercado, apesar de seu sobrenome. Ele se concentrou nisso após o divórcio para preencher o vazio e não parou mais. Desde a primeira vez que se sentou naquela poltrona, ele se convenceu de que era para isso que havia se preparado tanto e que estava pronto para alcançar seu objetivo. E ele conseguiu, superando todas as expectativas. Seu tio colocou sobre ele toda a responsabilidade e confiança: a Plaza & Milne, que havia começado há mais de dois séculos como uma pequena agência telegráfica, agora gerenciava comunicações, segurança, redes e sistemas, desenvolvimento de software e monitoramento de grandes conglomerados. No entanto, o maior orgulho de Owen estava sentado em seu colo, com a boca cheia de chocolate, enquanto lhe contava todas as suas aventuras. Eva, com seu riso contagiante e sua inocência transbordante, era a melhor coisa que lhe havia acontecido. Às oito horas, como todas as noites de segunda a sexta-feira, Anna apareceu por uma porta lateral, vestida com sua roupa de trabalho e um coque no cabelo, pronta para começar sua rotina. Ela parou por um momento ao fechar a porta e viu que as luzes de seu escritório estavam acesas. Seu coração disparou. Ela ficou nervosa, mas também animada. Sentia-se novamente como uma colegial que via de longe o garoto de quem gostava. Eva estava entretida colorindo quando ergueu os olhos ao ouvir um barulho vindo de fora. Owen também ouviu: Anna. Ele foi tomado por aquele sentimento estranho, mas doce, que ainda não conseguia decifrar. Ele não se atrevia a se levantar. Fazia muito tempo que Owen não hesitava. Ele queria vê-la. Esperou a tarde inteira para isso. Por isso pediu à mãe que trouxesse Eva, e por isso sentia formigamento nas solas dos pés desde que Bob saiu do escritório naquela manhã. Ele sorriu discretamente; depois de tanto esforço para se afastar dela, agora só queria olhar nos olhos dela. Ele faria isso, como Bob lhe dissera: “Deixe que ela o alcance”. A jovem não saíra de sua cabeça desde o momento em que a conhecera. Ele fugira dela, apenas para voltar, atraído por sua boca, seu corpo e seu aroma de jasmim. Ele queria mais. Ele se levantou, pronto para ir ao encontro dela. Mas, ao levantar os olhos, ficou paralisado. Sentiu náuseas, e a raiva começou a consumi-lo. No centro da sala, com o olhar fixo nele e um sorriso vazio, estava Elena. Do outro lado, Anna também a observava, confusa. Owen inclinou-se para a filha. — Eva, já volto. Não saia daqui, ouviu? — disse ele, com a voz tensa. —Sim, papai —respondeu ela, olhando para ele com estranheza. Owen fechou a porta com cuidado antes de se aproximar de Elena. Seu corpo rígido tentava manter a compostura, enquanto ela o observava com aquele sorriso cheio de ironia e desonestidade. —O que você está fazendo aqui? —perguntou ele, cerrando os dentes. —Vim buscá-lo. Meus advogados me informaram que você tem investido uma fortuna para impedir o processo. Você acha que pode me manter longe da minha filha com dinheiro? — ela respondeu com sarcasmo. — Ela não é sua filha! Vá embora! — sua voz de repente se transformou em um grito. — Você não sentiu nem um pouco minha falta? — ela perguntou, ajeitando o cabelo. — Vá embora, Elena. As coisas mudaram, e acredite, você não quer saber até que ponto — foi um aviso. — Eu já vi um pouco disso e, acredite, gostei. Ela estava usando novamente os velhos hábitos; aqueles com os quais o havia feito se apaixonar uma vez. Anna ouvia e observava tudo de lado. Ele a examinou novamente, com mais atenção: era uma mulher muito bonita e refinada. A porta do escritório se abriu e os três pares de olhos se voltaram para ela. Eva saiu e Anna automaticamente olhou para Owen: ele estava rígido e seu rosto demonstrava medo. —Pai... —Eva se aproximou do pai com um sorriso inocente, sem perceber a tensão. Ela olhou para Elena com curiosidade. —Filha, eu disse para você não sair... —Olá, Eva —cumprimentou Elena com um sorriso falso. A menina voltou a olhar para ela. —Olá —respondeu, confusa. Aquela senhora sabia o seu nome, mas ela não sabia quem ela era. —Você cresceu muito... Sabe quem eu sou? —Chega! —advertiu Owen. A voz do pai não era a voz doce que ela costumava ouvir todos os dias, e Eva se assustou. Ela deu um pequeno salto e seu rosto se transformou em uma expressão de angústia. —Você a assusta, Owen —disse Elena com sarcasmo. Anna sentiu o mesmo impulso que a levara a entrar naquela pista no hotel, onde, com uma mistura de coragem e medo, ela o tirou dos braços de Elena. Ela sabia que essa luta não era dela, mas não podia ficar de fora. Ela colocou as costas para Elena e olhou Owen nos olhos por um instante. Então, pegou a menina nos braços e correu para a porta pela qual entrava e saía todas as noites. — Ei! O que você está fazendo?! — gritou Elena. Antes que ela pudesse dar um passo, Owen a segurou pelo braço. Seus dedos afundaram na pele de Elena com força suficiente para fazê-la estremecer de dor. Ela se contorceu. — Você está me machucando, animal! — Não era isso que você gostava? Não foi por isso que você foi embora com Thomas? — perguntou ele, aproximando o rosto dela, seu tom era baixo e cínico. Com Eva fora, Owen podia demonstrar todo o ódio que sentia por Elena. Ao levá-la embora, Anna lhe devolveu a oportunidade de contra-atacar. Ele a arrastou alguns metros até seu escritório e fechou a porta. Mas Elena já havia se recuperado; a reação de Owen, suas palavras e sua agressividade indicavam que, mais uma vez, ela era o centro das atenções. —Eu não sabia que você tinha esse lado, Owen —disse Elena, irônica. —Vá embora. Não vou permitir que você fale com Eva. Não vou deixar você visitá-la nem se aproximar da minha filha. —Eu sou a mãe! —Não, você não é! Você a abandonou para ficar com seu amante! A mãe dela está morta! —gritou ele. —Você disse isso a ela? — perguntou Elena, levantando uma sobrancelha. Cada palavra, movimento e gesto de seu rosto eram uma piada. Com ela, ele sempre fora terno, doce, compreensivo, chato; esse outro era violento, arrogante, e isso a incitava. Ela precisava saber o quanto ele havia mudado. —Não seja rancoroso, Owen. Já se passaram muitos anos... Eu me arrependi de tantas coisas, você não percebe? —sua voz era lastimosa. —Você é uma piada. Acha que vai me convencer assim? — ele respondeu, olhando para ela de cima a baixo com desdém — Você está certa, muitos anos se passaram e mais ainda se passarão — ele deu alguns passos em sua direção e abaixou um pouco a cabeça para olhá-la diretamente nos olhos — Desta vez você não vai conseguir nada, não tente testar meus limites — sua voz m*l conseguia conter a fúria. Era uma ameaça. O corpo de Elena tremeu todo. —Mas passamos um momento mágico na noite da festa. Dançamos juntos... — Ela o olhou com os olhos cheios de eletricidade, mordendo os lábios vermelhos. — Fui cumprimentá-lo, não era isso que você queria? Você fez um circo só para mim, já não se divertiu o suficiente? — Owen falava tentando soar sarcástico, mas aos poucos sua determinação estava se diluindo. Exatamente como naquela noite, o polo magnético de Elena começava a atraí-lo. O calor que sentia em suas mãos não era físico; eram as cicatrizes invisíveis que aquele amor havia deixado em sua pele, queimaduras que nunca haviam cicatrizado completamente. Elena sempre teve a habilidade de lê-lo. Embora Owen aparentasse arrogância e determinação, suas p************s não conseguiam esconder o que ela já sabia: por dentro, ele continuava sendo o mesmo. Ela teve uma sensação de triunfo. Ela iria dificultar as coisas para ele, e isso era o que ela mais desejava: a batalha. Ela percebeu que, com mais algumas frases e alguns movimentos, Owen não resistiria por muito tempo. Mas a ideia de descobrir todo o poder que teria que usar para colocar o rei em xeque era mais forte. —Entendo. Bem, sinto ter incomodado você. Achei que poderíamos conversar como nos velhos tempos —disse Elena, fingindo pena—. Vou embora, então... Boa noite, Owen. Ela fechou a porta atrás de si e caminhou até os elevadores, sorrindo satisfeita. Owen teve que se apoiar na mesa. Cada vez que a via, parte de sua energia era drenada de seu corpo. Ele passou a mão pelo rosto e suspirou derrotado. Se não conseguisse manter distância daquela mulher, voltaria a se apaixonar por ela.
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