Capítulo 36

1215 Words
Para Elena, aquela noite tinha acabado por ser agridoce. Ela conseguiu que ele aparecesse, até levou uma jovem para disfarçar sua solidão, ele voltou a cair por ela e esteve prestes a transformá-la em cinzas. E ela deixou escapar a oportunidade. Naquela mesma segunda-feira de manhã, Elena acordou em seu apartamento no centro da cidade com uma satisfação parcial. Levantou-se da cama e caminhou até ficar em frente à enorme janela com vista para a cidade. Cruzou os braços e pensou nele: Owen podia parecer diferente por fora, mas por dentro continuava sendo o mesmo homem vulnerável de sempre. Um sorriso malicioso se formou em seus lábios. Levou apenas alguns minutos para afastá-lo da garota e atraí-lo para sua atmosfera. Ela se lembrou de como ele caminhou em sua direção querendo demonstrar segurança, e como seus olhos refletiam todo aquele medo. O sorriso de Elena se ampliou. “Ela realmente tem algo com ele?”, ela se perguntou, pensando em Anna. Seu ego se inflou só de imaginar que aquela garota não chegava nem perto do seu nível. A juventude que ela tinha na pele não era nada comparada à experiência que ela carregava. Seus olhos grandes e transparentes não representavam concorrência para sua boca experiente. Pequenas lembranças do tempo que ela havia vivido ao lado dele passaram por sua mente: as férias em Bali e como, enquanto centenas de mulheres bonitas, em pequenos biquínis, passeavam na frente deles, Owen só olhava para ela. A satisfação de vê-lo reagir ao seu ciúme, quando em alguma reunião ou festa, ela flertava descaradamente com todos aqueles homens que se aproximavam dela. Ou o desespero com que ele corria para satisfazer o seu capricho mais insignificante. Ela nunca entendeu o amor que ele sentia por ela. Não era a sua beleza que o prendia a ela, era o sentimento. Ela nunca parou para pensar que seu comportamento poderia magoá-lo, nem que seu “desespero” era, na verdade, um prazer pessoal por poder dar a Elena algo que ela queria e fazê-la feliz. Recuperá-lo não era uma questão de amor ou necessidade, mas de poder. Não era o homem que ela procurava, mas a vitória. Uma ligação a tirou de seus pensamentos. —Lamento informar, Sra. Olivier, que Walker tem mais contatos do que prevíamos. O próprio procurador-geral está envolvido... —Petersson tentava se explicar, apreensivo. Owen estava cobrando grandes favores a torto e a direito, sem poupar esforços. Durante sua ascensão ao topo, muitos haviam passado por ele com algum pedido ou necessidade. E embora ele não fosse um homem que se valia de conhecidos para acumular poder, sabia que era parte de seu trabalho “ajudá-los”. Ele não estava errado. Ele lhes havia fornecido aquela informação ou escondido outra, e agora eles retribuíam a gentileza com zelo. — Não se preocupe. Apenas insista com tudo o que tiver, incomode-o, faça-o correr. Eu cuidarei disso pessoalmente — respondeu Elena, segura e confiante. Ela sabia qual era a única fraqueza de Owen: Eva. Por sua filha, ele seria capaz de incendiar o próprio inferno se fosse necessário, e ela contava com isso. Ela a usaria como uma ferramenta para conseguir o que queria: dobrar a vontade do pai. A menina não tinha sido a prioridade para ele quando discutiram o divórcio? “Não vou entregá-la, vou quebrar seu pescoço se for preciso”, ela o ouvira dizer a Bob enquanto esperava seus advogados. Eva tinha sido mais um elemento para Elena, mais uma coisa a que se agarrar para conseguir o que queria. Quando percebeu o vínculo que ele tinha criado com a pequena, sentiu-se deslocada; já não era o centro das atenções de Owen. Isso aumentou a sua indiferença em relação a Eva. Mesmo sendo um pedaço dela, mesmo que as dores do parto tivessem sido insuportáveis, para Elena não tinha significado grande coisa. Tudo o que ela lembrava do nascimento da filha era a cara i****a de Owen, a adoração e a devoção instantâneas a que ele se entregou quando a enfermeira a colocou em seus braços. Ele nunca tinha olhado para ela assim. Eva seria o peão que colocaria o rei em xeque. —Preciso de um favor, Sr. Petersson. —Diga. —Mande alguém segui-lo. Quero saber onde ele está e a que horas, com quem fala, quem se aproxima dele, o que está fazendo. E também quero que me informem sobre minha filha. Nada drástico, nem chamativo, é claro, apenas que os vejam de longe. —Senhora... —Petersson começou a hesitar. Não era um pedido incomum, eles faziam isso com frequência em seu escritório, mas se tratava de Owen Walker. —Não se preocupe com os custos —Elena se apressou em esclarecer. —Você sabe que não há limites e, claro, considerarei isso um favor “pessoal”. Assim, ela garantia ao advogado que ele estaria ganhando uma aliada com influência e muito dinheiro. Petersson não era bobo. —Muito bem, cuidaremos do seu pedido —disse ele, soando profissional. O que Owen buscava tão desesperadamente, Elena tinha por natureza. Estava implícito em seu ser: a desconexão emocional. Ela não se importava em causar dor, pena ou tristeza; tudo girava em torno de sua satisfação pessoal. Poder, conforto, dinheiro, luxo. Culpa e remorso não faziam parte do seu vocabulário. A vida era mais interessante e emocionante quando ela tinha um objetivo a alcançar; quando o desafio era tão grande que despertava dentro dela aquela necessidade de pisotear tudo ao seu redor e alimentar seu ego. A única coisa que ela tinha em comum com seu ex-marido era que ambos carregavam um ser sombrio dentro de si. O de Owen era marcado pela raiva e o de Elena, pelo hedonismo. Separar-se dele, de sua filha; a morte de Thomas, nada mudou seu apetite, nada parecia tocar seu coração. Pessoas fracas se prendiam aos seus erros, mas ela era diferente: seguia em frente sem olhar para trás. Após o telefonema do advogado, Elena foi para o seu closet. Escolheu cuidadosamente as roupas, os acessórios, os sapatos. O seu dia começava com o reflexo que o espelho lhe devolvia. Ela sempre cuidava dos detalhes, sabia que a sua aparência era a sua melhor carta. Havia algo mais em jogo. Talvez não fosse apenas poder, mas a ideia de que, depois de tudo o que havia acontecido entre eles, Owen continuava suscetível à sua manipulação. No fundo, o fato de ele ainda não conseguir escapar de sua sombra lhe dava a confirmação de que precisava: ela não era substituível, não para ele. Ela saiu para a cidade com o corpo cheio de orgulho e excitação. Estava convencida de que nada a abalaria, sua segurança e confiança eram tão fortes quanto seu ego. O charme de Owen havia aumentado com os anos, aparentemente a dor o havia transformado: agora ele exalava mais masculinidade, mais autoridade. E tinha muito mais dinheiro. Ela esperava o carro na porta do prédio quando teve a visão daquele olhar duro, cinzento e perigoso. Uma contração apertou seu ventre. Não era desejo, embora ela soubesse que poderia despertá-lo novamente nele. Era a emoção de imaginá-lo totalmente entregue, ofegante, suando e se derretendo debaixo dela. Essa era a arma mais poderosa que ela usava para manipular os homens.
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