Bob chegou naquela segunda-feira ao último andar do escritório como sempre fazia: levantando a voz para cumprimentar, fazendo gestos efusivos com as mãos e sorrindo. Greta, como sempre, o recebeu com sua habitual parcimônia.
—Bom dia, Greta. Owen está aí dentro? —perguntou ele, apontando para a porta.
—Sim, o Sr. Walker já está trabalhando —respondeu a mulher, com um tom quase militar.
Conversar com ela fazia-o sentir-se de volta à escola religiosa que frequentara quando criança.
Ele bateu e entrou sem esperar resposta. Owen estava, de fato, trabalhando. Ele ergueu os olhos dos papéis que estava lendo.
— Amigo! Como você está? — cumprimentou-o, sentando-se em uma das poltronas.
— Olá, Bob.
— Então... — disse ele, apoiando as mãos na mesa, sem conseguir esperar. — Quanto você pagou a ela? — perguntou, levantando uma sobrancelha. — A quem?
— À Anna, Owen! — respondeu ele, como se estivesse a gozar com ele.
— Ela não quis o dinheiro.
Bob prendeu a respiração por alguns instantes, os seus olhos arregalaram-se e inclinou-se para a frente, ficando na ponta da cadeira. Não conseguia acreditar no que estava a ouvir.
“Ela não quis?!”, quase gritou Bob.
“Não”, respondeu Owen, sereno.
“Oh, meu Deus!”, Bob levou a mão à cabeça.
“Por que diabos você está fazendo tanto barulho?”, perguntou ele, irritado.
“Você sabe o que isso significa? Você sabe?”
— Não significa nada — Owen descartou.
— Nada?! Ha! — ele agitava o dedo, apontando para ele. — Nada?
Bob tinha a mesma idade que Owen. Eles compartilhavam a mesma origem social e econômica; estudaram juntos durante todo o ensino médio e depois foram para a mesma universidade. E eram diametralmente opostos.
Owen costumava observá-lo atentamente em algumas ocasiões e se perguntar o que havia de errado com a cabeça do seu amigo. Bob era elegante e tinha boa aparência, sua posição na empresa tinha sido conquistada com mérito; mas ele tinha essa tendência à exageração e à efusividade que costumava ser insuportável.
E quando achava que estava certo, era ainda pior.
— Às vezes, não sei como te suporto — disse Owen, passando a mão pela testa.
— Eu estou certo — afirmou Bob, sem dúvida.
— Sobre o quê?
— Sobre o fato de que existem mulheres lá fora que você não pode comprar. Mulheres reais, que não são como Elena nem como suas secretárias — disse ele solenemente.
Owen apenas olhou para ele com sua expressão de cansaço, que já era uma marca registrada.
— Então... você a levou para casa? — ele quis saber mais.
— Sim, levei Anna para casa.
— E? — perguntou ele, curioso, alongando a palavra.
— E o quê?
— Você não sabe como é difícil conversar com você — disse ele, irritado.
— Eu concordo. Por que você não pergunta logo o que realmente quer saber e me deixa trabalhar em paz? — respondeu Owen, agitando a caneta que tinha na mão.
Bob respirou fundo e disparou.
— Ele olhou para você a noite toda como se fosse um Adônis, tirou você das garras daquela bruxa, sorriu delicadamente para você e se comportou com você como uma deusa. Você a levou para casa, e o que aconteceu? E não venha me dizer que nada, porque eu não vou acreditar em você! — ele se apressou em esclarecer.
—Eu a levei para casa... e não aconteceu nada —respondeu ele, enfatizando a última palavra.
—Você é um i****a —disse ela com voz oca.
—Você pode me deixar em paz agora?
—Você não vai confessar... Tudo bem! Não confesse —disse ele, ofendido, enquanto se levantava.
Ao se aproximar da porta, lembrou-se do verdadeiro motivo de sua visita.
—Ah! —ele se virou. —Falei com o cara do RH, na próxima semana chega sua nova “secretária”. —informou.
—Não preciso de ninguém novo. —disse Owen.
Bob o observou surpreso. Ele não precisava de ninguém? Sua mente correu tentando processar o que Owen acabara de dizer. Até que encontrou a resposta e ficou desesperado.
—Espere aí! —exclamou. —Você não precisa de uma nova secretária? —perguntou enquanto voltava da porta. —Isso significa que: ou você está dormindo com a Greta, ou conheceu alguém, ou... vai se tornar monge.
Owen não respondeu; ele estava contando os segundos antes da explosão.
— Pelo amor de Deus, Owen! Você conheceu alguém! — gritou ele, cobrindo a boca com a mão. — OH, MEU DEUS! Quem é? — questionou ele.
— Eu não conheci ninguém... só aconteceu uma vez... — Owen começou a explicar.
— E você quer que continue acontecendo — afirmou Bob, convencido.
— A verdade é que sim: quero que continue acontecendo. Eu não esperava que acontecesse, mas aconteceu. Não sei o que ela tem... — confessou, hesitante.
— Quem é ela? — perguntou novamente, com curiosidade genuína. Fazia muito tempo que não via seu amigo tão relaxado.
— Anna. — Owen finalmente admitiu.
Bob estava prestes a explodir de emoção, mas se conteve para que Owen não parasse.
—Eu a levei para casa, sim, mas não foi nesse momento que aconteceu. Voltei mais tarde para insistir com o dinheiro, mas ela recusou. Ela fez isso de uma maneira que não consigo explicar. Então, simplesmente... aconteceu. Saí pela manhã e ela me perguntou se eu queria repetir — admitiu, olhando para o amigo e sentindo-se indefeso. — Quero sentir isso de novo, Bob.
Ele esperou quatro longos e tortuosos anos para ouvi-lo dizer exatamente isso. Esteve ao seu lado quando sua mão tremeu ao assinar os papéis do divórcio e se alegrou como se fosse sua própria libertação. Agora, ele experimentava uma sensação semelhante.
— Faça isso, Owen. Deixe acontecer, deixe que ela te alcance — implorou.
— É só dormir juntos... — Owen tentou se justificar.
— Não importa. É a primeira mulher com quem você tem algo, alguém que você não contratou. É um grande avanço. Permita-se sentir novamente, você não acha que já sacrificou demais no altar pagão de Elena? Mesmo que não vá além disso, você pode compartilhar coisas com Anna. E você sabe que essas coisas você não encontrará no seu apartamento às 9 horas. —Bob queria convencê-lo a baixar um pouco a guarda.
Owen recostou-se na poltrona, soltando um longo suspiro.
—Senti uma paz que não experimentava há muito tempo. Não sei por que... ela me surpreendeu.
—Ela é muito bonita.
—Sim, mas há algo mais. Anna não teve medo... Não se envergonhou do que sentia —disse ele, olhando Bob nos olhos. Ele mesmo continuava tentando processar as emoções que a garota havia causado em seu interior.
Os olhos de Bob estavam tão iluminados que conseguiram arrancar um pequeno sorriso dele. Às vezes, ele ainda parecia uma criança.
— Bom, amigo, então descubra o que foi que te surpreendeu. — Bob estava tão animado que não conseguia esconder isso em sua voz.
No entanto, a dúvida resistia às tentativas de Owen de se livrar dela. Ele virou a cabeça para a janela.
— Você foi embora de manhã? — perguntou de repente, como se tivesse acabado de perceber o que Owen acabara de lhe contar. — Espere! Ele não demonstrou medo? Medo de quê? — agora ele estava confuso.
Owen apenas olhou para ele pelo canto do olho. Aparentemente, suas secretárias não tinham dado detalhes ao amigo sobre seus “encontros”. Ele ficou um pouco incomodado: ninguém sabia a natureza da entidade que carregava dentro de si.
— Não, não, isso não importa... O que importa é: quando você vai vê-la de novo? — perguntou Bob, ansioso.
— Não sei... Acho que qualquer dia, ela trabalha aqui, lembra?
— É verdade! Fique aqui esta noite! Espere por ela.
— Não, tenho que voltar para Eva — disse Owen, minimizando a importância.
— Vamos lá! Eu cuido de Eva — ofereceu-se.
— Esqueça — respondeu Owen, firme.
—Sua desconfiança dói. —Bob tinha uma expressão de desilusão nos lábios, mas não conseguia disfarçar o sorriso.
No entanto, a ideia de vê-la novamente se fixou em sua mente... e no estômago.
Quando Bob saiu do escritório, quase dançando, pegou o telefone e ligou para sua mãe.
—Olá, mãe. Você pode ir buscar a Eva no jardim de infância? Não, preciso que você fique com ela por algumas horas e a traga para a empresa... Será só por um tempinho, voltaremos para casa antes da hora do jantar,
tenho algumas coisas para fazer...