Capítulo 34

1284 Words
Owen acordou com o som insistente de um telefone que não parava de receber mensagens. Ele abriu os olhos irritado e aborrecido. Por um momento, não conseguiu reconhecer onde estava; aquele teto não era o do seu quarto. Ele voltou à realidade quando o aroma de café e perfume de jasmim entrou pelo seu nariz: Anna. Instintivamente, ele olhou para o lado, mas ela não estava com ele na cama. A manhã já estava avançada; o sol entrava pela janela e, ao tentar cobrir os olhos, ele viu suas roupas sobre a cadeira de balanço de madeira. Saiu do quarto descalço, vestindo apenas calças e camisa, e a viu: sentada perto da janela com uma xícara na mão. — Bom dia — disse Anna com um sorriso. — Bom dia... — Quer um café? Acabei de fazer — ofereceu ela, levantando um pouco a xícara. — Eu vou buscá-lo — respondeu Owen. Desde seu divórcio de Elena, essa era a situação mais estranha em que ele se encontrava. Owen estava confuso desde que cruzou a porta da casa de Anna na noite anterior. Ele sabia que essa era sua realidade, não um mundo paralelo ou uma dimensão desconhecida; no entanto, parecia irreal. A cozinha não era muito diferente dos outros cômodos. Sobre o fogão, a cafeteira francesa exalava o aroma de café fresco e, sobre a mesa, havia uma xícara amarela. Ele voltou para se sentar à frente dela. Anna estava esperando a despedida desde que acordou. Vê-lo ao seu lado, dormindo placidamente e confortável, fez com que duas emoções se encontrassem dentro dela. Por um lado, a alegria quase juvenil de poder observar um homem atraente que havia escolhido lhe dar algumas horas de prazer e, por outro, a certeza de que, assim como havia chegado, ele iria embora. Ela levantou-se da cama com cuidado e foi preparar o café. Ela se sentia diferente consigo mesma, algo havia mudado durante a noite. Mas ela não conseguia precisar o que era. Apenas aquela sensação de que seu peito se expandia além de seus limites lhe dizia que as coisas seriam diferentes. Talvez fosse apenas um resquício da sensação de plenitude que a invadiu quando Owen a segurou em seus braços. Anna continuava sentindo essa plenitude enquanto tomavam café em silêncio. Até que Owen o quebrou. —Sinto muito por ontem à noite —disse ele, pensativo, como se estivesse falando consigo mesmo. Anna não respondeu. Ele se arrependeu de ter dormido com ela? Homens como ele não se interessam por mulheres como ela. Tinha sido apenas um lapso impulsionado pela necessidade e nada mais. Ele percebeu o significado das palavras dela e se apressou em explicar. —Não, não me arrependo do que fizemos, Anna. Lamento ter aparecido aqui assim: de repente e exigindo... — ele inclinou um pouco o corpo em direção a ela. —Ontem à noite eu não estava me sentindo bem — justificou-se. —Não importa — respondeu Anna, balançando a cabeça negativamente. —Entendo que não deve ter sido fácil para você. Vê-la novamente depois de tudo o que aconteceu deve ter sido muito doloroso para você. Vê-la novamente? Ela sabia? —Você sabe sobre Elena? —ele perguntou, surpreso. — Lali me contou algumas coisas... — confessou Anna, um pouco envergonhada. Owen recostou-se na cadeira e soltou um suspiro. Lali nunca sabia quando ficar calada. — Acho que devo parecer um i****a para você... — Não — ela assegurou, firme — Não vejo você assim. A dor é muito difícil de suportar, é muito difícil superá-la — disse ela com um sorriso triste. Ela também conhecia a dor e sabia que os processos para superá-la nem sempre são rápidos. — Cada pessoa tem um caminho diferente a percorrer para poder deixá-la para trás e lida com isso da melhor maneira possível. Não te vejo como um i****a — ela assegurou mais uma vez. — Foi uma piada de mau gosto: contratá-la para me acompanhar, para você se vestir de gala e fingir na frente da Elena e não deixá-la se regozijar com seu jogo — Owen respondeu com uma expressão estranha no rosto. O homem à sua frente era um paradoxo: poderoso e imponente, mas também vulnerável e ferido. Anna podia adivinhar a mistura de emoções contraditórias dentro dele; quase podia ouvir o som de cada uma delas se entrelaçando em um emaranhado. A pena inicial que sentira ao saber de sua situação se transformara em empatia. Sua própria mistura era igualmente caótica. — Não me arrependo de ter aceitado. Nunca tinha estado em um lugar assim, nem usado roupas tão elegantes, embora tenha ficado nervosa a noite toda — disse ela, sorrindo um pouco mais, querendo aliviar o clima — Seu amigo foi muito simpático... até engraçado. — Bob é um palhaço — ela esboçou um sorriso ao se lembrar do amigo. — Ele foi gentil. — Ele estava certo: você me salvou ontem à noite — disse Owen de repente. Ele voltou a se perguntar o que havia naquela garota que provocava tantas coisas nele: desejo incontrolável, paz e calma, mas também confusão. Ele não sentia vergonha de se confessar assim para Anna, por alguma razão sabia que ela não o julgaria. Também não sentia aquelas barreiras que ele mesmo erguia e que o protegiam de ser magoado. —Obrigado por secar minhas roupas —disse Owen, desviando a conversa. Ele já havia admitido mais do que queria e temia continuar falando. Anna sorria, sem dizer nada. O tempo havia retomado seu curso e ele sairia pela porta. Nos momentos que restavam, ela desejava continuar imersa em todas aquelas sensações especiais e esquecidas que Owen fez ressurgir. No entanto, a bolha estourou com o som de uma chamada. Owen apressou-se em atender. —Olá, meu amor. Como você está? Sim, passarei aí daqui a pouco... Que bom, querida; pediremos à vovó para fazer mais para você, então... O tom de sua voz, a doçura e como sua postura relaxava: era Eva. Anna ficou comovida. Owen tinha muitas facetas, e ela descobriu que gostava de todas elas: o chefe sério e rigoroso; o homem ferido que se escondia, o de ontem à noite cheio de paixão e este outro, o pai amoroso. Eva era sua única conexão verdadeira com a humanidade. “Que amor tão bonito”, pensou Anna enquanto o ouvia. — Bem, preciso ir — disse ele, levantando-se. Deixou a xícara sobre a mesinha e procurou seus sapatos. Ela também se levantou. Ela o observou ajeitar o paletó e apalpar os bolsos para se certificar de que não havia esquecido nada. Quando ele estava pronto, virou-se para olhá-la. Anna aproximou-se e, à medida que o fazia, uma pequena angústia crescia em sua garganta. Essa angústia a fez falar. — O que aconteceu ontem à noite... — começou ela, olhando para o chão. — Não sei o que você pensa ou se gostaria, mas... eu gostaria de repetir isso algum dia. — concluiu, olhando nos olhos dele. O desequilíbrio de Owen foi físico. Repetir? Não, claro que não. —Sim, quero repetir —respondeu ele, abrindo bem os olhos, surpreso com suas próprias palavras. O enorme sorriso de Anna desequilibrou seu coração. Ele se dirigiu lentamente para a porta, mas antes de abri-la, virou-se, segurou o rosto de Anna com as duas mãos e lhe deu um beijo profundo, longo e cheio de gratidão. Ele simplesmente saiu, deixando-a ali parada, atordoada e emocionada. Ela precisava estudar; os livros a esperavam sobre a mesa, mas ela não conseguiu abrir nenhum. Sentia um nó no estômago e uma leve vibração que percorria seu corpo da cabeça aos pés, e carregou essas duas sensações consigo o dia todo.
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