Capítulo 33

1061 Words
Tentando acalmar a respiração e o coração, os dois permaneceram abraçados. De vez em quando, Anna soltava suspiros curtos e satisfeitos na pele do pescoço de Owen. A leve brisa quente lhe causava cócegas. Para Owen, a calma após a tempestade parecia diferente. Não era a mera satisfação do desejo e das urgências acalmadas; o corpo quente que ainda segurava entre os braços lhe dava um vislumbre daquela paz que uma vez sentira após compartilhar um contato carregado de emoções. Anna voltava a sentir que era muito mais do que uma figura que passava pela vida sendo invisível. O homem elegante e poderoso, com olhos tristes e alguns cabelos brancos, a trouxera de volta daquele esquecimento em que estivera perdida por tantos anos. Ela só queria prolongar um pouco mais essa sensação. — Fique comigo — ela pediu, com o rosto escondido e a voz em um sussurro. Owen fechou os olhos. A pele macia e corada que ele tocava lentamente com os dedos e o leve aroma de jasmim que emanava de Anna estavam fazendo com que ele caísse em um sonho. Sua mente havia parado de funcionar como sempre fazia quando ele a tocou pela primeira vez. Ele a abraçou com força. Ela interpretou esse movimento como um “sim” e sorriu. Ela se incorporou um pouco e procurou seus olhos. Owen observou atônito a beleza daquele rosto que lhe sorria feliz. Não eram os olhos grandes, o nariz pequeno, a boca sensual ou o cabelo emoldurando tudo isso. Era outro tipo de beleza: aquela que aparece quando o coração se sente cheio. — Se quiser, pode usar o chuveiro — ofereceu Anna, um pouco tímida. Ele apenas acenou com a cabeça, continuando a olhar para ela surpreso. Quando Anna se levantou, ele sentiu a perda do peso dela sobre si. Ele pegou a mão dela e se levantou. Simplesmente se deixou levar até a porta do banheiro e não disse nada enquanto ela mostrava onde estavam as toalhas. A água lavou os vestígios do encontro, mas também levou a amargura com que ele havia entrado no apartamento. Ele apoiou a testa nos azulejos e suspirou. m*l moveu a cabeça em direção à porta; lá atrás estava aquela garota que acariciava o dorso de seu monstro como quem busca acalmar o temperamento agressivo de um animal selvagem. E aquele animal selvagem se deixou acariciar, abaixou a cabeça e buscou mais. Ela não teve medo de que o instinto da b***a a traísse e mordesse sua mão. Ele saiu do banheiro com uma toalha na cintura e a encontrou na sala pendurando seu terno e camisa perto do radiador. Nua, era isso que ele havia adivinhado sob o vestido enquanto a observava no elevador. Finalmente, ela arrumou os sapatos ao lado do aparelho e se virou. Ele sorriu para ela novamente. — Não tenho nada para te emprestar que você possa vestir — disse Anna. — Não importa — sua voz voltou a ser a sua. — Mas vou colocar outro cobertor... — disse ele, enquanto passava por ela e se dirigia para o quarto. Owen não pôde fazer nada além de segui-la. O quarto também era minúsculo. Ele olhou para a cama e viu Anna colocando um cobertor branco sobre ela. “Era ali que ela dormia com aquele vagabundo”, pensou. O tempo parecia passar mais devagar. Por um momento, ele acreditou que poderia apenas observá-la para sempre e permanecer dentro daquela bolha estranha, mas tranquila, em que se encontrava. Até que ela desapareceu pela porta do banheiro. Owen parou para observar o velho despertador laranja sobre a mesa de cabeceira, as fotografias nas paredes e a cadeira de balanço de madeira que parecia ter vindo de outra época. Assim como o resto do apartamento, ele estava limpo, arrumado e perfumado. Ele já estava na cama quando ela voltou. Ela vestia outro moletom grande. Ele apenas levantou os cobertores e Anna se apressou em se enfiar debaixo deles. Ele ousou ser indulgente com suas emoções e se aproximou do corpo de Owen, buscando seu calor. Ele simplesmente a abraçou, também se permitindo sentir novamente depois de tanto tempo. A garota o desconcertava, mas também o fascinava. Ele não queria deixar escapar as sensações que ela lhe provocava. Lá fora, a chuva continuava, mas com menos violência. Owen olhou pela janela e percebeu que dentro dele também chovia, mas com Anna em seus braços, o aguaceiro havia se transformado em uma fina garoa. Que magia ela tinha para tirar sua raiva, para diminuir sua tempestade interna? Era inegável que algo havia mudado. Em seus encontros das 9 horas, ele deixava a raiva transbordar entre os lençóis, mas sempre a levava consigo ao cruzar a porta; nunca conseguia se livrar dela. Agora ele não a tinha mais, ela havia se desprendido de sua pele. Anna a descolou. Ela apoiou a cabeça no peito dele, perto do coração, e percebia como ele se movia ao ritmo de sua respiração e como os ecos repercutiam dentro dele. Quanto tempo havia se passado desde a última vez que ela se sentira tão segura? Era a primeira vez em muito tempo que ela não estava sozinha diante de todos os elementos, lutando para respirar. Mas, no fundo, ela sabia que o que estava vivendo seria passageiro. Um homem como Owen só procuraria satisfazer suas necessidades com alguém como ela. De qualquer forma, ela não se importava, iria guardar aquela noite como um tesouro; todos os beijos, todas as carícias, até mesmo as mordidas e os apertos agressivos. Ela adormeceu com um pequeno sorriso no rosto, como se tivesse encontrado um refúgio de calma. Owen adormeceu quando a paz que o cercava o venceu. Uma paz momentânea, sim, mas capaz de alterar tudo o que ele havia sido e tudo em que havia acreditado. O destino que havia desviado seu caminho agora lhe mostrava um novo caminho. Era um caminho estreito e cheio de pedras, que só ele poderia trilhar. A questão era se ele estava disposto a trilhá-lo. Existem almas tão feridas e cegas pela própria dor que, assim como cavalos com antolhos, não conseguem ver ao seu redor. Também existem almas tão feridas que, em vez de se deixarem prender pela dor e, assim como cavalos sem rédeas, relincham, saltam, sacodem-se e correm a toda velocidade com o vento nos crines.
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