Nova Perspectiva
Sejam bem vindas novamente e boa leitura.
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Ás 8h00min reunião com os investidores das Empresas Fischer. Às 09h30min conferência com os investidores do Japão. 14h30min temos uma reunião com o Conselho, pauta: Inovações no Mercado Hospitalar. Agenda repassada, tudo ok.
Às 7h30min daquela manhã chuvosa de quinta-feira, Juliette seguia para o seu trabalho na empresa de gestão de serviços hospitalares mais renomada do Rio De Janeiro, a Andrade's Corporation.
Repassava sua agenda do dia anotada em seu Tablet, sentada no banco traseiro do Civic preto guiado pelo motorista particular da dona da empresa.
- Arcrebiano, por favor, vá mais depressa. Tenho uma reunião em 30 minutos.
- Sim, Senhorita Freire.
Arcrebiano m*l teve tempo de acelerar o carro e em seguida parou num congestionamento.
- O que houve, Arcrebiano ?
- Está tudo parado, senhorita. Não sei o motivo. Provavelmente seja por causa da chuva.
- Ah nãoo! Não podemos parar.
- Me desculpe, senhorita. Temos que esperar.
Juliette olhava impaciente para o seu relógio no pulso esquerdo. Observava ao redor tentando encontrar uma brecha, mas a chuva caía fortemente. Olhou para um dos lados da rua quando avistou uma caixa de papelão se movimentando na calçada. Intrigada, ela observou atenta, quando viu orelhinhas se moverem dentro da caixa.
Deu um salto no assento e abriu a janela do carro. Foi quando se deu conta de que eram filhotinhos de gato abandonados.
Num rompante ela abriu a porta do carro, para desespero do motorista.
- Senhorita, aonde vai? A via já foi liberada, devemos partir! – Arcrebiano gritou em vão.
Juliette correu até a calçada e rapidamente retirou seu blazer cinza e pôs sobre a caixa, abrigando então os filhotes.
Quando percebeu a movimentação de carros e buzinas protestando pelo seu carro parado, correu para dentro do veículo com a caixa nos braços.
- O que houve, senhorita? – Ele tinha os olhos arregalados.
- São gatinhos, Arcrebiano. Como alguém tem coragem de abandonar os bichinhos assim, ainda mais nessa chuva?! Que absurdo!
Juliette olhava consternada para os filhotes enquanto Arcrebiano olhava incrédulo e confuso para ela.
***
"Não, eu não estou interessada em publicações de jornais para o marketing... Não senhora, a nossa empresa trabalha com fins lucrativos, queremos visibilidade nas redes sociais... Sim, eu sei que podemos ajudar, mas não o faremos. Temos um evento todos os anos que pode ser publicado aí, mas é apenas isso. Se a senhora tiver interesse em participar, inscreva a sua instituição em nosso site. Passar bem"
- Eu não acredito que me passaram essa ligação!
Sem largar o telefone ela apertou o botão de chamada para sua secretária.
- Senhorita Thaís, por favor, não transfira mais esse tipo de ligações para mim. O setor de Relações Publicas está aqui para isso. Esteja avisada!
- Sarah! – a porta da sala se abriu num rompante.
– Sarah, por que você autorizou o contrato com aquela empresa mercenária dos Estados Unidos? – um homem moreno, bem apessoado e muito alterado entrou com papéis em mãos.
- Porque é o meu trabalho Fiuk. É o que eu faço aqui. Eu autorizo, desautorizo, aprovo e desaprovo. Simplificando, eu mando aqui. – ela permanecia calma, sentada em sua confortável poltrona o observando com desdém.
- Sarah, você não pode tomar esse tipo de decisão sem a aprovação do Conselho! Você não é a única dona dessa empresa!
- Fiuk, eu não sou a única dona, mas sou a Diretora Executiva e maior acionista. Os contratos já estavam validados, não havia por que cancelar.
- Não havia por quê?! Sarah, esses mercenários cancelaram o contrato com a nossa empresa por motivos torpes e assinaram com a nossa maior concorrente! Isso é motivo suficiente para cancelar toda e qualquer contrato com essa empresa.
- Fiuk Andrade, não seja ridículo! O tempo e dinheiro que gastaríamos com o cancelamento e possíveis multas eu passei aprovando a gestão de pessoas maravilhosas carregando a nossa marca estampada.
- A mídia do Rio todo já sabe dessa história. O que todos esperam é que não nos empenhemos nesse último contrato. Mas faremos o contrário. Será nosso melhor contrato, Fiuk! Toda a mídia está em cima de nós por conta dessa "briga". – ela disse fazendo aspas no ar.
– O marketing gratuito que ganharemos com as especulações não pode ser desperdiçado.
- Sabe o que me irrita, Sarah? O fato de você tomar decisões, achar que pode mandar e desmandar quando bem entende.
- Eu sou o seu irmão e também o dono de parte disso tudo aqui, não se esqueça disso. Não se esqueça disso!
Da mesma forma que entrou ele saiu, batendo a porta com força. Já Sarah permanecia sentada tranquilamente em sua poltrona, do mesmo jeito que esteve durante toda a conversa.
***
Arcrebiano abriu a porta de entrada com um guarda chuva na mão, tentando proteger Juliette e a caixa de gatos a qual ela segurava.
Os gatinhos miavam dentro da caixa coberta pelo blazer. Todos no saguão observavam a cena com estranheza.
- Bom dia, Kerline – disse Juliette, colocando a caixa em cima do balcão na recepção.
- Bom dia, Senhorita Freire.
- Kerline, por favor, ligue para o Centro de Zoonoses e para uma Instituição de adoção de animais abandonados. – disse mostrando a caixa de papelão em sua frente.
– Peça para buscarem estes gatinhos. Diga que foram encontrados a algumas quadras daqui e que podem ser colocados para adoção, caso seja possível.
- Sim, senhorita. – Kerline disse espantada com o barulho que os gatos faziam dentro da caixa.
Juliette retirou seu blazer da caixa e deu mais uma olhada com ternura para os gatinhos. Estavam encharcados pela chuva, assim como ela.
Em seguida saiu em direção ao elevador sendo observada por alguns que passavam por ali.
Parou no último andar olhando para o seu relógio.
- Droga! Faltam dois minutos para a reunião e eu estou encharcada!
Saiu apressada até a sala de sua chefe e mais uma vez notou que todos a observavam, alguns pareciam até achar graça.
"Mas o que é que...?" – pensou.
Adentrou o grande hall de entrada para a sala onde trabalhava e cumprimentou a secretária que também parecia espantada.
- Bom dia, Thaís.
- Bom dia Senhorita, Freire. – ela respondeu sem tirar os olhos da moça que passou apressadamente.
- Com licença. – disse adentrando a sala – Bom dia, Sarah.
- Bom dia, J...
Sarah interrompeu sua fala quando olhou para Juliette.
- Minha nossa! O que houve com você, Juliette?
- Essa chuva me pegou de surpresa – disse sem jeito.
- Mas como? – levantou-se de sua cadeira e caminhou até a outra – O Arcrebiano não foi te buscar?
- Sim, ele foi. Mas houve um imprevisto no caminho e eu acabei me molhando. Mas não se preocupe, eu já vou ligar para...
- Não temos tempo, – Juliette foi interrompida – a reunião já deve começar e eu preciso de você ao meu lado, Juliette. Precisa se secar.
Sarah foi até a porta e pediu toalhas à sua secretária, em caráter de urgência.
Quando voltou-se para Juliette a observou por alguns segundos e soltou um sorriso sutil.
- O que foi? Por que está rindo? – Juliette perguntou sem jeito e um pouco irritada.
– Desde que eu cheguei todos estão rindo, tem algo de errado comigo? Qual o problema afinal?
Antes que pudesse obter resposta a secretária adentrou a sala com as toalhas.
- Com licença. Aqui estão as toalhas, senhorita.
- Obrigada, Thaís. – Juliette agradeceu.
Juliette começou a se enxugar sendo observada por Sarah.
- Juliette... – Perguntou a chefe.
- Sim?
- Você tem malhado ultimamente?
- Eu? – disse surpresa – Não. Já malhei, mas hoje só tento me cuidar. Não tenho tempo para malhar, você me consome todo o tempo.
Ao olhar para Sarah percebeu que sua chefe, apesar do sorriso nos lábios, tinha uma sobrancelha arqueada em sinal de confusão.
- Digo, – disse sem jeito – você consome todo o meu tempo, não você, o trabalho. Quer dizer...
- Sim, eu já entendi, Juliette. – disse sorrindo – Agora vamos, você precisa se apressar. Tire essa blusa, está muito molhada.
Juliette arregalou os olhos ao ver que a chefe também tirava seu paletó.
- Tome o meu blazer. Vai servir para lhe aquecer e tapar o que você já mostrou demais por hoje.
Só então Juliette percebeu que a blusa branca encharcada ficou transparente e colada ao seu corpo.
Todos na empresa, desde o saguão até a sua sala no último andar haviam visto o belo corpo que a morena tinha.
A moça ruborizou sob o olhar intenso de Sarah. E mais ainda ao se despir, desabotoando botão por botão na frente de sua chefe, que a observava atentamente e com humor no olhar.
Após se vestir e prender os cabelos molhados, as duas partiram apressadas para a sala de reuniões.
***
- Senhor Fischer, não vejo por que alterar o contrato de fornecimento uma vez que temos atendido todas as exigências nele contidas e há reciprocidade no cumprimento do mesmo. – disse Sarah.
- Senhorita Andrade, com as novas tarifas e tributos alterados recentemente vejo a necessidade de fazer essas alterações para atendê-los melhor e para que possamos manter a qualidade de nossos serviços.
- Não vejo por que acatar essa solicitação. Estamos dando voltas e mais voltas e o senhor não me convenceu de que essas mudanças sejam realmente necessárias.
- Senhorita Andrade...
- Senhor Fischer, – Juliette interrompeu – mudanças no contrato são possíveis apenas a partir de um ano, no mínimo, ou a partir do vencimento do mesmo. Isso em caso de renovação. As cláusulas são bem claras quanto a isso.
- O senhor deveria ter colocado essas possíveis necessidades em pauta quando o contrato foi assinado. Não vejo por que aceitar, tendo em vista que não será relevante para nós, apenas para o senhor e a sua empresa. Eu sugiro que se atente melhor aos seus negócios porque nós estamos atentos aos nossos.
- Bem, se isso é tudo, agradeço aos senhores. – Sarah sorriu satisfeita e se levantou.
- Eu não sabia que a senhorita deixa decisões importantes nas mãos de funcionários – Fischer disse se levantando.
Sarah abriu um belo e irônico sorriso.
- Senhor Fischer, – disse ela – as decisões relacionadas à minha empresa são minhas. A relevância dessa decisão a qual o senhor se refere não se aplica a mim e à minha empresa.
- Mas respondendo à sua pergunta, o trabalho da Senhorita Freire é muito relevante aqui, não é a toa que ela é a minha assistente executiva e advogada. Ela justamente faz o trabalho que é paga para fazer, que é tomar conta e analisar as minhas decisões para que eu não cometa nenhum erro e não solicite futuras modificações nos contratos firmados com meus fornecedores. Agora se me permite...
As moças por fim deixaram a sala com a mesma classe que entraram.
***
- Temos meia hora antes da conferência, Juliette. – disse Sarah.
- Sim, as apresentações já estão preparadas. Você as recebeu por e-mail ontem à noite? – Juliette disse enquanto ajeitava o monitor direcionando à tela de apresentações.
- Sim. E por sinal era tarde da noite. Por que anda trabalhando até essa hora?
- Não era tão tarde e eu precisava enviá-las para que você pudesse se preparar.
- Era tarde para você estar trabalhando, Juliette.
Juliette a observou por uns instantes como quem quisesse protestar, mas achou mais prudente não culpar sua chefe pelo excesso de trabalho.
De repente a porta da sala de conferências foi aberta rapidamente e sem cerimônias.
- Senhorita Andrade, perdão. – disse a secretária em tom de aflição – Temos um probleminha no saguão.
- O que houve, Thaís? – Perguntou Sarah.
- Senhorita Freire, houve um acidente com aquela encomenda que a senhorita deixou na recepção hoje de manhã. – disse tentando disfarçar sua preocupação.
Juliette arregalou os olhos e caminhou até Thaís.
- Problema? Que problema, Thaís? – disse quase num sussurro.
- Acho melhor a senhorita me acompanhar, por favor.
Juliette saiu apressada atrás da secretária e logo foi seguida por Sarah.
Desceram no elevador aflitas enquanto Sarah mantinha seu olhar intrigado sobre as duas.
Poucos passos fora do elevador e as três pararam observando perplexas a imagem à frente.
- Ai Meu Deus! – Juliette tinha os olhos arregalados.
- Mas o que significa isso? – Sarah parecia indignada.
Juliette pôs as mãos sobre a boca sem conseguir dizer uma palavra. Tudo que se ouvia eram miados de gatos.
Todos espalhados pelo saguão, correndo de um lado para o outro, tropeçando entre os móveis e algumas pessoas que passavam pelo local.
Kerline estava ao telefone tentando desesperadamente contatar o centro de Zoonoses.
- Thaís, o que aconteceu aqui? Será que pode me explicar? – Sarah perguntou exasperada.
Thaís olhou receosa para Juliette.
- Me parece que a Kerline estava com uma caixa com esses gatinhos na recepção, Senhorita Andrade.
Sarah partiu em direção à bancada da recepção a passos largos.
Kerline que tinha o telefone na orelha a olhou quase em desespero.
- Kerline! Pode me explicar o que está acontecendo aqui?
Antes que pudesse se explicar Juliette interveio.
- Sarah, a culpa é toda minha.
- O que? – disse desacreditando – Explique-se, Juliette !
- Bem, é uma longa história. Deixe-me resolver esse problema primeiro.
- Você tem quinze minutos. – disse olhando para o relógio em seu braço enquanto retornava ao elevador.
Juliette pediu para que Kerline ligasse imediatamente para o Centro de Zoonoses enquanto ela mesma corria atrás dos gatinhos saltitantes na tentativa de levá-los de volta à caixa.
Após resgatar seis dos sete gatos, sob os olhares curiosos dos que passavam por ali, Juliette já sentia o suor escorrer por suas costas.
- Onde será que foi parar o último? – disse a si mesma enquanto observava ao redor do saguão.
Ouviu miados vindos de um vaso ao lado de uma das poltronas que decoravam o salão.
- Aí está você! – disse olhando para dentro do vaso.
Ao colocar o braço para resgatar o bichano ouviu um miado forte, sentiu as patinhas do gatinho agarrarem seu pulso e os dentinhos cravarem em sua mão.
- Ai! – deu um grito abafado retirando sua mão depressa.
Assustou-se ao ver o sangue escorrendo pela ferida, mas ao ouvir o gatinho miar novamente pôs as mãos dentro do vaso e capturou o bichinho.
- Gatinho mau! – Exclamou o segurando de frente para o seu rosto.
Após resgatar todos os gatos e ter certeza de que os agentes do centro de zoonoses estavam a caminho, Juliette foi até o banheiro, onde lavou os ferimentos e tapou com um curativo adesivo e correu para a sala de reuniões onde aconteceria a conferência.
- Até que enfim! – Sarah a aguardava impaciente.
- Me desculpe, tive uns imprevistos.
- Outra hora você me explica esses imprevistos, agora temos uma reunião para iniciar.
A conferência seguia amena enquanto Sarah debatia com os investidores j*******s com o auxílio do tradutor que a interpretava do outro lado da tela. Juliette tomava nota em seu notebook do que era falado e vez ou outra movimentava seus dedos da mão direita demonstrando desconforto.
Foi quando Sarah percebeu o curativo na palma de sua mão encharcado de sangue. Ela arregalou os olhos e fez sinal para Juliette que assustou-se ao perceber.
Sarah tratou de terminar a conferência o mais rápido que pôde, se desculpando por deixar alguns assuntos pendentes, alegando um imprevisto urgente.
- Eu agradeço a compreensão dos senhores. – disse Sarah sob o olhar espantado e curioso de Juliette.
– Realmente é um imprevisto muito urgente. Assim que possível marcarei outra conferência para resolvermos as pendências. Tenham um bom dia.
Finalizou desligando o monitor.
- Juliette, o que foi isso na sua mão? – disse caminhando até ela e segurando sua mão machucada.
- Não foi nada, Sarah. – a morena disse sem jeito, puxando a mão de volta – Um dos gatinhos me mordeu.
- O que? E você só me diz isso agora? Você deveria ter ido à um hospital, Juliette!
- Não foi tão grave assim, não precisa se preocupar.
- Sua mão está encharcada de sangue! – disse apontando para o sangue que já escorria pelos seus dedos.
Juliette olhou assustada.
- Venha – disse segurando a morena pelo braço – Nós vamos até um hospital, já!
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- Prontinho. – disse o enfermeiro que atendeu Juliette, segurando sua mão já remediada e enfaixada.
– Agora tome mais cuidado com os gatinhos que a senhorita brinca. Alguns gatos são inofensivos e fazem até um carinho, só precisa escolher direitinho com quem brincar.
O enfermeiro olhava fixamente para Juliette, que por sua vez tinha os olhos semicerrados em confusão.
Ao observar a cena, Sarah, que estava de pé logo atrás com os braços cruzados, revirou os olhos desacreditando no que acabava de ouvir.
- Ok então! – disse em um tom suavemente grosseiro – Se o senhor já terminou...
Segurou no braço de Juliette a ajudando a descer da maca.
- Senhorita Juliette, se precisar de algo ou se você se sentir m*l pode me ligar. – estendeu a mão entregando a receita que prescrevia os remédios que Juliette precisaria tomar – A qualquer hora do dia ou da noite, sempre que precisar.
Sarah o fitou com uma sobrancelha arqueada enquanto Juliette lhe deu um meio sorriso pegando a receita.
- Obrigada. – disse observando o verso da receita onde havia escrito um número de celular.
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- Eu não acredito que aquele enfermeiro estava dando em cima de você – disse Sarah quando já estavam dentro do carro.
- O que? – Juliette arregalou os olhos – Não... Dando em cima de mim?
- Ele estava te comendo com os olhos, Juliette!
- Ele só estava sendo gentil, Sarah.
- Gentil? – soltou uma risada sarcástica – Quando aquilo for gentileza eu volto a ser... – parou de falar de repente e olhou para Juliette que a esperava terminar sua fala
– Enfim, – pigarreou – aquele enfermeiro não é um profissional. Antiético. Flertando com pacientes no local de trabalho, francamente. Aquele homem não tem o mínimo de respeito.
Juliette sorria achando graça do tom indignado de Sarah. E assim que abriu a boca para protestar foi interrompida.
- Arcrebiano, por favor, vá para o condomínio da Senhorita Freire.
- Sim, Senhorita Andrade – disse o motorista olhando pelo retrovisor.
- Para minha casa?
- Sim. Você não trabalha mais por hoje.
- Sarah, nós teremos a reunião com o Conselho hoje à tarde. Não posso ir para casa.
- Eu sei lidar com o Conselho, Juliette. Você está de atestado médico, não pode trabalhar nessas condições.
- Eu estou ótima, Sarah! Foi só uma mordida de um gatinho, um filhote!
- Não discuta comigo. Tenho certeza que o senhor enfermeiro concordaria comigo, até viria cuidar de você pessoalmente se fosse possível – disse com ironia.
- Sarah...
- Está decidido! Isso é uma ordem, eu sou sua chefe e estou dispensando você por hoje. E não discuta comigo, você sabe que eu odeio que me contrariem.
O resto do caminho até a casa de Juliette foi silencioso.
- Arcrebiano, – disse Sarah enquanto o motorista abria a sua porta – vá até a farmácia e compre os remédios que a Senhorita Freire precisa.
- Não é necessário, Arcrebiano, obrigada. Eu mesma posso ir até lá comprá-los. – disse olhando de forma desafiadora para Sarah.
- Juliette... – Sarah a repreendeu demonstrando impaciência.
Juliette, que ainda tinha a receita em mãos, a fitava sem desviar os olhos.
- Ok... – respirou fundo – Arcrebiano. – Sarah disse acenando a cabeça na direção de Juliette.
Arcrebiano foi até ela com cautela e a observou do alto. A diferença de altura entre os dois era bem relevante, o seu grande corpo acentuava mais a diferença.
- Senhorita Freire, me desculpe. – disse olhando para baixo – Com licença. – tomou a receita de suas mãos.
Juliette não se atreveu a protestar. Observou o homem de cabelos escuros entrar no carro e partir, e logo se atentou para Sarah que a fitava com seriedade.
- Nós não estamos na empresa e aqui você não é minha chefe, só para te lembrar – Juliette disse entrando pela porta de sua casa sendo seguida por Sarah.
- Sim, eu sei.
- Quer beber algo?
- Não, obrigada. Você devia descansar um pouco.
- Eu estou bem. Sente-se, fique a vontade. Não estamos na empresa, mas sinta-se em casa. – Juliette disse dando as costas para a loira.
Foi em direção à área de serviço retirando o blazer que havia pegado emprestado com sua chefe e o depositou na máquina de lavar.
Sarah, que estava sentada no sofá mexendo em seu celular, observou um vulto passar em direção à cozinha e ficou surpresa ao ver Juliette apenas de sutiã. Ouviu o barulho de uma garrafa em contato com um copo e partiu para a cozinha.
Ao chegar à porta da cozinha parou surpresa com a cena que via. Juliette estava recostada à beira da pia apoiando-se com a mão enfaixada, a outra mão segurava uma taça com o vinho da garrafa que estava ao seu lado.
Ela tinha a cabeça baixa enquanto parecia relaxar com aquele momento. Sarah não conseguiu se pronunciar por alguns instantes. Observava cada detalhe de Juliette.
A bela curva de sua cintura, seus s***s envoltos do sutiã vermelho rendado, suas pernas torneadas apertando a sua saia, desceu os olhos até seus pés naquele sapato preto de salto, um deles apoiado na porta do armário abaixo da pia.
"Nossa!". – pensou.
Ao perceber que estava sendo observada, Juliette levantou sua cabeça e ajeitou sua postura. Sarah saiu de seu transe e logo arqueou uma sobrancelha em tom de reprovação.
- O que pensa que está fazendo?
Juliette cruzou os braços instintivamente.
- Vinho. Quer? – a olhou sem jeito.
- Não, eu não quero vinho e a senhorita também não deveria. Acabou de sair do hospital onde tomou duas injeções antirrábicas e está ingerindo álcool?!
- Eu não ouvi o enfermeiro me restringir nada. – Juliette disse terminando o seu vinho em um gole só.
- É claro que ele não fez isso. Estava preocupado demais flertando com você.
Juliette soltou uma risada sarcástica e depositou sua taça na pia.
- Ele não estava flertando comigo Sarah, e se tivesse, qual o problema?
- Qual o problema? Ele não é pago para dar em cima de pacientes. Ele é pago para cuidar da saúde das pessoas, da sua saúde no caso.
- E se ele fizesse algo de errado por prestar mais atenção no seu decote do que no seu ferimento, teríamos um problema, Juliette? – Sarah se mantinha calma, mas sua irritação era visível.
Juliette saiu em direção à sala.
- Nós temos um problema. Sabe qual o problema, Senhorita Andrade? O problema é que você quer controlar tudo. Até mesmo o que não tem poder para controlar. Mas sabe de uma coisa?
- Você não é a dona do mundo. Você pode fazer o que quiser na sua empresa, mas aqui não. Na minha vida não! – Juliette estava alterada e com raiva.
– Se eu quiser sair com o enfermeiro que estava me cantando eu vou sair. Se eu quiser encher a cara e ir trabalhar de ressaca amanhã eu o farei. Porque na minha vida sou eu quem manda!
- Ah, agora você admite que estava sendo cantada! – Sarah sorriu ironicamente. – Sabe de uma coisa, Juliette? Você tem razão. – dizia enquanto se aproximava da morena.
– Eu não mando na sua vida, nem na sua casa e nem no que você faz ou deixa de fazer. Eu estive todo esse tempo tentando ser uma boa chefe, cuidar de você porque você é o meu braço direito na empresa.
- Mas você tem razão, na sua vida particular eu não mando. Então faça o que bem entender, se quiser sair com o enfermeiro, ótimo! Se quiser encher a cara e atrapalhar o efeito dos remédios, o faça também. Faça como bem entender.
Ao terminar estavam tão próximas que suas respirações eram sentidas uma pela outra.
- Ótimo! – disse Juliette olhando nos olhos de Sarah. As duas sentindo a tensão no ar ser quase palpável.
- Ótimo! – Sarah retrucou já perdendo seu olhar nos lábios de Juliette.
Entreolhares que oscilavam entre seus olhos e bocas, Sarah respirava em descompasso, enquanto Juliette já não respirava. Até que a campainha foi ouvida.
Sarah se afastou rapidamente dando as costas para Juliette, que por sua vez foi abrir a porta. Ao segurar a maçaneta lembrou-se que estava parcialmente despida.
- Ah, droga! – disse irritada – Sarah atenda, por favor. Preciso me vestir.
Sarah assentiu e foi até a porta enquanto Juliette foi até seu quarto buscar uma blusa.
- Aqui estão seus remédios. – Sarah disse a entregando uma sacola quando Juliette chegou à sala já devidamente vestida – Era o Arcrebiano.
- Obrigada – Juliette disse séria.
- Preciso voltar para a empresa. Cuide-se, Juliette, já que não precisa que ninguém cuide de você.
Juliette não teve tempo de retrucar.
- Amanhã não precisa ir trabalhar caso não esteja se sentindo bem. É sexta-feira e o dia será tranquilo. Se precisar de algo, me avise. Até mais.
- Até. E obrigada. Me desculpe pelo que eu disse, é... eu me exaltei.
- Não se preocupe. Imagino que as injeções antirrábicas que tomou fizeram efeito contrário e por isso vou relevar. – disse em seu tom sarcástico habitual com um sorriso de canto no rosto.
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- Boa noite, Senhorita Andrade – disse a governanta.
- Boa noite, Ester – Sarah respondeu caminhando pela enorme sala de sua mansão. – Algo para mim?
- Algumas correspondências de rotina e um recado do Senhor Rodolffo.
- Recado do Rodolffo ? – disse enquanto pegava uma bebida no balcão do bar em sua sala.
- Sim. Ele ligou e disse que não conseguia falar com a senhorita pelo celular. Pediu que o ligasse assim que possível.
- Eu tive um dia cheio hoje. Não tive tempo para atendê-lo e sinceramente não gostaria nem se tivesse tempo livre. – disse dando um gole generoso em seu Whisky.
Ester assentiu.
- Deseja algo para o jantar, senhorita?
- O que você decidir para mim está bom, Ester. Vou tomar um banho e já desço.
- Pois não, senhorita.
A água morna batia em sua cabeça enquanto ela soltava um gemido de alívio. O dia foi tenso e cheio de acontecimentos, segundo ela, interessantes.
É claro que Sarah já havia reparado o quão bela Juliette era. Claro que já havia se sentido atraída, mas não daquela forma, nunca naquela intensidade.
Há dois anos Juliette começou a trabalhar na empresa, assim que Sarah assumiu os negócios da família. A própria quem a contratou. Precisava de alguém competente ao seu lado, mais que isso, precisava de um braço direito, e logo que a conheceu na entrevista percebeu em Juliette essas características.
Ela tinha pulso firme, mas era obediente. Era sutil, mas veemente. Tinha um currículo brilhante e algumas excelentes referências. Era perfeita para o cargo.
Sarah logo a tornou o que pretendia que ela fosse. Seu braço direito. Fizeram uma amizade sutil, Sarah a tratava com os cuidados de um familiar, mas sem o sentimentalismo que esse tipo de laço requer.
Havia notado o quanto ela poderia ser uma mulher atraente, mas tão sensual? Sim, sensual. Como nunca tinha percebido isso? Sarah tinha se forçado a fechar seus olhos para Juliette até aquele dia. Mas assim que se abriram ela não conseguiu mais fechar.
Ela sorria enquanto se ensaboava, balançando a cabeça em negação. Só poderia estar ficando louca.
Será?
Os funcionários de Sarah que a vissem em sua casa não acreditariam que era a mesma chefe durona e que se vestia impecavelmente de forma social em sua empresa.
Em casa ela se sentia à vontade para relaxar. Usava roupas casuais e bastante confortáveis. Andava descalça quase que o tempo inteiro e tratava seus empregados com bastante sutileza e amizade.
Eram os mesmos funcionários desde que se entendia por gente. Há mais de 27 anos as mesmas pessoas trabalhavam para sua família.
Exceto Arcrebiano, que trabalhava com ela há menos tempo.
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CONTINUA ...