Eu não queria lembrar. Mas aquele dia se repete na minha memória como uma cicatriz que arde sempre que penso nele.
A festa da faculdade. Música alta, risadas, o cheiro doce de bebida barata e perfume misturados no ar. Eu estava fora do meu mundo, fora da minha zona segura, mas empurrada por amigas que juravam que “só por uma noite” eu podia me soltar.
E eu quis. Por uma noite, eu quis ser notada. Ser diferente. Ser vista.
Vesti um vestido que nunca teria coragem de usar em qualquer outro dia. Justo. Curto. Decotado. A maquiagem nos olhos me dava um ar mais corajoso do que eu realmente era. Meus saltos pareciam gritar com cada passo. Mas eu fui. Eu me permiti tentar.
Noah estava lá, claro. No centro da roda, como sempre. Rindo com os amigos, as garotas penduradas nele como se ele fosse oxigênio. E talvez fosse. Para mim, ele era.
Quando nossos olhares se cruzaram naquela noite, ele me viu. Realmente me viu. Seus olhos percorreram meu corpo e eu senti meu estômago despencar. O calor que me invadiu foi tanto que precisei respirar fundo para não sair correndo.
— Ele tá olhando — sussurrou minha amiga no meu ouvido, rindo.
— Para mim? — perguntei, incrédula.
— Sim! Vai lá. Fala com ele.
Eu nunca tinha me aproximado de Noah. Nunca. Ele era inalcançável. Um tipo de estrela que a gente admira de longe, mas não ousa tocar. Mas aquela noite... eu estava cansada de ser invisível.
Caminhei até ele. As pernas trêmulas, o coração martelando como um tambor enlouquecido. Ele me observou o tempo todo, como se esperasse por isso. Como se quisesse ver o que eu faria.
— Oi — minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Ele me olhou de cima a baixo e... sorriu. Mas não o sorriso de antes. Não aquele que derretia. Esse era diferente. Frio. Arrogante.
— O que foi? Resolveu mudar de categoria? — ele perguntou, alto o suficiente para que seus amigos ouvissem.
Alguns riram. Um deles até repetiu: “Categoria!”
Meu estômago revirou.
— Como assim? — murmurei, confusa.
— De invisível para... desesperada. É uma mudança brusca, não acha? — Ele bebeu um gole da cerveja e continuou me encarando. — Mas até que ficou interessante. Melhor assim, pelo menos mostra que tem sangue nas veias.
Aquela frase. Desesperada. Ela grudou na minha pele como uma tatuagem. As gargalhadas ao redor soaram como socos no meu peito.
— Você é um i****a — sussurrei, sentindo meus olhos arderem.
— Talvez. Mas você veio até aqui, não foi? — Ele sorriu com aquele mesmo desprezo. — Ninguém mandou se iludir.
Eu virei as costas, mas não rápido o suficiente para impedir que ele visse as lágrimas escorrendo. Saí da festa correndo, sentindo meu peito rasgar por dentro. Não era só humilhação. Era rejeição crua. E ela veio dele.
Por dias, evitei todos. Até o espelho. Me sentia patética, como se tivesse me exposto demais, como se tivesse implorado por algo que nunca teria. Noah me reduziu a pó em segundos.
Mas o pior de tudo?
Eu ainda o queria.
E isso me envergonhava mais do que qualquer outra coisa.
Nos dias que se seguiram, evitei os corredores que ele costumava cruzar, os grupos que ele fazia parte, até mesmo os lugares que eu amava dentro da faculdade. Preferia me esconder na biblioteca, atrás de pilhas de livros, como se as palavras fossem capazes de me proteger de sentir.
Mas o silêncio não calava o som da voz dele na minha cabeça. Nem o gosto amargo da rejeição.
Eu fingia estar bem. Risos forçados, conversas vazias. Mas por dentro, eu ardia. Não era mais só dor... era uma raiva incômoda. Uma indignação sufocada. E talvez, no fundo, um desejo ainda mais perigoso: o de provar que ele estava errado.
Na aula de Literatura Contemporânea, duas semanas depois, ele entrou atrasado. Como sempre, despreocupado, atraindo olhares por onde passava. Mas, dessa vez, os meus não o acompanharam. Eu continuei escrevendo, ignorando cada passo que ele dava.
Até sentir o calor dele atrás de mim.
Ele sentou-se na fileira logo atrás da minha. Uma cadeira que nunca tinha ocupado antes. E não falou nada. Só ficou ali, quieto. Mas eu sentia. Sentia o peso do olhar dele queimando minha nuca.
Durante toda a aula.
Eu me recusava a olhar para trás. Me recusava a ceder. Mas minha pele se arrepiava, traindo cada tentativa de indiferença. E então...
— Tá brava comigo, princesa? — ele murmurou, a voz rouca e baixa demais para que os outros ouvissem.
Meu corpo congelou. Um arrepio atravessou minha espinha. Meus dedos apertaram a caneta com força.
— Vai se ferrar — sussurrei de volta, sem me virar.
Senti o sorriso dele sem precisar ver.
— Ainda pensando naquela noite?
Virei-me de uma vez, os olhos faiscando.
— Não se ache tanto, Noah. Eu superei aquilo antes mesmo de terminar a noite.
Ele se inclinou, os olhos nos meus, tão perto que eu senti sua respiração quente.
— Jura? Porque parece o contrário... — disse, devagar, com os olhos dançando entre meu rosto e minha boca.
Meu coração disparou.
— Vai continuar sendo um babaca ou só quer provar que pode brincar mais um pouco?
Ele recuou, mas não antes de deixar escapar aquele sorriso torto, cínico, e perigosamente charmoso.
— Você tem fogo. Eu gosto disso.
Tentei manter o rosto impassível, mas por dentro, tudo tremia. Raiva. Desejo. Confusão. Eu odiava o que ele fazia comigo. Mas odiava ainda mais o quanto meu corpo reagia a cada palavra dele.
Depois da aula, corri para o banheiro. Olhei meu reflexo no espelho. Bochechas coradas, olhos intensos, respiração irregular.
Droga. Eu ainda não tinha superado nada.
Noah me rejeitou. Me humilhou. Mas ele tinha voltado. E agora parecia... diferente. Ainda debochado. Ainda insolente. Mas havia algo nos olhos dele que não existia naquela noite: curiosidade. Interesse.
Ou talvez fosse só mais um jogo.
Mas se fosse... dessa vez eu não perderia.
Naquela noite, fiz uma promessa a mim mesma: ou ele aprenderia a me respeitar... ou se queimaria tentando me tocar de novo.
Noah achava que me conhecia. Que eu era aquela garota do canto da sala, a que abaixa os olhos quando provocada, que foge ao menor sinal de confronto. Mas ele esqueceu de um detalhe: o fogo que ele tanto diz gostar, ele mesmo acendeu.
E eu estava pronta para deixar queimar.
Na semana seguinte, entrei na aula com outro vestido — não curto, não vulgar. Mas ousado o suficiente para fazer os olhares se voltarem. O cabelo preso de um jeito que deixava meu pescoço exposto e a maquiagem marcando os olhos. Eu não estava tentando ser outra. Eu estava apenas me permitindo ser eu... sem medo.
Ele me viu assim que entrei. Estava no fundo da sala, pernas abertas, braços jogados sobre o encosto da cadeira ao lado como se o mundo inteiro lhe pertencesse. Mas quando nossos olhos se encontraram, algo mudou.
Ele se ajeitou. Endireitou-se. Olhou de novo. E eu passei por ele sem desviar o olhar, sem piscar, sem desviar.
Sentei-me na fileira da frente — aquela que ele havia ocupado antes. Ele não ousou sentar atrás de mim. Mas eu senti. Senti o incômodo dele com meu silêncio. Com a minha indiferença. Era visível. E delicioso.
Na hora da apresentação do seminário, o grupo foi sorteado. Eu e ele. Juntos.
O professor riu e disse algo como "isso vai ser interessante".
Mal sabia ele.
Na frente da sala, dividimos o espaço do quadro branco. Falei primeiro, firme, segura. Cada frase como uma lâmina bem afiada. Ele me olhava como se visse uma versão minha que não conhecia. E era mesmo.
Quando foi a vez dele, tentei não observar. Mas falhei. Ele falava com aquela voz grave e confiante, olhando para a turma... mas, de vez em quando, olhava para mim. E sorria.
Sorria como se dissesse: “Ok, princesa... o jogo começou.”
E começou mesmo.
Mas eu não era mais a garota da festa.
Eu era a mulher que ele teria que conquistar...
Ou perder para sempre.