Angelina sentiu o chão desaparecer sob seus pés quando ouviu aquelas palavras.
— Seu pai estava lá.
O ar na cozinha pareceu congelar.
Miller olhou lentamente para Angelina, como se tivesse medo da reação dela.
— Angie… isso… isso não pode ser verdade.
Mas Angelina não respondeu.
Ela estava olhando fixamente para Odette.
Ou para aquilo que usava o rosto de Odette.
A menina permanecia parada perto da porta do porão, os olhos negros brilhando na escuridão.
— Vocês chegaram tarde demais, — repetiu ela em um sussurro arrastado.
A porta do porão continuava aberta atrás dela.
Um ar gelado subia pelas escadas.
Não era apenas frio.
Era um frio pesado.
Um frio que parecia trazer consigo o cheiro de terra úmida… e algo pior.
Algo podre.
Miller levou a mão ao nariz.
— Você está sentindo isso?
Angelina assentiu lentamente.
Sim.
O cheiro vinha do porão.
Odette levantou o braço devagar e apontou novamente para a escada escura.
— Lá embaixo.
Angelina sentiu o coração apertar.
— Foi lá que… aconteceu?
A menina inclinou a cabeça.
Os cabelos caíram sobre o rosto manchado de sangue.
Por alguns segundos, ela não respondeu.
Então murmurou:
— Eles disseram que ninguém jamais encontraria.
Miller engoliu seco.
— Eles… quem?
Silêncio.
A lâmpada da cozinha piscou.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Quando a luz estabilizou novamente…
Odette estava mais perto.
Muito mais perto.
Agora ela estava a apenas dois passos das duas.
Miller soltou um grito baixo.
— COMO você chegou aí?!
A menina sorriu lentamente.
Um sorriso quebrado.
Doloroso.
— Vocês precisam descer.
Angelina olhou para o porão.
O escuro parecia se mover lá dentro.
Como se a própria escuridão estivesse viva.
Miller segurou o braço de Angelina.
— Angie… isso é uma péssima ideia.
Angelina respirou fundo.
Ela sentia medo.
Muito medo.
Mas também sentia outra coisa.
Uma tristeza profunda.
Porque, por trás daquela aparência assustadora…
Aquilo ainda era Odette.
Ou pelo menos… parte dela.
— Se encontrarmos seus ossos… — disse Angelina com voz firme — seu espírito poderá descansar.
Odette piscou lentamente.
Por um momento…
Seus olhos negros desapareceram.
E os olhos de uma criança triste surgiram ali.
Cheios de lágrimas.
— Vocês precisam encontrar minha mãe.
Angelina franziu a testa.
— Sua mãe?
— Ela está esperando.
Miller sussurrou:
— O cemitério…
Angelina assentiu.
Sim.
A mãe de Odette estava enterrada no pequeno cemitério da vila.
Se os restos da menina fossem enterrados junto dela…
Talvez finalmente houvesse paz.
Mas primeiro…
Eles precisavam encontrá-los.
Odette virou lentamente o corpo e começou a descer as escadas do porão.
Sem fazer barulho.
Sem tocar nos degraus.
Ela simplesmente…
Deslizava.
Miller ficou paralisada.
— Eu realmente vou fazer isso?
Angelina pegou uma lanterna da gaveta da cozinha.
— Vamos.
— Você diz isso como se fosse normal!
Angelina abriu a lanterna.
O feixe de luz iluminou a escada escura.
— Nada disso é normal.
E começou a descer.
Miller soltou um suspiro desesperado.
— Eu devia ter ficado em casa vendo filmes.
Mesmo assim…
Ela seguiu Angelina.
Cada degrau rangia.
A madeira parecia frágil.
O cheiro ficava cada vez mais forte.
Terra molhada.
Ferrugem.
Algo antigo.
Algo enterrado há muito tempo.
Quando chegaram ao final da escada…
A lanterna revelou o porão.
Era maior do que Angelina lembrava.
Muito maior.
As paredes eram de pedra antiga.
Manchadas.
Cobertas por umidade.
Havia prateleiras quebradas.
Ferramentas enferrujadas.
E no fundo do porão…
Havia algo estranho.
Um pedaço do chão parecia diferente.
A terra estava remexida.
Como se alguém tivesse cavado ali.
Angelina caminhou lentamente até o local.
O coração acelerado.
Miller ficou logo atrás dela.
— Eu não gosto disso.
Angelina apontou para o chão.
— Está vendo?
— Sim… e estou odiando cada segundo disso.
Odette apareceu novamente.
Agora parada ao lado da terra mexida.
Ela olhou para o chão.
— Aqui.
Angelina ajoelhou-se.
Passou a mão sobre a terra.
Ela estava mais macia que o resto.
— Alguém cavou aqui.
Miller murmurou:
— Isso não pode ser real…
Angelina olhou ao redor.
Encontrou uma velha pá encostada na parede.
Enferrujada.
Mas ainda utilizável.
Ela pegou a pá.
Miller arregalou os olhos.
— Você vai mesmo cavar?!
Angelina olhou para Odette.
A menina estava completamente imóvel.
Esperando.
— Sim.
Ela cravou a pá na terra.
O som metálico ecoou pelo porão.
CLANG
Miller estremeceu.
— Isso vai acabar muito m*l…
Angelina começou a cavar.
A terra era pesada.
Cada pá levantava um cheiro mais forte de podridão.
Cinco minutos.
Dez minutos.
O buraco começou a ficar fundo.
Então…
A pá bateu em algo.
CLACK
Angelina congelou.
Miller sussurrou:
— O que foi?
Angelina ajoelhou-se.
Começou a remover a terra com as mãos.
Seu coração disparava.
Ela afastou mais um punhado de terra.
E então viu.
Um pedaço branco.
Curvo.
Pequeno.
Angelina sentiu o estômago revirar.
— Meu Deus…
Miller levou as mãos à boca.
— Isso é…
Angelina assentiu lentamente.
— Um osso.
Ela continuou limpando.
Mais ossos apareceram.
Pequenos.
Frágeis.
Pertenciam a uma criança.
Miller começou a chorar.
— Isso é horrível…
Angelina também sentia lágrimas nos olhos.
Mas continuou.
Cuidadosamente.
Respeitosamente.
Mais alguns minutos…
E finalmente ficou claro.
Ali estava um pequeno esqueleto.
Enterrado às pressas.
Sem caixão.
Sem cerimônia.
Sem dignidade.
Odette observava em silêncio.
Mas algo mudou.
O ar no porão ficou diferente.
Mais pesado.
Mais frio.
A lanterna começou a piscar.
Angelina percebeu primeiro.
— Miller…
— Eu sei.
O ar ficou gelado.
Muito gelado.
Odette levantou lentamente a cabeça.
Seus olhos voltaram a ficar negros.
— Eles não querem que vocês levem.
Angelina sentiu um arrepio subir pela espinha.
— Quem?
A menina não respondeu.
Mas naquele instante…
Um barulho surgiu no fundo do porão.
Passos.
Lentos.
Arrastados.
Miller virou a lanterna.
— Tem alguém aqui…
Angelina olhou para a escuridão.
E então viu.
Sombras.
Movendo-se entre as paredes.
Mas não eram sombras normais.
Elas tinham forma.
Formas humanas.
Distortas.
Como silhuetas queimadas na escuridão.
Uma delas deu um passo à frente.
E falou.
A voz era grave.
Antiga.
— Vocês não deveriam ter cavado.
Miller começou a recuar.
— Angie… isso não é bom…
Angelina levantou-se lentamente.
— Quem são vocês?
A sombra respondeu:
— Testemunhas.
Outra voz surgiu atrás delas.
— Guardas.
Uma terceira voz sussurrou perto da escada:
— Mentiras enterradas.
Angelina percebeu algo terrível.
Aquelas sombras…
Não estavam ali para proteger Odette.
Estavam ali para proteger o segredo.
Odette começou a tremer.
— Eles mentiram para mim…
A primeira sombra avançou mais um passo.
— Deixem os ossos.
Angelina apertou os punhos.
— Não.
Miller sussurrou:
— Angie…
— Não.
Angelina pegou delicadamente um dos ossos.
— Ela merece descansar.
O porão inteiro tremeu.
As sombras começaram a se mover.
Cercando-as.
A voz grave rugiu:
— ENTÃO FIQUEM COM ELA.
A lanterna explodiu em luz.
O porão mergulhou na escuridão.
Miller gritou.
Algo passou correndo por elas.
Um vento violento.
Sussurros.
Centenas deles.
Angelina segurou o saco onde colocou os ossos.
— CORRE!
As duas correram para a escada.
As sombras se esticavam pelas paredes.
Como mãos tentando alcançá-las.
Miller quase caiu no terceiro degrau.
Angelina puxou ela.
— VAI!
Um grito horrível ecoou no porão.
Não humano.
Cheio de raiva.
As sombras subiam atrás delas.
Quando finalmente alcançaram a cozinha…
Angelina bateu a porta do porão.
BAM
Silêncio.
As duas ficaram ofegantes.
O saco com os ossos estava nas mãos de Angelina.
Odette apareceu na frente delas novamente.
Mas agora…
Ela parecia diferente.
Mais fraca.
Mais humana.
Os olhos voltaram a ser de uma criança.
Cheios de esperança.
— Obrigada.
Angelina sentiu lágrimas descerem pelo rosto.
— Vamos levá-la até sua mãe.
Odette sorriu.
Um sorriso verdadeiro.
Talvez o primeiro em muitos anos.
Mas antes de desaparecer…
Ela disse uma última coisa.
Algo que fez o sangue de Angelina gelar.
— Meu pai também estava lá.
Miller olhou para Angelina.
— O quê?
Mas Odette já estava desaparecendo.
Suas últimas palavras ecoaram pela cozinha.
— E ele ainda está vivo.