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1263 Words
O Caminho de Volta A estrada de volta parecia diferente. Talvez fosse apenas o cansaço acumulado da noite sem dormir. Talvez fosse o peso de tudo que tinha acontecido. Ou talvez fosse a sensação incômoda de que, mesmo depois do exorcismo, algo ainda não estava resolvido. Angelina dirigia em silêncio. O sol da manhã começava a subir lentamente, iluminando os campos e as árvores ao longo da estrada. A neblina fina que cobria algumas áreas dava ao cenário uma aparência quase irreal, como se o mundo ainda estivesse acordando. Miller estava sentada no banco do passageiro. O olhar fixo na paisagem que passava pela janela. Nenhuma das duas falava. O silêncio entre elas não era apenas cansaço. Era algo mais pesado. Algo quebrado. Angelina apertava o volante com as duas mãos. Pensando. Relembrando cada detalhe. A possessão. O exorcismo. Os assassinatos. E, principalmente, a expressão no rosto de Miller quando percebeu o que tinha acontecido. Angelina sabia que aquela imagem ficaria marcada para sempre. Depois de quase uma hora de estrada, Miller finalmente falou. — Você acredita mesmo que aquela coisa foi embora? Angelina demorou um pouco para responder. — Não completamente. Miller suspirou. — Eu também acho que não. O carro continuou avançando pela estrada. O campus ainda estava distante. Mas a tensão dentro do carro parecia crescer novamente. Miller apoiou a cabeça contra o vidro. — Eu ainda consigo sentir. Angelina franziu a testa. — Sentir o quê? Miller hesitou. — Algo dentro de mim. Angelina sentiu um frio subir pela espinha. — Como assim? — Não é a mesma coisa que antes. Miller fechou os olhos por um momento. — Mas parece… como se alguma coisa tivesse deixado uma marca. Angelina tentou manter a voz calma. — O padre disse que essas coisas podem levar tempo para desaparecer. Miller deu um pequeno sorriso sem humor. — Ótimo. Então talvez eu fique lembrando disso para sempre. Angelina não respondeu. Porque no fundo ela também tinha medo disso. O carro finalmente entrou na estrada que levava de volta à cidade. A movimentação aumentava. Carros. Caminhões. Pessoas indo trabalhar. Era estranho ver o mundo funcionando normalmente depois de uma noite como aquela. Angelina virou uma esquina e entrou no campus da universidade. Imediatamente perceberam algo diferente. Havia carros de polícia. Fitas de isolamento. Alguns estudantes reunidos em pequenos grupos. Miller franziu a testa. — O que aconteceu agora? Angelina estacionou o carro perto do dormitório. — Vamos descobrir. Elas saíram do carro. O clima no campus estava pesado. Alguns estudantes falavam em voz baixa. Outros pareciam assustados. Angelina aproximou-se de um grupo de colegas. — O que aconteceu? Uma garota respondeu imediatamente. — Outro corpo. O coração de Angelina disparou. — Outro? — Foi encontrado há poucas horas. Miller ficou pálida. — Quem? A garota engoliu seco. — Um estudante chamado Daniel. Angelina sentiu o chão parecer instável sob seus pés. — Onde? — Perto do prédio antigo de artes. Miller olhou imediatamente para Angelina. — Artes? Angelina sentiu um arrepio. Aquele era o prédio onde ela estudava. Sem dizer nada, as duas começaram a caminhar naquela direção. A polícia havia isolado parte da área. Mas era possível ver de longe. Uma ambulância. Agentes. Alguns professores conversando nervosamente. Angelina aproximou-se o máximo que conseguiu. E então viu algo que fez seu sangue gelar. O símbolo. O mesmo símbolo. Desenhado no chão com sangue. Exatamente como nos outros assassinatos. Miller falou baixinho. — Isso não é possível. Angelina sentiu o coração bater ainda mais rápido. — Aquela coisa estava comigo a noite inteira. Miller olhou para ela. — Então quem fez isso? Angelina não respondeu. Porque naquele momento uma possibilidade terrível surgiu em sua mente. E se… Houve mais de uma entidade? Ou pior. E se o verdadeiro responsável ainda estivesse livre? Um policial começou a afastar os curiosos. — Todos para trás! Angelina e Miller se afastaram lentamente. As duas estavam em choque. — Isso não faz sentido — disse Miller. Angelina concordou. — Não mesmo. As duas começaram a caminhar de volta ao dormitório. Mas algo estava diferente. Angelina sentia um peso estranho no ar. Uma sensação familiar. Ela parou de repente. — Espera. Miller olhou para ela. — O que foi? Angelina olhou ao redor. O campus parecia normal. Estudantes andando. Pessoas conversando. Mas mesmo assim… — Ela está aqui. Miller franziu a testa. — Quem? Angelina virou lentamente a cabeça. E viu. Perto de uma árvore antiga no centro do campus. Uma menina. Vestido antigo. Cabelos longos. Rosto pálido. Manchado de sangue. Odette. Angelina sentiu o coração parar. A menina estava olhando diretamente para ela. Sem expressão. Sem piscar. Miller percebeu a mudança no rosto de Angelina. — O que foi? Angelina apontou discretamente. — Lá. Miller olhou. Mas não viu nada. — Angie… Angelina voltou a olhar. Odette ainda estava lá. Imóvel. Observando. Então a menina levantou lentamente uma das mãos. E apontou. Não para Angelina. Mas para algo atrás dela. Angelina virou rapidamente. O prédio antigo de artes estava ali. Imponente. Silencioso. Odette estava mostrando algo. Algo importante. Quando Angelina olhou novamente para a árvore… Odette havia desaparecido. Miller cruzou os braços. — Ela apareceu de novo? Angelina assentiu lentamente. — Sim. — O que ela queria? Angelina olhou para o prédio de artes. O mesmo lugar onde o novo corpo tinha sido encontrado. — Acho que ela quer que a gente vá até lá. Miller suspirou profundamente. — Claro que quer. Angelina começou a caminhar naquela direção. Miller a seguiu. — Angie. — Sim? — Se mais alguém morrer… Angelina respondeu antes que ela terminasse. — Eu sei. As duas caminharam até o prédio antigo. A porta estava fechada. Mas não trancada. Angelina empurrou lentamente. O interior estava escuro. O cheiro de tinta e madeira velha preenchia o ar. O prédio era pouco usado. A maioria das aulas acontecia em outro lugar. Os passos delas ecoavam no corredor vazio. Miller falou baixinho. — Isso parece uma péssima ideia. Angelina concordou. — Provavelmente é. Mesmo assim continuaram andando. Algo naquele lugar parecia chamar Angelina. Uma sensação estranha. Como se ela já tivesse estado ali antes. Mesmo sabendo que nunca tinha entrado naquele prédio. De repente… Um barulho ecoou no andar de cima. Um som leve. Como algo se arrastando pelo chão. As duas pararam imediatamente. Miller sussurrou: — Você ouviu isso? Angelina assentiu. O barulho veio novamente. Lento. Arrastado. Como passos. Angelina olhou para a escada. Que levava ao segundo andar. Miller segurou o braço dela. — Não me diga que vamos subir. Angelina respondeu baixinho. — Acho que precisamos. O silêncio voltou. Pesado. As duas começaram a subir as escadas. Cada degrau rangia sob seus pés. Quando chegaram ao topo… O corredor estava completamente vazio. Mas no final dele… Havia uma porta aberta. Escura. Angelina sentiu um arrepio profundo. — Foi dali que veio o barulho. Miller respirou fundo. — Ótimo. Elas caminharam lentamente pelo corredor. Quando chegaram à porta… Angelina olhou para dentro. E imediatamente sentiu o sangue gelar. Porque no chão daquela sala… Havia algo desenhado. Um círculo. Feito com tinta vermelha. Mas não era tinta. Angelina sabia disso. Era sangue. E no centro do círculo… Havia algo ainda mais perturbador. Uma fotografia antiga. Amarelada. Angelina aproximou-se lentamente. Pegou a fotografia. E viu. Era uma foto antiga de uma casa. Uma casa que ela reconheceu imediatamente. A casa de sua família. Angelina sentiu o coração parar. Porque agora estava claro. Muito claro. Tudo aquilo… Estava ligado à sua família. E o passado que ela estava tentando descobrir… Era muito mais sombrio do que ela imaginava.
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