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1102 Words
A Primeira Pista A manhã chegou lentamente ao campus da universidade. A luz do sol atravessava as cortinas do quarto 312, formando faixas douradas sobre o chão de madeira. O ambiente parecia tranquilo demais, quase irreal depois da madrugada perturbadora. Angelina estava sentada na cama, abraçando os joelhos. Ela não tinha dormido. Cada vez que fechava os olhos, via novamente o espelho do banheiro… e o rosto pálido da menina coberta de sangue. Miller, por outro lado, parecia ter conseguido dormir algumas horas. Agora estava sentada na cadeira da mesa de estudos, bebendo café de um copo térmico. Ela observava Angelina com atenção. — Você ainda está pálida — comentou. Angelina esfregou o rosto. — Eu não estou louca, Miller. A frase saiu mais rápido do que ela pretendia. Miller levantou as sobrancelhas. — Eu não disse que você está. — Mas você pensou. — Não pensei. Angelina ficou em silêncio. Miller suspirou. — Angie… olha para mim. Angelina levantou os olhos. — Eu não sei o que você viu. Mas eu sei que você estava apavorada quando voltou para o quarto. Pessoas não fingem aquele tipo de medo. Isso trouxe um pequeno conforto. Mas não suficiente. Angelina levantou-se e caminhou até a janela. O campus estava vivo novamente. Estudantes caminhavam pelos jardins, alguns rindo, outros correndo atrasados para aulas matinais. Tudo parecia… normal. Normal demais. — Ela apareceu de novo — murmurou Angelina. Miller ficou imóvel. — O quê? Angelina virou-se lentamente. — Depois que voltamos do banheiro. — Angie… nós fomos juntas ao banheiro. Não tinha nada lá. — Eu sei. — Então? Angelina engoliu em seco. — Foi no meu sonho. Miller relaxou um pouco. — Ah… — Mas não foi um sonho comum. Miller cruzou os braços. — Explica. Angelina hesitou por alguns segundos, como se estivesse organizando as memórias. — Eu estava no cemitério. — Que animador. Angelina ignorou o comentário. — Era um cemitério antigo. Muito antigo. As lápides estavam tortas, cobertas de musgo. Miller ouviu com atenção. — A menina estava lá? Angelina assentiu. — Sim. — Ela falou com você? — Não com palavras. — Então como? Angelina fechou os olhos por um momento, tentando reconstruir o sonho. — Ela estava parada ao lado de um túmulo. — Só isso? — Não. Angelina respirou fundo. — Ela apontou para a lápide. Miller inclinou-se para frente. — O que estava escrito? Angelina abriu os olhos. — Eu consegui ler apenas um nome. — Qual? Angelina respondeu lentamente. — Ana. O quarto ficou silencioso. Miller apoiou os cotovelos na mesa. — Ana. — Sim. — Você tem certeza? — Absoluta. Miller ficou pensando por alguns segundos. — E você acha que esse cemitério existe de verdade? Angelina respondeu sem hesitar. — Eu tenho quase certeza. — Como? — Porque eu já vi aquele lugar antes. Miller franziu a testa. — Onde? Angelina aproximou-se da mesa. — Em um desenho. — Seu? — Sim. Ela abriu o caderno de desenhos e começou a folhear rapidamente as páginas. Retratos. Paisagens. Estudos de sombra. E então parou em uma página específica. Miller inclinou-se. Era um desenho feito a carvão. Um cemitério. Lápides antigas. Árvores retorcidas. E uma pequena figura ao fundo. Miller ficou em silêncio por alguns segundos. — Angie… quando você desenhou isso? Angelina engoliu em seco. — Semana passada. — Antes de ver a menina no espelho? — Sim. Miller passou a mão pelos cabelos curtos. — Ok… isso está começando a ficar estranho. Angelina sentou-se na cama novamente. — Eu acho que ela quer que eu encontre esse lugar. Miller levantou as sobrancelhas. — Você quer ir até um cemitério baseado em um sonho? Angelina hesitou. — Eu sei que parece absurdo. — Parece mesmo. Angelina levantou o olhar. — Mas se eu estiver certa… pode ser a única forma de descobrir quem ela é. Miller ficou em silêncio. Angelina continuou: — Ela escreveu “ajude”. — Eu lembro. — Talvez isso seja a ajuda que ela precisa. Miller levantou-se e começou a andar pelo quarto. — Ok… vamos pensar racionalmente. Angelina esperou. — Primeiro: precisamos saber se esse cemitério existe. — Sim. — Segundo: precisamos descobrir se existe alguém chamado Ana enterrado lá. Angelina assentiu. — Exato. Miller parou diante dela. — E terceiro… — O quê? Miller sorriu levemente. — Vamos transformar isso em uma investigação. Angelina piscou. — Você vai me ajudar? Miller deu de ombros. — Eu estudo história, lembra? — Sim. — Investigar pessoas mortas faz praticamente parte do meu curso. Angelina sentiu um pequeno alívio. — Obrigada, você foi a única que me escutou de verdade e não achou que eu estivesse enlouquecendo _Quê isso Angie, eu também te amo muito_ fala a abraçando e depois as duas riem Miller pegou o laptop. — Primeiro passo: cemitérios antigos perto da universidade. Ela começou a digitar rapidamente. Angelina observava ansiosa. Depois de alguns minutos, Miller virou o computador na direção dela. — Temos três. — Três? — Sim. Dois são relativamente novos. Mas o terceiro… Ela ampliou a imagem no mapa. — Este aqui. Angelina sentiu um arrepio imediato. — É ele. — Você tem certeza? Angelina apontou para a tela. — As árvores… o portão… é exatamente igual ao que vi no sonho. Miller leu o nome. — Cemitério de Santa Brígida. — Onde fica? — Cerca de vinte minutos daqui. Angelina sentiu o coração acelerar. — Precisamos ir lá. Miller olhou para o relógio. — Agora? — Hoje. Miller pensou por alguns segundos. Depois sorriu. — Ok. Angelina arregalou os olhos. — Sério? — Sério. — Por quê? Miller fechou o laptop. — Porque se existe uma menina fantasma tentando falar com minha colega de quarto… Ela pegou o casaco. — Eu definitivamente quero saber por quê. Angelina não conseguiu evitar um sorriso nervoso. Duas horas depois, as duas estavam caminhando por uma estrada estreita que levava ao cemitério. O céu estava nublado. O vento soprava entre as árvores altas. O portão de ferro do cemitério surgiu à frente delas. Angelina parou. O coração batia forte. — É aqui. Miller observou o lugar. — Nada assustador durante o dia. Angelina empurrou o portão. Ele rangeu lentamente. As duas entraram. O cemitério era antigo. Muito antigo. As lápides estavam desgastadas pelo tempo. Algumas quase completamente cobertas por musgo. Angelina caminhava devagar, olhando ao redor. Algo dentro dela dizia que estava no lugar certo. — Ana — murmurou Miller. — Vamos procurar esse nome. Elas começaram a examinar as lápides. Minutos passaram. Depois meia hora. Nada. Angelina começou a sentir frustração. — Talvez eu tenha visto errado. ... .
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