Depois da Libertação
A igreja apareceu no horizonte como uma sombra solitária contra o céu cinzento da madrugada.
Angelina viu primeiro o topo da torre.
Uma cruz escura recortada contra as nuvens pesadas.
Ela soltou um suspiro que parecia estar preso em seu peito há horas.
— Finalmente…
O GPS anunciou calmamente:
"Você chegou ao seu destino."
Angelina virou o carro para a pequena estrada de terra que levava até a igreja.
O lugar era isolado.
Muito isolado.
Não havia casas por perto.
Apenas campos escuros e árvores espalhadas que balançavam lentamente com o vento.
A igreja era antiga.
De pedra.
As paredes gastas pelo tempo.
Algumas janelas estreitas.
Uma porta de madeira pesada.
Angelina estacionou o carro bem em frente.
Por alguns segundos, ficou parada.
Suas mãos ainda tremiam no volante.
Ela olhou pelo retrovisor.
Miller estava inconsciente.
Mas respirava.
Angelina respirou fundo.
— Aguenta mais um pouco…
Ela saiu do carro.
O ar frio da madrugada atingiu seu rosto.
O silêncio do lugar era quase absoluto.
Nem mesmo grilos cantavam.
Apenas o vento.
Angelina caminhou rapidamente até a porta da igreja.
Bateu.
Nada.
Bateu novamente.
Mais forte.
— Por favor, por favor … — murmurou, quase choramingando
Silêncio.
Ela bateu pela terceira vez.
Com desespero.
— Alguém!
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então…
Ela ouviu passos.
Lentos.
Do outro lado da porta.
A madeira rangeu.
E a porta se abriu.
Um homem idoso apareceu.
Usava roupas simples de sacerdote.
Cabelos brancos.
Olhos atentos.
— Filha…?
Angelina quase desabou de alívio.
— Padre… eu preciso de ajuda.
O homem observou o rosto dela.
Depois olhou para o carro.
— O que aconteceu?
Angelina engoliu seco.
— Minha amiga… ela está possuída.
O padre ficou em silêncio por alguns segundos.
Estudando o rosto dela.
Como se estivesse tentando decidir se aquilo era loucura ou desespero.
Angelina falou novamente.
— Por favor… eu sei como isso soa… mas eu preciso de ajuda.
O padre suspirou.
Então disse calmamente:
— Traga-a para dentro.
Angelina correu até o carro.
Desamarrou Miller.
Depois a puxou para fora.
Ainda estava inconsciente.
O padre ajudou a carregá-la.
Juntos, levaram Miller para dentro da igreja.
O interior era simples.
Bancos de madeira.
Velas.
Um altar antigo.
O padre indicou um banco próximo ao altar.
— Deite-a aqui.
Angelina obedeceu.
O padre aproximou-se lentamente.
Observou Miller.
Depois olhou para Angelina.
— Conte-me tudo.
E Angelina contou.
Tudo.
Odette.
O quarto secreto.
Os assassinatos.
A possessão.
A viagem.
Quando terminou…
O padre estava em silêncio.
O rosto sério.
— Há forças antigas em ação aqui — disse finalmente.
Angelina sentiu um nó no estômago.
— O senhor pode ajudar?
O padre assentiu lentamente.
— Eu posso tentar.
Ele começou a preparar algumas coisas.
Velas.
Água benta.
Um pequeno crucifixo.
Angelina observava em silêncio.
O coração batendo forte.
— Filha — disse o padre — isso pode ser difícil.
— Eu sei.
— E pode não terminar rapidamente.
Angelina apenas assentiu.
— Eu só quero minha amiga de volta.
O padre colocou o crucifixo nas mãos.
— Então vamos começar.
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O Exorcismo
As velas foram acesas.
A igreja ficou iluminada apenas pela luz tremulante delas.
O padre começou a rezar.
As palavras em latim ecoavam pelo espaço silencioso.
Angelina ficou ao lado.
Observando.
Com medo.
Miller começou a se mexer.
Primeiro lentamente.
Depois com mais força.
Seus olhos abriram.
Mas novamente…
Não eram os olhos dela.
A entidade estava de volta.
O sorriso apareceu.
— Você trouxe ajuda…
A voz era baixa.
O padre não parou de rezar.
— Em nome de Deus…
Miller começou a rir.
— Ele não pode me expulsar.
O padre levantou o crucifixo.
— Saia deste corpo.
Miller gritou.
O corpo dela se contorceu violentamente.
As velas tremiam.
O ar parecia pesado.
Angelina segurava as mãos dela.
— Aguenta, Miller!
A entidade gritou novamente.
— Ela é minha!
O padre aspergiu água benta.
Miller soltou um grito terrível.
— NÃO!
As orações continuaram.
Minuto após minuto.
O confronto parecia eterno.
Então…
De repente…
Miller soltou um último grito.
Um grito que ecoou pela igreja inteira.
E então…
Silêncio.
O corpo dela caiu imóvel.
O padre abaixou lentamente o crucifixo.
Respirando fundo.
— Acabou.
Angelina olhou para Miller.
— Miller…?
Os olhos dela abriram.
Desta vez…
Eram os olhos dela.
Cansados.
Confusos.
Humanos.
— Angie…?
Angelina começou a chorar.
— Você voltou.
Mas o olhar de Miller mudou.
Quando ela começou a lembrar.
A confusão virou horror.
— O que… aconteceu…?
Angelina hesitou.
— Você estava possuída.
O silêncio caiu entre elas.
Pesado.
Muito pesado.
Miller sentou-se lentamente.
— Eu… lembro de algumas coisas.
Angelina sentiu o coração apertar.
— Lembra?
Miller olhou para as próprias mãos.
— Eu lembro do sangue.
Angelina não sabia o que dizer.
Miller levantou os olhos lentamente.
— Eu matei aquelas pessoas.
Angelina balançou a cabeça.
— Não foi você.
— Foi meu corpo!
A voz de Miller estava quebrada.
— Eu senti… eu vi…
Ela começou a tremer.
— Eu vi quando matei eles.
Angelina tentou segurá-la.
— Miller…
Mas ela puxou o braço.
— Não!
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.
— Isso aconteceu por sua causa.
A frase atingiu Angelina como uma faca.
— Miller…
— Se você não tivesse começado essa investigação…
Angelina sentiu o peito apertar.
— Eu só queria ajudar Odette.
Miller riu amargamente.
— E olha o que aconteceu.
Silêncio.
Longo.
Doloroso.
— Pessoas morreram — disse Miller.
Angelina abaixou o olhar.
— Eu sei.
— Eu matei elas.
— Não foi você!
Miller levantou-se.
Os olhos vermelhos.
— Foi meu corpo!
Angelina não conseguiu responder.
Porque no fundo…
Ela também sentia culpa.
Miller virou-se.
Caminhou alguns passos pela igreja.
— Eu não sei se consigo olhar para você da mesma forma agora.
Angelina sentiu lágrimas escorrerem.
— Miller…
— Eu quase te matei.
O silêncio caiu novamente.
O padre observava em silêncio.
Sabendo que aquilo não era uma batalha espiritual.
Era algo mais difícil.
Culpa.
Medo.
E feridas que talvez demorassem muito tempo para cicatrizar.
Angelina finalmente falou.
A voz baixa.
— Eu vou descobrir a verdade.
Miller olhou para ela.
— Por quê?
Angelina respirou fundo.
— Porque se eu parar agora…
Então todas aquelas mortes…
não terão significado nenhum.
Miller ficou em silêncio.
O clima entre elas estava quebrado.
Tenso.
Frágil.
Mas no fundo de seus olhos…
Ainda havia algo.
Amizade.
Mesmo ferida.
E talvez…
A luta delas ainda não tivesse terminado.