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1074 Words
Depois da Libertação A igreja apareceu no horizonte como uma sombra solitária contra o céu cinzento da madrugada. Angelina viu primeiro o topo da torre. Uma cruz escura recortada contra as nuvens pesadas. Ela soltou um suspiro que parecia estar preso em seu peito há horas. — Finalmente… O GPS anunciou calmamente: "Você chegou ao seu destino." Angelina virou o carro para a pequena estrada de terra que levava até a igreja. O lugar era isolado. Muito isolado. Não havia casas por perto. Apenas campos escuros e árvores espalhadas que balançavam lentamente com o vento. A igreja era antiga. De pedra. As paredes gastas pelo tempo. Algumas janelas estreitas. Uma porta de madeira pesada. Angelina estacionou o carro bem em frente. Por alguns segundos, ficou parada. Suas mãos ainda tremiam no volante. Ela olhou pelo retrovisor. Miller estava inconsciente. Mas respirava. Angelina respirou fundo. — Aguenta mais um pouco… Ela saiu do carro. O ar frio da madrugada atingiu seu rosto. O silêncio do lugar era quase absoluto. Nem mesmo grilos cantavam. Apenas o vento. Angelina caminhou rapidamente até a porta da igreja. Bateu. Nada. Bateu novamente. Mais forte. — Por favor, por favor … — murmurou, quase choramingando Silêncio. Ela bateu pela terceira vez. Com desespero. — Alguém! Por alguns segundos, nada aconteceu. Então… Ela ouviu passos. Lentos. Do outro lado da porta. A madeira rangeu. E a porta se abriu. Um homem idoso apareceu. Usava roupas simples de sacerdote. Cabelos brancos. Olhos atentos. — Filha…? Angelina quase desabou de alívio. — Padre… eu preciso de ajuda. O homem observou o rosto dela. Depois olhou para o carro. — O que aconteceu? Angelina engoliu seco. — Minha amiga… ela está possuída. O padre ficou em silêncio por alguns segundos. Estudando o rosto dela. Como se estivesse tentando decidir se aquilo era loucura ou desespero. Angelina falou novamente. — Por favor… eu sei como isso soa… mas eu preciso de ajuda. O padre suspirou. Então disse calmamente: — Traga-a para dentro. Angelina correu até o carro. Desamarrou Miller. Depois a puxou para fora. Ainda estava inconsciente. O padre ajudou a carregá-la. Juntos, levaram Miller para dentro da igreja. O interior era simples. Bancos de madeira. Velas. Um altar antigo. O padre indicou um banco próximo ao altar. — Deite-a aqui. Angelina obedeceu. O padre aproximou-se lentamente. Observou Miller. Depois olhou para Angelina. — Conte-me tudo. E Angelina contou. Tudo. Odette. O quarto secreto. Os assassinatos. A possessão. A viagem. Quando terminou… O padre estava em silêncio. O rosto sério. — Há forças antigas em ação aqui — disse finalmente. Angelina sentiu um nó no estômago. — O senhor pode ajudar? O padre assentiu lentamente. — Eu posso tentar. Ele começou a preparar algumas coisas. Velas. Água benta. Um pequeno crucifixo. Angelina observava em silêncio. O coração batendo forte. — Filha — disse o padre — isso pode ser difícil. — Eu sei. — E pode não terminar rapidamente. Angelina apenas assentiu. — Eu só quero minha amiga de volta. O padre colocou o crucifixo nas mãos. — Então vamos começar. --- O Exorcismo As velas foram acesas. A igreja ficou iluminada apenas pela luz tremulante delas. O padre começou a rezar. As palavras em latim ecoavam pelo espaço silencioso. Angelina ficou ao lado. Observando. Com medo. Miller começou a se mexer. Primeiro lentamente. Depois com mais força. Seus olhos abriram. Mas novamente… Não eram os olhos dela. A entidade estava de volta. O sorriso apareceu. — Você trouxe ajuda… A voz era baixa. O padre não parou de rezar. — Em nome de Deus… Miller começou a rir. — Ele não pode me expulsar. O padre levantou o crucifixo. — Saia deste corpo. Miller gritou. O corpo dela se contorceu violentamente. As velas tremiam. O ar parecia pesado. Angelina segurava as mãos dela. — Aguenta, Miller! A entidade gritou novamente. — Ela é minha! O padre aspergiu água benta. Miller soltou um grito terrível. — NÃO! As orações continuaram. Minuto após minuto. O confronto parecia eterno. Então… De repente… Miller soltou um último grito. Um grito que ecoou pela igreja inteira. E então… Silêncio. O corpo dela caiu imóvel. O padre abaixou lentamente o crucifixo. Respirando fundo. — Acabou. Angelina olhou para Miller. — Miller…? Os olhos dela abriram. Desta vez… Eram os olhos dela. Cansados. Confusos. Humanos. — Angie…? Angelina começou a chorar. — Você voltou. Mas o olhar de Miller mudou. Quando ela começou a lembrar. A confusão virou horror. — O que… aconteceu…? Angelina hesitou. — Você estava possuída. O silêncio caiu entre elas. Pesado. Muito pesado. Miller sentou-se lentamente. — Eu… lembro de algumas coisas. Angelina sentiu o coração apertar. — Lembra? Miller olhou para as próprias mãos. — Eu lembro do sangue. Angelina não sabia o que dizer. Miller levantou os olhos lentamente. — Eu matei aquelas pessoas. Angelina balançou a cabeça. — Não foi você. — Foi meu corpo! A voz de Miller estava quebrada. — Eu senti… eu vi… Ela começou a tremer. — Eu vi quando matei eles. Angelina tentou segurá-la. — Miller… Mas ela puxou o braço. — Não! Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. — Isso aconteceu por sua causa. A frase atingiu Angelina como uma faca. — Miller… — Se você não tivesse começado essa investigação… Angelina sentiu o peito apertar. — Eu só queria ajudar Odette. Miller riu amargamente. — E olha o que aconteceu. Silêncio. Longo. Doloroso. — Pessoas morreram — disse Miller. Angelina abaixou o olhar. — Eu sei. — Eu matei elas. — Não foi você! Miller levantou-se. Os olhos vermelhos. — Foi meu corpo! Angelina não conseguiu responder. Porque no fundo… Ela também sentia culpa. Miller virou-se. Caminhou alguns passos pela igreja. — Eu não sei se consigo olhar para você da mesma forma agora. Angelina sentiu lágrimas escorrerem. — Miller… — Eu quase te matei. O silêncio caiu novamente. O padre observava em silêncio. Sabendo que aquilo não era uma batalha espiritual. Era algo mais difícil. Culpa. Medo. E feridas que talvez demorassem muito tempo para cicatrizar. Angelina finalmente falou. A voz baixa. — Eu vou descobrir a verdade. Miller olhou para ela. — Por quê? Angelina respirou fundo. — Porque se eu parar agora… Então todas aquelas mortes… não terão significado nenhum. Miller ficou em silêncio. O clima entre elas estava quebrado. Tenso. Frágil. Mas no fundo de seus olhos… Ainda havia algo. Amizade. Mesmo ferida. E talvez… A luta delas ainda não tivesse terminado.
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