O som do rugido distante desapareceu tão rapidamente quanto havia surgido.
Mesmo assim, ninguém falou por alguns segundos.
A floresta parecia prender a respiração novamente.
Angelina sentia o coração bater com força contra o peito, enquanto tentava entender o que aquilo significava.
Ela tinha selado a criatura.
Ela tinha visto o círculo de pedras brilhar.
A rachadura na terra havia fechado.
Mas aquele som…
Aquele rugido profundo…
Não era imaginação.
Miller foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Eu juro que ouvi isso.
Ela olhou para Daniel, como se quisesse confirmação.
— Diga que também ouviu.
Daniel assentiu lentamente.
— Ouvi.
Ele estava olhando para o chão da trilha, como se estivesse tentando sentir algo através da terra.
— E não foi um eco.
Angelina franziu a testa.
— Então o que foi?
Daniel respirou fundo antes de responder.
— Algo que foi acordado não volta a dormir tão facilmente.
Miller cruzou os braços.
— Essa frase definitivamente não ajuda.
Angelina olhou para Daniel com mais atenção.
— Você disse que mora na floresta.
— Há quanto tempo?
— Quase sete anos — respondeu ele.
Miller arqueou uma sobrancelha.
— Sete anos vivendo sozinho no meio de árvores?
Daniel deu um pequeno sorriso.
— Não exatamente sozinho.
— A floresta tem companhia suficiente.
Miller murmurou:
— Isso não é reconfortante.
Angelina ignorou o comentário e fez outra pergunta.
— Por que você veio morar aqui?
Daniel demorou alguns segundos antes de responder.
Seu olhar percorreu as árvores ao redor, como se estivesse avaliando o quanto deveria revelar.
— Eu estava pesquisando.
— História local.
— Tradições antigas.
Miller fez um gesto exagerado com as mãos.
— Claro.
— Todo mundo que pesquisa história acaba vivendo numa cabana no meio da floresta.
Daniel riu baixinho.
— Nem todos.
Ele voltou o olhar para Angelina.
— Mas alguns descobrem coisas que não deveriam existir.
Angelina sentiu um arrepio.
— Como o culto.
Daniel assentiu.
— Como o culto.
Eles começaram a caminhar novamente pela trilha.
Agora o ritmo era mais lento.
O cansaço começava a aparecer, misturado com a tensão do que tinham vivido.
O carro ainda estava longe.
A floresta parecia interminável.
Depois de alguns minutos, Miller falou novamente.
— Ok.
— Então vamos esclarecer uma coisa.
Ela apontou para Daniel.
— Você sabia do culto.
Ele assentiu.
— Sabia.
— Você sabia da criatura.
— Sim.
— E sabia que existia uma guardiã.
Daniel olhou rapidamente para Angelina.
— Sabia da lenda.
Miller suspirou dramaticamente.
— Claro que sabia.
Angelina pensava em algo diferente.
— Você disse que estava pesquisando.
— Para quem?
Daniel respondeu imediatamente.
— Para mim mesmo.
Mas a resposta pareceu incompleta.
Angelina percebeu.
— Só para você?
Daniel hesitou.
— Inicialmente… não.
Miller parou de andar.
— Aí está.
— Sabia que tinha mais história aí.
Daniel suspirou.
— Eu trabalhava para uma fundação.
Angelina franziu a testa.
— Que fundação?
— Fundação Arken.
O nome não significava nada para elas.
Miller falou primeiro.
— Nunca ouvi falar.
Daniel respondeu:
— Porque não é exatamente pública.
Angelina ficou em silêncio por alguns segundos.
— O que essa fundação faz?
Daniel respondeu com calma:
— Pesquisa fenômenos que a maioria das pessoas prefere fingir que não existem.
Miller piscou.
— Você quer dizer…
— Coisas sobrenaturais?
Daniel assentiu.
— Algo assim.
Angelina sentiu um calafrio.
— Então você veio aqui investigar a criatura.
Daniel respondeu:
— Sim.
— Mas encontrei algo muito maior.
Miller cruzou os braços novamente.
— Sempre algo maior.
Daniel continuou:
— O culto.
— A história do sacrifício.
— E a linhagem da guardiã.
Ele olhou para Angelina.
— Sua família.
Angelina ficou em silêncio.
Era estranho ouvir alguém falar sobre sua família como se fossem personagens de uma lenda antiga.
— O que aconteceu com a fundação? — perguntou ela.
Daniel respondeu:
— Eles queriam estudar a criatura.
— Não impedir.
Miller soltou um assobio baixo.
— Isso soa familiar.
Angelina lembrou imediatamente das palavras de Arthur.
"O mundo precisa dele."
Ela sentiu um aperto no estômago.
— Eles queriam libertá-lo.
Daniel assentiu lentamente.
— Alguns acreditam que criaturas antigas possuem poder… que pode ser controlado.
Miller riu.
— Sim.
— Porque humanos sempre controlam bem coisas gigantes e perigosas.
Daniel não respondeu.
Eles continuaram caminhando.
Depois de alguns minutos, as árvores começaram a ficar menos densas.
A trilha se tornava mais clara.
O carro estava próximo.
Mas antes que chegassem à borda da floresta, Angelina parou.
— Esperem.
Miller virou-se.
— O que foi agora?
Angelina estava olhando para o chão novamente.
Mas desta vez não eram pegadas.
Era algo diferente.
Uma raiz enorme emergia da terra ao lado da trilha.
Mas a raiz estava… quebrada.
Não cortada.
Quebrada como se algo extremamente pesado tivesse passado por cima.
Daniel também viu.
Seu rosto ficou sério.
— Isso não estava assim antes.
Miller murmurou:
— Por favor não diga que—
Daniel completou:
— Algo saiu do círculo.
O silêncio caiu novamente.
Angelina sentiu o coração acelerar.
— Mas a criatura estava presa.
Daniel respondeu:
— A maior parte dela.
Miller arregalou os olhos.
— A maior parte?!
Daniel apontou para a raiz quebrada.
— Criaturas antigas não são apenas corpo.
— Algumas partes podem se mover antes do despertar completo.
Angelina olhou para a floresta profunda.
Uma sensação estranha percorreu seu corpo.
Como se algo estivesse observando.
Miller também percebeu.
— Vamos para o carro.
— Agora.
Eles caminharam mais rápido.
A borda da floresta apareceu finalmente.
A luz do sol parecia mais forte ali.
Mais segura.
O carro de Miller estava exatamente onde haviam deixado.
Quando chegaram perto, Miller abriu o porta-malas rapidamente.
— Entrar.
— Eu não quero ficar aqui mais um segundo.
Angelina entrou no banco do passageiro.
Daniel ficou ao lado do carro por um instante, olhando para a floresta.
Angelina perguntou:
— Você vem?
Ele respondeu:
— Sim.
Daniel entrou no banco de trás.
Miller ligou o motor.
O carro arrancou pela estrada de terra.
Por alguns minutos ninguém falou.
A floresta começou a ficar para trás.
Mas a sensação de perigo não desaparecia.
Angelina finalmente quebrou o silêncio.
— O que acontece agora?
Daniel respondeu:
— Agora precisamos descobrir duas coisas.
— Primeiro: o que exatamente saiu daquele círculo.
— Segundo: o que Arthur Valen vai fazer a seguir.
Miller suspirou.
— Porque eu tenho certeza de que ele não desistiu.
Daniel concordou.
— Não.
Angelina olhou pela janela.
A cidade aparecia ao longe.
As casas.
As ruas.
Tudo parecia normal.
Mas ela sabia que não era.
Algo antigo havia despertado.
Mesmo que apenas parcialmente.
E agora…
A cidade inteira poderia estar em perigo.
Ela fechou os olhos por um momento.
Sentindo aquela energia estranha ainda vibrando em suas veias.
A energia que despertava sempre que a criatura se movia.
A energia da linhagem da guardiã.
Quando abriu os olhos novamente, falou com firmeza:
— Então vamos descobrir a verdade.
Miller sorriu levemente.
— Ótimo.
— Porque aparentemente nossas vidas normais acabaram.
Daniel respondeu calmamente:
— Na verdade…
Ele olhou para a cidade à frente.
— Acho que elas nunca foram normais.
O carro continuou pela estrada.
Sem que nenhum deles percebesse que, no espelho retrovisor…
Algo se movia entre as árvores.
Uma sombra enorme.
Lenta.
Observando.
E esperando.
Porque o despertar verdadeiro…
Ainda estava por vir.