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1223 Words
O som do rugido distante desapareceu tão rapidamente quanto havia surgido. Mesmo assim, ninguém falou por alguns segundos. A floresta parecia prender a respiração novamente. Angelina sentia o coração bater com força contra o peito, enquanto tentava entender o que aquilo significava. Ela tinha selado a criatura. Ela tinha visto o círculo de pedras brilhar. A rachadura na terra havia fechado. Mas aquele som… Aquele rugido profundo… Não era imaginação. Miller foi a primeira a quebrar o silêncio. — Eu juro que ouvi isso. Ela olhou para Daniel, como se quisesse confirmação. — Diga que também ouviu. Daniel assentiu lentamente. — Ouvi. Ele estava olhando para o chão da trilha, como se estivesse tentando sentir algo através da terra. — E não foi um eco. Angelina franziu a testa. — Então o que foi? Daniel respirou fundo antes de responder. — Algo que foi acordado não volta a dormir tão facilmente. Miller cruzou os braços. — Essa frase definitivamente não ajuda. Angelina olhou para Daniel com mais atenção. — Você disse que mora na floresta. — Há quanto tempo? — Quase sete anos — respondeu ele. Miller arqueou uma sobrancelha. — Sete anos vivendo sozinho no meio de árvores? Daniel deu um pequeno sorriso. — Não exatamente sozinho. — A floresta tem companhia suficiente. Miller murmurou: — Isso não é reconfortante. Angelina ignorou o comentário e fez outra pergunta. — Por que você veio morar aqui? Daniel demorou alguns segundos antes de responder. Seu olhar percorreu as árvores ao redor, como se estivesse avaliando o quanto deveria revelar. — Eu estava pesquisando. — História local. — Tradições antigas. Miller fez um gesto exagerado com as mãos. — Claro. — Todo mundo que pesquisa história acaba vivendo numa cabana no meio da floresta. Daniel riu baixinho. — Nem todos. Ele voltou o olhar para Angelina. — Mas alguns descobrem coisas que não deveriam existir. Angelina sentiu um arrepio. — Como o culto. Daniel assentiu. — Como o culto. Eles começaram a caminhar novamente pela trilha. Agora o ritmo era mais lento. O cansaço começava a aparecer, misturado com a tensão do que tinham vivido. O carro ainda estava longe. A floresta parecia interminável. Depois de alguns minutos, Miller falou novamente. — Ok. — Então vamos esclarecer uma coisa. Ela apontou para Daniel. — Você sabia do culto. Ele assentiu. — Sabia. — Você sabia da criatura. — Sim. — E sabia que existia uma guardiã. Daniel olhou rapidamente para Angelina. — Sabia da lenda. Miller suspirou dramaticamente. — Claro que sabia. Angelina pensava em algo diferente. — Você disse que estava pesquisando. — Para quem? Daniel respondeu imediatamente. — Para mim mesmo. Mas a resposta pareceu incompleta. Angelina percebeu. — Só para você? Daniel hesitou. — Inicialmente… não. Miller parou de andar. — Aí está. — Sabia que tinha mais história aí. Daniel suspirou. — Eu trabalhava para uma fundação. Angelina franziu a testa. — Que fundação? — Fundação Arken. O nome não significava nada para elas. Miller falou primeiro. — Nunca ouvi falar. Daniel respondeu: — Porque não é exatamente pública. Angelina ficou em silêncio por alguns segundos. — O que essa fundação faz? Daniel respondeu com calma: — Pesquisa fenômenos que a maioria das pessoas prefere fingir que não existem. Miller piscou. — Você quer dizer… — Coisas sobrenaturais? Daniel assentiu. — Algo assim. Angelina sentiu um calafrio. — Então você veio aqui investigar a criatura. Daniel respondeu: — Sim. — Mas encontrei algo muito maior. Miller cruzou os braços novamente. — Sempre algo maior. Daniel continuou: — O culto. — A história do sacrifício. — E a linhagem da guardiã. Ele olhou para Angelina. — Sua família. Angelina ficou em silêncio. Era estranho ouvir alguém falar sobre sua família como se fossem personagens de uma lenda antiga. — O que aconteceu com a fundação? — perguntou ela. Daniel respondeu: — Eles queriam estudar a criatura. — Não impedir. Miller soltou um assobio baixo. — Isso soa familiar. Angelina lembrou imediatamente das palavras de Arthur. "O mundo precisa dele." Ela sentiu um aperto no estômago. — Eles queriam libertá-lo. Daniel assentiu lentamente. — Alguns acreditam que criaturas antigas possuem poder… que pode ser controlado. Miller riu. — Sim. — Porque humanos sempre controlam bem coisas gigantes e perigosas. Daniel não respondeu. Eles continuaram caminhando. Depois de alguns minutos, as árvores começaram a ficar menos densas. A trilha se tornava mais clara. O carro estava próximo. Mas antes que chegassem à borda da floresta, Angelina parou. — Esperem. Miller virou-se. — O que foi agora? Angelina estava olhando para o chão novamente. Mas desta vez não eram pegadas. Era algo diferente. Uma raiz enorme emergia da terra ao lado da trilha. Mas a raiz estava… quebrada. Não cortada. Quebrada como se algo extremamente pesado tivesse passado por cima. Daniel também viu. Seu rosto ficou sério. — Isso não estava assim antes. Miller murmurou: — Por favor não diga que— Daniel completou: — Algo saiu do círculo. O silêncio caiu novamente. Angelina sentiu o coração acelerar. — Mas a criatura estava presa. Daniel respondeu: — A maior parte dela. Miller arregalou os olhos. — A maior parte?! Daniel apontou para a raiz quebrada. — Criaturas antigas não são apenas corpo. — Algumas partes podem se mover antes do despertar completo. Angelina olhou para a floresta profunda. Uma sensação estranha percorreu seu corpo. Como se algo estivesse observando. Miller também percebeu. — Vamos para o carro. — Agora. Eles caminharam mais rápido. A borda da floresta apareceu finalmente. A luz do sol parecia mais forte ali. Mais segura. O carro de Miller estava exatamente onde haviam deixado. Quando chegaram perto, Miller abriu o porta-malas rapidamente. — Entrar. — Eu não quero ficar aqui mais um segundo. Angelina entrou no banco do passageiro. Daniel ficou ao lado do carro por um instante, olhando para a floresta. Angelina perguntou: — Você vem? Ele respondeu: — Sim. Daniel entrou no banco de trás. Miller ligou o motor. O carro arrancou pela estrada de terra. Por alguns minutos ninguém falou. A floresta começou a ficar para trás. Mas a sensação de perigo não desaparecia. Angelina finalmente quebrou o silêncio. — O que acontece agora? Daniel respondeu: — Agora precisamos descobrir duas coisas. — Primeiro: o que exatamente saiu daquele círculo. — Segundo: o que Arthur Valen vai fazer a seguir. Miller suspirou. — Porque eu tenho certeza de que ele não desistiu. Daniel concordou. — Não. Angelina olhou pela janela. A cidade aparecia ao longe. As casas. As ruas. Tudo parecia normal. Mas ela sabia que não era. Algo antigo havia despertado. Mesmo que apenas parcialmente. E agora… A cidade inteira poderia estar em perigo. Ela fechou os olhos por um momento. Sentindo aquela energia estranha ainda vibrando em suas veias. A energia que despertava sempre que a criatura se movia. A energia da linhagem da guardiã. Quando abriu os olhos novamente, falou com firmeza: — Então vamos descobrir a verdade. Miller sorriu levemente. — Ótimo. — Porque aparentemente nossas vidas normais acabaram. Daniel respondeu calmamente: — Na verdade… Ele olhou para a cidade à frente. — Acho que elas nunca foram normais. O carro continuou pela estrada. Sem que nenhum deles percebesse que, no espelho retrovisor… Algo se movia entre as árvores. Uma sombra enorme. Lenta. Observando. E esperando. Porque o despertar verdadeiro… Ainda estava por vir.
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