O vento soprava suavemente entre as lápides antigas do cemitério.
A terra ainda estava fresca sobre o pequeno túmulo recém-fechado ao lado de Ana. Angelina permaneceu ajoelhada por alguns instantes, olhando para o lugar onde havia colocado os ossos de Odette.
O silêncio ali era diferente.
Não era o silêncio pesado que acompanhava a presença de espíritos inquietos.
Era um silêncio tranquilo.
Como se algo finalmente tivesse sido colocado em ordem.
Miller passou a mão no rosto, ainda respirando com dificuldade depois de tudo que haviam vivido.
— Você sentiu isso também? — perguntou ela.
Angelina assentiu lentamente.
— Sim.
Ela passou os dedos sobre a lápide de pedra de Ana.
— Odette… finalmente descansou.
Miller olhou ao redor do cemitério.
As árvores altas se inclinavam suavemente com o vento noturno. A lua iluminava as lápides, criando sombras longas que pareciam caminhar lentamente entre os túmulos.
Por alguns segundos, nenhuma das duas falou.
A tensão que haviam carregado por tantos dias parecia ter diminuído.
Mas não desaparecido completamente.
Miller foi a primeira a dizer o que ambas estavam pensando.
— Você acha que acabou?
Angelina demorou para responder.
Ela observou o lugar onde Odette havia aparecido pela última vez, sorrindo antes de desaparecer.
— Não.
Miller suspirou.
— Eu sabia.
Angelina levantou-se devagar, limpando a terra das mãos.
— Odette estava presa a algo maior.
— Algo que começou muito antes dela morrer.
Miller cruzou os braços.
— O culto.
Angelina assentiu.
— Sim.
O vento soprou novamente.
Mais forte dessa vez.
As folhas das árvores começaram a se agitar.
Algo no ambiente parecia… errado.
Angelina franziu a testa.
— Você está sentindo isso?
Miller ficou alerta imediatamente.
— Sentindo o quê?
Angelina olhou ao redor.
— O cemitério está… estranho.
O vento cessou subitamente.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Profundo.
Como se o mundo inteiro tivesse parado de respirar.
Então…
Um som.
Um galho quebrando.
As duas se viraram imediatamente.
— Tem alguém aí? — perguntou Miller.
Nenhuma resposta.
Apenas o som das folhas sendo empurradas pelo vento.
Angelina apertou os olhos tentando enxergar além das sombras.
Foi então que ela viu.
Uma figura.
Parada entre as árvores na entrada do cemitério.
Alta.
Imóvel.
Observando.
— Miller…
— Eu estou vendo.
A figura não se movia.
Mas algo nela parecia… errado.
O corpo estava coberto por um manto escuro.
O rosto completamente oculto.
Miller deu um passo para trás.
— Eu não gosto disso.
Angelina sentiu um arrepio subir pela espinha.
— Nem eu.
A figura levantou lentamente o braço.
Apontando diretamente para elas.
Então outra figura surgiu ao lado da primeira.
Depois uma terceira.
Miller sussurrou:
— Angie…
— Eu sei.
Mais sombras começaram a aparecer entre as árvores.
Observando.
Em silêncio.
— Eles sabem — murmurou Angelina.
— Sabem o quê?
Angelina respondeu em voz baixa:
— Que libertamos Odette.
Uma das figuras deu um passo à frente.
A lua iluminou parcialmente o rosto.
Um homem.
Muito velho.
A pele pálida.
Os olhos escuros demais.
Ele falou com uma voz rouca.
— Vocês cometeram um erro.
Miller apertou o braço de Angelina.
— Quem são vocês?
O homem ignorou a pergunta.
— A menina era necessária.
Angelina sentiu a raiva subir dentro de si.
— Ela era uma criança.
— Vocês a mataram.
O homem inclinou levemente a cabeça.
— Foi um sacrifício.
Miller explodiu:
— Sacrifício?!
Outras vozes surgiram atrás dele.
Homens e mulheres.
Todos vestidos com roupas escuras.
— O ritual precisava dela.
Angelina deu um passo à frente.
— E agora ela está livre.
O homem sorriu.
Um sorriso frio.
— Por enquanto.
O ar ao redor do cemitério ficou gelado.
Angelina sentiu algo estranho dentro de si.
A mesma energia que havia sentido no porão.
O poder de sua linhagem despertando novamente.
O homem percebeu.
Seu sorriso desapareceu.
— Então é verdade.
Angelina franziu a testa.
— O quê?
Ele respondeu lentamente.
— A descendente.
Miller olhou para Angelina.
— Angie…
O homem continuou.
— Nós pensamos que a linhagem havia desaparecido.
Angelina sentiu o coração acelerar.
— Que linhagem?
O homem não respondeu.
Em vez disso, fez um gesto.
As pessoas atrás dele começaram a avançar.
Miller deu um passo para trás.
— Eu acho que devemos ir.
Angelina não discutiu.
— Corre.
As duas correram entre as lápides.
O carro estava estacionado perto da entrada do cemitério.
Mas as figuras estavam bloqueando o caminho.
Miller olhou ao redor.
— Pelo outro lado!
Elas correram para um portão lateral.
Os galhos das árvores arranhavam seus braços enquanto avançavam pela vegetação.
As vozes atrás delas começaram a se aproximar.
— Não deixem escapar!
Angelina sentiu o coração martelar no peito.
Ela não olhou para trás.
Apenas correu.
Finalmente alcançaram a estrada.
O carro estava ali.
Angelina abriu a porta rapidamente.
— Entra!
Miller entrou no banco do passageiro.
O motor rugiu.
Angelina pisou fundo no acelerador.
O carro saiu do cemitério levantando poeira.
Pelo retrovisor, Miller viu as figuras paradas na entrada.
Observando.
Sem tentar seguir.
Isso a assustou ainda mais.
— Eles não estão vindo atrás da gente.
Angelina franziu a testa.
— Por quê?
Miller olhou para trás novamente.
— Porque eles sabem onde você mora.
O silêncio dentro do carro foi pesado.
Angelina apertou o volante.
— Eles querem algo de mim.
Miller respondeu:
— Claro que querem.
— Você acabou de arruinar o ritual deles.
Angelina pensou nas palavras do homem.
"A descendente."
— Miller…
— Sim?
— Acho que eles sabem algo sobre minha família.
Miller soltou uma risada nervosa.
— Eu diria que sim.
A estrada escura parecia infinita.
Mas finalmente as luzes da cidade apareceram ao longe.
Angelina diminuiu a velocidade.
O coração ainda batia forte.
— Precisamos descobrir quem eles são.
Miller assentiu.
— E rápido.
Angelina pensou por um momento.
Então lembrou de algo.
— A biblioteca da universidade.
— O que tem lá?
— Registros antigos da cidade.
Miller sorriu levemente.
— Então amanhã vamos fazer pesquisa histórica.
Angelina respondeu:
— Se eles nos deixarem vivas até lá.
Naquele momento…
Muito longe dali.
Na floresta que cercava o cemitério.
As figuras encapuzadas ainda estavam reunidas.
O homem velho caminhou lentamente até o túmulo de Odette.
A terra recém-colocada ainda estava úmida.
Ele colocou a mão sobre ela.
— Tarde demais.
Uma das mulheres perguntou:
— O que faremos agora?
O homem levantou os olhos para a lua.
— O ritual ainda pode ser completado.
— Mas precisamos dela.
— A descendente.
A mulher hesitou.
— E se ela resistir?
O homem sorriu novamente.
Um sorriso frio.
— Todos resistem no começo.
Ele se virou lentamente.
— Preparem o círculo.
— A próxima lua cheia está próxima.
O vento atravessou o cemitério novamente.
E algo nas profundezas da floresta respondeu.
Um som baixo.
Antigo.
Como uma criatura despertando depois de séculos de sono.
E naquele momento…
O verdadeiro terror apenas começava.