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1003 Words
Os Nomes Esquecidos A noite caiu pesada sobre o campus. O dormitório universitário estava silencioso, exceto pelo som distante de passos ocasionais nos corredores e o zumbido baixo das lâmpadas fluorescentes. Angelina estava sentada na cama, segurando a fotografia que encontraram no cemitério. A imagem de Ana e Odette parecia mais perturbadora agora. Durante o dia, parecia apenas um retrato antigo. Mas à noite… Parecia quase viva. — Você ainda está olhando para essa foto? — perguntou Miller, que estava sentada à mesa com o laptop aberto. Angelina suspirou. — Não consigo parar. Miller girou a cadeira. — Você sabe o que me preocupa? — O quê? — O fato de que alguém escreveu que “levaram Odette”. Angelina assentiu. — Sim. — Isso significa que ela não morreu de doença. Angelina engoliu em seco. — Significa que alguém fez algo com ela. Miller fechou o laptop por um momento. — E se não foi só ela? Angelina levantou os olhos. — Como assim? Miller abriu novamente o computador. — Eu fiz algumas pesquisas rápidas. Ela virou a tela na direção de Angelina. Era um arquivo digitalizado de um jornal antigo. A manchete dizia: “MENINA DESAPARECE EM MISTERIOSAS CIRCUNSTÂNCIAS” Angelina aproximou-se. — Essa é Odette? — Não. Angelina franziu a testa. — Então quem é? Miller ampliou o artigo. — Uma menina chamada Elise. Angelina leu rapidamente. — Ela desapareceu em 1950. Miller assentiu. — Dois anos depois de Odette. Angelina sentiu o coração acelerar. — Então houve mais casos. Miller abriu outro arquivo. Outra manchete apareceu. “SEGUNDA CRIANÇA DESAPARECE NA REGIÃO” Angelina ficou imóvel. — Quantas? Miller respirou fundo. — Até agora… encontrei quatro. O silêncio tomou conta do quarto. Angelina voltou lentamente para a cama. — Isso não pode ser coincidência. Miller concordou. — Não é. Angelina observou novamente a fotografia. — Todas meninas? Miller assentiu. — Sim. Angelina sentiu um arrepio subir pela espinha. — Isso é pior do que imaginávamos. Miller apoiou os cotovelos na mesa. — Muito pior. Angelina ficou em silêncio por alguns minutos. Então algo começou a incomodá-la. Um pensamento estranho. Uma sensação. Ela levantou-se novamente. — Miller… — Sim? — Onde aconteceram esses desaparecimentos? Miller abriu o mapa novamente. — Todos na mesma região. Ela ampliou a tela. Angelina aproximou-se. — Espera. Ela apontou para um nome no mapa. — Essa rua… Miller olhou. — Rua Saint Claire. Angelina sentiu o estômago apertar. — Essa é a rua da casa dos meus pais. Miller piscou. — O quê? Angelina apontou novamente. — Minha família mora ali desde que eu era criança. Miller ficou em silêncio por alguns segundos. — Angie… — Sim? — Isso pode ser coincidência. Angelina balançou a cabeça lentamente. — Eu não acho. O quarto ficou pesado novamente. Miller fechou o laptop devagar. — Ok. — Ok o quê? — Precisamos investigar mais. Angelina sentou-se na cama. — Como? Miller pensou por alguns segundos. — Arquivos da cidade. — Registros policiais. — E talvez… Ela hesitou. — Talvez sua própria família. Angelina sentiu um frio atravessar o corpo. — Você acha que eles sabem de algo? Miller deu de ombros. — Se esses casos aconteceram perto da casa deles… — Talvez. Angelina ficou em silêncio. A ideia era perturbadora. Mas algo dentro dela dizia que aquilo fazia sentido. De repente… A luz do quarto piscou. Miller levantou a cabeça. — Isso foi estranho. Angelina já estava olhando para o espelho do quarto. O mesmo tipo de espelho em que havia visto Odette pela primeira vez. O vidro começou a ficar embaçado. Como se alguém estivesse respirando do outro lado. Angelina levantou-se lentamente. — Angie… — disse Miller. Mas Angelina já estava caminhando em direção ao espelho. A névoa no vidro começou a formar letras. Lentamente. Como dedos invisíveis escrevendo. Miller levantou-se também. — Você está vendo isso? Angelina assentiu. As palavras apareceram claramente. “PROCURE NOS REGISTROS.” Angelina sentiu o coração acelerar. — Odette. O espelho voltou ao normal. A névoa desapareceu. O quarto ficou silencioso novamente. Miller olhou para Angelina. — Ok. — Isso respondeu nossa pergunta. Angelina respirou fundo. — Os registros da cidade. — Sim. Miller pegou o casaco. — Vamos amanhã. Angelina franziu a testa. — Amanhã? Miller sorriu. — Quanto mais rápido melhor. Angelina olhou novamente para a fotografia. — Odette esperou décadas. — Podemos esperar uma noite. Mas naquela mesma madrugada… Angelina teve outro sonho. Ela estava andando por uma casa antiga. As paredes eram de madeira escura. Os corredores longos e estreitos. Tudo parecia velho. Muito velho. Ela ouviu passos. E então ouviu uma voz. Uma criança chorando. Angelina seguiu o som. O choro vinha de uma porta fechada. Ela abriu. E viu Odette. A menina estava sentada no chão. Abraçando os joelhos. — Odette… — sussurrou Angelina. A menina levantou o rosto. Os olhos estavam cheios de lágrimas. — Eles voltaram. Angelina aproximou-se. — Quem? Odette apontou para a escuridão atrás dela. — A família. Angelina sentiu o coração parar por um instante. — Que família? Odette abriu a boca para responder… Mas naquele momento… Angelina acordou. Ela sentou-se na cama, ofegante. O quarto ainda estava escuro. Miller dormia profundamente na outra cama. Angelina passou a mão pelo rosto. — A família… Ela sussurrou as palavras lentamente. Então algo gelado percorreu sua espinha. Porque naquele instante… Uma lembrança antiga voltou à sua mente. Uma conversa que ouvira quando era criança. Seus pais discutindo na sala. Uma frase que ela nunca havia entendido. Até agora. “Não podemos falar sobre o que aconteceu com aquelas crianças.” Angelina ficou completamente imóvel na cama. Porque pela primeira vez… Ela começou a se perguntar se o mistério de Odette… Não era apenas um crime antigo. Mas algo muito mais sombrio. Algo que talvez estivesse escondido… Dentro da própria história de sua família. E se isso fosse verdade… Angelina não sabia o que seria mais assustador. Descobrir o que aconteceu com Odette. Ou descobrir que sua própria família… Poderia estar envolvida.
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