Os Nomes Esquecidos
A noite caiu pesada sobre o campus.
O dormitório universitário estava silencioso, exceto pelo som distante de passos ocasionais nos corredores e o zumbido baixo das lâmpadas fluorescentes.
Angelina estava sentada na cama, segurando a fotografia que encontraram no cemitério.
A imagem de Ana e Odette parecia mais perturbadora agora.
Durante o dia, parecia apenas um retrato antigo.
Mas à noite…
Parecia quase viva.
— Você ainda está olhando para essa foto? — perguntou Miller, que estava sentada à mesa com o laptop aberto.
Angelina suspirou.
— Não consigo parar.
Miller girou a cadeira.
— Você sabe o que me preocupa?
— O quê?
— O fato de que alguém escreveu que “levaram Odette”.
Angelina assentiu.
— Sim.
— Isso significa que ela não morreu de doença.
Angelina engoliu em seco.
— Significa que alguém fez algo com ela.
Miller fechou o laptop por um momento.
— E se não foi só ela?
Angelina levantou os olhos.
— Como assim?
Miller abriu novamente o computador.
— Eu fiz algumas pesquisas rápidas.
Ela virou a tela na direção de Angelina.
Era um arquivo digitalizado de um jornal antigo.
A manchete dizia:
“MENINA DESAPARECE EM MISTERIOSAS CIRCUNSTÂNCIAS”
Angelina aproximou-se.
— Essa é Odette?
— Não.
Angelina franziu a testa.
— Então quem é?
Miller ampliou o artigo.
— Uma menina chamada Elise.
Angelina leu rapidamente.
— Ela desapareceu em 1950.
Miller assentiu.
— Dois anos depois de Odette.
Angelina sentiu o coração acelerar.
— Então houve mais casos.
Miller abriu outro arquivo.
Outra manchete apareceu.
“SEGUNDA CRIANÇA DESAPARECE NA REGIÃO”
Angelina ficou imóvel.
— Quantas?
Miller respirou fundo.
— Até agora… encontrei quatro.
O silêncio tomou conta do quarto.
Angelina voltou lentamente para a cama.
— Isso não pode ser coincidência.
Miller concordou.
— Não é.
Angelina observou novamente a fotografia.
— Todas meninas?
Miller assentiu.
— Sim.
Angelina sentiu um arrepio subir pela espinha.
— Isso é pior do que imaginávamos.
Miller apoiou os cotovelos na mesa.
— Muito pior.
Angelina ficou em silêncio por alguns minutos.
Então algo começou a incomodá-la.
Um pensamento estranho.
Uma sensação.
Ela levantou-se novamente.
— Miller…
— Sim?
— Onde aconteceram esses desaparecimentos?
Miller abriu o mapa novamente.
— Todos na mesma região.
Ela ampliou a tela.
Angelina aproximou-se.
— Espera.
Ela apontou para um nome no mapa.
— Essa rua…
Miller olhou.
— Rua Saint Claire.
Angelina sentiu o estômago apertar.
— Essa é a rua da casa dos meus pais.
Miller piscou.
— O quê?
Angelina apontou novamente.
— Minha família mora ali desde que eu era criança.
Miller ficou em silêncio por alguns segundos.
— Angie…
— Sim?
— Isso pode ser coincidência.
Angelina balançou a cabeça lentamente.
— Eu não acho.
O quarto ficou pesado novamente.
Miller fechou o laptop devagar.
— Ok.
— Ok o quê?
— Precisamos investigar mais.
Angelina sentou-se na cama.
— Como?
Miller pensou por alguns segundos.
— Arquivos da cidade.
— Registros policiais.
— E talvez…
Ela hesitou.
— Talvez sua própria família.
Angelina sentiu um frio atravessar o corpo.
— Você acha que eles sabem de algo?
Miller deu de ombros.
— Se esses casos aconteceram perto da casa deles…
— Talvez.
Angelina ficou em silêncio.
A ideia era perturbadora.
Mas algo dentro dela dizia que aquilo fazia sentido.
De repente…
A luz do quarto piscou.
Miller levantou a cabeça.
— Isso foi estranho.
Angelina já estava olhando para o espelho do quarto.
O mesmo tipo de espelho em que havia visto Odette pela primeira vez.
O vidro começou a ficar embaçado.
Como se alguém estivesse respirando do outro lado.
Angelina levantou-se lentamente.
— Angie… — disse Miller.
Mas Angelina já estava caminhando em direção ao espelho.
A névoa no vidro começou a formar letras.
Lentamente.
Como dedos invisíveis escrevendo.
Miller levantou-se também.
— Você está vendo isso?
Angelina assentiu.
As palavras apareceram claramente.
“PROCURE NOS REGISTROS.”
Angelina sentiu o coração acelerar.
— Odette.
O espelho voltou ao normal.
A névoa desapareceu.
O quarto ficou silencioso novamente.
Miller olhou para Angelina.
— Ok.
— Isso respondeu nossa pergunta.
Angelina respirou fundo.
— Os registros da cidade.
— Sim.
Miller pegou o casaco.
— Vamos amanhã.
Angelina franziu a testa.
— Amanhã?
Miller sorriu.
— Quanto mais rápido melhor.
Angelina olhou novamente para a fotografia.
— Odette esperou décadas.
— Podemos esperar uma noite.
Mas naquela mesma madrugada…
Angelina teve outro sonho.
Ela estava andando por uma casa antiga.
As paredes eram de madeira escura.
Os corredores longos e estreitos.
Tudo parecia velho.
Muito velho.
Ela ouviu passos.
E então ouviu uma voz.
Uma criança chorando.
Angelina seguiu o som.
O choro vinha de uma porta fechada.
Ela abriu.
E viu Odette.
A menina estava sentada no chão.
Abraçando os joelhos.
— Odette… — sussurrou Angelina.
A menina levantou o rosto.
Os olhos estavam cheios de lágrimas.
— Eles voltaram.
Angelina aproximou-se.
— Quem?
Odette apontou para a escuridão atrás dela.
— A família.
Angelina sentiu o coração parar por um instante.
— Que família?
Odette abriu a boca para responder…
Mas naquele momento…
Angelina acordou.
Ela sentou-se na cama, ofegante.
O quarto ainda estava escuro.
Miller dormia profundamente na outra cama.
Angelina passou a mão pelo rosto.
— A família…
Ela sussurrou as palavras lentamente.
Então algo gelado percorreu sua espinha.
Porque naquele instante…
Uma lembrança antiga voltou à sua mente.
Uma conversa que ouvira quando era criança.
Seus pais discutindo na sala.
Uma frase que ela nunca havia entendido.
Até agora.
“Não podemos falar sobre o que aconteceu com aquelas crianças.”
Angelina ficou completamente imóvel na cama.
Porque pela primeira vez…
Ela começou a se perguntar se o mistério de Odette…
Não era apenas um crime antigo.
Mas algo muito mais sombrio.
Algo que talvez estivesse escondido…
Dentro da própria história de sua família.
E se isso fosse verdade…
Angelina não sabia o que seria mais assustador.
Descobrir o que aconteceu com Odette.
Ou descobrir que sua própria família…
Poderia estar envolvida.