O silêncio dentro da igreja durou apenas alguns segundos.
Mas pareceram minutos.
Angelina ainda estava olhando pela janela quebrada.
As figuras na praça continuavam caminhando lentamente.
Uma após outra.
Saindo das ruas laterais da vila.
Das casas abandonadas.
Da névoa.
Miller aproximou-se devagar.
— Quantos são?
Angelina engoliu seco.
— Muitos.
Thomas Hale também se aproximou da janela.
Seu rosto ficou ainda mais tenso.
— Eles não deveriam estar acordados ainda.
Miller virou-se para ele.
— "Acordados"?
Thomas não respondeu.
Angelina não tirava os olhos da praça.
As pessoas estavam se reunindo lentamente em frente à igreja.
Homens.
Mulheres.
Velhos.
Alguns pareciam extremamente idosos.
Outros estavam pálidos demais.
Como se não vissem o sol há anos.
Mas havia algo muito mais perturbador.
Todos olhavam diretamente para a igreja.
Diretamente para Angelina.
— Eles sabem que estou aqui — sussurrou ela.
Thomas respondeu em voz baixa.
— Eles sempre souberam.
Miller soltou uma risada nervosa.
— Ótimo. Uma multidão de cultistas assustadores. Exatamente o que faltava.
Um dos homens da praça deu um passo à frente.
Era alto.
Muito magro.
Usava um casaco antigo.
Seus cabelos eram completamente brancos.
Mas seu rosto… parecia seco demais.
Como pele esticada sobre os ossos.
Ele ergueu os olhos para a janela.
E falou.
A voz ecoou pela praça inteira.
— Angelina Hale.
O corpo dela ficou rígido.
— Eles sabem meu nome.
Thomas fechou os olhos por um instante.
— Claro que sabem.
O homem continuou.
— Venha até nós.
A névoa se movia lentamente ao redor dos pés deles.
Miller murmurou:
— Eu realmente espero que você não esteja considerando isso.
Angelina virou-se para o pai.
— Quem é ele?
Thomas respondeu:
— Elias Ward.
O nome parecia pesar no ar.
Miller perguntou:
— E ele é…?
Thomas suspirou.
— O líder.
Angelina sentiu um aperto no estômago.
— Líder de quê?
Thomas respondeu:
— Do que restou do culto.
Lá fora, Elias ergueu lentamente os braços.
As outras pessoas pararam de andar.
Imóveis.
Como estátuas.
— Você já despertou o que estava enterrado, Angelina — disse ele.
— Agora precisa terminar o que começou.
Miller virou-se para Thomas.
— Eu votei para irmos embora há vinte minutos.
Thomas ignorou.
Angelina perguntou:
— O que eles querem comigo?
Thomas demorou para responder.
Mas quando falou…
A voz estava carregada de algo próximo de medo.
— Você é a chave.
O coração de Angelina disparou.
— Chave para quê?
Thomas olhou para a praça novamente.
— Para terminar o ritual.
O vento atravessou a igreja.
As velas tremularam violentamente.
Do lado de fora, Elias deu mais um passo à frente.
— Nós esperamos vinte anos, Angelina.
— Agora você voltou para casa.
Miller falou baixo:
— Isso não é nada bom.
Angelina apertou os punhos.
— Eu não vou fazer parte disso.
Thomas virou-se para ela.
— Eles não vão perguntar.
Lá fora, as pessoas começaram a andar novamente.
Mas desta vez…
Na direção da igreja.
Passos lentos.
Sincronizados.
— Eles estão vindo — disse Miller.
Thomas correu até a porta da igreja.
Empurrou um dos bancos quebrados contra ela.
— Isso não vai segurá-los por muito tempo.
Angelina sentiu algo estranho naquele momento.
Uma sensação.
Uma pressão no ar.
Como eletricidade.
— Pai…
Thomas olhou para ela.
— O quê?
— Você sente isso?
Miller também franziu a testa.
— Sinto.
As velas começaram a apagar.
Uma por uma.
Como se algo invisível estivesse passando por elas.
O interior da igreja ficou cada vez mais escuro.
Então…
Um barulho surgiu.
Um impacto.
BANG
A porta da igreja tremeu.
— Eles começaram — disse Thomas.
Outro impacto.
Mais forte.
BANG
Miller deu um passo para trás.
— Quantos deles são?
Angelina olhou novamente pela janela.
— Todos.
Outro impacto.
A madeira da porta começou a rachar.
— Angelina, — a voz de Elias ecoou — não precisa ter medo.
Angelina respondeu gritando:
— Eu não tenho medo de vocês!
Silêncio na praça.
Então Elias respondeu.
— Não estamos falando de nós.
O chão da igreja tremeu.
Levemente.
Mas o suficiente para que todos sentissem.
Miller olhou para o piso de madeira.
— Isso veio de baixo?
Thomas ficou pálido.
— Não…
Angelina sentiu novamente aquela pressão no ar.
Mais forte agora.
Como uma corrente invisível passando pelo corpo dela.
Algo estava reagindo.
Algo estava despertando.
Outro impacto na porta.
A madeira se partiu um pouco.
Mãos começaram a aparecer pelas frestas.
— Angie! — gritou Miller.
Mas naquele momento…
Algo inesperado aconteceu.
As velas restantes explodiram em chamas.
A igreja inteira foi iluminada por uma luz intensa.
E todas as pessoas do lado de fora…
Pararam.
Como se tivessem sido atingidas por algo invisível.
Elias deu um passo para trás.
O rosto dele mudou.
Surpresa.
Raiva.
— Não…
Dentro da igreja, Angelina sentiu uma dor forte na cabeça.
Ela segurou as têmporas.
— O que está acontecendo comigo?
Thomas olhava para ela como se tivesse visto um fantasma.
— Isso… não é possível.
Miller perguntou:
— O quê?!
Thomas deu um passo para trás.
— Eu pensei que tivesse morrido com ela.
Angelina m*l conseguia respirar.
A sensação aumentava.
Como se vozes estivessem sussurrando dentro da cabeça dela.
Palavras antigas.
Que ela não entendia.
Mas que de alguma forma…
Pareciam familiares.
Lá fora, Elias gritava.
— SEGUREM A PORTA!
Mas ninguém se movia.
Todos pareciam paralisados.
Como se uma força invisível estivesse bloqueando a entrada da igreja.
Angelina caiu de joelhos.
— Eu não consigo…
Thomas correu até ela.
— Olhe para mim!
Ela levantou os olhos.
— Pai… o que está acontecendo?
Ele respirou fundo.
— Algo está protegendo você.
Miller murmurou:
— Eu gosto desse algo.
Mas Elias não parecia gostar.
Ele gritou novamente da praça.
— Ela herdou!
Thomas congelou.
— Não…
Elias sorriu.
Um sorriso terrível.
— A linhagem ainda vive.
Angelina sentiu o coração acelerar.
— Que linhagem?
Mas ninguém respondeu.
O chão da igreja começou a tremer novamente.
Mais forte.
As janelas vibraram.
O altar rachou.
Miller segurou um banco.
— Ok, isso definitivamente não é normal!
Thomas olhou para Angelina com intensidade.
— Sua bisavó…
Angelina piscou.
— O quê?
Thomas parecia confuso.
Como se estivesse lembrando de algo esquecido há muito tempo.
— Não…
Ele corrigiu.
— Sua tetravó.
Angelina franziu a testa.
— Eu nem sabia que você conhecia sua tetravó.
Thomas engoliu seco.
— Toda a vila conhecia.
Lá fora, Elias estava gritando agora.
Furioso.
— Ela carrega o sangue!
Angelina perguntou:
— O que ele quer dizer com isso?!
Thomas respondeu lentamente.
— Sua tetravó…
Ele olhou para a igreja inteira.
Para as velas.
Para o ar tremendo.
— Era uma bruxa.
O silêncio caiu dentro da igreja.
Miller piscou.
— Desculpa… o quê?
Angelina sentiu o coração parar por um segundo.
— Isso não pode ser sério.
Thomas falou em voz baixa.
— Ela era respeitada.
Temida.
A vila inteira vinha até ela.
Para curas.
Proteção.
Rituais.
Miller cruzou os braços.
— E você esqueceu de mencionar isso antes?
Thomas continuou:
— Depois que ela morreu… as coisas mudaram.
Angelina sentiu as vozes na cabeça ficarem mais fortes.
Sussurros.
Antigos.
Distantes.
Como ecos de muitas gerações.
Ela apertou os olhos.
— Eu consigo ouvir algo…
Miller aproximou-se.
— O quê?
Angelina respondeu em um sussurro.
— Vozes.
Thomas ficou completamente pálido.
— Elas estão chamando você.
Lá fora, Elias gritava:
— Ela não pertence a vocês!
A multidão começou a bater novamente na porta da igreja.
Mas a madeira não se movia mais.
Era como se uma parede invisível estivesse ali.
Angelina abriu os olhos.
Algo dentro dela estava mudando.
Algo antigo.
Algo que sempre esteve ali.
Mas nunca despertou.
Ela não entendia o que era.
Ainda.
Mas uma coisa ficou clara naquele momento.
Ela não estava sozinha.
Miller segurou o braço dela.
— Angie… seus olhos…
Angelina piscou.
— O que tem eles?
Miller sussurrou:
— Eles estão brilhando.
Do lado de fora…
Elias finalmente pareceu assustado.
Ele recuou lentamente.
— Não…
O vento aumentou.
As velas começaram a girar em torno de Angelina.
Como se estivessem presas em uma corrente invisível.
Thomas murmurou:
— O sangue dela despertou.
Angelina levantou lentamente.
Ainda confusa.
Ainda sem entender.
Mas algo dentro dela sabia.
Algo antigo.
Algo herdado.
Algo que tinha dormido por gerações.
E agora…
Estava acordando.
Mas o pior ainda estava por vir.
Porque Elias levantou a cabeça e gritou para a multidão:
— Então vamos acordar o que está abaixo da vila.
O chão inteiro da igreja tremeu.
E de algum lugar muito profundo…
Muito abaixo da terra…
Algo respondeu.