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1312 Words
A noite caiu rapidamente sobre a casa de Angelina. O vento batia nas janelas e soprava através das frestas das portas, fazendo o velho piso ranger sob o peso da casa antiga. As sombras dançavam nas paredes, moldando-se em formas que pareciam vivas, como se estivessem observando cada movimento. Angelina e Miller estavam em silêncio no corredor do segundo andar. Ambas sabiam que precisavam investigar o quarto secreto, o lugar que, por gerações, guardava os segredos da família e, possivelmente, a chave para que o espírito de Odette finalmente descansasse. — Você tem certeza de que é aqui? — perguntou Miller, a voz quase sussurrando. Angelina assentiu, apontando para uma parede ao lado da escada principal. Uma estante antiga cobria parte da parede, mas Angelina sabia que havia algo por trás dela. A tetravó havia deixado registros de magia e proteção, e o instinto de Angelina, agora aguçado pelo poder ancestral, não a enganava. — É aqui — disse Angelina. — Eu posso sentir a energia. Algo está escondido por trás dessa estante. Ela se aproximou e começou a mover os livros com cuidado. Cada volume antigo rangia ao ser tocado. Um cheiro de mofo e cera de vela queimada misturava-se ao ar, dando à sala uma atmosfera quase sufocante. Miller observava, tensa, cada gesto da amiga, consciente de que qualquer erro poderia despertar forças que não podiam controlar. Depois de alguns minutos, Angelina encontrou uma pequena alavanca escondida entre os livros. Ela respirou fundo e puxou. Um clique ecoou pelo corredor, seguido de um rangido pesado. A estante se moveu lentamente, revelando uma porta antiga, feita de madeira escura e coberta de símbolos gravados. — Aqui está… — murmurou Angelina. — O quarto secreto. Miller engoliu em seco. — Isso não me dá medo nem nada… — disse com ironia, mas sua voz traiu o nervosismo. Angelina abriu a porta com cuidado. Um cheiro intenso de cera e incenso queimado se espalhou pelo corredor. A sala estava escura, mas à medida que seus olhos se ajustavam, ela começou a distinguir o que havia lá dentro. Livros antigos empilhados, velas apagadas e, no centro da sala, um altar coberto de símbolos arcanos e objetos que pareciam ter sido usados em rituais antigos. Havia fotos antigas de mulheres com roupas tradicionais, algumas segurando crianças, outras com livros em mãos. Uma delas chamou atenção de Angelina: uma mulher com traços fortes, olhos profundos e um colar idêntico ao que Angelina agora possuía. — Essa… essa é a tetravó — disse Angelina, tocando levemente a foto. — É ela. Miller olhou ao redor, ainda apreensiva. — E o resto? Parece… maldito. Angelina não respondeu. Ela sentiu algo pulsar sob o altar, uma energia fria e quase palpável. Curiosa, aproximou-se e começou a mover alguns objetos. Um livro antigo caiu no chão, abrindo-se em uma página que mostrava símbolos complexos de proteção e invocação. — Miller… veja isso — disse Angelina, apontando para os símbolos. — Esses símbolos… eu já os vi nos meus sonhos, nas minhas visões… é como se fossem um mapa. Um caminho para encontrar Odette e protegê-la. — E se algo nos atacar agora? — perguntou Miller, olhando para as sombras da sala. — Então… — murmurou Angelina, ainda fascinada pelos símbolos — estaremos prontas. Pelo menos, um pouco mais do que antes. De repente, um barulho baixo ecoou no quarto, como se alguém estivesse respirando. Angelina congelou. — Você ouviu isso? — sussurrou Miller. Angelina assentiu. — Sim… não estamos sozinhas. Uma sombra se ergueu lentamente no canto da sala, tomando forma humana. Mas não era humana. Era um reflexo de Odette, translúcida, com os olhos brilhando em vermelho, uma expressão de dor e medo. O coração de Angelina disparou, mas a energia de sua linhagem começou a pulsar em resposta, formando um escudo ao redor dela e de Miller. — Odette… — disse Angelina, a voz tremendo, mas firme. — Eu… vou te ajudar. A sombra de Odette estendeu uma mão, apontando para o altar. Palavras surgiram na mente de Angelina, sussurros suaves e trêmulos: “Encontre meus ossos… junto à mãe… devolva-me ao descanso.” Angelina respirou fundo, sentindo um peso enorme sobre seus ombros. — Miller… nós precisamos encontrar os ossos dela. Isso vai resolver tudo… finalmente. — Mas onde? — perguntou Miller, com a voz trêmula. — E se o culto souber disso antes de nós? — Então temos que nos apressar — disse Angelina, fechando os olhos e concentrando-se nas vozes da linhagem. — Eles não podem tocar Odette. Nem você. Nem ninguém que esteja comigo. Enquanto isso, fora da casa, o culto já estava se movendo. Elias observava a residência de Angelina com ódio nos olhos. — Ela está aprendendo… — disse. — Essa força… não deveria existir. Um dos jovens do culto respondeu, nervoso: — Mestre… ela ainda é apenas uma humana. Não podemos lutar contra a linhagem. Elias cerrou os punhos. — Então encontraremos outra forma. Ela não saberá o que está prestes a acontecer. De volta ao quarto secreto, Angelina começou a explorar mais detalhadamente. Cada símbolo, cada objeto, cada livro parecia conter informações escondidas sobre Odette, sobre sua própria família e sobre o que havia sido feito para selar a alma da menina. Ela percebeu que parte da história estava ligada à própria casa, às paredes, aos pisos e ao porão. Havia inscrições ocultas, pequenas marcas de proteção que sua tetravó havia feito para manter o espírito de Odette seguro. — Isso… isso é incrível — disse Miller, tentando entender. — Então a casa inteira está ligada a Odette? — Sim — respondeu Angelina. — E provavelmente, se descobrirmos o que está escondido no porão, poderemos finalmente colocar tudo em ordem. De repente, a sombra de Odette desapareceu, mas a sensação de presença continuou. Um vento frio percorreu a sala, apagando algumas velas e fazendo objetos se moverem sozinhos. Angelina respirou fundo, sentindo a energia da linhagem crescer ainda mais dentro dela. — Elas estão nos observando — disse Miller, com os olhos arregalados. — As sombras… não foram embora. — Não… — murmurou Angelina. — Elas estão esperando pelo momento certo. Mas agora, eu sei que posso enfrentá-las. Ela começou a recitar palavras antigas novamente, traçando símbolos no ar com as mãos. Cada gesto produzia efeitos físicos: sombras recuavam, correntes de vento desapareciam, velas acendiam sozinhas. O poder de Angelina crescia, não apenas como proteção, mas como uma força ativa capaz de combater qualquer influência maligna. — Miller… amanhã começamos a investigar o porão — disse Angelina, com firmeza. — E depois… vamos atrás dos ossos de Odette. — E se o culto atacar enquanto estamos lá? — perguntou Miller, a voz trêmula. — Então estaremos prontas — respondeu Angelina, fechando os olhos e sentindo os espíritos da tetravó ao seu redor. — Pela primeira vez, não estamos sozinhas. O vento uivava lá fora, e as sombras continuavam a se contorcer. Mas Angelina agora sabia que, com a força da linhagem, a ajuda dos espíritos e sua própria coragem, nada poderia deter sua missão. Ela olhou para Miller e disse: — Não importa o que aconteça. Vamos conseguir. Pelo menos… vamos tentar. E naquele instante, uma luz azulada e dourada percorreu todo o quarto secreto, iluminando símbolos antigos, fotos da tetravó, livros e o altar. O poder ancestral estava presente, palpável, e uma sensação de esperança e medo misturados tomou conta do ar. Angelina sabia que a verdadeira batalha ainda estava por vir, que o culto se tornaria mais perigoso, que os segredos da casa guardavam horrores que ninguém podia imaginar, mas também sabia que agora estava pronta para enfrentá-los, porque finalmente compreendia a profundidade da herança que corria em seu sangue. O amanhecer ainda estava distante, mas o despertar de Angelina como guardiã da linhagem e protetora de Odette havia começado, e nada no mundo seria capaz de pará-la.
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