Prólogo
Prólogo
Foi há quatro anos, mas parece que foi ontem, ainda mais quando o que tenho em mãos queima os meus dedos.
Não somente eles. Queima minha alma, meus olhos, meus anos... E que bando de filhos da p**a!
Quando pisco, volto para aquela tarde, a pior de todas.
Eu não me lembro de como cheguei até a porta daquela cobertura, apenas da sensação de que a minha vida inteira cabia dentro de uma cesta de doces e alguns balões de hélio. Na minha cabeça, aos dezessete anos, eu ainda acreditava que o mundo se resolvia com um pedido de desculpas e um sorriso gentil. Eu era apenas uma garota de Carapicuíba brincando de ser protagonista em um cenário que, secretamente, me tratava como uma intrusa.
Eu não entrei na sala de Theodore; eu invadi a minha própria ruína.
Os balões foram os primeiros a me trair. Eles subiram, silenciosos, e se colaram ao teto alto do apartamento como fantasmas que já sabiam o que estava por vir. Eu os segui com o olhar, paralisada, enquanto os sons que vinham do sofá começavam a fazer sentido. Não era a voz de um estranho. Era a voz dele, refinada, educada, aquela que eu passara horas tentando decifrar, agora proferindo um comando que não era para mim.
Quando contornei a parede do hall, o tempo não parou; ele me estilhaçou.
Não foi a visão de Theodore que me tirou o ar. Foi o rosto de Tatiana. A minha irmã, a guardiã de todos os meus segredos, a pessoa que eu chamara de lar durante anos, estava ali, entregue a ele com uma naturalidade que me deu ânsia. Eu estava parada diante do meu futuro sendo engolido pelo meu passado.
O grito que escapou da minha garganta não foi de raiva; foi de luto. Vi a cena se desfazer em desespero e, então, em algo muito pior: o desprezo.
— Por quê? — perguntei, sentindo as palavras serem mastigadas pela minha própria incredulidade.
Tatiana nem se deu ao trabalho de se esconder completamente. Ela me lançou um sorriso, um daqueles que só quem conhecia a outra desde a infância sabia identificar como veneno puro. Ela queria o que era meu. E, quando olhei para ele, esperando uma explicação, um pedido de desculpas, qualquer coisa, o que recebi foi o veredito final.
— Você é cheia de sinais vermelhos, Asli. Não serve para isso aqui.
Saí de lá correndo, mas o fantasma daquela sala nunca me deixou. Ele era o som de um balão estourando no silêncio, a lembrança de que, naquela tarde, eu entendera que o amor, para gente como eu, era um jogo em que as cartas já chegavam marcadas pelas mãos dos outros.
{ Olá, Peço que deixem esse livro na sua biblioteca, as postagens começaram em breve; aqui terá palavras de baixo calão, uso de drogas lícitas, linguagem vulgar e discrição de cenas de explícitas de s*x̌o.}