Lorena
O dia amanheceu abafado, com o céu cinza e a laje suando mais que o corpo do Moacir quando escuta “procura de emprego”. O calor grudava na pele igual problema que não larga. E minha cabeça? Tava pesada, como se tivesse um bloco de concreto pendurado no pescoço.
Tentei focar na cliente, mas cada pensamento voltava pro mesmo lugar: o nome dele.
Cobra.
A visita. A proposta. A dúvida.
Mas tudo explodiu de vez quando ele apareceu.
Pescoço chegou sem bater, do jeito dele. Encostou no batente da porta do salão e só falou:
Pescoço: – Presente do Cobra pra tu.
Não precisei perguntar o quê.
Ele tirou do bolso um embrulho enrolado num pano vermelho escuro e me estendeu. Era leve, mas só de olhar eu já sabia que carregava um peso fodido.
Desenrolei devagar. Uma pulseira de ouro. Fina. Linda. Brilhando mesmo na sombra.
Meu coração bateu seco.
Eu: – É de verdade?
Pescoço: – Ouro mesmo. Ele mandou te dar. Disse que é só o começo.
Abaixei o olhar pro brilho na minha mão. Era a chance. E foi ali, naquele segundo, que a decisão pareceu clara:
Eu: – Eu vou vender. E comprar os remédios da minha irmã.
Abracei a ideia como quem agarra a única tábua no meio do naufrágio.
Fechei o pano de novo, com a mão firme, e olhei nos olhos do Pescoço.
Eu: – Pode avisar ele que eu não vou na visita.
Ele arqueou a sobrancelha, surpreso.
Pescoço: – Como assim?
Eu: – Já resolveu o que eu precisava. Com isso aqui, eu compro os remédios dela. Não preciso de mais nada. Agradece ele aí
Pescoço-Lorena...
Eu: – Fala pra ele que eu sou grata. Mas isso não é minha vida. Eu não sou mulher de visita íntima. Nem por dinheiro. Nem por ouro. Nem por status.
A expressão dele mudou. Daquele sorriso leve, virou um olhar mais sério. Pesado. Como se tivesse entendido que aquilo não ia terminar leve.
Pescoço: – Tu tem certeza do que tá fazendo?
Eu: – Tenho. E pode ficar tranquilo, vou usar o dinheiro pra salvar uma vida. Não pra me vender.
Ele me encarou mais uns segundos. E aí, respirou fundo.
Pescoço: – Tá bom. Eu passo o papo.
Eu: – Valeu.
Vi ele virar as costas, mas antes de ir, ainda trocou aquele olhar com Bianca. Só que dessa vez, nem ela retribuiu. Sentiu que o clima tinha mudado. Sentiu o peso.
Voltei pro salão com o embrulho escondido dentro do short, o coração pulsando na boca. Fui direto pro quarto da minha irmã, que dormia feito passarinho ferido.
Peguei o celular, já buscando onde vender a pulseira mais rápido.
Acabou. Resolvi.
[. . .]
Fechei a porta do salão e respirei fundo.
Minhas mãos tremiam. O pano com a pulseira tava dobrado dentro do bolso do short, queimando minha pele. Não era só ouro, era uma corda. E eu tinha acabado de tentar cortar.
Mas, por dentro, o alívio era real. Pela primeira vez em dias, eu sabia o que fazer. A pulseira ia direto pro rapaz que comprava ouro lá no centro. Eu já tinha até o nome dele na cabeça: Paulinho do Relógio. Ia pagar à vista, sem fazer pergunta.
Voltei pra casa rápido. O sol tava alto, o morro fervendo de gente e calor. Criança jogando água de mangueira na rua, moto passando voada, vizinha gritando da janela. Mas parecia tudo distante. Eu só pensava nela.
Abri a porta do barraco e corri direto pro quarto. Minha irmã tava deitada, mole, com a respiração lenta. A febre tinha subido de novo.
Eu: – Ei, princesa... olha pra mim.
Falei baixinho, sentando na beira da cama e encostando a mão na testa dela. Queimando.
Ela abriu os olhos devagar. Pequenos, vermelhos, cheios de dor.
Ela: – Tô com frio, mana...
Engoli o choro. Sorri de leve.
Eu: – Já vai passar. Eu prometo.
Levantei, peguei o pano do bolso, abri a pulseira em cima da cama. Era linda. Linda demais. Mas eu nem olhava com desejo. Olhava com raiva. Porque aquilo ali, pra mim, era só uma moeda. Um preço que alguém achou que podia me comprar.
Mas quem mandou a moeda... não entendeu que eu sou de carne, não de etiqueta.
Joguei a pulseira dentro de uma caixinha velha de bijuteria e enfiei na bolsa.
Saí do quarto, passei pela sala. Moacir tava jogado no sofá com um copo de refrigerante e a barriga de fora.
Moacir: – Vai aonde, garota?
Eu: – Resolver um problema. E não, não é seu.
Bati a porta sem dar tempo de resposta.
Desci o morro a pé. Chinelo batendo seco no chão, cada passo era uma martelada no peito. Mas eu tava decidida. Já era. Tinha feito minha parte. Resolvido. Agora eu era só irmã. Só filha. Só mulher tentando salvar a própria casa. Nada mais.
Cheguei no ponto, peguei o ônibus, segurei firme na barra de cima. As pessoas olhavam. Talvez fosse o olhar fechado, talvez fosse a bolsa agarrada no colo como se tivesse ouro.
E tinha.
Vinte minutos depois, eu tava entrando na rua do camelódromo. O som da cidade era outro. Barulho de buzina, vendedor gritando promoção, gente trombando no ombro sem pedir desculpa.
Achei o Paulinho.
Paulinho: – Veio vender ou avaliar?
Eu: – Vender. E ouro mesmo?
Paulinho: – É. Me deram. Nunca usei. Tá nova.
Ele pegou, analisou, passou na paradinha ali, riscou com pedra preta, pesou, fez conta.
Paulinho: – Te dou setecentos.
Eu: – Setecentos? E ouro puro.
Paulinho: – É o que vale pra mim. Quer?
Olhei pro nada por dois segundos. E aceitei. Porque não era sobre o preço. Era sobre salvar.
Peguei o dinheiro, contei ali mesmo. Guardei no sutiã. Saí dali com o coração na garganta, mas com a sensação de que agora tava no controle.
Dei um jeito de comprar os remédios certos, fralda, leite especial, até uns docinhos que ela gostava. Voltei pra casa carregada, mas com o corpo leve.
Quando entrei no quarto e vi ela sorrir fraco, segurando o pirulito de coração que eu comprei, tudo valeu a pena.
Me ajoelhei na beirada da cama, beijei a testa dela e sussurrei:
Eu: – Você é meu único motivo.
E foi ali que, por um instante, eu achei que tava tudo resolvido.
Mas o morro...
O morro não esquece.
E Cobra muito menos.