Cobra
A tela do celular tremia na minha mão com o peso do tempo.
Um Samsung véio, com a película toda rachada e uns dois pixels mortos no canto. Mas era por ali que eu continuava mandando no mundo lá fora. Pelo toque. Pela palavra.
Seis anos trancado nessa cela que fede a mofo, suor e rancor. As paredes respingadas de raiva e silêncio. A cela é pequena, mas minha presença é grande demais pra ser contida aqui dentro.
Sentei no chão, as costas encostadas na parede gelada, o corpo coberto só por uma bermuda larga, tatuagem pingando do ombro até a canela. A luz da tela era o único brilho ali.
Desbloqueei e abri o contato de sempre: o do Pescoço. O fiel. O cria. O que eu sei que se eu mandar matar, mata. Se eu mandar calar, cala. Só ele sabe de tudo.
Mensagem on...
Cobra: – Você já falou com ela?
Demorou uns três minutos pra responder. Tempo de quem tá calculando como falar algo que não vai me agradar.
Pescoço: – Falei, patrão.
Ela ouviu. Ficou mexida. Mas disse que ia pensar.
Mandei um áudio. Falei devagar, com a voz grave, arrastada. Quase num tom de veneno:
Cobra (áudio): – Ela vai vim, mano. Cê vai ver. Só tá se fazendo de difícil. Quer se mostrar. Mas eu conheço esse tipo. Já entendi ela só de ver. Tem fogo, mas se esconde atrás da marra. Não é piranha... e é por isso mesmo que eu quero.
Pescoço: – Mas patrão, na moral, ela é diferente.
Não tem essa de pegar de bandido não. Nem me olhou direito. Só quis saber quanto. E falou que não era dessas.
Fechei os olhos. Respirei fundo.
Aquela voz dela ainda ecoava na minha cabeça, mesmo eu nunca tendo escutado ao vivo. Só de ouvir o nome “Lorena” já dava um aperto estranho no peito. Nunca senti isso. Nunca precisei querer ninguém. Eu pegava.
Mas essa mina...
Essa mina tinha alguma coisa que me tirava do eixo.
E eu odeio perder o controle.
Abri a galeria do celular. Ali, a foto dela. Tirada de longe, na frente do salão. De shortinho e vassoura na mão. Cabelo preso. Sorriso torto. Bonita pra c*****o.
Ela é real. De verdade.
A única que nunca tentou me agradar.
Talvez a única que, se encostar aqui... vai me fazer esquecer do mundo.
Pescoço: – Quer que eu aperte ela?
Respondi na hora.
Cobra: – Não.
Deixa ela vir por vontade.
Mas leva isso aqui amanhã. – Mandei a foto da pulseira de ouro. – Dá pra ela. Fala que é só o começo. Que se ela pisar aqui sexta, o morro muda pra ela.
Mensagem off.
Fiquei olhando pro teto da cela. Umidade escorrendo da quina, um gotejar chato batendo no balde lá no canto. Ploc. Ploc. Ploc.
Mas nem o barulho me tirava do foco. Minha cabeça já tava nela. Nas curvas. No jeito que ela deve olhar quando tá p**a. Na força que carrega. No orgulho.
E quanto mais ela resiste...
Mais eu quero.
Ela não entendeu ainda, mas já é minha.
Já carrega meu nome no destino.
E quando ela entrar aqui pela primeira vez... vai sair diferente.
Porque eu posso ser bandido, posso ser monstro...
Mas quando eu quero uma mulher...
Ela não esquece. Nunca mais.
Depois que mandei o áudio, deixei o celular de lado, escondido dentro da meia suja, dobrado no canto da cela onde ninguém fuça. Aqui é assim: um descuido e já era. Só de ter esse aparelho aqui dentro, já tô com dois pés no inferno. Mas é ele que me mantém no controle.
E agora... é ele que me liga a ela.
Fiquei ali, encostado na parede fria, o joelho dobrado e o braço apoiado na perna, olhando pro nada, mas pensando em tudo.
A cabeça latejando. O coração... mano, o coração parecia um tambor descompassado no peito.
Eu odeio sentir. Não sou homem disso. Sempre resolvi tudo na força, no grito ou no tiro.
Mas ela...
Ela tá me quebrando sem nem tocar.
Na mente, voltava a imagem da primeira vez que vi a foto dela. Um bagulho simples, sem pose, sem filtro. Ela só.
Porque quando Cobra chama, não é convite.
É destino.
Peguei o celular de novo.
Mensagem on...
Cobra: – Sexta. Sala 04. Já falei com os cara. Ela entrar... fecha a porta e ninguém entra. Só eu e ela.
Pescoço: – Copiado.
E se ela recusar?
Demorei pra responder. Minha mão ficou firme, os dedos tremendo de leve de tanta raiva contida.
Cobra: – Aí cê me avisa. Que eu mesmo resolvo.
Mensagem off.
Joguei o celular de volta na meia e respirei fundo.
Se ela souber o que eu sou capaz de fazer por ela...
Ela corre.
Mas se ela souber o que eu sou capaz de fazer com ela...
Ela fica.
E depois de sexta, não vai ter mais “pensar”, não vai ter mais “dúvida”.
Vai ter só nós dois.
Porque no dia que ela encostar aqui...
Vai sair marcada.
No nome.
No corpo.
E na alma.