CAPÍTULO 5
DUDA NARRANDO
Acordei no outro dia antes mesmo do despertador tocar.
Ainda tava escuro, o quarto meio frio, aquele silêncio pesado de quem dorme preocupado. Fiquei alguns segundos encarando o teto descascado, sentindo o peso do dia cair em cima de mim antes mesmo de eu levantar da cama.
O nome ainda tava lá na minha cabeça.
Purga.
Virei pro lado, peguei o celular na mesinha. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação perdida. Só o contato salvo, quieto, como se estivesse me observando do outro lado da tela.
Suspirei fundo e levantei. Pensar demais não ia resolver nada.
Fui pro banheiro. O espelho era pequeno, manchado nas bordas, mas dava pra ver meu rosto cansado. Olheira leve, cabelo todo bagunçado. Abri o chuveiro, a água fria caiu nas costas e me fez arrepiar inteira.
Fechei os olhos ali, deixando a água correr.
Era sempre naquele momento que eu tentava juntar coragem.
Pra mais um dia de “vamos ligar”.
Pra mais um dia de não.
Lavei o cabelo com o resto de shampoo que ainda tinha no frasco, ensaboei o corpo devagar, como se cada movimento fosse um pedido silencioso pra vida dar uma trégua. Quando saí, me enxuguei rápido, me olhando de novo no espelho.
— Vai dar certo… — murmurei, mais como um pedido do que como certeza.
Vesti uma calça jeans simples, a menos surrada, uma blusa clara e um tênis já meio gasto, mas limpo. Prendi o cabelo num r**o de cavalo baixo, passei um creme no rosto e pronto. Era isso. Sempre era isso.
Antes de sair do quarto, fui ver minha mãe.
Ela tava sentada na cama, coberta até a cintura, respirando com um pouco de esforço. O rosto pálido, mas ainda assim me deu um sorriso quando me viu.
— Já vai, minha filha?
— Vou, mãe. — cheguei perto, ajeitando o travesseiro dela. — Hoje eu volto com uma resposta. Nem que seja r**m.
Ela segurou minha mão.
— Deus tá vendo teu esforço.
Assenti, engolindo o nó na garganta.
Fui pra cozinha e senti o cheiro de café fraco no ar. Em cima da mesa, só um pratinho com dois bolinhos simples, daqueles de chuva, já meio secos.
— Não tinha pão… — ela falou da porta, meio sem graça. — Fiz isso aí pra não ir de estômago vazio.
— Tá ótimo, mãe. — respondi rápido, forçando um sorriso.
Peguei um bolinho, dei uma mordida pequena. Tava bom, mas o gosto vinha junto com a realidade. Olhei pro canto da cozinha onde ficava a caixinha dos remédios dela. Abri.
Poucos comprimidos.
Poucos demais.
Meu peito apertou.
— Mãe… — falei baixo. — O remédio da pressão tá acabando.
Ela desviou o olhar.
— Dá pra segurar mais uns dias…
— Não dá, não. — falei firme, mas sem levantar a voz. — Eu vou dar um jeito.
Ela não respondeu. Só apertou os lábios, daquele jeito de quem se sente peso.
Terminei o café rápido, lavei a xícara, peguei minha bolsa com os currículos já amassados de tanto ir e vir.
— Vai com Deus, minha filha. — ela disse, como sempre, parada na porta.
— Fica bem. Qualquer coisa me liga. — respondi.
Saí de casa sentindo o sol começar a esquentar a rua. Caminhei até o ponto, o barulho do bairro acordando aos poucos. Criança correndo, vizinho abrindo comércio, vida seguindo… enquanto a minha parecia sempre no mesmo lugar.
No ônibus, sentei perto da janela. Olhei o celular mais uma vez. O contato ainda lá. Nenhuma notificação.
— É só um emprego… — pensei de novo.
Mas a imagem dos bolinhos no prato, dos remédios acabando, da tosse da minha mãe à noite, tudo aquilo pesou mais do que o medo.
Segurei o celular firme na mão.
Talvez aquele fosse só mais um dia de porta fechada. Ou talvez fosse o dia em que eu ia ter que atravessar uma que eu nunca imaginei abrir.
Respirei fundo.
Desci do ônibus com o coração apertado… se hoje eu não arrumasse nenhum emprego, eu ia ligar pro tal de Purga. Eu não tinha escolha.
Desci do ônibus com o currículo apertado contra o peito, como se ele fosse um escudo. O sol já tava alto, quente, daqueles que cansam antes mesmo do meio-dia. Respirei fundo e segui pra primeira escolinha particular da lista que eu tinha anotado num papel dobrado dentro da bolsa.
Portão colorido, desenho de criança na parede, musiquinha baixa vindo de dentro. Parei, ajeitei a roupa, o cabelo, e toquei a campainha.
Uma moça apareceu.
— Bom dia.
— Bom dia. — sorri do jeito mais educado que eu tinha. — Eu vim deixar currículo. Sou formada em magistério.
Ela pegou o papel, deu aquela olhada rápida, automática.
— A gente entra em contato.
Assenti, agradeci e saí.
Primeira de muitas.
Na segunda escolinha, a diretora me recebeu sentada atrás de uma mesa cheia de papel. Falava comigo enquanto digitava no computador, sem levantar muito o olhar.
— Experiência?
— Já trabalhei como estagiária em creche municipal. — respondi rápido. — Sei lidar com criança pequena, rotina, alimentação, atividade pedagógica…
Ela assentiu, finalmente olhando pra mim.
— No momento a gente não tem vaga. Mas teu currículo é bom.
“Currículo é bom” não paga remédio.
Sorri mesmo assim, agradeci e fui embora.
A terceira escola foi ainda pior. A coordenadora m*l me deixou terminar de falar.
— Infelizmente estamos completos. — disse seca. — Se surgir algo, ligamos.
Guardei o currículo de volta na bolsa sentindo o peito apertar.
Andei mais algumas ruas. Entrei em mais escolas. Em todas eu repetia a mesma coisa, quase como um roteiro decorado:
— Sou formada em magistério.
— Tenho experiência como estagiária.
— Curso pedagogia a distância.
E em todas a resposta vinha diferente só na forma, nunca no conteúdo.
— Não temos vaga.
— Banco de currículos.
— Talvez no próximo semestre.
— Por enquanto não.
O “por enquanto” já tinha virado um peso constante nas minhas costas.
Já era começo da tarde quando sentei num banquinho de praça pra beber água. As pernas doíam, a bolsa parecia mais pesada do que de manhã. Peguei o celular por instinto.
Nada.
Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação.
Abri a conversa sem nome bonito.
Purga.
O número ali, quieto. Intimidando.
Bloqueei a tela rápido, como se alguém pudesse me ver pensando naquilo.
— Calma… — murmurei pra mim mesma. — Mais uma.
Levantei e fui pra última escolinha da lista. Pequena, simples, mas arrumadinha. Toquei a campainha com uma pontinha de esperança que eu nem sabia de onde vinha.
Uma senhora abriu.
— Boa tarde.
— Boa tarde. — falei. — Vim deixar currículo. Sou formada em magistério.
Ela me olhou da cabeça aos pés, analisando.
— Você é nova…
— Tenho 18. — respondi. — Mas já trabalhei como estagiária.
Ela suspirou.
— A gente acabou de preencher a vaga essa semana, minha filha.
Meu coração afundou.
— Entendo… — respondi, tentando manter a postura.
Ela ainda pegou o currículo, por educação.
— Qualquer coisa, a gente liga.
Saí dali sentindo os olhos arderem, mas segurei. Não ia chorar no meio da rua.
Encostei num muro, respirei fundo. A realidade vinha pesada demais.
Nenhuma vaga.
Nenhuma chance.
Nenhuma saída limpa.
Peguei o celular mais uma vez. A imagem da minha mãe, dos remédios acabando, dos bolinhos no prato vazio voltou inteira, sem pedir licença.
Meu dedo tremia.
— Se hoje eu não arrumar emprego… — sussurrei, completando o pensamento que já tava decidido dentro de mim.
Abri o contato.
Purga.
O medo ainda tava ali. Grande. Real. Mas agora ele tava andando lado a lado com o desespero.
Guardei o celular no fundo da bolsa como quem guarda um segredo perigoso. Não liguei. Ainda não.
— Vou esperar chegar em casa… — pensei. — Se ninguém ligar, eu ligo.
Era isso. Última tentativa de fingir que eu ainda tinha escolha.
Peguei o ônibus de volta no fim da tarde. O céu já tava mudando de cor, aquele laranja meio triste que sempre aparecia quando o dia não tinha dado certo. Sentei no último banco, encostei a testa no vidro quente e deixei o ônibus me levar.
As ruas passavam rápido, mas minha cabeça não. Pensava na minha mãe, sozinha em casa. Pensava nos remédios. Pensava no aluguel.
Olhei o celular de novo. Nada. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Nem aquele “vamos ligar” mentiroso.
Desci do ônibus duas ruas antes de casa pra economizar a passagem da próxima semana. Caminhei devagar, o corpo cansado, o coração pesado. O bairro já tava mais quieto, gente sentada na calçada, criança sendo chamada pra entrar.
Quando virei a esquina da minha rua, vi o portão de casa. E vi também alguém parado ali.
Meu estômago gelou.
Era a dona da casa.
Ela tava de braços cruzados, bolsa no ombro, expressão fechada. Daquelas que não vêm pra dar boa notícia. Quando me viu, descruzou os braços na hora.
— Boa tarde, Eduarda. — falou, seca.
— Boa tarde… — respondi, sentindo o suor escorrer nas costas.
Ela deu dois passos na minha direção.
— Tô tentando falar com vocês desde semana passada.
Engoli seco.
— Eu sei… — falei baixo. — A gente tá passando por umas dificuldades, mas..
— O aluguel tá atrasado, menina. — ela cortou. — Já faz quase um mês.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Eu tô procurando emprego. Hoje mesmo eu saí cedo.
— Eu entendo o problema. — ela disse, mas o tom não combinava muito com a palavra. — Mas eu também tenho conta pra pagar.
Olhei pro chão, apertando a alça da bolsa.
— Me dá só mais um prazo. — pedi. — Eu vou dar um jeito. Prometo.
Ela suspirou fundo, impaciente.
— Eduarda, eu gosto de vocês. Sua mãe é uma boa pessoa. Mas eu não posso ficar segurando aluguel atrasado, não.
— Eu sei… — minha voz saiu fraca. — Mas se a gente sair daqui agora, não tem pra onde ir.
Ela me olhou por alguns segundos, avaliando. Aqueles segundos pareceram minutos.
— Vou esperar até o fim da semana. — disse por fim. — Mas é o último prazo.
Assenti rápido, com os olhos ardendo.
— Obrigada. Obrigada mesmo.
Ela só balançou a cabeça e foi embora pela rua, sem olhar pra trás.
Continua.....