CAPÍTULO 4
DUDA NARRANDO
Meu nome é Eduarda.
Mas todo mundo me chama de Duda.
Tenho 18 anos recém-feitos, diploma de magistério ainda com cheiro de novo e uma matrícula em pedagogia a distância que eu fiz mais por esperança do que por certeza. Parcelada, apertada, mas feita. Porque desistir nunca foi opção pra mim.
Sou morena clara, olho verde puxando pro mel quando o sol bate, cabelo preto liso que minha mãe sempre fala que parece espelho quando eu cuido direito. Corpo bonito — não porque eu me ache, mas porque já ouvi isso demais pra fingir que não existe. Só que nunca foi o que me salvou. Nem o que eu quis usar pra isso.
Moro com a minha mãe. Só nós duas.
Ela é doente. Não dessas doenças que aparecem de uma vez e assustam. É daquelas que vão cansando o corpo aos poucos, tirando força, tirando trabalho, tirando futuro. A aposentadoria dela cai todo mês certinha… e some em dois dias. Remédio, conta de luz, água, mercado. Não dá pra nada. Nunca deu.
E eu vejo o olhar dela toda vez que o dinheiro acaba. A culpa. Como se fosse culpa dela eu ter que crescer rápido demais.
Nossa casa fica num bairro humilde. Ruazinha de paralelepípedo, vizinho que se ajuda, criança brincando descalça. É longe dos perigos dos morros. Longe de tiro, longe de boca, longe de tudo que a gente vê no jornal. Um lugar simples. Seguro. Pelo menos por enquanto.
Só que segurança não paga boleto.
Todo dia eu acordo cedo, arrumo a cama, faço o café da minha mãe, separo os remédios dela certinho e saio com currículo na bolsa e esperança no peito. Escola, creche, reforço escolar, qualquer coisa que envolva criança e dignidade.
— Vai com Deus, minha filha — ela sempre diz da porta.
E eu vou.
Mas quase sempre volto com a mesma resposta atravessada no ouvido:
“Vamos ligar.”
“Seu perfil é bom.”
“Por enquanto não.”
Por enquanto não paga aluguel.
Por enquanto não compra remédio.
Naquela manhã, eu tava sentada na cama, olhando pro celular, calculando quanto tempo dava pra segurar as contas, quando pensei se tinha feito certo em escolher ensinar. Em querer cuidar. Em querer ser alguém pra alguém.
Mas aí eu lembrei do sorriso de criança quando aprende a ler. Do brilho no olho quando entende o mundo um pouquinho melhor.
E lembrei de mim mesma, pequena, querendo alguém que ficasse.
Respirei fundo.
Eu precisava de um emprego. Urgente. Não era luxo. Era sobrevivência.
O celular vibrou na minha mão antes mesmo de eu conseguir terminar as contas na cabeça.
Simone.
Atendi na hora.
— Amiga… — a voz dela veio apressada. — Tu tá sentada?
Já senti o coração acelerar.
— Tô. Fala.
— Surgiu um trampo. Mas é… diferente.
— Diferente como? — franzi a testa.
Teve um silêncio curto do outro lado. Aquele silêncio que vem antes de bomba.
— Aqui onde eu moro… — ela começou. — O dono do morro tá procurando alguém pra cuidar do filho dele.
Meu estômago revirou.
— Simone, tu tá maluca? — falei na hora. — Eu não piso em morro.
— Eu sei, calma. Me escuta.
— Não, amiga. Sério. Eu preciso muito de um emprego, mas isso aí não é pra mim, não. Eu morro de medo.
— Eu também teria. — ela admitiu. — Mas deixa eu terminar.
Suspirei, passando a mão no rosto.
— Fala.
— O menino é difícil. Peste mesmo. Ninguém aguenta ele. Já passaram umas duas mulheres lá e nenhuma ficou. — ela falou rápido. — Mas o salário é bom. Muito bom.
— Salário bom não compra paz. — rebati.
— Compra remédio. — ela devolveu, direta.
Fiquei em silêncio.
Ela continuou:
— Duda, eu pensei em você porque você tem jeito com criança. Você é calma. Você tem estudo. Não é qualquer uma.
— Simone… — minha voz saiu baixa. — É o dono do morro. Eu nem sei lidar com gente assim.
— Tu não vai lidar com ele. Vai lidar com a criança.
— Criança que cresce no meio do crime. — sussurrei.
— Criança que tá sem mãe, Duda. — ela respondeu. — Igual a gente ficou sem pai.
Aquilo me acertou em cheio.
— Eu tenho medo… — confessei. — Medo de entrar e não conseguir sair.
— Ninguém tá te obrigando. — Simone falou mais suave. — É só conversar. Ouvir. Depois tu decide.
Olhei pro quarto. Pra cama simples. Pro teto descascado. Pro silêncio pesado da casa.
— E se eu disser não?
— A vida continua difícil. — ela respondeu. — E tu continua procurando.
Fechei o olho.
— E se eu disser sim?
— Aí tua vida muda. — ela falou. — Pra melhor ou pra pior… mas muda.
Engoli seco.
— Eu preciso demais de um emprego… — falei. — Mas eu tenho medo.
— Medo é normal. — Simone disse. — Coragem é ir mesmo assim.
— Eu não prometo nada. — avisei.
— Não precisa prometer. — ela respondeu. — Só escuta o que eles têm pra dizer.
O celular ficou mudo por alguns segundos.
— Me passa o contato. — falei, sentindo o coração bater na garganta. — Só pra conversar.
Ela respirou aliviada do outro lado.
— Vou mandar agora.
Desliguei.
Fiquei olhando a tela apagada, com a sensação estranha de que eu tinha acabado de colocar o pé num caminho sem volta.
Eu precisava de um emprego.
Mas talvez estivesse prestes a entrar no lugar que eu sempre aprendi a evitar.
E o medo… pela primeira vez…
tava andando do lado da necessidade.
A mensagem chegou na hora.
Nome salvo: Purga.
Fiquei olhando pra tela como se ela fosse me morder.
Purga.
Que tipo de pessoa se chama Purga?
Que tipo de mundo cria alguém com esse nome?
Meu dedo pairou em cima do número. Liguei a tela. Desliguei. Respirei fundo. O coração batendo rápido demais pra uma simples ligação.
— É só um trabalho… — murmurei pra mim mesma.
Mas não parecia.
Pensei na minha mãe no quarto ao lado, tossindo baixo pra não me preocupar. Pensei nos remédios acabando. Pensei nas respostas atravessadas, nos “por enquanto não” que eu já sabia de cor.
Voltei a olhar o nome.
Purga.
Talvez fosse só um apelido bobo. Talvez fosse só alguém normal preso num lugar errado. Ou talvez fosse exatamente o tipo de pessoa que eu sempre tive medo de cruzar.
Minha mão suava.
Se eu ligasse, não tinha volta.
Se eu não ligasse, a vida continuava igual.
— Droga… — sussurrei.
Abri a conversa. Nenhuma mensagem. Nenhum “oi”. Só o número e aquele nome pesado.
Minha mãe chamou do quarto:
— Duda?
— Oi, mãe?
— Tá tudo bem?
Olhei pro celular de novo.
— Tá… — respondi. — Tô só pensando.
— Não pensa demais, não. — ela disse. — Cansa o coração.
Sorri fraco.
Era isso. Ou eu cansava o coração… ou cansava o corpo tentando sobreviver do mesmo jeito de sempre.
Fechei o olho.
Toquei no número.
Mas não liguei ainda.
Fiquei ali, com o dedo pronto, o medo apertando o peito, sentindo que aquela decisão simples podia mudar tudo.
Continua…
Deixem bilhetinhos 📚🥹❤️