CAPÍTULO 3
TORRESMO NARRANDO
Purga foi embora sem fazer barulho. Do jeito que ele sempre faz quando sabe que o problema agora é só meu. A porta fechou atrás dele e a casa voltou a ficar grande demais, vazia demais.
Fiquei parado no meio da sala, escutando o silêncio. Não aquele silêncio de paz. O pesado. O que machuca.
Respirei fundo e fui até o corredor. A porta do castigo ainda tava fechada. Trancada. Minha mão parou na maçaneta. Tremia.
Eu já encarei fuzil, já passei por tiroteio, já mandei e desmande. Mas abrir aquela porta… parecia mais difícil que qualquer guerra.
Girei a chave.
A porta abriu devagar.
Gabriel tava sentado no chão, encostado na parede, joelho abraçado no peito. O quarto bagunçado, brinquedo jogado, travesseiro no canto. Olho vermelho. Rosto molhado.
Quando me viu, não levantou. Não desafiou. Só olhou.
Aquilo doeu mais do que se ele tivesse gritado comigo.
— Vem cá, filho… — falei baixo, sem saber direito como começar.
Ele continuou quieto.
Entrei e fechei a porta atrás de mim. Sentei no chão, do lado dele. Não encostei. Só fiquei ali. Presente. Do jeito que eu nunca fico.
— Eu fiquei com medo hoje. — falei. — Medo de perder você.
Ele mexeu no cadarço do tênis, voz saindo pequena.
— A vovó não ia brigar comigo…
Meu peito afundou.
— Eu sei.
— Ela deixava eu sentar no colo… — ele continuou. — Cantava pra eu dormir.
Engoli seco.
— Eu sinto falta dela todo dia, Gabriel.
Ele levantou o rosto devagar.
— Eu também. — a voz quebrou. — Eu sinto saudade da vó. E da minha mãe.
A palavra mãe ficou pendurada no ar, pesada.
— Tu pensa nela ? — perguntei.
Ele balançou a cabeça.
— Eu sempre sonho com ela. — os olhos encheram de novo. — Ela me abraça no sonho.
Foi aí que ele chorou de verdade. Choro aberto, de criança. Sem vergonha, sem raiva. Só dor.
E eu… eu chorei junto. Baixo. Sem som. Porque rei não chora alto, mas pai chora por dentro.
Puxei ele pro meu peito, devagar. Ele resistiu um segundo… depois cedeu. Encaixou a cabeça no meu ombro como se sempre tivesse pertencido ali.
— Eu queria ter uma mãe… — ele soluçou. — Todo mundo tem.
Fechei o olho forte.
— Eu sei, filho… eu sei.
Passei a mão no cabelo dele, sem jeito.
— Eu não sei ser pai direito. — confessei. — Mas eu tô tentando. Juro que tô.
Ele fungou.
— Eu só queria que você ficasse mais comigo… — falou baixinho. — Não só mandar.
Aquilo foi um tapa.
— Eu vou tentar mudar. — prometi, mesmo sem saber como. — Eu não quero que tu cresça achando que tá sozinho.
Ele levantou o rosto, me encarou.
— Você não gosta de mim?
Meu coração quase parou.
— Eu te amo. — falei rápido, firme. — Mais do que tudo. Só que eu aprendi errado.
Ele ficou em silêncio, pensando.
— A vó falava que eu era bom menino… — disse. — Mas que eu tava triste.
Assenti.
— Tu tá triste porque perdeu muita gente cedo demais.
Ele me apertou.
— Você também tá triste, pai.
Aquilo me desmontou inteiro.
— Tô.
Ficamos ali um tempo. Sem falar. Só respirando juntos. O mundo lá fora podia esperar.
Quando ele se acalmou, deitei ele na cama. Cobri com o lençol. Ele segurou minha mão.
— Você vai ficar?
— Vou. — respondi.
Fiquei sentado ali, olhando ele pegar no sono. O rosto ainda molhado, mas tranquilo.
E eu entendi.
Meu filho não precisava de castigo.
Precisava de colo.
Precisava de alguém que ficasse.
E se eu não soubesse ser isso… eu ia ter que aprender.
Porque perder o morro eu até aguentava.
Mas perder ele… não.
Eu dormi ali mesmo.
No chão, encostado na cama do Gabriel, com a coluna reclamando e a cabeça cheia. A mão ainda segurando a dele, como se eu tivesse medo de soltar e ele sumir também.
De madrugada ele se mexeu, chamou baixinho:
— Pai…
— Tô aqui. — respondi na hora.
Ele virou pro lado e dormiu de novo. Tranquilo. E eu fiquei ali, olhando o peito dele subir e descer, pensando em quantas noites ele dormiu sem ninguém por perto.
Quando o sol começou a bater fraco na parede, eu acordei. O morro ainda quieto, aquele silêncio raro de começo de manhã.
Levantei devagar pra não acordar ele. Arrumei o lençol, passei a mão no cabelo dele uma última vez e saí do quarto.
Entrei no meu quarto. A cama grande demais. Fria demais. O lado da Lívia vazio como sempre.
Tirei a roupa e fui pro banho.
A água caiu pesada nas costas, quente. Fiquei parado, cabeça baixa, deixando ela levar um pouco do cansaço, da culpa, da raiva de mim mesmo. Fechei o olho e deixei a memória vir.
Lívia rindo no banheiro apertado do apartamento dela. Dona Tereza cantando pro Gabriel dormir. Tudo que eu perdi.
Quando saí, me enxuguei devagar. Vesti roupa simples: calça, camisa, relógio. Nada de ouro chamativo. Hoje eu não tava me sentindo rei. Tava me sentindo pai.
Peguei o celular. Olhei a hora. Ainda cedo, mas Purga já devia tá acordado.
Liguei.
Chamou duas vezes.
— Fala, patrão.
— Purga… — falei sério. — A gente precisa trocar uma ideia.
— Já tô ligado. Fala.
Respirei fundo.
— Eu vou precisar de ajuda. — engoli seco. — Preciso arrumar uma babá pro Gabriel.
Teve um silêncio do outro lado. Depois ele soltou um riso curto.
— Demorou.
— Não é brincadeira, não. — avisei. — Tem que ser alguém de fora. Sem ligação com o morro. Alguém que cuide de criança de verdade.
— Sei. — ele respondeu. — Vai ser osso, patrão. Ninguém vai querer.
— Então paga bem. — falei firme. — Muito bem.
— Dinheiro não compra coragem. — Purga devolveu. — Mas ajuda.
Passei a mão no rosto.
— Eu confio em tu pra isso. — falei. — Quero alguém limpa. Sem histórico torto. Que não tenha medo de botar limite, mas que saiba dar carinho.
— Tá exigente, hein. — ele provocou.
— Tô desesperado. — respondi.
Purga ficou sério.
— Beleza. Vou perguntar, puxar contato, ver indicação. Escola, igreja, curso… algum lugar assim. Mas já te aviso: quando descobrir pra quem é, vai ter desistência.
— Quem ficar, fica. — falei. — O resto não importa.
— Fechado. — ele disse. — Te retorno ainda hoje.
Desliguei.
Fiquei um tempo parado com o celular na mão. Olhei pro corredor, pro quarto do Gabriel.
— Vai dar certo… — falei baixo, mais pra mim do que pra qualquer um.
Voltei até a porta dele. Abri devagar.
Gabriel ainda dormia, agarrado no travesseiro, cara tranquila. Diferente de ontem. Mais leve.
Sentei na beira da cama.
— Eu vou acertar isso, filho. — prometi em silêncio. — Nem que eu tenha que aprender do zero.
Desci as escadas devagar. A casa ainda tava acordando, aquele cheiro de manhã misturado com silêncio. Antes mesmo de chegar na cozinha, eu senti.
Café passado na hora. Pão quente. Casa viva.
Dona Rosa já tava lá. Avental amarrado na cintura, cabelo preso, mexendo na panela como quem manda naquele espaço sem precisar levantar a voz. Dona Rosa trampa aqui em casa há anos. Desde quando a Lívia ainda vivia. Desde quando dona Tereza descia todo dia pra tomar café com a gente.
— Bom dia, patrão. — ela falou, sem virar o rosto. — Dormiu pouco, né?
Puxei uma cadeira e sentei.
— Nem dormi direito.
Ela virou pra mim, olhou bem no meu olho.
— Dormiu no quarto do menino.
Não foi pergunta. Foi constatação.
Assenti.
Ela serviu o café numa xícara grande, do jeito que eu gosto, e empurrou pra perto de mim.
— Fez bem.
Fiquei em silêncio uns segundos. Depois falei:
— Eu vou contratar uma babá pro Gabriel.
Dona Rosa parou. Largou a colher na pia. Virou devagar.
— Já tava mais do que na hora.
— Eu não sei cuidar dele… — confessei, a voz mais baixa do que eu queria. — Eu sei mandar, proteger, mas cuidar… eu não sei.
Ela puxou outra cadeira e sentou de frente pra mim. Olhar de mãe, de avó, de quem já viu muito.
— Homem nenhum nasce sabendo ser pai — falou calma. — A diferença é quem aprende… e quem finge que não precisa.
Tomei um gole do café. Quente. Forte.
— Só que não pode ser qualquer uma. — continuei. — Tem que ser alguém que goste de criança. Que tenha paciência. Que não tenha medo dele.
Dona Rosa balançou a cabeça.
— Medo de criança não é o problema. — disse. — O problema é medo do senhor.
Olhei pra ela.
— Ele precisa de alguém que não veja o senhor como rei. — continuou. — Precisa de alguém que veja o Gabriel como menino.
— E tu acha que alguém assim entra aqui?
Ela deu um meio sorriso.
— Sempre tem uma que entra achando que é só trabalho. — depois ficou séria. — Mas o senhor vai ter que deixar ela trabalhar. Não pode mandar em tudo.
Soltei um riso curto.
— Isso vai ser difícil.
— Criar filho é difícil. — ela respondeu. — Mas mais difícil ainda é enterrar.
Essa frase caiu pesada.
— Ele sente falta da vó… — falei. — E da mãe.
Dona Rosa baixou a cabeça.
— Eu sei. Ele fala comigo. — disse baixo. — Criança fala mais com quem escuta do que com quem manda.
Aquilo bateu fundo.
— Seu filho não é r**m — ela continuou. — Ele só tá ferido. E ferida de criança não sara com grito.
Levantei a xícara, mas a mão tremeu um pouco.
— E se ele não aceitar a babá?
— Ele vai testar. — respondeu na hora. — Vai provocar, vai gritar.
— E se ela for embora?
Dona Rosa segurou minha mão por cima da mesa.
— A que ficar… é a certa.
Soltei o ar devagar.
— Eu não quero perder meu filho.
Ela apertou minha mão.
— Então não desiste dele quando ele der trabalho.
Ficamos em silêncio um tempo. Só o barulho da casa acordando.
— O café esfria, mas o menino cresce. — ela disse, levantando. — E cresce rápido demais.
Continua…