2- TORRESMO

1517 Words
CAPÍTULO 2 TORRESMO NARRANDO Eu tava na boca, resolvendo problema. Como sempre. Rádio chiando, dinheiro passando de mão em mão, vapor reclamando de carga curta, soldado pedindo munição. Aquela rotina que nunca para. O morro respirando no meu ritmo. Foi quando o rádio cortou tudo. — Patrão… patrão… — a voz do moleque saiu atropelada, tremida demais pra ser normal. — O menino… o seu filho… tá lá embaixo. Eu franzi a testa. — Fala direito, porrä. Tá acontecendo o quê? Teve um silêncio curto. Curto demais. Aquele tipo de silêncio que dá r**m. — Ele tá na rua… com uma arma na mão. O mundo parou. Não foi figurativo, não. Parou mesmo. O som ao redor ficou longe, como se alguém tivesse jogado água dentro do meu ouvido. Eu senti o sangue subir quente, pesado, direto na cabeça. — COM O QUÊ? — eu gritei. — Uma pistola, patrão. Eu não pensei. Não mandei ninguém ir. Não dei ordem. Não puxei segurança. Eu simplesmente virei as costas, empurrei quem tava na frente e saí correndo. Correndo como eu não corria desde moleque fugindo de bala. Meu coração batia descompassado, não de medo de polícia, nem de invasão. Medo dele. Medo do que ele podia virar. Medo do que eu tava criando sem perceber. Quando eu virei a esquina e vi a cena… porrä. Meu filho tava no meio da rua de terra, peito estufado, cara fechada, segurando a arma com as duas mãos, apontando pro nada, imitando postura de homem grande. Dois moleques maiores riam, incentivando. — Assim, cria… segura firme. Eu não lembro de ter gritado. Só lembro de chegar. Arranquei a arma da mão dele num movimento só, rápido, bruto. O ferro ainda tava quente do sol. Meu dedo foi direto no carregador. Vazio. Sem bala. Eu fechei o olho por um segundo e agradeci a tudo que existe. A Deus, ao acaso, ao inferno inteiro se fosse preciso. Se tivesse uma bala ali… uma só… eu não sei se eu sobreviveria a isso. Quando abri o olho, meu filho me encarava. Desafiador. Igualzinho a mim. Foi aí que a raiva veio. Segurei ele pela orelha com força. Não foi carinho, não foi correção leve. Foi do jeito que eu aprendi no mundo. — Tu tá MALUCO, moleque?! — rosnei, puxando ele comigo. — Tu acha que isso aqui é brinquedo, porrä?! Ele tentou se soltar, bateu no meu braço. — Me larga! Me larga! — Vou te largar nada! — puxei mais forte. — Tu quer brincar de bandido? Tu não sabe o peso dessa merdä ainda! O morro inteiro ficou em silêncio. Vapor nenhum abriu a boca. Ninguém se meteu. Quando é comigo e com ele, não tem hierarquia que atravesse. Arrastei ele até dentro de casa. Porta batendo. Tranca girando. — Sobe pro quarto. AGORA. — Não vou! Eu virei num estalo. Apontei o dedo na cara dele, baixo, perigoso. — Tu vai. Ou eu juro que tu vai descobrir hoje que eu não sou só teu pai. Ele engoliu seco. Subiu. Eu fui atrás. Chegando lá, peguei a chave do castigo. O quarto pequeno, sem janela pra rua. Nada de videogame, nada de TV, nada de sair. — Tu vai ficar aí. Sem sair. Sem falar. Sem nada. — falei, tentando segurar a voz que tremia. — Até aprender que arma não é extensão de homem nenhum. — Eu só queria ser igual você… — ele soltou, baixo. Aquilo me atravessou mais fundo que bala. Eu virei de costas rápido, antes que ele visse o que fez comigo. — Pois é isso que eu não quero você fazendo isso. Fechei a porta. Tranquei. Fiquei ali parado, com a mão na maçaneta, respirando pesado, sentindo o peso do erro cair todo nas minhas costas. O silêncio dentro da casa era pior que tiroteio. Eu mandei recolher TODAS as armas do alcance dele. Revirei gaveta, caixa, fundo falso. Tudo fora do alcance. Tudo longe. Mas não adiantava. O problema não era a arma. Era eu. Mais tarde, sentei sozinho na sala. A casa grande demais, vazia demais. O retrato da Lívia na estante me encarando como se perguntasse onde foi que eu errei. — Eu tô tentando… — falei baixo, pra ninguém. — Mas eu não sei fazer isso. Meu filho chorava atrás da porta. Choro preso, de raiva, de abandono, de dor que criança não sabe nomear. E eu, Rei da Penha, dono de tudo… sentado no sofá, sem saber como salvar o próprio sangue. Foi ali que eu entendi. Eu não precisava de mais arma. Nem de mais soldado. Nem de mais poder. Eu precisava de alguém que fizesse o que eu nunca consegui. Cuidar. E se esse alguém não aparecesse logo… eu ia perder meu filho pro mesmo inferno que me criou. A campainha não tocou. Nem precisava. Purga entrou do jeito que sempre entra: batendo duas vezes na porta e já girando a maçaneta. Se ele tá ali, é porque é sério. Purga é meu braço direito. O único. O cara que eu confio pra segurar a Penha se eu cair duro amanhã. Ele parou no meio da sala, me olhou sentado no sofá, cabeça baixa, mão no rosto. — E aí, patrão… — falou baixo. — Que clima é esse? O morro tá em silêncio estranho. Eu respirei fundo. Olhei pro corredor, pro quarto trancado. — Deu merdä, Purga. Ele puxou uma cadeira e sentou de frente pra mim, cotovelo no joelho, olhar atento. — Fiquei sabendo de um zum-zum lá embaixo… n**o falando do cria. Fechei o olho. — Pegaram ele na rua… com uma arma na mão. Purga arregalou o olho na hora. — Caralhø… — Sem bala. — completei rápido. — Graças a Deus sem bala. Ele passou a mão no rosto, pensativo. — Mas só de tá com a arma já é coisa séria, patrão. — Eu sei. — bati a mão na perna, nervoso. — Eu arranquei a arma, puxei pela orelha, botei de castigo. Tranquei no quarto. Purga assentiu devagar. — Fez o certo. — Não sei se fiz. — falei, sentindo o peso. — Ele olhou pra mim… igual eu olhava pros caras quando era pivete. Sem medo. Sem freio. Purga ficou em silêncio uns segundos. Depois falou, daquele jeito dele, sem rodeio, mas sem desrespeito. — Patrão… vou te mandar a real, na humildade. — Manda. — O cria tá espelhando em tu. Essa frase bateu seco. — Ele te vê como herói, como rei, como tudo. Só que ele não entende o preço. Ele só vê a arma, o respeito, o medo que n**o tem de tu. Não vê o caixão. Não vê a solidão. Eu ri sem humor. — E como é que eu tiro isso da cabeça dele? Purga levantou e foi até a janela. Olhou o morro lá fora, como quem enxerga passado e futuro ao mesmo tempo. — Sozinho tu não vai conseguir, patrão. — Tá dizendo que eu sou fraco? Ele virou rápido. — Nunca. Tu é forte pra caralhø. Mas força não cria criança. Força cria soldado. Aquilo doeu porque era verdade. — Criança precisa de presença, de limite sem medo, de cuidado… — ele continuou. — E tu só conhece limite no grito e na mão pesada. Não é crítica, é sobrevivência. Foi assim que tu aprendeu. Passei a mão na cabeça, cansado. — Minha mãe fazia isso… — murmurei. — Dona Tereza segurava ele no colo, conversava, cantava. Ele dormia com ela. Comigo, ele só me enfrenta. Purga deu um meio sorriso triste. — Porque contigo ele disputa trono, não colo. Silêncio. Do quarto veio um barulho seco. Coisa sendo jogada na parede. Meu peito apertou. — Ele vai virar eu… — falei baixo. — Eu tô vendo. Purga se aproximou e parou na minha frente. — Então muda agora. — Como? — Arruma alguém de fora desse mundo. — ele falou firme. — Alguém que não tenha medo de tu, mas que não viva disso aqui. Alguém que veja ele como criança, não como herdeiro do morro. — Tu tá falando de uma babá. — Tô falando de salvação, patrão. Soltei um riso nervoso. — Tu acha que alguém vai entrar nessa casa sabendo quem eu sou? Purga deu de ombros. — Sempre tem quem precise mais do que tema. — depois completou, sério: — Mas tu vai ter que aceitar perder um pouco o controle. Senão, vai perder o moleque inteiro. Olhei pro corredor de novo. O barulho tinha parado. Só silêncio agora. — Se eu errar de novo… — falei. — Todo mundo erra. — Purga respondeu. — O que não pode é errar igual ontem. Levantei devagar. Fui até a porta do quarto. Encostei a testa nela. — Eu não sei ser pai, Purga. Ele ficou atrás de mim. — Aprende, patrão. Antes que seja tarde. Lá dentro, ouvi a voz do meu filho, baixa, cansada: — Pai…? Aquilo me desmontou. E ali, pela primeira vez desde que virei rei, eu senti medo de verdade. Não de perder o morro. Mas de perder meu filho. Continua…
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