A casa da Luana era o caos organizado que a gente adorava. O quarto estava uma bagunça de maquiagem, spray de cabelo e roupas espalhadas pela cama, mas o resultado final? Impecável.
Nós quatro estávamos prontas. Ou quase.
Sara já estava sentada na ponta da cama, ajustando os brincos, com aquele vestido longo preto que deixava a pele dela brilhando como ébano. Luana, de shortinho jeans e cropped, já tinha passado o perfume três vezes e checava o celular ansiosa. Eu, Íris, me admirava no espelho de corpo inteiro. O vestido vermelho de mangas longas e costas nuas parecia ter sido feito sob medida. Meu cabelo cacheado estava solto, volumoso, emoldurando meu rosto, e a maquiagem destacava meus olhos sem exagerar. Eu me sentia poderosa. Gostosa, sim, mas principalmente poderosa.
Só faltava uma pessoa.
— Samantha! Pelo amor de Deus, mulher! — gritou Luana, batendo palmas. — Bora, Samanta, já! Tá muito perfeito, vamos logo que essa enrolação do caramba vai fazer a gente perder o melhor do baile!
Do banheiro, ouviu-se um suspiro dramático seguido do barulho de mais um frasco sendo aberto.
— Calma, Lua! Beleza leva tempo. E eu não vou sair parecendo qualquer uma.
Revirei os olhos, sorrindo. Samantha sempre foi assim: perfeccionista até a medula. Quando ela finalmente saiu, entendemos o motivo da demora. Ela estava deslumbrante. O conjunto preto justo abraçava seu corpo magro e elegante, e seus olhos azuis estavam realçados por uma sombra esfumada que dava um ar misterioso. O cabelo loiro liso caía como uma cascata dourada pelas costas.
— Pronto — disse ela, girando nos calcanhares. — E aí? Valeu a pena esperar?
— Valeu — admitiu Luana, embora tenha revirado os olhos de novo. — Mas agora é agora.
Antes de sairmos, tive uma ideia. Peguei meu celular da bolsa.
— Ei, antes de irmos, vamos tirar uma foto nas quatro para postar no i********:. Vou marcar todo mundo, tá? As meninas vão pirar quando virem a gente arrasadona.
As três concordaram na hora.
— Tá bom — disse Sara, ajeitando o cabelo.
— Bora lá — animou-se Luana.
Nos agrupamos na frente do espelho grande do quarto da Luana. Eu no centro, com o vestido vermelho chamando atenção. Samantha à minha direita, com sua pose de modelo internacional. Sara à esquerda, serena e elegante. E Luana atrás de nós, fazendo biquinho e mostrando as pernas.
Click.
Olhamos a foto. Ficou incrível. A iluminação estava boa, nossas expressões eram de confiança e amizade pura.
— Ficou ótima — disse Sara, analisando a tela. — Mas... não tá faltando nada, né?
Luana e Samantha olharam para ela.
— Sara, você já perguntou isso umas três vezes — disse Luana, rindo. — Não tá faltando nada. Estamos perfeitas.
— Eu sei o que tá faltando — interrompeu Samantha, com aquele olhar esperto dela. Ela pegou meu celular da minha mão antes que eu pudesse reagir. — Uma foto da Íris sozinha. Com esse vestido maravilhoso, elegante e gostosa demais. Tá muito bonito pra não tirar uma foto sozinha e não postar. As pessoas precisam ver essa obra de arte.
— Ah, para, Sam! — tentei protestar, mas já estava rindo.
— Nada de "para". Vem aqui. — Ela me empurrou levemente para o centro do quarto, onde a luz do abajur criava um efeito interessante. — Faz um carão de modelo, Iris. Mostra essas costas nuas. Mostra essa postura de quem não deve nada a ninguém.
Respirei fundo, entrando no personagem. Ergui o queixo, joguei o cabelo cacheado para um lado, coloquei uma mão na cintura e lancei um olhar penetrante para a lente da câmera. Não era só uma pose; era uma afirmação. Eu sou Íris. E eu mando em mim.
Click. Click. Click.
Samantha analisou as fotos rapidamente.
— Essa aqui. A terceira. Você tá devastadora, amiga. Sério. Tá linda demais pra ficar escondida nesse quarto.
Sorri, pegando o celular de volta.
— Obrigada, Sam. Você sabe como me valorizar.
Editei rapidamente, coloquei uma legenda simples: "Noites de Alemão. 🌹🔥 #Amigas #LookDoDia" e postei. Em segundos, as notificações começaram a pipocar. Curtidas, comentários de "gostosa", "linda", "arrasa".
— Pronto — guardei o celular. — Agora podemos ir?
— Agora sim — disse Luana, abrindo a porta do quarto. — Mas calma, a gente ainda não vai já pro galpão. Vamos descer devagar, aproveitar o clima, talvez passar na vendinha pra garantir que a noite comece bem.
Descemos as escadas da casa da Luana, saltitantes, cheirando a perfume caro e expectativa. O morro estava vivo. Luzes coloridas piscavam ao longe, indicando a direção do galpão. O som grave do baixo já podia ser sentido no peito, mas ainda estávamos no nosso tempo, sem pressa, curtindo a companhia uma da outra antes de mergulhar na multidão.