No corredor, minha irmã mais velha deixou o quarto e me cumprimentou. Ela era muito parecida com Sarah, com exceção que Sarah era mais jovial e Lauren era muito sóbria.
— Sarah avisou que terminou com o desgraçado… — Ela me disse. — Obrigada por mover todos… o pai está ocupado.
— É só meu trabalho — sorri-lhe. — Pode me ajudar?
— Tente-me! — riu, dando de ombros. — Se for para matar sua noiva, não posso me meter.
— Não — ri em negativa. — Felizmente, a lealdade à família tem sido suficiente para aguentar continuar com ela.
— Quero ver até quando — falou, levantando uma das sobrancelhas. — No dia que resolver se apaixonar por uma moça, quero ver como vai ser isso!
Cheguei a arrepiar com sua fala.
— Tsc, por isso que eu não tenho com outra mulher desde os dezesseis! — ri. — Oportunidade não falta — lamentei.
— Cuidado! O gene r**m do pai ainda está aí… ele tem uma esposa e duas amantes em casa por causa disso! — avisou. — Mas, enfim, qual é a ajuda que precisa?
— Preciso encontrar um homem chamado Walter na área do De Luca. Esse homem tem uma filha, estuda com nossos irmãos. A menina só se declarou para o Victorio, mas… se os pequenos são o alvo, pode estar ligado.
— Peço para as minhas meninas darem uma procurada — assentiu com a cabeça. — Juízo, pirralho!
Antes de descer à sala, passei em meu quarto para pegar um blusão. Tão perto do jantar, não ficaria sem blusa pela casa.
Minha descida coincidiu com a chegada do pai. Ele tinha dois seguranças consigo. O pai já tinha mais de cinquenta. O cavanhaque e o cabelo cortado já estavam brancos.
Sempre andava alinhado. Já tinha sinais da idade no rosto, mas os olhos azuis eram intensos. Refletiam o quanto ele era objetivo e nunca abandonava a forte postura de líder.
— Boa noite, babbo! — cumprimentei-lhe.
— Soube do ocorrido. Bom trabalho!
Apenas lhe cumprimentei e sentei ao lado de Beatrice.
A mãe e ela falavam sobre frivolidades e não interrompi. Só entrei nos trechos do assunto que a mãe convidou e Beatrice já estava mais calma, não invocou outro desconforto.
A refeição em família só não foi silenciosa porque o pai perguntou aos irmãos como fora seu dia e eles falaram bastante sobre tudo que lhes ocorreu.
Quando eles falaram do jogo no dia seguinte e da minha presença, faltou Beatrice cuspir munições de .762 pelos olhos.
Sempre doce, Megan ajudou-lhes a mudar o assunto, mas o estrago já estava feito e eu não me importava que Beatrice soubesse a pouca prioridade que tinha comparada aos gêmeos.
Findada a refeição, a família se reuniu na sala.
Em todas as noites, o pai fazia questão de reunir todos — incluindo as amantes — para bebermos uma taça de vinho. Sempre importávamos um vinho da Itália, especial para consumo infantil, porque até as crianças participavam.
— Precisa chamar a professora, Megan. — Avisei. — Até garantirmos que tudo está bem… é melhor estudarem em casa.
— Angelo avisou… já resolvi isso, agradeço — sorriu.
Era exótico estar reunido na sala com a família. O pai ao lado de Ashley, falando com as amantes e os filhos.
Não éramos uma família normal, confesso.
Felizmente, não era habitual termos algum desconforto entre as moças, afinal, o pior passara e todas se acostumaram.
Por volta das nove, todos começaram a se recolher.
— Quer que eu te leve em casa ou ficará? — perguntei a Beatrice, quando ficamos sós na sala.
— Preciso voltar. Tenho uma meia-irmã, a mãe da bastarda faleceu e preciso decidir o que fazer com o tio Frank.
— Nem sabia que tinha uma meia-irmã! — ri. — Precisará da minha ajuda para algo?
— Parece estar ocupado. Não precisa — falou orgulhosa.
— Se quiser ficar, acordo cedo e te levo.
— Não… só me leva para casa!
Assenti com a cabeça e levantei para estendê-la a mão e ajudá-la a se levantar, perguntando:
— É assim que quer terminar a noite?
— Só te pedi para sair — falou, pegando minha mão.
— O que faço não é brincadeira, minha linda. Não posso só dispensar o trabalho, como se a única consequência fosse apenas não receber dinheiro — falei, tentando entendê-la.
— Desse jeito é insuportável! — reclamou.
— Quer a separação? Cancelamos o noivado… pegamos aquele maldito contrato e rasgamos… é isso que quer?
— Não é assim tão simples! — arfou, temerosa.
— Se não gosta que eu trabalhe, arrume alguém que não faz nada da vida! — dei de ombros. — Não vou atrás de você, nem atrás dele porque não sou esse tipo de gente… a gente só está assim porque você ainda insiste.
— Não fala como se eu fosse indesejável! — Aumentou o tom de voz. — Estamos juntos há doze anos, Dante!
— Não mente para você, Beatrice. Você é linda e muito inteligente, com toda certeza; mas, se eu tivesse escolha, você sabe que eu não estaria do seu lado.
Seus olhos lacrimejaram e ela engoliu seco.
— Não é como se, em malditos doze anos, eu não tivesse feito mínimo esforço para amar você. Sempre tento agradar, mas nada nunca é suficiente… então, não sou o problema.
Ela abaixou a cabeça e não me respondeu. Envolvi sua cintura para levá-la ao carro. Nunca, em público, demonstrava minha chateação ou descontentamento.
Pelo contrário, um dos maiores mitos de quem nos via passeando era que éramos o casal mais feliz de Valleyview.
Ela morava e trabalhava ao sul, na área que seu tio comandava. Era advogada e estava se preparando para arriscar uma carreira no juizado criminal local.
Tinha talento, era muito venenosa. Perfeita carreira!
— Amanhã estarei em casa. É possível eu ter trabalho. Falarei com seu tio para ele aumentar seu cuidado, okay?
Ela apenas assentiu com a cabeça.
Foi uma silenciosa viagem de carro. Na porta de sua casa, beijei o canto de sua boca e me virei sem falar mais nada.
Era frustrante lidar com aquilo tudo.
No caminho de volta, não me apressei, afinal, um emocional abalado e um volante não costumam se dar bem.