IV. Notte

1048 Words
No corredor, minha irmã mais velha deixou o quarto e me cumprimentou. Ela era muito parecida com Sarah, com exceção que Sarah era mais jovial e Lauren era muito sóbria. — Sarah avisou que terminou com o desgraçado… — Ela me disse. — Obrigada por mover todos… o pai está ocupado. — É só meu trabalho — sorri-lhe. — Pode me ajudar? — Tente-me! — riu, dando de ombros. — Se for para matar sua noiva, não posso me meter. — Não — ri em negativa. — Felizmente, a lealdade à família tem sido suficiente para aguentar continuar com ela. — Quero ver até quando — falou, levantando uma das sobrancelhas. — No dia que resolver se apaixonar por uma moça, quero ver como vai ser isso! Cheguei a arrepiar com sua fala. — Tsc, por isso que eu não tenho com outra mulher desde os dezesseis! — ri. — Oportunidade não falta — lamentei. — Cuidado! O gene r**m do pai ainda está aí… ele tem uma esposa e duas amantes em casa por causa disso! — avisou. — Mas, enfim, qual é a ajuda que precisa? — Preciso encontrar um homem chamado Walter na área do De Luca. Esse homem tem uma filha, estuda com nossos irmãos. A menina só se declarou para o Victorio, mas… se os pequenos são o alvo, pode estar ligado. — Peço para as minhas meninas darem uma procurada — assentiu com a cabeça. — Juízo, pirralho! Antes de descer à sala, passei em meu quarto para pegar um blusão. Tão perto do jantar, não ficaria sem blusa pela casa. Minha descida coincidiu com a chegada do pai. Ele tinha dois seguranças consigo. O pai já tinha mais de cinquenta. O cavanhaque e o cabelo cortado já estavam brancos. Sempre andava alinhado. Já tinha sinais da idade no rosto, mas os olhos azuis eram intensos. Refletiam o quanto ele era objetivo e nunca abandonava a forte postura de líder. — Boa noite, babbo! — cumprimentei-lhe. — Soube do ocorrido. Bom trabalho! Apenas lhe cumprimentei e sentei ao lado de Beatrice. A mãe e ela falavam sobre frivolidades e não interrompi. Só entrei nos trechos do assunto que a mãe convidou e Beatrice já estava mais calma, não invocou outro desconforto. A refeição em família só não foi silenciosa porque o pai perguntou aos irmãos como fora seu dia e eles falaram bastante sobre tudo que lhes ocorreu. Quando eles falaram do jogo no dia seguinte e da minha presença, faltou Beatrice cuspir munições de .762 pelos olhos. Sempre doce, Megan ajudou-lhes a mudar o assunto, mas o estrago já estava feito e eu não me importava que Beatrice soubesse a pouca prioridade que tinha comparada aos gêmeos. Findada a refeição, a família se reuniu na sala. Em todas as noites, o pai fazia questão de reunir todos — incluindo as amantes — para bebermos uma taça de vinho. Sempre importávamos um vinho da Itália, especial para consumo infantil, porque até as crianças participavam. — Precisa chamar a professora, Megan. — Avisei. — Até garantirmos que tudo está bem… é melhor estudarem em casa. — Angelo avisou… já resolvi isso, agradeço — sorriu. Era exótico estar reunido na sala com a família. O pai ao lado de Ashley, falando com as amantes e os filhos. Não éramos uma família normal, confesso. Felizmente, não era habitual termos algum desconforto entre as moças, afinal, o pior passara e todas se acostumaram. Por volta das nove, todos começaram a se recolher. — Quer que eu te leve em casa ou ficará? — perguntei a Beatrice, quando ficamos sós na sala. — Preciso voltar. Tenho uma meia-irmã, a mãe da bastarda faleceu e preciso decidir o que fazer com o tio Frank. — Nem sabia que tinha uma meia-irmã! — ri. — Precisará da minha ajuda para algo? — Parece estar ocupado. Não precisa — falou orgulhosa. — Se quiser ficar, acordo cedo e te levo. — Não… só me leva para casa! Assenti com a cabeça e levantei para estendê-la a mão e ajudá-la a se levantar, perguntando: — É assim que quer terminar a noite? — Só te pedi para sair — falou, pegando minha mão. — O que faço não é brincadeira, minha linda. Não posso só dispensar o trabalho, como se a única consequência fosse apenas não receber dinheiro — falei, tentando entendê-la. — Desse jeito é insuportável! — reclamou. — Quer a separação? Cancelamos o noivado… pegamos aquele maldito contrato e rasgamos… é isso que quer? — Não é assim tão simples! — arfou, temerosa. — Se não gosta que eu trabalhe, arrume alguém que não faz nada da vida! — dei de ombros. — Não vou atrás de você, nem atrás dele porque não sou esse tipo de gente… a gente só está assim porque você ainda insiste. — Não fala como se eu fosse indesejável! — Aumentou o tom de voz. — Estamos juntos há doze anos, Dante! — Não mente para você, Beatrice. Você é linda e muito inteligente, com toda certeza; mas, se eu tivesse escolha, você sabe que eu não estaria do seu lado. Seus olhos lacrimejaram e ela engoliu seco. — Não é como se, em malditos doze anos, eu não tivesse feito mínimo esforço para amar você. Sempre tento agradar, mas nada nunca é suficiente… então, não sou o problema. Ela abaixou a cabeça e não me respondeu. Envolvi sua cintura para levá-la ao carro. Nunca, em público, demonstrava minha chateação ou descontentamento. Pelo contrário, um dos maiores mitos de quem nos via passeando era que éramos o casal mais feliz de Valleyview. Ela morava e trabalhava ao sul, na área que seu tio comandava. Era advogada e estava se preparando para arriscar uma carreira no juizado criminal local. Tinha talento, era muito venenosa. Perfeita carreira! — Amanhã estarei em casa. É possível eu ter trabalho. Falarei com seu tio para ele aumentar seu cuidado, okay? Ela apenas assentiu com a cabeça. Foi uma silenciosa viagem de carro. Na porta de sua casa, beijei o canto de sua boca e me virei sem falar mais nada. Era frustrante lidar com aquilo tudo. No caminho de volta, não me apressei, afinal, um emocional abalado e um volante não costumam se dar bem.
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