Voltando para casa, eu não me sentia com sono. Ventava bastante quando saí do carro, mas eu estava com muito calor.
Entrando, a mãe estava na sala. Vestia seu robe preto e tinha duas taças de vinho intocadas na mesa.
— Insônia, mio unico amore? — sorri-lhe.
— Imaginei que estaria exatamente com essa expressão quando chegasse… aí não consegui dormir — falou, se levantando para se aproximar. — Vinho?
Abaixei um pouco e ela beijou minha testa. Assenti e sentei ao seu lado no sofá. Ela acariciou meu braço, onde a marca das unhas de Beatrice estavam bem vermelhas.
— Conversa com sua mãe? — pediu.
— Não tenho muito o que falar, minha mãe. Parece que ela gosta de brigar… gosta de me estressar — arfei.
— Sua mãe nem pode imaginar o quanto está sendo difícil. Sabe que, se optar pela sua felicidade, sua mãe apoiará.
— Nunca te farei passar por isso. O desconforto na família seria terrível! Mesmo que Ashley sempre vá negar, eu sou o primeiro filho homem… é meu trabalho!
— Casamento não deveria ser um trabalho — lamentou. — Honestamente, se ela só continuasse sendo aquela estúpida, seria muito melhor do que te obrigar a casar.
— Quando o pai conversou comigo, na época em que acatou a vontade da Ashley, ele não mentiu. Disse que não teria obrigado, se dependesse dele, mas que aquilo seria bom por eu ser, na época, seu único herdeiro. Apesar de tudo, eu tenho uma responsabilidade com vocês, os gêmeos.
— Fico preocupada. — A voz da mãe tremeu um pouco. — Quero muito vê-lo feliz. Já tem vinte e oito, se tornou um homem lindo!
— Não precisa chorar, minha mãe — sorri-lhe, pondo a taça à mesa para abraçá-la. — Também queria ser muito feliz, estar com alguém que me faz bem… não mentirei… mas, eu não seria feliz, se Ashley mudasse seu alvo para os gêmeos.
O coração apertou quando senti a mãe soluçar. Acabava comigo vê-la chorar, mas eu não podia fazer muito.
Quando Ashley exigiu que eu me juntasse a Beatrice, eu tinha dezesseis; ela tinha dezoito. Ashley sempre foi próxima do Padrino Bianchi, ele ainda era vivo — um cretino!
Não sei como funcionou a conversa, mas um dia ela chegou decidida que eu casaria com Beatrice. Falou com o pai e eu só fui comunicado.
A mãe acabou se ajeitando comigo no sofá e dormindo.
O que mais me doía é que aquela não foi a primeira vez em que ela choraria por aflição quanto a minha vida; também não seria a última vez.
Acabei dormindo sentado. Estava exausto!
Acordei com o movimento da mãe. Abri os olhos e dava para ver o dia nascendo na janela.
— Dio te benedica. — Ela abençoou, beijando minha testa. — Não esperava acordá-lo. Perdoe, sua mãe — riu.
— Tudo bem… tomarei meu banho para começar o dia.
— Prepararei a refeição. Bom dia!
Sorri-lhe, peguei o telefone e subi.
Não incomodaria Frank tão cedo, mas liguei ao seu conselheiro para saber como as movimentações com a formação que tinham estava. Felizmente, tudo estava bem.
Já me arrumei para o trabalho cedo. Enquanto dava o nó na gravata, o silêncio do quarto encerrou com os gêmeos entrando, discutiam quem ganharia o grande jogo do dia.
— Bom dia, meninos!
— Babbo, explica para ele que o Cologne vai ganhar hoje! — Giuseppe falou. — Ele é muito teimoso.
— Não — disse Victorio em negativa. — Estão indo mau por toda a temporada e Berlin está invicto! Não acho que tem como. Queria acreditar na vitória do Cologne, mas não dá.
— Tenho uma proposta melhor — falei para os dois. — Descemos, tomamos o café e apostamos. O que acham?
— Vou ganhar! — Giuseppe disse, bem convencido.
— Tomara… já gastou a mesada toda! — Victorio riu.
— Toda!? — Olhei para ele, rindo.
Começamos a caminhar para descer e ele respondeu:
— Ajudei uma menina — sorriu.
— Hm… fidanzata?
— Não, babbo! — falou acanhado. — Ela queria comer algo, algumas meninas mexem com ela, pegam seu lanche… e ajudo pagando outro — sorriu, abaixando a cabeça.
— Ele só não quer admitir! — Victorio riu, acelerando o passo para não deixar Giuseppe iniciar uma discussão.
Descemos e tivemos nossa refeição. A tal aposta foi feita com biscoitos, quem perdesse se juntaria a Megan para cozinhar, mas Megan não ajudaria, só instruiria.
Durante a manhã, não precisei sair para o trabalho.
Os gêmeos comemorariam, se sua professora não tivesse chegado ao café da manhã e os chamasse para a aula após.
Antes do jogo iniciar, eles estavam agitados e isso nos fez ir para fora jogar. Paramos para assistir ao jogo. Victorio acertou seu palpite e Giuseppe foi à cozinha.
— Vou ao quarto, babbo. — Victorio avisou.
Beijei sua testa e ele entrou. Provavelmente pegaria um livro qualquer para se deitar e ler — sua atividade favorita. Peguei a bola para entrar e o telefone tocou.
— Desculpa. — Foi o que Beatrice disse, chorando.
— Boa tarde… dormiu bem?
Não responderia outro pedido de desculpas.
— S-sim. Já estou com saudade…
— Se quiser, você pode vir aqui… quer que eu te busque?
— Não… ainda estou ocupada.
— Sua irmã já chegou?
— Argh! Nem me fala da bastarda. Está no quarto!
— Ela estressou você de alguma forma?
— Ela é da roça! Tem que ver o vestido que usava quando chegou — reclamou como se fosse um crime. — Nem usava maquiagem, ela não tem nem sutiã, Dante! Que inferno!
— Se a mãe dela acabou de morrer, tenho certeza que não é fácil pensar na vaidade nessa hora — justifiquei.
— Impossível! Nem quando meu pai morreu, eu saí assim na rua. Ela parece toda boba… odiei!
Realmente quando seu pai morreu, Beatrice atrasou o velório. Um terrível desrespeito, mas carma dele. Nem queria saber quem era a irmã para não encontrar outra Beatrice.