— Preciso que encontre Vincenzo e Frank. — O pai disse.
— Onde está Giovani, o mezzo padrino?
— Deveria respeitá-lo — aconselhou, rindo.
— Tem alguém abaixo do senhor que não consegue lidar com suas responsabilidades e ele merece respeito? — arguí.
Apesar da malcriação, Giovani era um bom homem. De idade próxima ao pai, era seu melhor amigo há anos e, possivelmente, a alma mais confiante de toda a máfia.
— Quanto tempo tenho? — perguntei.
— Ainda há tempo. Se possível, chegue para o jantar.
— Vou realmente me esforçar — sorri-lhe. — Onde?
— No centro… devem te ligar — deu de ombros.
— Sim, senhor! Giovani precisa de suporte? — gargalhei.
Ele acabou rindo em negativa, mas fui ao meu quarto. Se precisaria encontrá-los, precisava estar melhor alinhado. Saindo do quarto, Magnos estava na minha porta.
— Meu pai!? — perguntei, olhando-o.
Ele apenas assentiu com a cabeça.
— Claro, preciso de babá agora! — ri.
— Briga comigo, não, Dan. — Ele brincou, rindo.
— Não vou, prometo!
— Acompanhe-me — ironizou, me cumprimentando com toda sua formalidade. — Dirigir-lhe-ei ao seu destino.
Assumi a frente e descemos. Quase fui ao assento do motorista, mas ele pôs a mão em meu ombro, me impedindo.
— Ainda não temos o conhecimento sobre o lugar para onde devemos ir, mas posso nos guiar à cafeteria que gosta. — Magnos disse quando me sentei. — Claro, se não quiser fazer igual nos velhos tempos e passar no velho clube de strippers.
— Apesar de precisar muito relaxar, eu ainda sou noivo…
— Sabe que eu não conto para ninguém — riu, dando partida e saindo numa velocidade baixa.
— Não inventa, Mag… per Dio!
Ambos gargalhamos. O assunto até chegar na cafeteria foi bem casual. A melhor parte era falar com alguém com quem eu não precisava ter a mínima formalidade ou pudor.
Era quase correto dizer que Magnos era uma espécie de irmão. Não nasceu da minha mãe ou pai; mas herdou as responsabilidades de um de nossos melhores soldados, caído no conflito que expulsou Di Sangue da cidade há três anos.
Basicamente crescemos juntos. Recebendo tratamento de bastardo, acabava convivendo bastante com ele — isso, claro, até os dezesseis quando deixei de ter vida social.
“Quer vir me buscar agora?”, dizia uma mensagem que recebi de Beatrice, assim que cheguei na cafeteria.
— Nossa! Ela sentiu o cheiro? — Magnos perguntou.
— Não faço ideia! — ri da minha desgraça.
Provavelmente, ele só reparou ser Beatrice pelo semblante que eu senti contorcer. Ela parecia saber que precisei sair e por isso decidiu mudar de ideia!
— Que inferno! — esbravejei.
Peguei o telefone para responder a mensagem enquanto abria a porta do carro, mas acabei colidindo com uma moça.
Meu telefone caiu e a pasta com papéis que ela segurava também. Com os papéis voando, pasta afora, ela se afastou rapidamente e acabou se desequilibrando.
Consegui dar um largo passo para impedi-la de cair. Os longos e ondulados fios dourados tinham um cheiro doce. Seu rosto delicado era ornado com orbes esmeraldas.
Ela não usava maquiagem alguma e tinha um vestido bem simples, difícil de ver alguma das moças do meu meio social utilizando, contudo, era linda.
— G-grazie. — Sua voz era ainda mais delicada, carregada de timidez, provavelmente por estar em meus braços.
— Perdono! — pedi, ajudando-a a se equilibrar.
Usava um salto baixo, mas não parecia habituada pela forma insegura como se portava.
— E-eu que me desculpo! — falou. — Obrigada mesmo!
— Deixe que ajudo com os papéis — falei. — Está de vestido, não é adequado. Mag, pode levá-la até uma cadeira?
Magnos estava apenas olhando, assentiu e lhe estendeu a mão para guiá-la até a mesa da cafeteria. Recolhi os papéis, mesmo tentando não me ater, tinha uma bela caligrafia e parecia um monte de currículos escritos à mão.
— Deixa eu terminar, Dan. Senta lá! — Magnos disse após levá-la. — Se seu pai achar que não estou trabalhando, eu estou morto! — riu.
— Obrigado.
Peguei o telefone e ele estava desligado, a tela rachou de ponta a ponta, como se tivesse sido jogado contra o chão.
“Cazzo!”, xinguei mentalmente, mas fui até a moça.
Chegando, ela parecia bem nervosa.
— Ele terminará de recolher e te entregará. Quer um copo com água? — ofereci. — Parece nervosa.
— A-agradeço!
Segui até o interior da cafeteria para pegar uma garrafa d’água mineral e duas doses de café, pensando em Mag e eu.
— Desculpe ser invasivo, mas procura emprego?
— Sim, mas… não sei nada direito. Viria aqui! Disseram no restaurante que estão precisando — falou, apontando para um fast food há alguns metros.
— Pode se considerar contratada — sorri-lhe. — Pode começar quando? — indaguei.
Ela arregalou os olhos e ficou ainda mais envergonhada.
— Não, eu não sou o dono, mas sou um grande amigo dele… e um dos clientes mais assíduos — ri.
— P-posso começar agora! — falou. — Não tenho nada e posso ficar sem ter onde morar a qualquer momento.
— Lastimável. Ligarei e ele chega logo.
— Grazie mille! — Seus olhos encheram de lágrimas.
Meu coração chegou a ficar apertado.
Quando Magnos se aproximou, lhe apresentei e peguei seu telefone para ligar para dono da cafeteria e ele avisou que não se demoraria. Aproveitei para ligar para Frank e Vincenzo para avisar estar sem telefone.
— Se precisar, compro outro para você logo. — Magnos disse, apontando para o telefone quebrado.
— Se puder, seria ótimo. Não posso me dar o luxo de ficar muito tempo sem — ri.
— Volto logo, então.