Capítulo 1

4999 Words
Keira Acordei sobressaltada, suor frio escorria em minhas costas, aos poucos meus olhos se adaptaram à luminosidade do ambiente e fitei o teto de madeira do sótão admirando meu desenho, era uma paisagem sombria de um castelo obscuro, situado em cima de uma montanha terrivelmente bela, ao fundo, um penhasco desolador com vista para a margem do oceano escuro, era lindo e banhado apenas pelo céu noturno. Sempre fui fascinada por lugares obscuros e amedrontadores, eles me dão um estranho sentimento de familiaridade, mais de uma vez havia sonhado com o céu escuro e tempestivo na beira daquele penhasco, mas dessa vez alguém me tocou, uma mão forte e quente, calejada e com uma cicatriz estranha que naquela visão turva parecia estar salpicadas de estrelas, meu braço ficou refém em um aperto firme, era tão real… ainda conseguia sentir seu toque surpreendentemente caloroso em minha pele. Tudo estava ficando ainda mais confuso com o passar do tempo, eu ainda me sentia confortável com aquela imagem, ela visitava minha mente apenas em meus sonhos, fazia-me sentir parte de algo, como se não estivesse sozinha na escuridão, mas a escuridão é boa, e é minha amiga, mas gostaria de compartilhar com alguém. - Keira! Levante essa b***a preguiçosa, quero tomar café! Depois ajude Violet com as malas! Murmurei baixinho um palavrão em Irlandês, todo cuidado era pouco, esse idioma era motivo de banimento na família. Então foi por isso que acordei, suspirei, era tia Maisie batendo na minha porta. Os Sinclair, eram os típicos burgueses escoceses, ricos, cheios de pompa e com um estilo de vida exibicionista. A família atualmente se resumia a minha tia por parte de mãe, Maisie, tio Maxwell e minha prima, Violet. Ambos são ruivos autênticos das Highland, o que fazia com que meu vasto cabelo prateado destoasse violentamente da imagem da família, eu era a plebe, a indesejada, a filha abandonada, uma mutação genética era a causa daquilo e me tornara o grão de poeira incomoda a ser varrida para debaixo do tapete dos Sinclair. Eles eram bilionários, a riqueza da família era superior ao PIB de alguns países pequenos, portanto, não era necessário que eu fizesse nada além de estudar e ser empregada pessoal de Violet. Claro, essa era uma forma de me dizer que apesar de frequentar uma escola exorbitantemente cara, fazer viagens internacionais, eu ainda era a ralé, então, eu os servia nas refeições, limpava a casa quando eles ordenavam, e servia de escrava para Violet. O serviço doméstico não era r**m, me ajudava a passar o tempo e me mantinha ocupada, mas tolerar os insultos e o ódio gratuito de Violet, era o mesmo que ser torturada pelo próprio satã no inferno. Me levantei resmungando, desativei o despertador, outra gloriosa manhã sendo acordada pela estridente e singular voz de Tia Maisie, depois de realizar minha higiene, vesti o uniforme preto e fui direto para cozinha com mármore excedente da mansão, comecei a preparar ovos Benedict, café venezuelano, e o suco de cranberry de Violet, enquanto desviava das criadas à medida que preparava o café da manhã da família. Enquanto colocava a mesa a mesma pergunta assombrava minha mente, por que, pelo santo Graal, uma família descendente de aristocratas escoceses escolheu um país tão quente como o Brasil para morar? Eu não compreendia isso. Todos eram amantes do frio, era comum viajarmos para a Europa em férias de Inverno. E todo santo dia, escutava as reclamações sobre o calor desse país, da dificuldade em encontrar ingredientes e iguarias escocesas decentes, tais como, chás, whisky, e toda essa ladainha inútil de ricos mimados. - Bom dia, Keira. Endireitei os ombros ao fitar o elegante lorde escocês se acomodando na cabeceira da mesa, meu tio possuía simpáticos e gentis olhos verdes, um semblante pacífico e dócil, mas sem deixar de ser elegante e requintado, o que deixava ainda mais evidente que não partilhávamos laços consanguíneos. -Bom dia, tio Maxwell. - Respondi gentilmente para ele. -Nos acompanhe à mesa. – Sugeriu suavemente me olhando com ternura. - Tio... -Hesitei inalando um suspiro profundo, ele sorriu minimamente e desviou o olhar constrangido, o sentimento de culpa era uma ruga característica em seu belo rosto. Eu odiava admitir, mas tinha inveja de Violet. Não pelo dinheiro e prestígio, mas porque, mesmo sendo vil e mesquinha ela tinha o amor dos pais. Ela ganhava olhares afetuosos às claras, carregados de uma devoção cega, olhares que nunca recebi de ninguém e mesmo agora, quando meu tio tentava demonstrar carinho, eu tinha que rejeitá-lo a fim de evitar problemas para nós dois, nesses momentos eu odiava ardentemente Violet e tia Maisie, por causa delas tinha que abrir de mão de receber aquela migalha de boa vontade da única pessoa que não me tratava como se eu fosse uma bastarda miserável. Não poderia me sentar à mesa, a menos que tia Maisie permitisse, e ela nunca permitiu isso. Geralmente, realizava minhas refeições com os criados na cozinha, ao menos isso me era permitido. - Não se incomode tanto comigo, isso pode trazer problemas. - Disse em tom moderado.na tentativa de consolá-lo. - Entendo, perdoe esse velho homem, Keira. - Antes que pudesse tranquilizá-lo um pouco mais, minha tia adentrou o cômodo. Terminei de pôr a mesa e me afastei assim que Violet entrou saltitante no recinto e se sentou me lançando olhares venenosos enquanto eu ocupava meu lugar em pé num canto da sala. Hoje eu não me sentaria à mesa com eles com certeza, era dia de comer com os criados. — Terá permissão para ir quando terminarmos. Já arrumou sua mala, garota? – Perguntou impassível. — Sim madame, está tudo pronto. -Respostas simples e concisas, era assim que deveria me dirigir a eles desde sempre. — Não vai agradecer? – Violet questionou arqueando a delicada sobrancelha, o veneno escorria por aqueles lábios bem esculpidos e me dediquei a bancar a desentendida. — Perdão, minha senhorita? – Observei satisfeita seu rosto adquirir um rubor que deixava evidente sua irritação. — Eu odeio esse tom, deveria ser grata. Para uma bastarda você tem muitos privilégios, irá fazer outra viagem internacional, e come uma comida muito boa. Palavras venenosas, era tudo o que eu ganhava de Violet, palavras venenosas e emboscadas ardilosas. A nossa convivência era sempre assim, e mais uma vez, tive de abaixar minha cabeça perante sua mesquinhez. - Sempre serei grata pela benevolência dos Sinclair. - É assim que deve ser, se dependesse de mim, estaria nas ruas comendo restos e mendigando. – Me mantive impassível, por anos havia treinado minha expressão de indiferença, apenas para usar nesses momentos. - Ah, querida. Não mencione esses assuntos desagradáveis durante o desjejum. - Tia Maisie protestou ao tomar seu café. - Pode se retirar, Keira. Tio Maxwell disse e me lançou um olhar cúmplice, fiz uma reverência grata pela oportunidade de fuga e me retirei.Caminhei cerrando os punhos em direção a cozinha, felizmente os criados ainda estavam comendo e sorriram ao me ver adentrar a cozinha. -Venha, senhorita, sente-se aqui. Preparamos seu desjejum. – Sally, uma das criadas sorriu ao se afastar para que eu me sentasse ao seu lado. - Não deviam se incomodar com isso, já disse não sou a senhorita de vocês. - Protestei, todos os dias dizia a mesma coisa a eles, e todos os dias eles repetiam o mesmo gesto. Meu coração sempre ficava aquecido com o carinho deles. -É um prazer, minha senhorita. – disse George, o mordomo dos Sinclair. Me acomodei entre eles, era essa a minha alegria matinal, comer com eles, gente simples, que não me via como uma bastarda suja, nem me desprezavam, eu me sentia acolhida, gostava de ser da plebe, como dizia Violet. Eu preferia mil vezes comer com os criados, aos meus olhos, eles eram muito mais dignos que a burguesia que ocupava a grande mesa de carvalho na outra sala, com exceção de meu tio, é claro. (...) - Você é burra? Isso cashmere! Tenha cuidado, sua bastarda imunda!- Violet gritou irritada, ao me ver dobrando uma blusa para colocar na mala. Suspirei reunindo todo o meu autocontrole, era a décima vez que refazia a mala de Violet, ela era mesquinha, este era apenas um de seus macetes para me humilhar, cada grama de massa do corpo dela era odioso, eu queria esganá-la. - Perdão, irei refazer. -Voltei a dobrar cuidadosamente as roupas de grife, amanhã partiremos para Londres. Visitar todo o Reino Unido era o objetivo, iríamos passar um mês por lá, e não pude deixar de ficar um pouco feliz, mesmo que minha ida fosse apenas para servir de empregada, eu ainda teria chance de conhecer a terra de JK Rowling, Austen, Brontë, Hardy... talvez eu fosse uma romântica incurável, já que na impossibilidade de ter uma realidade feliz, fora nos livros que sempre encontrei refúgio e uma fugaz felicidade. — Você com certeza irá se destacar na Escócia... - Ignorei a acidez no tom de Violet. Revidar daria apenas mais munição a ela, no final, era a minha aparência que sempre tirava ela do sério, ser bonita, rica, ter prestígio e berço a tornava uma pessoa muito feliz e realizada, e ela era uma beldade sem igual, conseguia admitir. E ter apenas a beleza sem esses atributos, só dificultava a vida de uma bastarda como eu, pois atraia o ódio de Violet. Ao contrário das mulheres Sinclair, eu não possuía os característicos cabelos ruivos, nem os elegantes e selvagens olhos verdes. Meus cabelos eram ondulados, ele era grosso, farto e sedoso, e singularmente prateados como um lago que emite um reflexo platinado quando recebe a luz do sol, os olhos verdes foram substituídos por entediados olhos azuis-cinzentos, herdados do meu pai, era o que diziam, e Violet odiava tudo na minha aparência. E além do mais, eu era metade Irlandesa. - De fato, mas hoje em dia há escoceses de cabelos escuros, loiros e de todos os tipos. – Murmurei em tom apaziguador. - Claro que há, hoje em dia há mestiços como você em qualquer canto do mundo, e esse maldito país, é o centro dos vira-latas, com esse maldito calor tropical. Ignorei os protestos inúteis e foquei em minha tarefa, era fácil ignorar os insultos de Violet, o difícil, era lidar com suas manobras traiçoeiras para fazer com que minha tia me castigasse, mas ela estava eufórica por conta da viagem, por enquanto, ela me deixaria em paz, quanto tempo isso iria durar? O mínimo possível, tinha certeza. Sorri mentalmente ao lembrar de uma citação de doce procura, “Tenha paciência: Os dias chuvosos retornarão em breve.” Era uma frase escrita por uma de minhas personagens literárias preferidas, Sophie Jones. O livro não era muito famoso, mas era uma daquelas relíquias que você julga pela capa e no final se surpreende, ele era simples e brilhante. Imagino como Sophie reagiria a alguém como Violet, com certeza o seu ceticismo sombrio e deprimido faria a herdeira Sinclair arrancar os cabelos. - Leve aquela sacola que está no canto. São as roupas que não uso mais. Embora preferisse queimá-las, é melhor que fique com elas, isso é preferível a ter de gastar algum dinheiro com você. - A encarei, apenas um ser desprezível como Violet queimaria roupas em tão bom estado para evitar dá-las a mim, ela era repugnante. Roupas de segunda mão, era apenas isso que eu vestia, mas para mim, as roupas usadas de Violet eram como artigos de Grifes novinhos, a maioria não cabia, pois, meu corpo era mais... “Vulgar”, era como ela costuma descreve-lo. Geralmente os modelos de inverno serviam bem, e ela não vestia uma mesma peça de roupa duas vezes, o que quer dizer que a maioria era nova, afinal, não podia envergonhar os Sinclair em público, mesmo os criados eram elegantes e bem-vestidos, então a sua sobrinha bastarda não poderia ter uma aparência inferior. E era a primeira vez que estávamos viajando em um mesmo voo, em classes diferentes é claro, mas na mesma aeronave. Sempre dormi num sótão empoeirado e escuro, usava livros apenas adquiridos nos sebos, e nunca tivera nada novo e meu, de fato, pois tudo era herdado de Violet, a diferença entre nós sempre era enfatizada pela minha aparência, eu era a ralé e Violet, era a realeza. — Obrigada, minha senhorita. Se não precisa de mim, irei me retirar.- Disse humildemente ao recolher a sacola deveras pesada. — Vá de uma vez, estou farta de olhar para seu rosto miserável.- Segurei firme a sacola e me retirei, tentei ignorar o arrepio que o sorriso m*****o de Violet provocou, ela estava aprontando alguma. (...) A vistoria que fiz nas roupas foi cuidadosa, de início, pensei que ela poderia tê-las rasgado, mas isso foi descartado. Estavam todas em ótimo estado, terminei de acrescentá-las à minha bagagem e depois de separar o que iria vestir amanhã, me sentei à beira da minha janela. Havia terminado as minhas tarefas do dia, depois de jantar com os criados me retirei para o meu quarto, agora, observava o céu noturno da capital Paulista, até que não era r**m, embora odiasse a maldita camada de poluição que me impedia de ver as estrelas. Morávamos numa parte privilegiada da cidade, eu frequentava uma escola integral bilingue, em termos de educação, eu era muito bem orientada, mas apenas para ser digna de servir Violet. No programa escolar da England School, os alunos tinham uma grade exigente, o mais inútil do corpo escolar, possuía habilidades consideráveis em uma arte marcial, música e idiomas. Eu tocava violino, lutava judô, e falava inglês e português fluentemente. Violet, tocava piano e violoncelo, lutava karatê, e falava fluentemente inglês, português e francês, e atualmente estava aprendendo alemão. Ela era superior em muitas habilidades, era o esperado dela, pois era a herdeira da família, eu apenas me lapidava para ser digna de estar na sua companhia como sua empregada, essa seria minha vida, uma maldita existência servindo os Sinclair. Eu odiava isso, mas ainda era grata. (...) O final de inverno em São Paulo era ameno e nada invernal, a bordo da Mercedes dos Sinclair, me acomodei ao lado do Motorista trajando meu jeans básico e uma camiseta branca, Arthur nos conduziu suavemente ao aeroporto internacional de Guarulhos, ao chegarmos, segui para a área de embarque da classe econômica enquanto os Sinclair seguiam para a área de espera VIP da primeira classe, eu não me ressentia com isso. Quantos bastardos como eu poderiam fazer uma viagem dessas? Eu gostava de viajar, conhecer lugares novos, culturas diferentes... Independentemente do conforto do transporte, eu poderia ir a Londres sorrindo largamente em cima de um jumento, eu realmente não me importava, embora não estivesse sorrindo. Eu nunca sorria. O voo iria durar pouco mais de onze horas, me preparei e trouxe meu caderno de desenho, meu exemplar de contos de Sherlock Holmes, adorava Sir Arthur Conan Doyle, mas por via das dúvidas, também trouxera o meu exemplar surrado de Emma, era o meu livro preferido de Austen. Me recostei na poltrona e afivelei o cinto, felizmente, ao menos eu havia pegado o assento da janela, mesmo o espaço entre as poltronas sendo pequeno, eu era baixinha o suficiente para me sentir confortável em permanecer onze horas reclusa neste lugar, acomodei os meus pés calçados com meu all-star vermelho novinho em baixo da poltrona da frente, a primeira coisa nova que ganhei, algo que alguém comprou pensando em mim, não que fora doado e herdado. Foi um presente anônimo, que eu sabia ser de tio Maxwell, satisfeita, coloquei os meus fones de ouvido enquanto Eminem berrava em meus ouvidos discorrendo a letra de Venom. Eu amava essa música, e me identificava com uma parte dela... “Eu tenho uma música cheia de parada para determinação Quando o mundo te trata de forma injusta Te irrita até que você grita, "Se manda, vai te ferrar.” -Toc toc, deixa o d***o entrar Malévola como sempre fui... - Cantei baixinho e virei para janela assim que o avião arremeteu, eu gostaria de ser maléfica o suficiente para revidar as ofensas daqueles que me menosprezavam, de mandá-los se ferrarem ao menos uma vez na vida. Sim, eu gostaria disso. Uma garota que sempre sofreu por ser uma bastarda, a sombra repugnante de uma herdeira famosa, eu sempre havia transformado o desprezo deles em minhas armas. Quando eles diziam que eu era uma bruxa porque havia nascido no halloween, eu me aproveitava e dizia a eles que lançaria maldições e os arrastaria para o inferno, mas é fácil atormentar crianças com isso. Mas quando nos tornamos adolescentes o tormento é maior, começam a mexer com sua aparência, com sua personalidade e às vezes, eles obtêm tanto sucesso em te perturbar e te diminuir, que te fazem duvidar de quem você é. Aos dezesseis anos, eu não tinha amigos. Keira Brighid O’Donnell poderia ser considerada depressiva para muitas pessoas, só saía de casa para ir à escola, exceto quando os Sinclair me envolviam nas viagens deles. Abracei o amor pela leitura e o desenho, o judô também era bom, mas quando tinha algum tempo livre, me dedicava a desenhar e ler. Apenas Tio Maxwell se importava comigo, mas ele não podia ajudar muito, o castigo e a dor de cabeça em confrontar tia Maisie eram cansativos o suficiente, para fazer com que nós dois desistíssemos do privilégio da nossa convivência pacífica. Talvez, fosse pelo fato de que todo adolescente passa por isso, mas eu não me sentia parte desse mundo. Eu não me encaixava em lugar nenhum, não tinha amigos, pois mesmo os criados eram proibidos de me dar atenção, apenas palavras necessárias eram permitidas, exceto durante as refeições quando não havia ninguém para impedir, não tinha pais, eu não tinha um futuro. Não planejei nada para mudar meu destino, essa era a verdade e não almejava nada melhor. Eu era instruída e inteligente o suficiente para ter uma chance de me dar bem na vida, poderia me libertar dos Sinclair se quisesse. Mas para onde eu iria? Onde iria morar? Até arrumar um emprego não poderia viver nas ruas, e tinha certeza de que minha tia não me deixaria sair com nada caso decidisse abandoná-los, mesmo odiando o comportamento dela e de Violet comigo, eu ainda sim, não me libertaria delas, eu era um tipo doentio de masoquista. Só havia essa explicação. **Doze horas depois, em algum lugar fora dos mapas** Passos firmes ecoavam pelo corredor do castelo, o homem alto e elegante caminhava em direção a sala no final do corredor comprido, enquanto a imponente senhora se preparava para recebê-lo, pois já ouvira seus passos e pela intensidade, ela sabia que seu informante trazia notícias, as batidas na porta foram curtas e rápidas, como de costume. - Entre. – Disse rispidamente. A nobre senhora se endireitou ao ver a figura graciosa de Arnold adentrar a sala elegantemente decorada, a parede atrás dela era repleta de quadros com retratos de seus nobres antecessores, mas a mulher ainda pensava em como seu informante ainda se vestia ocasionalmente como um nortenho selvagem, mesmo sendo um intelectual dos mais elegantes e seu fiel cavaleiro. - Minha senhora, tenho notícias. – disse o cavaleiro ao fechar a porta de carvalho escuro. A diretora ergueu o rosto ao notar o tom preocupado do homem, Sir Arnold Fraser era frio como as geleiras de Hibaernis, mas seu semblante atordoado fez os pelos do braço da sua senhora se eriçarem. — Fale. — Exigiu, e endireitou-se na suntuosa cadeira. - Os Sinclair desembarcaram no Reino Unido. – Disse rapidamente, posicionando as mãos atrás do corpo. — Corajosos, pensei que nunca voltariam aqui. Mas isso não é problema, eles não serão reconhecidos, coloque alguém para vigiá-los.- Murmurou aborrecida. Ela não se preocupou em esconder que estava irritada por ser interrompida por algo tão trivial. Estava concentrada em se preparar para a reunião com a Grã-mestra e conselheiras dos sete reinos, a respeito do status do tratado com os Caelendus Comes. - Minha senhora. – O homem, enfatizou o honorífico atraindo novamente sua atenção. Ela o encarou pacientemente enquanto acariciava o pelo do seu caelendus, que estava acomodado confortavelmente numa almofada ao lado de seu assento, a raposa branca se virou para encarar o convidado. Ele não se intimidou e prosseguiu com o relatório. — Localizei um nome peculiar no mesmo voo deles. — Disse cautelosamente enquanto escolhia as palavras, o seu próprio caelendus se agitou ao seu lado, uma enorme harpia acinzentada. — Fale de uma vez criatura! – Disse impaciente. — Keira O’ Donnell.- Mesmo agora, o cavaleiro se arrepiou ao proferir aquele nome e quando sua senhora arregalou um pouco os olhos escuros, o feiticeiro soube que sua preocupação não era infundada. - O’Donnell? Tem certeza? — A idade coincide. – Ele se empertigou diante do olhar penetrante da fêmea.- Ela nasceu em 31 de outubro de 2005, ou seja, no Samhaim no nosso mundo. — Pelos deuses, sempre suspeitei que havia algo errado. -Ela se levantou e foi até a janela para esconder um sorriso.- O que aprontou, Kiara? -Disse ao passar a mão no queixo. -Por que se descuidaram agora? Se for mesmo ela, nem tudo estará perdido e eles a estão colocando em perigo. A Irritação tomou o rosto da diretora, ela se recuperou rápido do choque da revelação, assim como era esperado de uma feiticeira do calibre dela. — Esquece que eles pensam que está tudo bem? Apenas o mundo mágico sabe que o m*l sobreviveu e mesmo os feiticeiros duvidam da sua versão dos fatos. - Bando de estúpidos, nossa Grã-mestra é a pior, tem um bom coração, mas a mente é pequena. -Disse amargamente, e voltou a se sentar para acariciar a raposa branca com o olhar perdido. - Quais são as ordens? – Perguntou inquieto, Arnold odiava quando sua senhora usava esse olhar contemplativo, era sinal de que algo estava para acontecer e que ela iria agir. -Irá segui-los, os proteja e confirme a identidade dela, se a garota estiver viva... Se isso for confirmado, você mesmo irá até eles buscá-la. -Ele aquiesceu e franziu as sobrancelhas. - Ela não deveria ter mostrado algum sinal de magia? Isso automaticamente a faria ser selecionada para a academia. - Nem sempre, nossas maenads e feiticeiros estão demorando cada vez mais a se desenvolverem. Ficar longe do nosso mundo deve ter contribuído para escondê-la. – Disse casualmente enquanto roçava o longo dedo nos lábios vermelhos. - Não é mais seguro deixá-la em anonimato? Ela poderia viver normalmente. – Era raro quando o cavaleiro deixava escapar alguma preocupação sentimental, ele era conhecido por ter um coração de gelo e uma alma obscura, e era por isso que ela o mantinha ao seu lado. - Não se pode reprimir para sempre a magia de uma maenad. E quando a hora chegar, será essencial tê-la ao nosso lado, se quisermos ter uma chance de combatê-lo. – A diretora disse friamente enquanto encarava o rosto de Arnold, ela sabia o que ele estava pensando, e sabia o motivo de sua hesitação, mas há males que vem para o bem, e não era hora de agir com o coração. - Como ela conseguiu viver tanto tempo sem o Caelendus? – Questionou franzindo o cenho, a mulher se levantou apressadamente e foi em direção a uma pilha de pergaminhos empoeirados, o macho se assustou enquanto ela fazia diversos papéis flutuarem ao seu redor. - Senhora? ... - Como pude deixar isso passar! Eles me relataram isso há anos e não prestei atenção, droga de tratado que tem ocupado minha mente! – O cavaleiro se surpreendeu com o tom enervado da sua senhora e ficou ainda mais confuso. - Do que está falando? - Aqui está! - A fêmea ergueu vitoriosa um pergaminho velho e amarelado e sorriu ao se sentar novamente em sua cadeira. - Há dezesseis anos, recebi uma carta do rei de Líber, ele estava notificando sobre o desaparecimento do último Shapeshifter, seu herdeiro e único filho, depois houve relatos de buracos no véu, próximo a região de Ardboe, os Sinclair residiram lá por um tempo... - Eles estão extintos. – A interrompeu com a intenção de relembrá-la, ousou olhar intensamente para a elegante fêmea á sua frente. - E se não estiverem? -Ela o encarou com igual intensidade. - E se o último de sua raça esteve esse tempo todo à procura de sua mestra? – O cavaleiro a encarou ceticamente. - Está dizendo, que o caelendus não somente foi salvo do m******e, mas está esse tempo todo procurando a garota? - Se essa criança for mesmo uma O’Donnell. Não é surpresa que o último Shapeshifter seja seu caelendus. Ele não pode abandoná-la, todos os instintos dele o farão procurá-la. Arnold se recuperou da surpresa e lembrou de um detalhe. - Ele não pode atravessar o véu. – A ruiva sorriu misteriosamente e o sol brilhou através da a******a da janela, refletindo lindamente em seus cabelos vermelhos. - Não duvide do instinto de proteção de um caelendus e além do mais, ela pode atravessar, ele tem meios para atraí-la. O elo é forte. - Pelo fogo sagrado, o que faremos? – O cavaleiro praguejou, uma repentina falha em seu temperamento. - Transire imediatamente para Londres, fique de olho nos Sinclair, e assim que os localizar, me avise. – Ordenou rispidamente, a feiticeira teria de ser cuidadosa a fim de proteger a garota. - Sim senhora. – Arnold respondeu servilmente e se inclinou em uma curta reverência. - E Arnold? – Disse antes que o cavaleiro saísse, ele hesitou e se virou para sua superior. - Sim? -Leve sua espada. -O cavaleiro sorriu, um sorriso feroz e cheio de malícia. - Ela está sempre comigo. - Disse tranquilamente. - Tenha cuidado, pode ter todo tipo de criatura atrás dela. Aquela garota significa esperança para o nosso mundo, muitos servos dele tentarão matá-la se souberem de sua identidade. – Disse duramente, a diretora tinha confiança nas habilidades do cavaleiro, mas não podia evitar de se preocupar, pois o inimigo era forte e tinha muitos aliados. - Serei cauteloso.- Determinado, o cavaleiro saiu acompanhado de seu caelendus, a grande harpia acinzentada alçou voo graciosamente, ao fechar a porta, a pequena raposa branca se espreguiçou em sua almofada fofa ao lado do assento da diretora. - O vento está mudando. – Ava murmurou distraidamente. - Mudanças pequenas... – Morgana rebateu e se empertigou, ela se perguntou se seu caelendus estava pensando o mesmo que ela. - Basta um grão de areia em uma ampulheta, para mudar o destino desse mundo. Aumentar o tempo, ou diminuí-lo. – O revirar de olhos da fêmea foi inevitável. - Seus provérbios ficam mais sutis a cada ano, Ava. A fêmea pôde jurar que viu um sorriso sarcástico no rosto pequeno da raposa branca, ela piscou atordoada e se virou na cadeira para observar o lago Lunaire. - Estarei pronta, Rei das sombras. - Proferiu distraidamente. - Não é com ele que deve se preocupar agora, e sim com o jovem mestre. - Ava se esgueirou para o colo de sua mestra, e se acomodou em suas pernas. - Por quê? – Questionou curiosa, e ignorou o calafrio em sua espinha. - Ainda não aprendeu, minha senhora? O Fogo brilha mais forte na escuridão e igual atrai igual. E mais uma vez o lobo n***o perseguirá o sol, e o lobo branco seguirá a lua. - O choque percorreu o rosto da imortal, mesmo com mais de um milênio de vida, ela ainda se surpreendia com as armadilhas do destino. - Está dizendo que... – A raposa ergueu a cabeça e a interrompeu. - É perigoso mexer com o destino, eu avisei, ás vezes ele tece teias tão emaranhadas que os caminhos podem divergir, mas o final é inalterável. - A fêmea levantou-se, seus longos cabelos esvoaçaram com a brisa que entrou pela janela, sua veste farfalhou e ela se virou lançando um olhar determinado ao caelendus. - Vamos para a floresta Ballybofey. - Proferiu determinada e a raposa se espreguiçou. - Sabia que faria isso, não podemos descobrir todas as linhas do destino, mestra. A sabedoria em excesso, pode tornar-lhe gananciosa novamente. - Dobre a língua, Ava. Já superei esse obstáculo e aprendi a lição. – A raposa assentiu e sentou-se na mesa. - Aquela floresta é perigosa, ela é a porta entre mundos. – Disse olhando para sua mestra, achou melhor lembrá-la dos perigos daquele lugar, mesmo que ela fosse a feiticeira mais poderosa de todos os tempos, aquele lugar era antigo e perigoso, até mesmo para um imortal. - Iremos caçar. – Disse como se aquilo justificasse sua atitude. - Caçar o quê? – Perguntou entediada. - Um Oraculum-Delfos. – A raposa rosnou, mesmo durante tanto tempo de convivência, ainda se surpreendia com a ousadia de sua companheira de vida. - Estão extintos, o Rei das Sombras matou todos. – Murmurou cheia de si, ela apenas sorriu e olhou para a raposa. - Nem todos, minha cara Ava. Nem todos... Ela se preparou, a magia se agitou, faíscas vermelhas iluminaram o ambiente em tons sombrios quando um portal se abriu para uma floresta particularmente tenebrosa. - Precisará de uma oferenda. – Lembrou Ava. - Por isso sua presença é necessária. – A raposa sorriu, sua mestra ainda tinha um humor ácido. - Mesmo depois de mil anos, consegue fazer piada. - Sempre devemos rir dos infortúnios, uma caminhada na floresta me fará bem. – Disse sorrindo, como se ela estivesse prestes a ir passear nos campos verdejantes de Caellden. - Algo me diz que terá muitos motivos de riso daqui em diante. – Ava disse amargamente. Alekseeva fitou o portal e ao dar um passo à frente, Ava pulou e mergulhou no portal, aterrissando no chão terroso e úmido da floresta escura, ela se transformou em uma enorme raposa branca, assim que sua mestra subiu em suas costas e segurou em seu pelo, as duas se embrenharam na escuridão em busca de respostas.
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