Capítulo 2

4998 Words
Keira “Alguns dias são piores que os outros.” Era o que repetia enquanto me encostava na superfície fria do círculo de pedra de Callanish, por que vim aqui? A minha intuição dizia-me que algo r**m iria acontecer, mesmo assim decidi vir. Mesmo depois de ter que usar pomada no corpo, pois as roupas que usei estavam impregnadas com algo que irritou minha pele, provavelmente era pó de urtiga, mas só me dei conta disso 10 minutos depois que o avião decolou e não tinha nenhuma roupa reserva. Havia sonhado com o monumento nas ilhas Hébridas novamente e quando o vi a distância hoje, foi como se um ímã imaginário me puxasse até ele, me lembrei daquele lobo. O que sempre aparecia na minha janela quando morávamos em Ardboe, fazia meses que não pensava nele. -Malditos sonhos perturbadores. -Praguejei. A imagem do monumento banhado pela luz azulada ainda era nítida em minha mente, precisava ver esse lugar… sentia isso em meus ossos. Me encolhi no chão, a névoa começava a ficar mais densa, a temperatura estava caindo, por mais que fosse final de verão, tinha certeza de que a temperatura estava em torno de nove graus, meu casaquinho meia-estação não daria conta de uma noite ao relento no alto de uma colina no meio do nada, devia ter duvidado das intenções de Violet, aquela víbora... “-Você não queria ver o círculo de pedra de callanish? – Perguntou docemente sorvendo a água mineral da garrafa. - Sim, por quê? -Papai e Mamãe irão demorar no tour ao centro de visitantes, querem fazer doações, por que não aproveita e vai lá? Poderemos nos encontrar aqui, depois. – Estreitei os olhos desconfiada. -Qual o motivo disso? -Está vendo? É por conta dessa sua atitude que não nos damos bem. Resmungou indignada, reprimi a vontade de revirar os olhos. Não. Isso era resultado do seu comportamento desonesto e da sua personalidade mesquinha, quis dizer a ela, mas me mantive indiferente. Encarei o topo da colina, o lugar me chamava, uma força invisível me arrastava para lá, meu corpo estava tenso, precisava mesmo ir, o vento percorria meus ossos e me puxava para ir em frente, aquele lugar estava me convocando. - Tudo bem, se perguntarem, diga que fui ao círculo de pedra. Murmurei á caminho da subida inclinada da colina, nem sequer esperei para ouvir a resposta, me apressei e caminhei determinada em meio ao gramado, gostava dos cheiros de grama molhada, terra fértil e pinho, definitivamente tinha uma conexão com esse lugar. A luz do crepúsculo banhava o topo da colina, até hoje os estudiosos não sabiam o método que os celtas usaram para construir o monumento. Mas realmente, era ainda mais lindo, rústico e misterioso de perto, e como se espera de lugares assim, o sinal de celular era péssimo, meu celular herdado de Violet havia dado p*u no meio da subida, o guardei no bolso do jeans, decidi admirar a paisagem como antigamente, a olhos nus e tentando gravar cada detalhe na memória. Sempre senti uma ligação com aquele lugar, pesquisei muito a respeito dos vários monumentos espalhados pelo mundo, mas esse sempre me atraía, m*l podia acreditar que estava finalmente ali e nem teria uma foto de recordação. Um galho estalou e me virei, dois homens altos e m*l vestidos se aproximaram e sorriram, olhos gananciosos percorreram todo o meu corpo e vi crueldade neles, eles iriam me fazer m*l, sentia isso. – É ela. – Disse um deles, o ruivo e de dentes amarelados. Meu sangue gelou, a primeira reação foi correr, me movi o mais depressa que pude, não consegui correr nem 100 metros, meu cabelo foi puxado com força e caí no chão com um deles já em cima de mim. Perdi o fôlego diante de um soco no estômago, eles me imobilizaram passando as mãos sujas no meu corpo, o cheiro de whisky barato e cigarros invadiu meu nariz, enquanto me debatia descontroladamente só conseguia pensar num texto que havia lido na Internet há alguns dias, era o relato de uma mulher estuprada, ela dizia que todas deviam se proteger. “Jamais use o cabelo solto, ou parcialmente solto. Rabos de cavalo, não são seguros. Use coques, dificulta se alguém quiser agarrá-la. Se conseguirem te pegar, não grite por socorro... ninguém virá, grite fogo, pois todos sairão para proteger a própria vida, mas não se arriscariam para proteger ninguém. E quando tudo isso falhar, feche os olhos e não esteja lá quando eles te forçarem, quando conseguirem o que querem, irão embora e te deixarão em paz. Se tiver um pouco de sorte, eles a matarão rapidamente se revidar. Se tiver sorte morrerei antes? Por que mulheres tinham que passar por isso?! Comecei a chorar quando ouvi o tecido rasgar, minha blusa. Por que isso estava acontecendo? Só por ter usado um penteado e******o?! Gritei, mesmo quando fui estapeada, gritei até sentir minha garganta se arranhar, vestir roupas maiores que o meu tamanho não ajudou, não usar maquiagem não ajudou, minha calça foi puxada para baixo, e a ira me dominou, meu sangue ferveu nas veias, chutei e esperneei e quando tudo isso falhou, vi minha calça ser jogada longe, eu implorei. – Por favor, por favor não façam isso. – Choraminguei e eles riram. – Já fomos pagos, uma ruiva nos deu o suficiente e jamais terei uma como você em baixo de mim, apenas aproveite, doçura. Ele começou a desafivelar o cinto e o outro me segurava, fiquei sem reação, isso iria mesmo acontecer? Violet... meu corpo estremeceu, aquela maldita pagou para me estuprarem. Meu corpo tremeu de ódio, ri da hesitação que cintilou nos olhos deles. O primeiro tentava se colocar entre minhas pernas, eu as fechei, minha carne ardia onde eles apertavam, mãos me empurraram para baixo, um uivo ecoou pela mata, a escuridão irrompeu quando um grito de ódio violentou minha garganta, tudo se tornou um breu. Não havia nada na escuridão densa e fria, apenas fome de carne, fome de morte. Arranhei e dilacerei até sentir o meu corpo ser liberto, entorpecida, despedacei e desmembrei até sentir as minhas mãos ficarem pegajosas, não permitiria aquilo, eu resistiria. A escuridão se dissipou, garras estavam no fim de meus dedos, negras como Nanquim, os homens estavam no chão, não inteiros, mas em pedaços sangrentos e disformes, sangue por todos os lados, me levantei cambaleando, estava coberta de sangue e Deus… por todo tipo de coisa, eu corri, corri o mais depressa possível. Adentrei a mata e me apoiei numa pedra, parecia que meus pulmões iriam colabar, de repente a atmosfera ao meu redor mudou. Um odor pungente e metálico cobriu os meus sentidos, senti uma unidade morna escorrer do meu nariz, fiquei atordoada, parecia que estava sendo engolida por uma onda de névoa de ferro, cai de joelhos no chão e vomitei imediatamente sujando o cabelo. - Mas que…? – Limpei a boca e me sentei, limpei o nariz com as costas da mão que voltou suja de sangue. - Será que o ar é rarefeito aqui? Me levantei, olhei para trás, os corpos não estavam lá. Entrei em choque, estava nua da cintura para baixo, as mãos voltaram ao normal e minha blusa estava em frangalhos deixando parte do meu seio direito exposto. Me arrepiei com a brisa gelada, fitei demoradamente o monumento, estava no círculo de pedra, olhei em volta, aquelas pedras foram palco de algo terrível, há muito tempo havia sonhado com aquele lugar, o desenhei várias vezes, não sabia o motivo, será que morreria aqui? Por isso o vi tantas vezes? Não sei quanto tempo fiquei mergulhada naquele silêncio confuso, quando dei por mim, olhei ao redor à procura da trilha pela qual havia chegado, mas não encontrei nada. Eu me afastei do monumento, era para trilha estar à vista. Caminhei colina abaixo sem me importar com a minha nudez, talvez fosse o choque, mas de qualquer forma... não havia nada a fazer. Não tive sucesso em encontrar o caminho de volta. Haviam se passado alguns minutos e já estava escuro, não podia ficar no meio do nada durante a noite, meus tios iriam procurar por mim. Violet mandaria alguém para resgatar o que sobrou depois do crime, quando eu não voltar eles mandarão alguém, é isso. Tinha de ficar perto do monumento, será mais fácil me encontrar. Com esse objetivo em mente, caminhei de volta ao monumento perdida em ódio, nojo e vergonha, ignorando os sinais de pânico que meu corpo emitia mesmo quando caia no chão de tanto que as minhas pernas tremiam, iria me vingar. Fitei com mais atenção as árvores em volta, elas eram surpreendentemente altas e exuberantes, não havia notado isso, avistei o monumento e me sentei. Eles viriam me buscar e Violet... daria um jeito em Violet de uma vez por todas." (...) - Por que pensei que alguém viria?- Recostei a cabeça na pedra, fechei os olhos tentando conter as lágrimas. A onda de adrenalina havia passado, agora estava ciente do que quase aconteceu, a dor, a humilhação me atingiram como um tsunami, deixando para trás apenas caos e devastação, aquela familiar sensação de abandono preencheu meu peito até me deixar enjoada e sem ar. Havia conhecido esse sentimento precocemente, fui abandonada por meus pais na porta da minha tia, se não fosse por ela, provavelmente teria ido parar em algum orfanato. Sempre me perguntei como classificar pais que abandonam a própria prole, é claro que há animais que devoram suas crias, mas são animais e agem apenas por instinto, os humanos não são diferenciados por raciocinarem? A meu ver, isso nos torna perigosos, então, isso significa que um par de levianos são capazes de crueldades piores do que o abandono. E para quê? Apenas para ganhar o mundo em viagens? Esbanjar dinheiro? Eles poderiam ter usado um contraceptivo, uma maldita camisinha teria feito toda a diferença, droga! Para quê colocar uma criança no mundo apenas para abandoná-la e deixá-la à mercê desse lugar podre? Eu não entendia, e os odiava. Mais do que odiava Violet nesse momento. Mas já deveria saber, mesmo durante a infância, havia compreendido o meu papel. Determinado dia, Violet havia faltado a aula, estávamos cursando o segundo ano do fundamental, eu jamais faltava. Fui para escola, mas na hora da saída, não havia ninguém me esperando, após meia hora acreditava que teria muito trânsito, mesmo na pacata Ardboe ou talvez o pneu do carro tivesse furado. Depois de uma hora, descartei essas hipóteses e comecei a acreditar que haviam me esquecido de verdade, e apenas rezava para que alguém, qualquer um, se lembrasse de mim. Depois de duas horas, perguntava-me se alguém viria me buscar naquele mesmo dia ou se teria que aguardar até o dia seguinte, eu não poderia revelar ser parente de Violet, essa era uma das regras, pois todos acreditavam que eu era filha da empregada. Apenas o meu tio notou a minha ausência, ele mesmo foi me buscar, mas ainda assim, esperei por quatro horas. Tinha sete anos, como a maioria me desprezava na escola, tanto alunos como o corpo de funcionários, eles me largaram num canto da portaria e fui ignorada quando pedi para ir ao banheiro, por pura maldade, ainda fico mortificada ao lembrar do semblante desolado do meu tio quando percebeu que eu havia molhado as calças. Naquele dia, aprendi três coisas, primeira: Eu não significava nada em comparação a Violet. Segunda: Se tivesse dito quem eram meus familiares, teriam ligado para eles e alguém teria me buscado, eu não teria urinado na roupa, mesmo que ficasse sem o jantar ou trancada no porão para lidar com a raiva da minha tia, ainda estaria em casa e não abandonada num canto qualquer, urinada no meio do inverno rigoroso da Irlanda do Norte, mas a minha vontade de agradá-los me impediu. Terceira: Só podia contar comigo mesma, pois mesmo que meu tio se importasse, não era uma garantia que viesse em meu socorro e mesmo que viesse, sempre chegaria atrasado. Aprendi essa lição, mas novamente estou aqui, esquecida e abandonada. Sem ninguém me procurando, a minha única esperança era meu tio, mas dado o bom humor de Violet quando vim para cá, provavelmente ela já teria uma estratégia preparada previamente para me prejudicar e tio Maxwell poderia não aparecer ou aparecer tarde demais, e até lá, posso ter morrido de hipotermia, me livrei dos e**********s, mas irei morrer de frio, patético. Um farfalhar de folhas secas, me arrancou da minha autoanálise, levantei-me rapidamente, meu coração palpitava freneticamente e embrenhei-me mata adentro por puro instinto, algo me dizia que deveria me esconder e minha intuição nunca estava errada, me escondi atrás de uma árvore retorcida, mordi a parte macia da mão para evitar que meus dentes batessem, e me perguntei se deveria prender a respiração também, mas me assustei com o que meus olhos viram. Nem em cinco mil anos, estaria preparada para aquilo, sete mulheres apareceram, não eram mulheres comuns, elas pareciam flutuar sobre a grama e eram as criaturas mais lindas que já vi, eram de uma beleza quase celestial. Elas usavam vestes esvoaçantes, que fluíam ao longo do corpo e cada uma usava cores diferentes, era quase como se vestissem a neblina, uma quantidade modesta de pessoas usando roupas requintadas e estranhas as seguiam, me encolhi em meu esconderijo tentando ver mais, tambores começaram a tocar. Consegui identificar o timbre agudo e estridente de um violino, elas começaram a se mover dançando em círculo, fiquei hipnotizada por cada movimento delicado, todas estavam com rostos cobertos, e usavam um tipo de tiara com folhas e flores na cabeça. Aquela música fez cada músculo do meu corpo se retesar e relaxar, a melodia suave e envolvente trazia lufadas de calor pelo meu corpo e me convidava a me juntar a elas. Sem que eu mesma percebesse, saí de trás da árvore e caminhava em direção ao círculo de pedra, ninguém parecia ter me notado, até que dois homens apareceram e bloquearam o meu caminho. - Ora, ora. O que temos aqui? - O sotaque irlandês era forte, mas compreendi as palavras. Um sorriso perverso cruzou o rosto do mais alto, ele vestia roupas escuras e uma capa da mesma cor. Fiquei lívida, de novo não, Violet havia mandado outros? -O que foi, minha fada? A raiva cruzou o seu rosto quando não respondi, recuei um passo, mas foi o segundo quem me segurou e falou no meu ouvido. - É boa demais para nos dirigir a palavra, fadinha? O pânico me dominou, em meio a floresta estava acuada, as pessoas ao redor do círculo de pedra continuavam a dançar, alheias a situação, embora duvidasse que viriam me ajudar caso tudo piorasse. -Sigam seu caminho, não quero problemas. - Murmurei debilmente na tentativa de me livrar deles. - Oh, ela fala. – Disse cantarolando debochadamente.- Acho que vamos nos divertir hoje e ela já está pronta para festa… -Eles me lançaram olhares lascivos, meu coração deu um solavanco. Uma descarga de adrenalina me sacudiu e gritei, o segundo homem tapou minha boca, segurou firme no meu braço e o torceu enquanto me arrastava para dentro da floresta, o outro sorria à medida que me arrastavam, elaborei um plano arriscado, minha mente estava calma e clara, diferente de mais cedo, sabia que conseguiria resistir, por que não usei isso antes? Me impediria de ter feito o que fiz com os outros, mas eles mereceram cada segundo. Quando chegamos a uma parte íngreme pisei no pé do que me segurava, seus braços se afrouxaram ao meu redor, me virei e acertei sua virilha com uma joelhada, assim como aprendi na aula de defesa pessoal, quando ele se afastou cambaleando e xingando corri aos tropeços tentando desviar dos galhos retorcidos das árvores e arbustos, que pareciam doentes e tortos, minha pele ardia e não parei nem mesmo quando senti o sangue morno escorrendo em minha bochecha devido os arranhões que estavam a ferir minha pele e rasgando ainda mais minha blusa esfarrapada. Gritei a plenos pulmões quando explosões consecutivas acertaram as árvores ao meu redor, fui atingida e caí no chão sem fôlego quando uma pancada surda acertou as minhas costas. - Vádia estúpida! Sabe o que somos? Não irá escapar. Mostrei os dentes, me contorci e me debati quando agarraram meu cabelo, um barulho ensurdecedor ecoou pela clareira, algo parecido com um rosnado e me encolhi protegendo a minha cabeça, uma explosão de escuridão tomou minha visão e por instantes não vi nada. - Atrevem-se a tocar na minha mestra? Criaturas imundas, irei despedaçá-los. Uma voz terrível, aquela era uma voz terrível e fria, a voz não pertencia a um homem ou a esse mundo. Meu corpo inteiro tremeu com aquela presença, meu cabelo foi solto e me levantei devagar, observei atentamente os dois homens empalidecendo ao encararem meu salvador, ambos enrijeceram e deram um passo para trás ainda encarando o que quer que fosse aquilo que estava atrás de mim. - Feche os olhos. – A voz ordenou, e eu obedeci. Gritos e mais gritos explodiram ao meu redor, pude ouvir sons repugnantes que deduzi ser de ossos sendo esmagados, me encolhi no chão e tapei os ouvidos com força enquanto escondia a cabeça entre as pernas, em seguida o silêncio, a minha respiração era curta e superficial. - Erga-se, alguém como a senhorita não deve ficar no chão. - Disse a voz, que agora era mais calorosa, mas não menos imponente e perturbadora. Ergui a cabeça temerosa, meu coração parou, um homem belíssimo estava me encarando, ele parecia jovem, se não fosse pelo seu porte atlético e altura excedente, chutaria que tinha a minha idade, seus cabelos eram curtos e prateados como uma lua minguante, olhos azuis nebulosos, poderíamos ser irmãos, tamanha a semelhança. Suas mãos seguraram os meus ombros e me ergueram do chão, eram mãos fortes, quentes e macias. Ele me olhou de cima a baixo, como se buscasse por ferimentos, seus olhos ficaram límpidos como o céu de outono, nunca havia visto olhos mudarem tanto, eles ficaram de um azul tão puro e brilhante, talvez fosse uma deficiência minha não ter aquela expressão no olhar. – Obrigada. – Murmurei trémula quando ele tirou as mãos de meus ombros, ele estremeceu quando a realidade da minha aparência o atingiu e me cobriu com seu casaco, mas continuou me segurando. Por um momento não dissemos nada, me perguntei se devia escapar dele também, e surpreendentemente mesmo depois de ver ligeiramente que os homens que me perseguiram jaziam mortos e despedaçados no chão, não estava com medo dele. Não depois do que eu mesma havia feito horas antes. – Por que me ajudou? - Perguntei fitando o chão e me desequilibrei quando um tremor deixou meus joelhos fracos. Ele me ajudou a ficar estável, o desconhecido me olhou com uma devoção sonhadora ao responder. – Porque é minha mestra. Cambaleei surpresa, o que diabos era isso? – Perdão? – O estranho se ajoelhou e me encarou, seus olhos brilharam extasiados e ele fez uma reverência. - Permita-me, me apresentar. Sou Amondiel Cole Doyle. Mas me chame de Amon, se lhe convier. O encarei incrédula, o homem parecia refinado e permaneceu ajoelhado enquanto me observava atentamente. –Bem, senhor Amondiel... novamente, obrigada. Não deveríamos chamar a polícia? O homem me olhou confuso. –Minha senhorita, não estamos mais no mundo dos Homines. – Atordoada me afastei, sabia, esse homem era louco. – O que quer dizer? – Ele tombou a cabeça de lado me estudando demoradamente, e franziu a testa. – A senhorita, não sabe o que ou quem sou, sabe? O que ele era? Doce senhor, estava enrascada, sai da boca dos cães e cai direto na boca de um lobo. – O que você é? – Perguntei com cautela. - Sou seu Caelendus, minha senhorita. Destinado a ser seu guardião pela eternidade. Um estrondo chamou nossa atenção, ouvi gritos da direção onde ficava o círculo de pedra, não tive tempo de perguntar o que pelos céus era um Caelendus... o homem segurou minha mão ansiosamente e me fitou com um olhar suplicante. – Posso tirá-la daqui, não é seguro. Eles estão vindo, não se assuste e suba nas minhas costas. Antes que pudesse questionar aquele pedido ridículo, ossos estalaram, pelos surgiram e as roupas se rasgaram, o homem não era mais homem, bem diante dos meus olhos ele se transformou em um enorme lobo com presas e garras assustadoras, era branco como a neve, a única parte que não era branca eram seus olhos azuis que me encararam impacientes quando recuei para longe. – Ainda sou eu, apenas suba. Sua vida corre perigo! Hesitei, mas durou apenas alguns segundos, apenas até que visse um grupo de cinco criaturas anormalmente altas e esguias vestindo capas negras, o terror tomou conta de mim quando eles se viraram em minha direção, era como se a morte estivesse me encarando, escuridão irrompeu de meus dedos e arfei ao me dar conta de que eles pararam por conta de uma intensa escuridão ao meu redor, o único que não estava surpreso era Amondiel. - Rápido! Ele se abaixou, e com um movimento desengonçado subi em cima dele me esforçando para me agarrar em alguma coisa, mas fiquei com receio de segurar no pelo. – Segure firme! Com uma agilidade absurda ele saltou para longe, de relance vi os nossos perseguidores ainda atordoados na clareira, a floresta ficou iluminada quando um cometa cruzou o céu e ofeguei extasiada, tentando me fazer ser ouvida acima do vento. - Olhe! Estava sem fôlego, de relance, Amondiel ergueu a enorme cabeça enquanto corria velozmente pela floresta em meio às árvores. – É o cometa cerúleo, está anunciando o seu retorno ao nosso mundo. - Retorno? - Me segurei com afinco no seu pelo, gritei apavorada quando ele saltou sobre um precipício com um impulso poderoso. — Onde acha que nasceu, senhorita? Ambos nascemos no mesmo dia e nesse mesmo mundo, fomos vinculados mutuamente pelos deuses... - Deuses...? Fiquei tonta, os gritos de Amondiel foram a última coisa que ouvi antes de perder a consciência. (...) Estava escuro quando abri os olhos e fitei o teto de madeira envernizada, que parecia ser de uma cabana. Onde estou? Aparentemente era o quarto de alguém, me senti acolhida em meio aos cobertores espessos e quentes e a luz de uma vela bruxuleava no canto do recinto. Era um cômodo simples, muito diferente das acomodações dos Sinclair, mas era um lugar quente e confortável, apesar do colchão parcialmente duro. Olhei ao redor e me espantei ao ver um lobo branco sentado em frente a janela, era quase como se uma auréola celestial estivesse ao redor dele, fiquei admirando aquela imagem. – A senhorita descansou? Dormiu por um dia inteiro. Chocada, me sentei ereta e fiquei aliviada ao ver que estava vestida com uma camisa de flanela masculina, esfreguei os olhos e encarei atentamente a criatura, só podia ser brincadeira, um lobo acabou de falar comigo? Ele possuía olhos azuis e eu reconheci aquela voz fria. – Amondiel? -Sabe, para alguém que presencia a existência de seres e outro mundo a primeira vez, a senhorita é particularmente carente de expressões faciais. Baixei a cabeça, não era a primeira vez que escutava aquilo. Sonsa, sem graça, patética. Estava genuinamente chocada, mesmo que meu rosto mostrasse o contrário, talvez tivesse desmaiado devido ao frio em callanish, ou ao choque dos demais acontecimentos, ou talvez aquilo fosse absurdo demais e meu corpo se recusasse a acreditar, talvez fosse apenas um dos meu sonhos idiotas, de qualquer forma, qualquer realidade era melhor do que a minha. Pois eu seria presa pelo que fiz. -Não é um sonho. – Ergui o rosto, ele lia meus pensamentos? – Não sou um Legaere, mas para mim, é fácil saber o que está pensando, mesmo com sua expressão indiferente. - O que é um Legaere? – Perguntei ligeiramente curiosa, então era realmente possível ler a mente de alguém? O lobo se virou para a janela, como se estivesse perdido em pensamentos, fiquei aguardando sua resposta pacientemente e quando me preparei para quebrar aquele silêncio incômodo, sua voz fria ondulou pelo ambiente. – Existem aqueles capazes de ler, invadir e quebrar a mente de alguém e o transformar em pedaços tão insignificantes, que deixam de existir. Eliminam tudo que você é com um fio de pensamento, fácil como respirar, esses são chamados de Legaere, é uma habilidade extraordinária e letal que apenas alguns possuem. Abri a boca inadvertidamente, mas a fechei quando o lobo se afastou da janela e se transformou novamente em homem, aquele belo rosto que era familiar para mim. – Acho que se sente melhor com essa forma. – Apesar do choque inicial, ele estava certo. Era muito mais “comum” conversar com um homem do que com um lobo, ou um lobo gigantesco do tamanho de um mamute, não... tenho certeza de que aquele lobo que montei era bem maior que um mamute. - Onde estamos?- Perguntei quando ele puxou uma cadeira de madeira e se sentou à frente da cama com uma graça digna de um lorde, quem era Amondiel, de verdade? — Na minha casa, é simples, mas é segura. A senhorita atrasou aqueles Inanis tempo suficiente para escaparmos, foi a primeira vez que fez aquilo? — Aquilo... - Ergui minhas mãos a altura do rosto, estava tudo normal, sem garras ou escuridão, o que aconteceu? Eu estava delirando? Não, aquilo foi real. Amondiel também viu.- O que eu sou? Questionei sem emoção, tudo era confuso e não tinha de fato nenhuma resposta objetiva, ele havia me dito várias coisas, sobre Caelendus, Inanis, o quer que fossem e tudo mais. Mas não tinha nenhuma informação significativa, como se ouvisse meus pensamentos, ele falou com uma voz monótona. – Espere um pouco mais, não sou eu quem deve tirá-la da ignorância, eles chegarão logo. - Eles? – Franzi o cenho confusa, Amondiel se levantou e a escuridão tomou conta do ambiente quando sua voz fria ecoou pelo ar. – Aqueles que nos mantiveram separados e a quem servia. Os imundos Sinclair. E um outro. Nunca ouvi ninguém falar dos Sinclair com tanto ódio e repulsa, mas o que ele quis dizer com nos manter separados? Minha cabeça doía, não conseguia raciocinar direito, eram muitas informações, muitas questões para serem solucionadas, estava exausta. Com um estalar de dedos, uma bandeja com pão e sopa surgiu na minha frente, tentei não processar aquele gesto, estava cansada, minha mente estava cansada de buscar explicações para coisas inexplicáveis, só queria acordar logo. - Coma. Irá se sentir melhor. Se precisar de algo, basta pensar e a casa irá lhe prover, darei privacidade para que possa comer... -Uma sensação desagradável percorreu meu corpo quando ele se levantou, e falei antes de processar o que estava fazendo. -Fique! – Disse alarmada. Amondiel congelou onde estava e pela primeira vez desde que o vi naquela floresta ele sorriu, um sorriso tímido e cálido tomou seus lábios, mas seu olhar se estreitou quando fechei as pernas e apertei a coberta fazendo uma careta de dor, ele me olhou lívido. – Quem a machucou? – Perguntou, a voz fria, tão fria quanto gelo. – Diga-me quem foi, irei rasgá-lo em mil pedaços... –Já fiz isso. - Sussurrei trémula ao lembrar da cena na floresta. – Fique, por favor. Não me deixe sozinha. – Não queria ficar sozinha, e me sentia segura com ele. -Como quiser, minha senhorita... –Ele respondeu calorosamente, mas vi o ódio gélido nos seus olhos. Comi desesperadamente, estava faminta, a sopa era cremosa e muito gostosa, aqueceu meu corpo e me deixou mais calma e descansada, me fez esquecer de tudo, quando terminei, instantaneamente a bandeja sumiu e uma xícara de chá surgiu, era muito cheiroso, consegui identificar o cheiro de camomila e hortelã, o tomei lentamente, Amondiel se serviu de uma xícara e degustamos da nossa bebida num silêncio confortável e fiquei aliviada por ele não me fazer mais perguntas. Um farfalhar chamou minha atenção, lentamente levantei a cabeça e um envelope preto surgiu em minha frente e flutuou até meu colo. - Hm, parece que a Sra. Alekseeva, já está ciente de seu retorno, não esperava nada menos. Amondiel me lançou um olhar encorajador, e apontou para o envelope, hesitante o peguei e abri, dentro havia uma carta escrita em um papel azul royal magnífico e em letras cursivas e prateadas, comecei a ler devagar, porém num ritmo constante para que Amondiel pudesse acompanhar. Academia de Magia e Feitiçaria de Malefici Reitora: Morgana Alekseeva (Primeira Ordem das Claritas, Feiticeira de Nível 1, Grande Feiticeira, Líder Suprema, ordenada pelo Conselho Internacional das Maenads.) Prezada Senhorita O’Donnell, É com prazer que venho informá-la que a senhorita tem uma vaga reservada na Academia de Magia e Feitiçaria de Malefici, o seu material escolar assim como o seu uniforme, já foram providenciados, como o ano letivo iniciou-se em 1 de setembro, o seu ingresso deve ocorrer o mais breve possível. Aguardo a sua resposta até amanhã, no mais tardar. Atenciosamente, Morgana Alekseeva Reitora As dúvidas e questionamentos invadiram e transbordaram em minha cabeça, uma vez mais, minha mente antes acalmada pela refeição calorosa, havia se transformado em um turbilhão desordenado de informações, em meio aquela confusão só conseguia pensar em uma coisa. -O que significa que eles aguardam minha resposta. Posso recusar? Perguntei com cuidado, Amondiel pousou a sua xícara no pires e me olhou. - A escolha é sua. Coisas ruins estão para acontecer, e quando a hora chegar, a senhorita irá desejar estar preparada. - Ele me olhava intensamente, como se esperasse meu próximo movimento, assim como os cães de guarda faziam. -Preparada para quê? - Questionei e ele me olhou com preocupação. - Para enfrentar seu destino, e o destino do mundo mágico e quando esses tempos difíceis chegarem, até mesmo o mundo dos Homines estará à beira do aniquilamento total.
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