Capítulo 3

5000 Words
Keira  Amondiel observava a janela em silêncio, mesmo em forma de um lobo normal, sua presença era esmagadora. “Normal” era um insulto à sua aparência, seus pelos eram brancos e sedosos, olhos de um azul magnífico contornado por cílios escuros, era uma criatura de beleza singular. Observei alarmada os pelos de sua nuca se eriçarem e sua voz fria cortou o silêncio. - Chegaram. -Murmurou aborrecido, deduzi que o mau humor era por ficar em uma forma que não lhe agradava. Ele havia me dito que não gostava dessa forma de Homine. Homine, era como os seres mágicos chamavam os humanos, claramente, ele não me classificou como Homine, mas não me deu uma explicação. Apenas disse que a forma de homine seria a mais adequada para quando nossos convidados chegassem, e me perguntei o motivo, pois tecnicamente, um lobo era quase como um cachorro, e os Sinclair não iriam estranhar isso, e estavam cientes de tudo. Uma batida brusca me assustou, Amondiel se transformou e me conduziu a sala, antes que me aproximasse da porta ele levantou a mão e farejou o ar, em seguida sinalizou para que me sentasse em uma poltrona do lado oposto. -Diga a que veio. - Ordenou incisivamente atrás da porta, minha respiração estava audível em meio aquele silêncio opressivo. - Eu vim do leste, e para o leste retornarei, me diga seu nome e jamais esquecerei. – Uma voz imponente respondeu. Com um suspiro ele abriu a porta, perplexa, assisti um homem muito alto e elegante entrar cautelosamente na cabana, olhos penetrantes, de um castanho-dourado assombroso imediatamente se cravaram em mim, tentei não me encolher sob aquele olhar, Amondiel não parou de encará-lo um só momento, como se estivesse prestes a atacá-lo, em seguida o homem notou Amondiel e tocou a aba do chapéu em forma de um cumprimento sútil, se curvou em uma graciosa reverência, falando diretamente comigo. -Sir Arnold O’ Sullivan Fraser, às suas ordens, sou um dos sete Cavaleiros Imperiais, Primeira Ordem de Arian e um feiticeiro da Segunda Ordem de Merlin. - O que diabos era isso? Um bruxo cavaleiro? Não fazia ideia do que significavam os títulos, havia lido livros de história, mas nunca houve menção de um bruxo cavaleiro. Como se estivesse ciente da minha confusão, com uma voz suave Amondiel respondeu ao fechar a porta. - Ele está a serviço da Sra. Alekseeva. -Permaneci em silêncio, não sabia se era seguro me apresentar. - Pode se apresentar, ele é de confiança e está ciente de sua identidade, lhe dirá o que precisa saber. - Amondiel se aproximou, ofereceu uma cadeira ao estranho e ficou ao meu lado. Como sempre, a sagacidade de Amondiel não parava de me assombrar, mesmo sendo completamente inexpressiva como acreditava ser, a criatura conseguia entender e explicar muito bem meu jeito de pensar. - Impressionante, com certeza é o caelendus dela. A ligação está mais forte do que pensava. Por que não atacou? Detectou minha presença a metros de distância… -Senti seu cheiro... - Amondiel franziu o nariz e rosnou irritado, me sobressaltei, mas o cavaleiro apenas sorriu e pude ver um limiar de dentes perfeitos. - Está farejando-os? Contenha-se, estão sob a proteção do tratado. O rosnado se tornou mais alto, notei a protuberância das garras de Amondiel entre os nós de seus dedos e fiquei paralisada na cadeira ao sentir a tensão no recinto. - Não me importa, a criança atentou contra a vida dela, os pais maltrataram minha senhorita por anos. Nos mantiveram separados... um movimento e rasgarei a garganta deles e os farei engasgarem com o próprio sangue. Ira, ira da mais pura e primitiva forma dançava nos olhos de Amondiel. Ele suspeitava sobre o que havia acontecido em Callanish, vi a dor em seus olhos quando tive um pesadelo durante a noite, a coberta deslizou e ele viu os hematomas próximo a minha região intima, culpa e ódio corromperem seu lindo rosto, pior, a tristeza dele quando não o deixei me curar, aquilo quase me afogou em amargura. Me encolhi, cerrei os punhos apertando a barra da camisa de flanela, tiraram meu direito de escolha, eles tiveram poder sobre mim, naquele curto espaço de tempo, me sentia fraca. Fraca e imunda. -Entendo, tenho um trabalho a fazer, parte dele é mantê-los em segurança. Independentemente do que aconteceu, acalme-se e controle seus instintos, por que não ataram o elo? Observei inquieta as garras sumirem retraídas para dentro de sua pele, Amondiel cruzou os braços fazendo os músculos de seus tríceps e bíceps se destacaram na camisa branca e falou tranquilamente. - Não me pareceu correto fazer isso sem que ela tivesse noção da importância, ela nem sabe quem é, minha senhorita não sabe de nada, Sir. Meu coração estremeceu de alívio, um alívio que não sabia interpretar. O que quer que aquilo significasse, Amondiel estava passando o controle a mim, deixaria que tomasse a decisão, calor esquentou minha barriga e o encarei admirada, seu o rosto era um bálsamo para minha alma ferida, não tive coragem de interpretar aquelas reações sobre Amondiel. -Entendo, muito nobre da sua parte. Isso explica sua… inquietação. – O cavaleiro sorriu ladino. -Me chame de Sir Arnold, por favor. Como uma espectadora ignorante, olhei para os dois em busca de explicação, ela não veio, me endireitei na cadeira e me dirigi ao cavaleiro. - Perdão, o que quer dizer com atar o elo? - Amondiel se abaixou e falou em meu ouvido. - Senhorita, é o costume que diga seu nome antes de iniciar uma conversa, é uma regra muito importante e os cavaleiros são sensíveis sobre isso, se não se apresentar, ele não lhe dirá nada. -Mas ele já sabe meu nome. - Protestei confusa. - Sim, mas não foi a senhorita quem disse. - Mas você não se apresentou. - Rebati, estava ainda mais confusa. -Sou seu caelendus, a senhorita decide se devo me apresentar ou não, é um direito seu. - Fiquei perplexa, isso era ridiculo. Ele tinha que seguir tudo que eu ordenasse, sem questionar? Isso era apenas um meio disfarçado de escravidão. - Não se preocupe. - Amondiel me mostrou um sorriso tranquilizador e mordi o lábio irritada. - Sou Keira Brighid O’Donnell, perdoe minha falta de modos, Sir. Ele sorriu e tirou o chapéu revelando cabelos castanhos muito bem alinhados. -Não se preocupe, é mais do que uma noção de etiqueta. Aqui vai sua primeira lição, tenha cuidado para quem revela seu nome, o fato de proferi-lo para alguém, lhe dá poder para fazer muitas coisas. -Então, como irei saber quando é seguro me apresentar? - Perguntei preocupada. -É simples, apenas diga o primeiro e último nome. Todo e qualquer feiticeiro tem no mínimo dois sobrenomes, e esses são os mais perigosos. -Mas o senhor disse seu nome primeiro, isso não foi imprudente? -A senhorita aprende rápido. Deve-se mostrar vulnerabilidade ao visitar alguém em sua casa, seu caelendus questionou meu propósito, esse era o dever dele de anfitrião, como não deu resposta, isso significava que não tinha permissão e que um outro possuía poder para recusar minha visita. No entanto, sou o visitante e devo falar meu nome primeiro, e antes disso, também ofereci hospedagem em meu território, pois isso é uma incumbência de cavaleiro, se decide visitar alguém, deve estar disposto a recebê-lo em seu lar, protejo o território leste de Everness e são bem-vindos naquela região. -É muita coisa para aprender. -Murmurei sem emoção, completamente perdida em meio aquele emaranhado de regras. -Fica mais fácil com a prática. Deve ter perguntas, estou aqui para escoltá-la e tirar todas as suas dúvidas mais urgentes. Suspirei, havia tantas questões, mas a primeira coisa que saiu da minha boca foi... - Isso não é um sonho? - Para minha surpresa nenhum dos dois riram, Amondiel me mostrou um olhar compreensivo e Sir Arnold apenas se recostou na cadeira. -Não, definitivamente não é um sonho. - Me encolhi, um jogo de chá surgiu em cima de uma mesinha de centro entre mim e Sir Arnold, ele acenou agradecido para Amondiel, e me lembrei de que não o havia apresentado. - Amondiel, apresente-se por favor. - Com um sorriso orgulhoso, ele se curvou. - Amondiel Cole Doyle, príncipe Herdeiro do Reino de Líber. -Príncipe? Você é um príncipe? – Perguntei alto demais e derramei o chá, Amondiel se virou surpreso e falou tranquilamente. -Sim, minha senhorita. -Fiquei boquiaberta com a reação despreocupada dele, estava prestes a bombardeá-lo de perguntas. -Por que não disse que era um príncipe!? – Ele franziu o cenho. – A senhorita não perguntou. – Disse casualmente, quis arrancar meus cabelos. Ele me olhou erguendo as sobrancelhas, como se a resposta fosse satisfatória ou como se a questão não tivesse muita importância e eu estivesse exagerando. -Por que um príncipe tem uma função tão servil? - Amondiel sibilou irritado, me empertiguei desconfortável com a reação irritadiça dele e Sir Arnold interferiu. -Caelendus não são servos, são guardiões, amigos e parceiros selecionados a cada feiticeiro pelos deuses, eles dão a vida por seus mestres, mas os mestres também dão a vida por seus caelendus. Pode lhe parecer servidão, mas eles tratam os mestres assim por respeito, consideram uma missão honrada quando são designados a protegê-los. -Desculpe Amondiel. Não quis insultá-lo, nem a você Sir Fraser. – Voltei a usar seu sobrenome, um pouco constrangida com a repreensão. - Não me insultou, me chame de Arnold, por favor. - Ele sorriu e em seguida tirou uma ave acinzentada do bolso do sobretudo. – Félix é bem sensível com esse tema, se apresente a nossa senhorita. Incrédula, assisti a pequena criatura se transformar em uma imponente harpia de olhos amarelados, a ave se curvou majestosamente e sua voz era tão encorpada e calorosa que me lembrou de chocolate quente e marshmallow a beira de uma lareira durante o inverno. -Félix Edmund Grant, ao seu dispor. -É um prazer, desculpe pelo m*l-entendido, senhor Grant. - Amondiel relaxou ao meu lado e Félix fez uma breve reverência, voou e se empoleirou na cadeira perto da janela. -Agora que esclarecemos isso, o que mais quer saber? -Ignorei o fato da ave poder falar, ergui a cabeça e falei. – O que eu sou? -É uma Maenad, senhorita O’Donnell. Neta de uma Maenad, filha de uma Maenad, a esta altura já deveria suspeitar que não pertence a raça dos homines. – Anestesiada e trêmula peguei uma segunda xícara de chá que Amondiel me serviu, depois de limpar a bagunça que fiz. – Uma Maenad, o que é isso? Sou uma bruxa? É o que significa? -Como não perguntou sobre os Homines, deduzo que já saiba. Não caia em negação, como explicaria aquela áurea de escuridão na floresta? Ou o fato de ter vindo direto para perto de seu caelendus, ou mesmo de possuir um caelendus, isso por si só, são evidências mais do que suficientes. Ele colocou a xícara na mesinha e me olhou atentamente por um instante. – E nem irei mencionar os cadáveres em Callanish ou o fato de ter se livrado dos Inanis. Fiquei lívida ao lembrar daquela noite, mas não senti arrependimento. Amondiel havia curado alguns ferimentos com magia, mas sabia onde cada machucado havia estado, ainda sentia na alma como eles machucaram meu corpo... Não, não me arrependia, fiquei chocada no início, mas aqueles homens mereceram e não me sinto m*l com isso, aquilo foi certo. Curiosamente, me sentia até feliz com a morte deles, e não me odiava por isso. Pisquei ao ouvir a voz do cavaleiro. - Deixe-me mostrar-lhe um pouco da história do nosso mundo, Verum Ostendere! – Com um balançar de mãos, um orbe dourado apareceu e flutuou no meio da pequena sala, me arrepiei quando uma voz tranquila falou. “Há milhares de anos, quando só existia terra, florestas, montanhas e água, o Grande Dain enviou sete filhos em missões, eles eram Deuses, cada um tinha uma afinidade com um elemento em específico: Luz, Terra, Escuridão, Trovão, Mares, Guerra, e Sabedoria. Aos sete Deuses, foi incumbida a missão de criar um mundo e fazê-lo prosperar, eles poderiam ajudar uns aos outros em suas criações, mas a prosperidade de cada mundo seria uma missão individual. E assim, o nosso mundo foi criado por Clarita, Deusa da Luz, ela o nomeou Everness e forjou as Maenads do fogo sagrado dado pelo Deus pai, o grande Dain. As Maenads são criaturas místicas e poderosas, nascidas da terra e encarregadas de manter o equilíbrio da magia nesse mundo, são conhecidas em muitas culturas e mundos como bruxas, feiticeiras, ninfas, elfas, e diversos outros nomes, mas elas são tudo isso e muito mais. Para presentear as Maenads por seu bom trabalho, a Deusa posteriormente lhes deu os Caelendus, amigos e guardiões fiéis que acompanhariam sua mestra pela eternidade, um não pode viver sem o outro, quando um morre o outro definha e quando um está feliz o outro próspera. Essa é a ordem do mundo. Quando as sete mais poderosas Maenads ascenderam, elas dividiram o território de Everness em sete reinos, Arestia, Caelestis, Béllenian, Éllorian, Hibaernis, Kalaedium, e Solarian. Ambos relacionados a cada elemento que suas respectivas Maenad veneravam... Ar, vida, fogo, flora, água, terra, Luz. Dain, contente com o trabalho de Clarita e de suas filhas em cuidar da prosperidade e do equilíbrio desse mundo, decidiu presentear-lhes com pares da mesma espécie, um companheiro sagrado, um amante destinado a elas e escolhidos pelo fogo sagrado. Um igual, almas que teriam seus destinos entrelaçados pela eternidade. Para cada ser que é reconhecido pela divindade, é gerada uma marca no corpo, uma marca singular que identifica cada par, a cada ser mágico vivente que nasce, é gerado e marcado um semelhante compatível também, eles são ligados pelo fio do destino, e quando ambos se conectam, a Insígnia aparece no mesmo lugar em ambos os corpos, isso só é possível quando seus corações sincronizam e ambos tornam-se um só. A Insígnia pode não aparecer simultaneamente em ambos, quando apenas um a possui, ele se torna o centro de tudo, um feixe de luz na escuridão para que o seu companheiro o encontre. Pois são duas metades de um todo, o alicerce um do outro, quando se encontram é como se o centro de gravidade mudasse... Dois iguais não podem viver separados, depois que a Insígnia aparece em ambos, deve-se ficar com seu par, se recusarem o elo e permanecerem separados depois de marcados, a sobrevivência significa sofrimento eterno, para quem recusa.” O orbe se apagou, franzi o cenho tentando memorizar as partes importantes. Mas apenas duas palavrinhas pairavam em minha mente, “sofrimento eterno.” – O que é essa Insígnia... exatamente? – Observei atentamente os dois se entreolharem. – O que significa esse olhar estranho entre vocês? -A Insígnia é uma dádiva, uma forma de encontrar o par que foi designado a você, possui formas e cores diferentes para cada par, no mundo dos homines, seria vista como uma tatuagem. É uma prova da ligação que se forma entre dois seres iguais, a combinação perfeita aos olhos dos deuses. - Certo. Então, quando nascemos, automaticamente nos ligamos aos caelendus, que são presentes dessa divindade, também temos pares predestinados e.... essa é a melhor de todas, somos imortais? – Questionei incrédula e não pude evitar o tom zombeteiro. Ambos sorriram. – Sim senhorita, resumindo, é isso mesmo. -Sir Arnold respondeu pacificamente. - Eu não tenho essa marca, isso quer dizer que não tenho um par?- Os dois se entreolharam novamente, e o senhor Grant abriu as asas inquieto, dessa vez não deixaria passar, mas foi Sir Arnold quem falou. -Tem certeza? Às vezes, é pequena e pode ser confundida com uma marca de nascença, o véu distorce coisas do nosso mundo para nos proteger... - Amondiel emitiu um chiado de deboche. - Ela tem a Insígnia sob a pele, sinto o cheiro dela. – Meu estômago afundou. - Se a Insígnia não está visível o suficiente, quer dizer que vocês ainda não se encontraram, pode ser que seu par ainda nem tenha nascido... – Franzi o cenho enojada, a simples ideia de que estava presa a alguém sem direito de escolha, era repugnante. E o fato de que meu companheiro poderia ser no mínimo dezesseis anos mais jovem que eu, me deixou enjoada. - Não, eles devem ter se encontrado em algum momento. -Amondiel protestou. – Não conseguiria sentir o cheiro se fosse o contrário, talvez não tenham atado o nó. – Ele disse encarando Sir Arnold, eu me limitava a alternar meu olhar para os dois, sem saber o que perguntar. - É uma conexão profunda, e saberá quando encontrar seu par, mesmo tendo crescido em outro mundo, é um sentimento que não pode ser ignorado. – O cavaleiro disse me observando, ele deve ter visto a relutância em mim. - O que significa atar o nó? Tem a ver com aquilo de se tornar um só? Terei de me relacionar com pessoas enquanto procuro meu par? – Perguntei engolindo em seco e sem saber se fui clara o suficiente, mas não queria ser mais explícita do que isso. - Não precisamente, não é necessário que saia testando cada pessoa ao seu redor, acabarão se encontrando de uma forma ou outra, e quanto a tornarem-se um só... há muitas interpretações para isso, o fogo sagrado age à sua própria maneira e nem tudo pode ser interpretado tão literalmente. - Isso quer dizer que o senhor também não sabe. – Murmurei enfaticamente e observei de esguelha Amondiel pigarrear e tapar a boca disfarçando uma risada. – É difícil, até mesmo para um feiticeiro experiente e do mais alto nível interpretar a vontade de uma divindade, há muitos mistérios nesse mundo senhorita. Contudo, nas escrituras apenas foi nos transmitido que os pares atarão o nó quando se tornarem um só, mas isso não se resume a sexo, se é o que quer saber. Calor se espalhou pelo meu rosto, e em seguida senti o sangue fugir do meu corpo quando me lembrei da noite passada, me remexi inquieta, e reprimi uma careta de dor, desviei o olhar, como um cavaleiro falava sobre isso tão tranquilamente com uma adolescente? Deus, tudo bem que era exatamente isso que queria saber, mas ainda assim era desconfortável falar disso com um homem barbado. – Sir, seja cauteloso com as palavras, minha mestra ainda é uma jovem senhorita. -Fiquei agradecida por Amondiel não mencionar o que aconteceu. -Peço perdão se fui rude, apenas queria sanar suas dúvidas. – Acenei brevemente para Sir Arnold, o tranquilizando. – Acho que já estamos bastante familiarizados, ainda temos coisas a discutir, mas para isso é necessário que outro assuma a palavra. Com um gesto simples o cavaleiro balançou suavemente a mão direita em um gesto elegante, aquele odor metálico inundou a sala, mas não fiquei enjoada. Um buraco n***o apareceu entre nós e deles caíram minha família, como se tivessem surgido de um r***o no mundo. Magia realmente era uma coisa impressionante. Em um piscar de olhos meus tios e Violet estavam em minha frente, como se tivessem sido teleportados daquele r***o sem se dar conta, eles me encararam atordoados e se levantaram devagar. – Pequena, você está bem? – Tio Maxwell perguntou com um semblante preocupado, aquiesci devagar e permaneci tensa ao sentir a ira tomar conta de Amondiel, em parte, porque a raiva dele apenas espelhava a minha. – Como ousa nos tratar assim, seu mestiço bastardo! – Minha tia estava vermelha feito um tomate e berrava atrocidades para Sir Arnold. – Basta. Maisie. Fiquei pasma ao ver o semblante irritado de meu Tio, nunca ouvira ele nem mesmo levantar o tom, muito menos chamá-la pelo nome de forma tão hostil, minha tia parecia tão atordoada quanto eu, me perguntei se ele descobriu a respeito do plano de Violet, que tremia que nem vara verde diante do olhar irado de Amondiel. -Senhora Sinclair, deixe-me esclarecer. Está aqui apenas para contar a verdade para a senhorita O’Donnell, é de conhecimento da diretora que a senhora, assim como sua família, infringiu as leis do tratado ao manter sua sobrinha longe de seu caelendus, e o pior de tudo, ignorante sobre a existência do nosso mundo, e ainda por cima, a tratou como uma escrava. - Com um misto de satisfação e espanto, observei Sir Arnold lançar um olhar furioso a eles. -Tem noção do quão grave é, insultar um m****o da realeza? É apenas por ser parte da família dela, que está aqui e não em um calabouço escuro nas profundezas de Amrat. Seja grata, embora ainda não esteja livre disso, então, mantenha a compostura. E sugiro cautela com as palavras dirigidas a senhorita O’Donnell, irei protegê-la, mas o senhor Doyle, está a postos para dilacerar a garganta de quem direcionar o mínimo olhar carrancudo para sua senhorita, e ele está no seu direito. -Conheço muito bem as regras do tratado, vocês não podem nos machucar.- Tia Maisie disse erguendo o queixo e exalando arrogância ao mostrar um sorriso debochado para Amondiel, ele grunhiu irritado e segurei em sua mão para acalmá-lo. Enquanto a palavra "Realeza" rodopiava na minha mente me deixando tonta. -Esqueceu de um detalhe, manteve separada uma Maenad de seu caelendus, essa é uma violação séria. Seu feito heroico não apaga isso, e esse crime se sobrepõe ao tratado... então, engula sua arrogância e não a use em minha presença, pois terá sérias consequências. Não posso machucá-la, mas o senhor Doyle sim. -A garota tem uma dívida de sangue comigo, ela tentou matar minha senhorita há oito anos, a afogando em um lago congelado em Ardboe. - Amondiel falou friamente sem desgrudar os olhos de Violet, observei a garota empalidecer e meu tio encarou a esposa e a filha atordoado e pálido. - O que significa isso, Violet? A garota tremeu e abriu a boca por diversas vezes, e quando por fim falou, sua voz soou chorosa. - Papai, isso é uma mentira! – Alegou e Amondiel ficou tenso ao meu lado, senti o familiar odor metálico agredir meu nariz, estava vindo dele e percebi que estava tentando não se transformar. Mas nossa atenção foi desviada para o senhor Grant que até o momento havia ficado em silêncio e empoleirado na cadeira. - Se for verdade, o senhor Doyle pode matá-la. - Falou casualmente, como se estivéssemos decidindo sobre o cardápio do jantar. Violet ficou pálida, assim como tia Maisie e tio Maxwell. Com um voo gracioso, a harpia pousou no ombro do cavaleiro, em seguida lançou um olhar incisivo para minha tia e tombou a cabeça de lado, um calafrio percorreu meu corpo ao lembrar das mãos sujas daqueles homens em meu corpo, algo morreu em mim ontem, algo precioso, Amondiel estremeceu, ergui a cabeça para encarar Violet que se esgueirava como um rato para perto da mãe. – Não me esqueci de você. -Proferi em uma voz irreconhecível. Seus olhos verdes se arregalaram e tive a certeza de que ela sabia a que estava me referindo. – Reflita sobre suas ações daqui em diante. Hoje... apenas hoje, não permitirei que Amondiel me dê sua cabeça de presente.- Sustentei seu olhar enquanto minhas palavras a atingiam. -Conte a ela sua história, e não omita nenhuma parte. -A ave disse rispidamente, mas quando minha tia abriu a boca, eu a interrompi. – Eles estão mortos? – Perguntei e ela crispou os lábios. – Sim. - Por que disse que eles haviam me abandonado? – Ela me deu um sorriso viperino, Violet ainda se escondia atrás dela para evitar meu olhar. – Essa era minha vingança contra a linda e perfeita, Kiara. – Não me movi, poucas vezes vi uma expressão tão sombria e repulsiva no belo rosto de minha tia. – Fiz com que se sentisse tão abandonada e miserável, quanto eu me senti durante toda a minha vida ao lado de sua mãe, queria que soubesse o que significava ser um nada aos olhos de todos. -O que ela fez a você? – Perguntei sem emoção, tentando muito processar tudo que foi feito a mim durante esses anos, os castigos, o abandono, a negligência... – Ela nasceu. – Disse com desprezo. – Ela nasceu, e tomou tudo de mim desde então. -Senhorita, controle seu caelendus. – Sir Arnold disse em um tom de advertência, a cabana estremeceu, segurei a mão de Amondiel com mais força ao sentir a raiva dele, encarei Sir Arnold ignorando a tudo e a todos, não queria ouvir mais nada daquela mulher desprezível. – Diga-me o senhor, por que eles morreram? Sir Arnold voltou a pegar a xícara, bebericou o chá ao fazer um gesto, a f***a se abriu novamente pronta para engolir os Sinclair e meu tio deu um passo à frente. – Pequena, não há nada para você aqui. -Sua voz era baixa, carregada de emoção, mas eu não me importava mais, não conseguia me importar agora, ele sabia de tudo e deixou que me enganassem. - Irei emancipá-la, não é seguro ficar aqui...- Tombei a cabeça de lado, o analisando. – Não é seguro, para quem? – Perguntei arqueando a sobrancelha, Amondiel inflou o peito ao se posicionar ao meu lado e meu tio o encarou, enquanto as duas mulheres atrás dele ficavam cada vez mais pálidas diante de minha ameaça velada. – Sinto muito. – Disse ao ser engolido pela f***a e lancei um último olhar de repulsa a Violet, Sir Arnold começou a falar e a f***a se fechou. -Há quinhentos anos, os conflitos entre as criaturas mágicas e os Homines chegaram ao limite. Por conta disso, um acordo foi feito. Ele pousou a xícara suavemente no pires e me estudou por mais um momento. - Acordo? - Questionei curiosa. -A população mágica estava ultrapassando ligeiramente a dos homines, eles tinham receio de serem oprimidos pelos feiticeiros e virarem escravos. Nosso conflito constante com os feiticeiros das trevas tornava tudo mais instável, e eles ganhavam cada vez mais simpatizantes. Então, foi decidido que um véu seria erguido entre os mundos e os portais seriam fechados, para sempre, a fim de manter cada povo em seu respectivo território e cessar as possíveis guerras entre nós. - Por isso a tecnologia humana não funciona aqui? - Perguntei, lembrando que não consegui usar o celular em callanish. - É mais simples que isso, lembre-se Keira. Quanto mais simples o feitiço, maior é sua eficiência. E o véu... ele está repleto de magia. Magia em sua forma mais primitiva, foi a sra. Alekseeva que o conjurou, junto com sua mãe. -Certo. - Murmurei cética, pois não sabia o que isso significava. -Enfim, até o véu ser erguido foi decidido que cada casal teria apenas uma cria, e a cada dois anos, só seriam permitidos o nascimento de Maenads nos meses de setembro e novembro, os demais… - Ele hesitou, como se ponderasse sobre o que iria me dizer. - Seriam descartados. -O quê? Petrificada, pousei minha xícara na mesinha com receio de derrubá-la, ele me encarou por baixo dos longos cílios escuros curvados. - Escravizamos e dizimamos os homines por séculos, encare isso como um controle de natalidade. É claro, muitos ficaram insatisfeitos com essa medida, as Maenads principalmente, e os feiticeiros das trevas ganharam credibilidade depois dessa medida, o que culminou na última grande guerra mágica, onde o maior feiticeiro de todos os tempos quase eliminou os homines, e toda Everness. -Quem ele era? - Perguntei bruscamente e Amondiel pegou a xícara de minhas mãos, acredito que com receio de que eu a derrubasse. - Era? – Sir Arnold arqueou a sobrancelha e me lançou um olhar de repreensão. - Ele ainda está aqui, não falamos seu nome. Apenas a Sra. Alekseeva o faz. -Isso me soa tão familiar. – Disse despreocupadamente ao me lembrar de Voldemort, o grande vilão da história de Harry Potter. O cavaleiro franziu o cenho, e me lançou um olhar aborrecido. Ele encarou Amondiel, que deu de ombros indiferentemente. -Não seja insolente, é uma recém-nascida nesse mundo, ainda tem muito o que aprender. - Me encolhi diante de seu tom frio e cortante, aquele cara… ele era perigoso. -Lembra que disse que um nome lhe dá poder? - Assenti. – É disso que estava falando, o nome dele está enfeitiçado é uma invocação de seus seguidores, ainda tem muitos fiéis á sua causa espalhados por aí, não apenas feiticeiros, para o nosso azar. - Não foi uma zombaria. -Engoli em seco, apenas dizer um nome poderia me condenar, o quão poderoso ele é? -Não quis parecer arrogante – Prossegui com a intenção de me explicar e esclarecer o m*l-entendido. -Deveria saber, sobre o que estava pensando? – Sir Arnold perguntou impassível e terminou o chá. - Sobre uma história que li, é famosa em meu mundo.- Disse distraidamente sem saber se era sensato esclarecer que era uma ficção relacionada a magia, provavelmente, suave demais para comparar com tudo que me foi dito hoje. Ele suspirou e sentou-se ereto. - Tenha cuidado com as palavras, afinal, foi esse feiticeiro quem matou seus pais e destruiu seu reino. - Meu reino? - Questionei trémula, cavaleiros não deviam ser aptos em dar notícias? Ele sabe que sou apenas uma adolescente que até um dia atrás, não sabia da existência de tudo isso? – Como aconteceu? Apertei os dedos no colo, não achei que seria doloroso ouvir sobre a destruição de algo que não conhecia. Por várias vezes desejei a morte dos meus pais, preferia que estivessem mortos a ter de aceitar que eram criaturas mundanas que abandonaram a filha. Nem sabia como eram seus rostos, não sabia nada sobre eles, apenas os nomes, Kiara e Brendon. Observei a janela, agora havia perdido um reino também, mas o que isso significava? Estava mais sozinha do que nunca estive, descobri que possuía muito e que perdera na mesma proporção, senão mais. Meu peito doeu ao lembrar da mentira que me foi dita, “Seus pais estão chafurdando na jogatina em Monte Carlo, eles não a querem.”
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