Capítulo 4

5000 Words
Keira A dor do abandono ainda era sentida em meu coração, as palavras que ouvi de tia Maisie na única vez que me atrevi a perguntar sobre eles, quebraram algo em mim que nunca poderia ser reparado. -Teremos que conversar sobre isso depois, não é seguro. E não sou o mais adequado para lhe contar, tenha paciência. – Sir Arnold se levantou e fitou a janela ao cruzar os braços atrás do corpo. -Diga-me o que aconteceu, o que meus pais eram? Foi me dito que me abandonaram e se mudaram para Monte Carlo! -Vociferei, sem me importar mais com as boas maneiras. -Seus pais, não eram tão superficiais e mesquinhos a ponto de abandonarem a filha para apreciar a vida em Monte Carlo, seja onde quer que isso fique, e sua tia... há muito por trás daquela fachada desprezível dela, Keira. Nem tudo é o que parece. Não seja apressada em julgar, há muitas coisas a serem esclarecidas. - Novamente, ele estava me repreendendo, e nem sabia o motivo. - Não prometo nada Sir, o que irá acontecer comigo? - Perguntei sem emoção, ainda estava atordoada e foi a única pergunta que consegui formular, sentia que havia sido jogada em um tufão de revelações, estava sem rumo e totalmente atordoada. - Irá ser educada, é claro. Tem um legado para honrar, e a senhorita deve ser versada em magia, tem um papel importante, é um fardo pesado, mas o fogo sagrado nos forja de acordo com a sua vontade. - É muita coisa. - Confessei, minha cabeça latejava, não impedi quando Amondiel se transformou em lobo novamente e colocou a cabeça em meu colo, fiquei momentaneamente surpresa com o gesto, mas comecei a acariciar seu pelo enquanto ele observava o cavaleiro. -Sei disso. – Sir Arnold disse enquanto nos observava de volta, ergui o rosto curiosa com sua expressão. - Vocês estão se dando muito bem. Olhei para Amondiel com a cabeça em meu colo, ele virou-a em minha direção e me olhou atentamente. - Estamos sim. – Constatei. -Temos muito a fazer, iremos acordar cedo. Já providenciei seus materiais e tudo que irá precisar. Amanhã irei deixá-la no porto…- Franzi o cenho confusa, porto? Pensei que a academia ficasse por perto. - Para onde vou? - Para a academia, Malefici fica em uma ilha ao norte.- Disse simplesmente, como se eu ouvisse todos os dias que iria estudar em uma academia para feiticeiras e que era da realeza. -Descanse, foi um longo dia. Aceitei a dispensa, me levantei afastando gentilmente Amondiel, ele ergueu a cabeça e ficou com as orelhas ereta, caminhei em direção ao corredor e hesitei por um momento antes de sair da sala. - Isso é real? Digo, estou livre delas? - Perguntei trémula, o cavaleiro me olhou por um instante e vi um pouco de complacência em seu rosto. -Seu caelendus a protegerá, essas são minhas ordens também. Ocasionalmente, teria de voltar, contudo se seu tio cumprir com o que foi dito... – Fiz uma careta ao notar o discreto ”Talvez” escondido ali, e ele emendou depressa. - Sim, por hora está livre deles. -Obrigada. - Sussurrei, era a primeira vez que alguém além de tio Maxwell me ajudava, realmente estava agradecida, ele não sabia como havia salvado minha vida da eterna servidão. Ele me deu uma oportunidade que jamais pensaria existir, ou que jamais me atreveria a escolher. É difícil acreditar, mas pessoas drasticamente oprimidas geralmente não enxergam a chance de liberdade em sua frente e mesmo quando enxergam, às vezes se recusam a erguer a mão para alcançá-la, pode ser comodismo ou apenas cansaço por tentar conquistar algo a mais e fracassar. Acho que ficamos tão conformados com a nossa desgraça pessoal, que é melhor não criar expectativas para não correr o risco de se decepcionar, pois não há nada mais sofrível do que ter as esperanças sobre liberdade desfeitas. Olhei para Amondiel, esperava que ele ficasse comigo essa noite, mas não queria pedir, ele se levantou e veio para o meu lado e o alívio que senti foi absurdo, era como se uma bigorna fosse erguida de cima do meu peito. -Estou a seu dispor, minha senhorita. - Disse gentilmente e fez uma reverência graciosa, atrás de nós uma cama surgiu na sala e lembrei do que Amondiel disse sobre a casa, peça e será realizado... tive vontade de sorrir, eu gostava de magia. (...) Encarava o enorme navio atracado no porto, aturdida. Era uma embarcação suntuosa de madeira. Já havia feito alguns cruzeiros em navios luxuosos, mas nunca entrara em um barco tão grande de madeira, e de repente me senti embarcando em uma aventura, como em Piratas do Caribe e me perguntei se a tal escola ficava em alguma das ilhas da Escócia. -Algum problema? - Amondiel perguntou, me encarando com os límpidos olhos azuis. Ainda era estranho conversar com o lobo, mas ao nosso redor todas as pessoas tinham algum tipo de animal ao seu lado, Sir Arnold havia nos deixado fazia pouco tempo, ele disse que ainda tinha que tratar de alguns assuntos. Algo me dizia que tinha a ver comigo. -Pensei que iríamos por terra. -Murmurei aflita. O mar do norte era gelado, especialmente na parte mais ao norte onde era possível encontrar até blocos de gelo, devido à proximidade com os fiordes da Noruega, mas não fazia ideia de como as fronteiras de Everness funcionavam, visto que a maioria das pessoas ao meu redor tinham caelendus, julguei tardiamente que não estávamos mais na Escócia. - Não gosta de água. É por conta do incidente em sua infância? - Perguntou com cuidado. Olhei para baixo encarando os olhos afiados de Amondiel, conseguia ver a sede de sangue em seu infinito azul. Estremeci ao lembrar da sensação do gelo se partindo aos meus pés, do sorriso satisfeito de Violet quando afundei na água, a sensação do frio congelante encharcando meus ossos, o desespero ao tentar encontrar o buraco no gelo pelo qual havia caído, eu senti que iria morrer no frio, molhada e presa na escuridão gelada do fundo do lago, assistindo ao sorriso vitorioso de Violet. -Deveria ter me deixado matá-la. - Amondiel resmungou ao se sentar ao meu lado, voltei a encarar nostalgicamente a água escura do oceano. - Como você atravessou? Sir Arnold disse que o véu mantém cada raça em seu mundo, mas me lembro de muitas aparições suas enquanto morava em Ardboe. -Passei os primeiros cinco anos de minha vida buscando uma a******a no véu, os caelendus nascem com algum conhecimento sobre o mundo, antes mesmo de ver o véu já sabia o que era, e sabia que meu lar estava do outro lado, chegamos a esse mundo juntos, mas nossos desenvolvimentos são diferentes. - Murmurou encarando a água. -Depois de anos, enfim havia achado um buraco, mas o medo do desconhecido me impediu de atravessar, então, pernoitei perto da f***a por dias, sem comer, sem beber, estávamos no auge do inverno em Everness, precisaria caçar para sobreviver em algum momento. – Minha garganta se apertou ao imaginar um pequeno filhote de lobo sozinho, no frio, faminto e abandonado a própria sorte. -No entanto, tudo foi esquecido quando senti aquela ligação adormecida me puxando, eram pequenos espasmos no início, depois se tornaram solavancos que me puxavam para a f***a. -Amondiel tomou uma respiração profunda e o observei mostrar levemente as presas, a lembrança o enfurecia. -Esqueci a fome. Com um único salto passei pela f***a e saí em uma floresta perto de Glenarm, corri em direção a costa oeste. Senti o medo enraizado em meu coração, sabia que era minha senhorita que estava em apuros. Então, corri. Corri até que minhas patas fracas protestaram contra o esforço repentino, havia passado dias em inanição, ainda era jovem e imaturo, mas não me importei, quando cheguei aos tropeços a uma das margens do lago Neagh, eu a vi. Amondiel não se importou em reprimir um rosnado sanguinário e que gelou meu sangue, foi o mesmo som ameaçador que ele emitiu na clareira. -Aquela imunda estava em pé no gelo, estava tão extasiada contemplando sua façanha que não notou quando me aproximei, mesmo de longe vi o sorriso dela. - Ele girou a cabeça e me encarou, seus olhos estavam enevoados com as lembranças, mas eu via a mais profunda escuridão neles, aquela áurea sombria que fazia qualquer um tremer diante dele. -Sabia que ela não tinha magia, sentia que a senhorita estava perto, não parei de correr e quando percebi que a garota estava olhando para baixo eu entendi, saltei diante dela e a joguei para longe, vi sua imagem através do gelo, você estava mortalmente pálida, os olhos mais azuis do que nunca. A lembrança surgiu em minha mente, pensei que estava morrendo e que Amondiel era o anjo da morte que havia vindo me buscar, lembro-me de ter ficado furiosa, não queria morrer. -Mas a senhorita, não é uma presa. -Disse altivo, como se soubesse dos meus pensamentos. - Uma presa desiste e se entrega, mas um predador? Um predador, mesmo ferido luta até a última batida do seu coração. Vi a determinação de ferro em seu olhar, estávamos longe do buraco. Então, pulei em cima do gelo, cavei, arranhei e fiz de tudo, a senhorita começou a bater por baixo da água, e quando o gelo trincou, soltou uma última bolha de ar e sorriu ao começar a afundar, com mais um salto quebrei o gelo, pulei na água e a trouxe para cima. Aquela nobre criatura havia me salvado, eu m*l lembrava daquilo, mas nunca me esqueci dos seus olhos, ou da força irredutível neles quando comecei a bater no gelo, eu tinha oito anos, e decidi naquele dia que não desistiria, mesmo sendo pisoteada, eu resistiria. -Foi a primeira vez que vi seu sorriso. Estava quase morrendo e o mostrou a mim. – Me esforçei para sustentar seu olhar devoto. - Só voltei a respirar quando você vomitou a água, durou vários minutos, aquela criança demônio havia saído correndo. Me deitei por cima para aquecê-la, e quando os pais da menina chegaram, eles me olharam atônitos, sabiam o que eu era. Estava fraco e quase morrendo, eles a pegaram e deixei que a levassem, pois sabia que aquele homem não a faria m*l. -Lembro de vê-lo na floresta, isso era real? -Sim, ficamos juntos por um tempo. - Eu atravessava o véu para vê-la, aquele homem nunca impediu. Ainda era jovem para lutar contra a força do véu, então, não podia ficar muito tempo. A observei por anos, fazia visitas curtas que aumentavam conforme crescíamos e ficávamos mais fortes, mas quando completamos 11 anos, voltei a Ardboe em um determinado inverno e a senhorita não estava lá, a casa estava vazia. Eu procurei pelo seu cheiro, mas não estava lá. A dor e o ressentimento eram nítidos nas palavras dele, e eu me senti feliz, fiquei feliz por alguém no mundo sentir falta de mim. - Nos mudamos para o Brasil, na época não entendi e fiquei muito triste, adorava Ardboe. Mas tia Maisie estava irredutível, ela teve uma discussão terrível com meu tio e no dia seguinte embarcamos para a América do sul. -Ela tinha medo do que éramos, do que estávamos nos tornando, a sua magia já era muito forte. A força da Maenad, é espelhada em seu Caelendus, e, eu tinha uma dívida de sangue com a criança, a mãe sabia que iria cobrar algum dia, ela sabia o que a filha era e o que havia feito. Estremeci ao lembrar do nosso encontro na cabana, tia Maisie sabia, ela sabia que Violet havia tentado me matar, sempre soube. - Iria matá-la assim que conseguisse chegar aquela casa. Ela me devia sua vida imunda, de acordo com o tratado, está dentro da lei. A voz de Amondiel era glacial, tão fria quanto a morte que me rondou naquele lago congelado, estalei a língua ao lembrar que Violet agora me devia a sua vida. – Esqueça isso por enquanto, ela ficará quieta agora. – Ele emitiu um chiado descontente e me encarou. -Não posso esquecer, peço que me perdoe, mas não esquecerei de como eles a trataram feito lixo, ela quase a matou, e ousou feri-la da forma mais repugnante. – Voltei a encará-lo, os olhos dele transbordavam ódio e culpa. – Jamais a perdoarei. Ele suspirou e me olhou com intensidade. – Seu lugar não é nesse mundo, sabe disso. – Voltei a encarar o mar escuro as margens do porto. Li pela milésima vez o nome do navio nomeado de “Lady Clarita.” – Por que Clarita? – Perguntei curiosa, o navio era deveras sombrio e exalava escuridão, pois era de mogno escuro e brilhantemente envernizado, o que o deixava com um aspecto elegante. -Irá entender quando ele levantar âncora e partir. Amondiel se dirigiu a rampa de embarque, as nossas bagagens já haviam sido levadas, ele parou no meio da rampa olhando levemente para trás. – Use sua instrução em Malefici como um meio para liberdade, depois que se formar na escola, poderá fazer o que quiser. Apenas faça isso, tranquilize minha mente e aprenda a usar seus poderes, isso irá me livrar de algumas rugas no futuro. Balancei a cabeça em descrença, duvidava muito que ele fosse capaz de desenvolver rugas, me encaminhei a rampa e entreguei o cartão de embarque ao marinheiro, assim que ele perfurou meu cartão segui Amondiel para a proa, o navio não demorou a levantar âncora. Fitei o mar, ansiosa para saber em qual direção o navio seguiria, mas meu estômago afundou de repente e cravei minhas mãos com força na balaustrada. - Mas que diabos?! – Ofeguei surpresa ao ver o navio levantando voo, me inclinei para observar abaixo de nós, vi um pó dourado embaixo do casco cheio de cracas da embarcação, encantada, observei o navio subir cada vez mais alto, fazendo o pequeno vilarejo se tornar um ponto acinzentado na costa. - É lindo. – Disse extasiada ainda encarando o brilho dourado que parecia areia movediça de ouro. – Entendeu por que ele foi nomeado assim? – Faz sentido, disse para mim mesma. – Também é uma homenagem a sua mãe, foi ela quem inventou e desenvolveu o Aureum Pulveris. É esse pó que faz o navio voar. Sua mãe era esplêndida. Engoli em seco envergonhada, era ignorante sobre seus feitos. – Conte-me sobre ela. Pedi baixinho, estava maravilhada encarando o pó. Me endireitei, o vento era frio e cortante, apertei o sobretudo ao redor do corpo, Amondiel se aproximou para me aquecer e ficamos ali, na proa, observando as nuvens, m*l conseguia acreditar que estava em um navio voador. – Ela era a criatura mais bondosa que pisou nesta terra. Linda, gentil, travessa e extremamente inteligente. Muitos dos avanços dos últimos dois séculos foram obras dela, muitos acreditavam que seria ela a feiticeira que superaria a senhora Alekseeva. Disse com uma voz sonhadora, e me perguntei quem havia instruído Amondiel sobre tudo isso, ele nascia com algum conhecimento, é verdade. Mas também estava sozinho nos primeiros anos de vida e seu conhecimento era assombroso. -Ela era distinta de todas as jovens, mesmo na academia, e quando se formou, se tornou aprendiz da Sra. Alekseeva na ordem das Claritas, em uma visita da realeza de Béllenian a Caelestis, ela conheceu seu pai, ele era um príncipe e a chamou para dançar no baile de boas-vindas, no instante em que as suas mãos se tocaram, a Insígnia apareceu em ambos. Ainda era tão difícil ouvir sobre eles, tinha tanta curiosidade, mas me sentia miserável ao lembrar dos anos que devotei em sentir ódio. – O status de sua mãe era o ideal, ela era uma feiticeira poderosa aos 100 anos, e, mesmo se fosse plebeia isso não teria importância, é uma honra para qualquer macho ser abençoado com a Insignia, mas seu pai não a reivindicou. Estreitei os olhos, o vento ficou mais forte, apertei o sobretudo enquanto enrolava o cachecol de lã no pescoço. – Ele se apaixonou por ela, conviveram durante a visita a Caelestis, mas seu pai foi contra a ordem da rainha de Bellénian e não impôs o nó a sua mãe. Quando a visita terminou e durante a despedida da comitiva, a princesa confessou que estava apaixonada, e ela o reivindicou. Não muito tempo depois, eles se casaram, o príncipe deixou o seu reino para trás, pois iria ser governado pela irmã, e Caelestis prosperou sob o governo deles. -Ela era corajosa. – Constatei um pouco emocionada. – Ela foi uma boa rainha? – Empurrei o nó que se formava em minha garganta, minha mãe, minha mãe que não me abandonou. – Ela foi a melhor rainha de todas. – Disse veemente. - Meu pai me disse que em todo Liberum, ela ia para o campo e realizava um grande rito, ela abandonava a coroa e dançava descalça, seu pai fazia o mesmo e se armava com o violino, durante o reinado deles Caelestis nunca passou fome, o reino sempre tinha campos verdejantes e colheitas fartas. Fiquei pesarosa ao ouvir aquilo, como eu, uma criatura tão medíocre iria me igualar a alguém tão grandiosa, as comparações seriam inevitáveis, e eu não estava à altura do desafio. – Está no seu sangue. – Amondiel disse determinado. – Apenas seja você, não pode ser igual a ela. Se transforme em você mesma, não em uma cópia de seus pais. Ele se levantou. – Vamos para a cabine, está muito frio e sua pele acabará sendo cortada com esse vento, venha minha senhorita. O segui em silêncio, o vento já estava machucando meu rosto, felizmente o navio estava quase vazio, cumprimentei a tripulação e segui com Amon para a cabine. Seguimos por um corredor estreito, um corredor que deveria estar lotado em setembro, mas que estava vazio no meio de novembro. Estava prestes a enfrentar o pior dos pesadelos acadêmicos, entrar na escola nova depois do início das aulas, quando as panelinhas já estavam formadas e os perdedores já haviam sido rotulados. Tudo bem, sempre havia pertencido ao grupo dos perdedores. Mas, no início do ano letivo você tem a chance de se enturmar com outros da sua estirpe e se unir contra os valentões idiotas, mas uma novata entrando depois do início das aulas... seria uma fracassada solitária. E uma feiticeira de 16 anos, que não sabia nada de magia... seria eternamente uma fracassada. -Você é deprimente. – Amondiel disse ao parar em frente a cabine número cinco. – Estou em um dia bom. – Murmurei ironicamente e entrei. (...) Através da janela circular do quarto, conseguia ver os campos verde-escuros lá embaixo, rios serpenteantes, matas exuberantes e sem nenhuma indicação da presença do homem ou de feiticeiros. Amondiel cochilava no tapete perto da cama e no canto da pequena cabine encarei minhas malas, as iniciais K.O, brilhando em letras cursivas bordadas com fio de prata, eu senti tanto orgulho. Sempre herdara os uniformes usados de Violet, e sempre costurava meu nome com uma simples linha branca. Violet sempre tinhas os uniformes da melhor qualidade e bordados lindamente com suas iniciais, na verdade, a primeira coisa que tivera que não era de Violet, eram os all-star vermelhos que calçava, fora a primeira coisa nova que deram a mim. Senti um desconforto ao pensar o quanto aquela mala deve ter custado, somado ao conteúdo dentro dela, que com certeza eram novos, gemi em desgosto, não teria dinheiro para custear aquilo. – O que houve? – Amondiel perguntou bocejando. -Não tenho dinheiro, como irei ressarcir a sra. Alekseeva? -Minha senhorita. – Ele se ergueu e me olhou como se fosse uma pergunta i****a. – É a princesa herdeira de Caelestis, sou o príncipe herdeiro de Líber. Temos ouro suficiente. Seus pais não a deixariam desamparada, tenha certeza disso... A diretora deve ter ficado encarregada disso. Como iria saber disso? ninguém me falou. – Entendo que deve ser dificil ficar no escuro, mas acredito que a sra. Alekseeva irá lhe contar tudo. Tudo? Isso significava que havia muitas coisas das quais não sabia, e pela cautela de Amondiel suspeitava que ele escolhia deliberadamente o que transmitia a mim. -Você não deve mentir. Disse friamente o encarando, ele levantou lentamente a cabeça me encarando. – Nunca. Entendeu? – Ele balançou a cabeça lentamente de forma positiva. – Diga. – Enfatizei rispidamente, não gostava muito de tratar Amondiel assim, mas passara a odiar mentiras. -Entendi, minha senhorita. Só estou omitindo algumas coisas que não devem ser faladas livremente, não sabemos quem pode estar ouvindo. Ele olhou ao redor, assenti concordando e voltei a olhar pela janela, Amondiel colocou alguns lanches na cama e desembalei alguns sanduíches que ele havia preparado para mim, estavam deliciosos. Estendi alguns a ele e comemos em silêncio. (...) Estava anoitecendo quando Amondiel saiu para ir a cabine falar com o capitão. Encarei a janela observando o céu ficar cada vez mais escuro e salpicado de estrelas, era uma imagem intrigante, sempre achara impressionante como as estrelas e a lua brilhavam na imensidão da escuridão noturna, principalmente no campo. – Chegaremos em alguns minutos, minha senhorita. – Amondiel disse ao voltar ao quarto. — Está bem. – Me virei para vestir novamente o casaco, mas ele estava farejando o ar e fiquei preocupada. -Algum problema? – Questionei alarmada, ele farejou mais um pouco e se aproximou da janela. – Por um momento, senti um odor familiar... – Disse distraidamente ao me observar. – Acho que sua Insígnia está para aparecer. -Ergui as sobrancelhas espantada. – Consegue mesmo sentir o cheiro? - Sinto o cheiro do fios do nó, todos os caelendus sentem. Desculpe a forma de falar, mas é como um instinto animal, não sei se são feromônios ou qualquer coisa do gênero. – Ele virou o rosto constrangido. – Quando uma fêmea tem um companheiro, é possível identificar pelo odor da ligação. -Isso é tão... animalesco. -Tive vontade de rir da expressão resignada dele. – Sei que acha estranho, talvez pareça uma prisão para senhorita, há nós que dão errado, mas há muitos que dão certo e quando isso acontece, é uma maravilha de se ver. Declarou um pouco melancólico, me senti um pouco constrangida por dar tão pouco a ele, sei que é uma situação diferente. Mas via que Amondiel, não estava se referindo apenas ao meu companheiro sagrado. Ele já havia feito tantas coisas por mim no curto espaço de tempo que convivemos. – Por que não pediu para firmar o elo? -Questionei com um pico de coragem repentina. -Não acho correto, tem muito a aprender sobre esse mundo, quando estiver pronta...- Ele disse baixinho, como se aquilo fosse uma promessa, ele iria esperar a minha decisão. – Obrigada, Amon. Ele fez uma reverência singela ao ouvir o apelido, no mesmo instante o navio começou a reduzir a velocidade e descer, minhas mãos começaram a suar e meu estômago se revirou quase me fazendo vomitar os sanduíches de Amon no tapete. -Estarei com a senhorita. – Ele disse para me tranquilizar, assenti e peguei as nossas malas, dirigi-me a área de desembarque assim que o navio aterrissou suavemente em um lago enorme. Ao sair para o convés, estremeci com a brisa suave da noite, me despedi da tripulação e desci a rampa com o coração na mão, vi uma figura elegante segurando o que parecia ser uma lanterna, mas ela flutuava em sua mão. -Srta. O’Donnell, Sr. Doyle, fizeram boa viagem? Perguntou com sua cortesia calculada, mas estava começando a me acostumar com o jeito indiferente e calmo de Sir Arnold. -Sim, obrigada. Confesso que fiquei surpresa ao ver o navio voador. Murmurei lembrando que eles caçoaram de minha indiferença, para com as sutilezas do mundo mágico. Ele assentiu e vi um pequeno sorriso repuxar seus lábios finos, peguei minha mala e o segui em meio a escuridão da noite, caminhamos por uma trilha ladeada por árvores exuberantes e imensas, gostei instantaneamente daquele lugar. Arrastei minha mala por um caminho de cascalho ignorando o olhar de reprovação de Amon, devido a minha recusa a sua ajuda. As árvores foram diminuindo conforme avançávamos pela trilha, repentinamente ela se alargou e vi que caminhávamos a beira do lago escuro. Parei, absorvendo a imagem, era muito mais bonito e misterioso visto de perto, corri para alcançar Amondiel e Sir Arnold que caminhavam á frente, depois de 20 minutos de caminhada, passamos por uma parte protegida pelas copas das árvores, elas eram tão grandes e numerosas que parecíamos estar em uma caverna arborizada. Quando saímos, um imenso castelo com diversas torres surgiu acima de uma colina, ofeguei ao ver a imagem da construção gigantesca, ele parecia ser antigo e era diferente de qualquer coisa que tenha visto em minhas viagens, era como se estivesse vivo e fosse uma força da natureza, e todo o resto servia de fundo para ele. – Bem-vindos a Malefici. Disse Sir Arnold, me permiti ficar chocada ao atravessarmos por uma imponente ponte de pedra, abaixo dela, um abismo sem fim me deixou tonta ao tentar espiar, seguimos adiante e passamos por um arco de volta perfeita que nos levou a uma escadaria de mármore. – Irei levá-la a diretora, alguém indicará seu dormitório, ela dará mais detalhes a você. O nobre cavaleiro disse ao me conduzir por um interminável labirinto de corredores enormes, o teto era alto e compostos por arcos em estilo triunfal, me senti pequena enquanto o seguia. Meus sapatos faziam um barulho irritante, pois a borracha da sola se atritava em contato com o mármore e me encolhi mesmo diante disso, o barulho não era nada elegante. Sir Arnold reprimiu o riso e me mantive impassível diante disso. Depois de infinitos corredores e escadas, chegamos a uma torre e o cavaleiro murmurou alguma coisa parecida com latim diante de uma imensa porta de carvalho escuro, ela se abriu e eu me senti ainda mais miserável ao encarar a figura sentada atrás de uma mesa grande de madeira avermelhada no fundo da sala. -Minha senhora, trago a Srta. O’Donnell e seu caelendus, Sr. Doyle. Eu não sabia o que fazer, deveria me apresentar? Me curvar? Pois a mulher ruiva em minha frente, possuía uma beleza intangível, me curvei, com certeza ela era uma rainha ou algo do tipo. -Por que está se curvando, senhorita? Perguntou com uma voz enganosamente mansa. Encarei Amon ainda encurvada, ele apenas inclinou levemente a cabeça em direção a nobre senhora, minha mente entrou em parafuso, o que devia fazer? Errei alguma coisa? -Peço perdão, sou ignorante as regras de etiqueta dessa... – Fiquei sem palavras, e franzi o cenho diante da primeira coisa que surgiu. – Sociedade. A palavra parecia estranha em minha língua, a mulher se levantou graciosamente e deu a volta na mesa, ela parou em minha frente e não ousei levantar a cabeça para encará-la, me surpreendi quando seu dedo se afundou abaixo do meu queixo e o ergueu. – Quando em dúvida, jamais se curve ou abaixe a cabeça. É da linhagem real e não deve se curvar, diante de ninguém, nem mesmo de mim. Assenti devagar, ela me olhou profundamente, era alta, elegante e com profundos olhos amendoados e escuros como nanquim, nariz reto e lábios bem esculpidos e carnudos, o cabelo vermelho e liso estava preso em um coque elegante, ela usava um vestido escarlate, era imponente e assombrosamente bonita. – Você me lembra da rainha-mãe. – Franzi o cenho diante da comparação. – Ela era sua avô materna, Briana O’Donnell. Eu tinha uma avó? Briana... testei o nome em minha mente e me sobressaltei quando a diretora voltou a falar. – Ela está morta, todos da sua família real de Caelestis estão, exceto por Maisie e você, mas ela não conta. Uma resposta seca, ela era rígida, do tipo que não tinha paciência para idiotas. – Sou Morgana, reitora da academia, da parte feminina é claro. Disse ao olhar de soslaio para Sir Arnold. -A escola separa os alunos de acordo com seu gênero, algumas aulas são em conjunto, dormitórios separados e daí por diante. - Por quê? – Perguntei curiosa, concordava com a parte dos dormitórios, mas e o resto? – Sou responsável por um bando de adolescentes poderosos e imortais, com hormônios a flor da pele, e já é um caos cuidar das fêmeas, imagina ter que cuidar de um monte de bebês chorões brandindo espadas por aí. – Ela revirou os olhos e vi assombrada, Sir Arnold bufar. -Enfim, a sua adaptação será difícil, dedique-se, não se preocupe quanto as suas posses. Seu olhar se demorou em mim e percorreu todo meu corpo, estava vestida modestamente, apenas com uma calça jeans, um sobretudo caramelo de camurça e meu tênis vermelho. Me senti oprimida com seu olhar avaliador. -Seus pais me deixaram encarregada de proteger sua fortuna. Obedeça aos professores e siga as regras da escola, se tiver algum problema, fale com Sir Arnold, ou com a Sra. Walsh eles irão me informar. Conhecerá ela em breve. Com um aceno ela me dispensou, assenti aborrecidamente, estava tão chocada com sua insensibilidade que havia me esquecido de tudo que queria perguntar, saí da sala genuinamente confusa, a deixando com Sir Arnold. Estava mais perdida do que quando havia entrado, sentei-me em um banco no corredor á espera da funcionária que iria me conduzir ao dormitório. - Ela é um tanto difícil, mas é uma feiticeira de alto nível. Amon disse ao ver meu desânimo. – Um iceberg é mais caloroso que ela. Resmunguei desapontada, não esperava uma recepção de boas-vindas, mas gostaria de ter recebido mais informações a respeito de meu status, da morte de meus pais e tudo que envolvia o nome de minha família, sobre meu reino extinguido. Mas ao que parece, a reitora estava decidida a me deixar no escuro, talvez devesse descobrir tudo por si só? Tinha certeza de que ela não seria minha mentora ou algum tipo de presença reconfortante em minha longa vida, bufei.
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