Keira
Encarava o nada, e enquanto esperávamos para sermos conduzidos ao dormitório, diversos pensamentos rondavam minha mente.
Como é que iria sobreviver nesse mundo?
- Quando a vi naquele lago, seus olhos eram sombrios e frios, como uma manhã cinzenta de inverno, olhos cansados demais para pertencerem a uma criança. – Amon disse com uma voz profunda. - Mas quando decidiu lutar por sua vida batendo no gelo, vi a determinação desanuviá-los, eles se tornaram quentes e ferozes, como ferro ao ser fundido.
Amondiel prosseguiu alheio ao meu olhar confuso.
– A minha senhorita, é uma loba, e é forte. – Disse ferozmente. – Está em desvantagem, mas é forte o suficiente para superar os obstáculos, e me terá sempre ao seu lado, mesmo aqui na escola. Siga os seus instintos, eles serão os melhores guias nesse mundo, aos poucos seus sentidos irão se abrir, a luz da sua imortalidade estará nítida quando os efeitos do véu passarem, tudo ficará um pouco mais fácil.
Olhei para Amondiel, e ele sorriu como se olhar para mim fosse reconfortante.
– Está certo, Amon. – Concordei passivamente.
Por anos estivera sozinha, era reconfortante e animador ter a presença de alguém, e Amon em pouco tempo se tornou aquilo de que sempre senti falta, um companheiro que estivesse sempre ao meu lado.
Uma funcionária impecavelmente vestida com roupas acinzentadas e com cara de cavalo, veio ao meu encontro, seus passos firmes no piso de mármore, me acordaram de meu devaneio.
-Srta. O’Donnell, sou Sheila Walsh. A responsável pela administração da ala feminina.
Acenei brevemente para a mulher que usava um coque apertado, mantendo os cabelos escuros rigidamente no lugar, ela tinha uma postura tensa ao conjurar uma esfera de luz, já a odiei pelo fato de não cumprimentar Amon.
-Para onde devo ir amanhã?
Perguntei ao me levantar, ela me estendeu uma folha grossa repleta de uma série de horários de aulas, bufei ao ver que era praticamente uma escola integral, o que não era surpresa, visto que os alunos residiam aqui durante o ano letivo.
-Seguirá esse horário. É estritamente proibido que as alunas vaguem pelos corredores depois do horário permitido, se isso ocorrer, irá para a detenção. A floresta sombria é proibida para os alunos, então, não se aproxime. Há perigos ali que os mais habilidosos feiticeiros e cavaleiros não ousam enfrentar. – Ela olhou de soslaio para Amondiel, e continuou. – Os caelendus permanecem com seus mestres, no entanto, devem manter sua forma social e obedecer ao horário de aulas.
- Forma social? – Questionei franzindo as sobrancelhas.
A Sra. Walsh crispou os lábios em desagrado ao responder.
– A forma que ele está agora, é evidente que não podem aparecer em sua forma natural aqui, a não ser nas aulas de combate. Não lhe ensinaram nada?
Me irritei com seu tom repreensivo, eu não sabia de nada.
Há apenas dois dias descobri que era uma Maenad, mas ela não tinha nada a ver com isso, e com certeza não se importava.
Ignorei seu olhar aborrecido e a segui em silêncio, perdi a conta de quantas escadarias subimos, atravessamos diversos corredores bem decorados com quadros de pintura a óleo, imagens de figuras distintas que pareciam ser da realeza, a maioria eram mulheres, “fêmeas” é o termo que usam aqui.
Tentei não admirar as obras, e me concentrei no caminho que estávamos fazendo, estava nítido que achar a sala de aula amanhã seria um desafio e tanto.
- É aqui. – Disse entediada ao pararmos em frente a uma enorme porta de madeira escura, carvalho finamente entalhado e decorado com alguns arabescos. – Irá dividir o quarto com mais duas senhoritas, é estritamente proibido trazer cavalheiros ao dormitório, isso é motivo para expulsão imediata da escola.
Ela me olhou analiticamente e fez uma careta, estava me julgando com base em minha aparência?
Eu por acaso parecia alguma c****a no cio para trazer um macho para o meu quarto? Não era a primeira vez que insinuavam isso, se a mulher já era discriminada no século XXI no mundo dos homines, imagina nesse lugar que parecia ter estagnado na Idade Média. Bufei.
– Sim senhora, obrigada.
Ela recitou um monólogo de regras básicas do dormitório:
“Não é permitido sair do dormitório depois do horário;
Não é permitido usar vestimentas inadequadas na escola;
Não é permitido brigas, nem das Maenads, nem dos caelendus...
Uma me chamou mais atenção que as outras.
“Não é permitido transirar para fora do território do castelo.”
Suspirei, queria perguntar, o que “transirar” significava, mas não havia caído nas graças da Sra. Walsh, e ela me observava com uma cara azeda ao perguntar se havia sido clara.
– Sim. Perfeitamente.
- Seus pertences já estão no dormitório. Boa noite.
Disse friamente e me deu as costas. Megera.
– Ela é a pessoa mais simpática que já conhecemos, não acha?
Amon comentou sarcasticamente, balancei a cabeça para clarear os pensamentos, e abri a porta devagar para não acordar ninguém, mas minha cautela se mostrou inútil.
— Estávamos curiosas para conhecer a pessoa misteriosa que chegou à escola no meio da noite.
Declarou uma garota linda, linda mesmo.
Ela era a criatura mais bela que já vira.
A pele de um tom exótico de caramelo, como se vivesse eternamente bronzeada, cabelos cacheados castanho-chocolate longos e brilhantes, olhos verdes, tão claros que me lembravam o mar do caribe, às vezes azul outrora verdes... eram belíssimos.
– Então deve estar decepcionada. – Declarei e tentei não me sentir oprimida pela sua aparência.
Ao olhar ao redor encontrei outra garota sentada confortavelmente numa poltrona fofa, ela tinha traços orientais, o cabelo era de um tom de preto tão lustroso quanto petróleo, nunca vi um cabelo tão preto e tão brilhante.
Desviei o olhar dela, encontrei minhas coisas que estavam à beira de uma cama perto da janela que dava para o leste.
-Quem chega por último, fica com o pior lugar.
A de cabelos cacheados disse apontando para minha cama, outra filhinha de mamãe que não gostava de acordar com o sol no rosto, era como se não houvesse cortinas no mundo, crispei os lábios, comecei a odiar garota... ela me lembrava de Violet.
Apesar da aparência deslumbrante, a princípio pensei que ela teria uma personalidade boêmia, que me lembrou das brasileiras, mas olhando-a com mais atenção, ela era presunçosa e irritadiça.
- Parece perfeito para mim.
Afirmei e a morena nos fitou, curiosa, m*l havia notado uma gata preta que estava ao seu lado, Amon deu um aceno seco de cabeça, a gata estremeceu e fez uma reverência, em seguida sua mestre se levantou e se curvou em uma reverência ao se apresentar.
-Mei Yamamoto, cumprimenta sua alteza real. – Estremeci em constrangimento, a outra garota se aproximou e me encarou com desdém.
– Quem é você? – Perguntou rispidamente.
- Se apresente e lhe direi meu nome. – Ofereci lembrando do aviso de Sir Arnold, Amon se sentou e ficou encarando a garota, uma leoa desceu de uma das camas e se aproximou, a criatura também se curvou a Amon e a garota continuou me encarando.
– Como ousa exigir meu nome?! Sabe quem sou?
-Não, é por isso que perguntei.
Esclareci erguendo as sobrancelhas, a outra garota permanecia curvada com seu caelendus, a leoa tentava chamar a atenção da companheira, e não relaxei minha postura.
– Inacreditável, alguém que se dá tanta importância, não deveria ser tão rude. -Mei disse de soslaio.
O Clima ficou tenso no quarto, assenti, satisfeita com as palavras de Mei.
– Está diante da princesa herdeira de Caelestis. – Amon esclareceu e a postura da garota ficou sutilmente mais agressiva.
– Não entendo por que tenho que me curvar para uma herdeira de cinzas e escombros. – Disse ironicamente e a encarei impassível.
– Não pedi que se curvasse, apenas que se apresentasse. A não ser que seja uma selvagem, deveria ser capaz disso. – Suspirei. – Erga-se Srta. Yamamoto.
Amon pigarreou.
- Minha senhorita, está diante da princesa herdeira do reino de Kalaedium. – Me xinguei e meu rosto esquentou.
- Peço desculpas, vossa alteza. – Murmurei envergonhada e fiz uma reverência profunda, Mei sorriu e fez um gesto despreocupado sem dar a devida importância a gafe, ela devia estar acostumada com isso
- Esse é, Amondiel Doyle. – Apontei para Amon e a gata preta recebeu um olhar permissivo de sua mestre.
-Sou Lana Kelly, é uma honra vossa alteza. – A gata tinha uma voz sedosa, assenti diante do tom respeitoso que ela dirigiu a Amon.
A garota arrogante se aproximou e me olhou de cima a baixo.
– É melhor não cruzar meu caminho, herdeira das cinzas. – Disse e se afastou com uma graciosidade que contrastava e muito, com a sua agressividade de boas-vindas. Amon rosnou e mostrou os dentes para a leoa, que apenas nos encarou e depois seguiu sua mestra para seu dossel.
-Bem-vinda, a Malefici. – Mei suspirou e me deu um olhar amistoso, murmurei um agradecimento e fui desfazer as malas afoita para ir ao banheiro pois sentia que estava molhada e dolorida, em partes que gostaria de ignorar.
(...)
Era óbvio agora que estávamos em uma das torres do castelo.
Já vestida com meu pijama, me sentei com cuidado na cama, estava dolorida e ainda sangrava tive de usar retalhos de tecido, já que era impossível encontrar absorventes aqui, peguei um livro de uma das aulas do dia seguinte, encarei o reflexo da lua no imenso lago rodeado por montanhas, era lindo e misterioso a luz do luar.
Me senti bem naquele lugar, apesar da truculência com aquela garota presunçosa, sim, eu poderia ser feliz aqui, abri o livro “História De Everness, uma visão de um todo.”
Duas horas depois estava exausta e em pânico, o livro relatava de forma resumida os principais acontecimentos do mundo mágico, desde o surgimento das Maenads, a formação do território de Everness e os principais acontecimentos, conflitos com feiticeiros das trevas, Homines, disputas por territórios e daí em diante.
E através da minha leitura dinâmica contabilizei ao menos mil anos de fatos históricos, mas o que me deixou realmente aflita foi tentar imaginar a idade daqueles ao meu redor... minha cabeça começou a latejar e meus olhos arderam, eu me sentia jogada dentro de um rio indomável de informações que tinha um fluxo muito grande e intenso para ser navegado e eu não tinha nada para usar como barco ou boia.
-Melhor descansar, sua primeira aula amanhã é sobre história da magia. – Amon lembrou, ele farejou o ar e me olhou preocupado, gemi contrariada, ele se espantou.
-O que é isso? Ainda está machucada? – Perguntou de orelhas em pé.
-Frustração, minha menstruação chegou.
Respondi ao fechar o livro, não diria a ele que estava machucada, a menstruação me pouparia de explicações.
Não queria ser um peso, ele iria se culpar, a conversa no porto deixou claro que isso ainda estava fresco em sua mente e não queria falar sobre isso.
Deixei meu uniforme preparado em cima da mala, me deitei e chamei Amon para cima, ele hesitou, mas em seguida pulou na cama e se acomodou perto de meus pés, iria desejar boa noite, mas adormeci imediatamente.
Talvez fosse o nervosismo, ou o trauma do que aconteceu, ou talvez o desconforto da cólica, porque tive um sonho estranho, ele era mais nítido que qualquer outro que tenha tido.
Estava em um lugar escuro, sentia o cheiro do mar e conversava com alguém, mas não saia som algum dos meus lábios, tampouco eu ouvira qualquer outro som dos lábios do meu companheiro, um homem na escuridão, ele me perguntava onde eu estava, não o vi mover os lábios, mas escutava sua voz em minha cabeça, palavras ronronadas na escuridão, significavam uma exigência, mas estavam cheias de melancolia... tentei me afastar, mas algo me mantinha presa a ele.
Ergui os punhos, e uma corrente tão grossa quanto meus braços nos mantinham unidos, uma corrente dourada, mas quando a puxei os olhos do homem se abriram, e um outro par acima dele me encarou, dois pares de olhos dourados, olhos tão dourados que pareciam ouro derretido, a criatura com uma sombra imensa se aproximou bufando, um clarão amarelo e acordei trémula e suando frio, me sentei na cama e Amondiel estava me encarando.
- Durma, Amon. – Disse ao me deitar novamente, mudei de posição e voltei a dormir imediatamente.
(...)
Quando o dia raiou, não me lembrei sobre o que havia sonhado.
Fui rápida em meus afazeres, embora tenha sentido falta do som do alarme, o sol na minha janela se encarregou de me acordar. Encarava desanimada meu reflexo pálido diante do espelho de corpo inteiro do quarto, desviei o olhar, sempre odiei minha aparência.
Apenas uma criatura como eu conseguiria anular a beleza de possuir olhos azuis, eles às vezes eram tão claros como de um Husky Siberiano, em outras, ficavam nebulosos e escuros, como se houvesse uma penumbra sobre eles. Suspirei desanimada.
Peguei a folha com meu horário de aula, os livros necessários, mas fiquei desconfortável e parei assim que cheguei à porta, odiava saias, nunca as usava, pois sempre pensava que poderia cair e ficar de traseiro para o ar, ou poderiam me tocar facilmente...saias, sempre atraem olhares indesejados.
Sem me cumprimentar, a garota de cabelos cacheados passou por mim com a saia cor de chumbo balançando, ela tinha um cheiro suave e picante de canela, a fragrância dela era agradável. Não me dei conta que conseguia sentir odores dessa forma, franzi o cenho.
Ela saiu do quarto de nariz empinado com seu caelendus em seu encalço.
- Qual o problema? – Amon questionou.
- Hm?
– A Senhorita está agindo como se tivesse urtiga nas anáguas.
O Encarei.
Pisquei.
Pisquei de novo, meu corpo tremeu no esforço de conter o riso, mas falhei.
Gargalhei alto, nunca havia gargalhado daquela forma, o desconforto com a roupa fora completamente esquecido, até mesmo a cólica, aquela gargalhada levou tudo embora. Amondiel me encarou sério.
– Mas que diabos, Amon! Não me diga que as mulheres daqui ainda usam anáguas?!
Ele ficou constrangido, sorri e ele sorriu de volta, era a primeira vez que sorria para ele, desde aquele dia no lago. Mas hoje, o motivo era genuinamente divertimento, seu sorriso não esmoreceu mesmo quando ele respondeu.
– Até onde sei, sim. – Ele olhou ao redor, provavelmente em busca de ajuda. – Não respondeu à pergunta. – Enfatizou me lembrando.
– Não gosto de saias.
Ele me encarou sem entender, era uma vestimenta que me deixava vulnerável, não gostava de me sentir assim, tudo havia piorado depois de callanish, e ignorei o tremor que sacudiu meu corpo, afastei a maldita lembrança e Amon me olhou como se compreendesse, não havia pena em seu olhar, apenas cumplicidade, parceria e aquilo aqueceu minha alma.
Mei surgiu repentinamente ao meu lado.
– Use isso, vossa alteza.
Ela me estendeu o que parecia ser uma anágua, mas não completamente, pois o design escondia o contorno de um short, era uma saia-short de seda. Eu queria abraçá-la, mas não o fiz.
– Eu também... não gosto de saias. -Esclareceu quando a encarei, e sorriu timidamente.
-Não posso aceitar, e quanto a você?
Questionei olhando para a sua saia, ela me empurrou a anágua.
– Tenho muitas, minhas criadas fazem para mim. Aceite, por favor.
Disse determinada e se virou para sair depois de uma curta reverência.
- Vossa alteza! -A chamei antes que ela fechasse a porta, e ela espiou para dentro.
– Obrigada. Sou Keira O’Donnell.
Ofereci meu nome, ela piscou atordoada e sorriu.
-É uma honra. – Ela se curvou novamente.
– Me chame de Keira, e pare de se curvar.
Resmunguei e escutei um risinho de Amon, um risinho mesmo. Mei sorriu também.
– Apenas se usar meu nome também, apenas Mei. – Assenti concordando e ela saiu.
- Foi um bom começo, ela é nobre e honesta, e ainda é de um reino importante, será bom ter uma amiga assim.
Amon disse enquanto eu vestia a anágua, depois de me olhar no espelho e ver que tudo estava em ordem, saímos.
— Conte-me depois sobre cada herdeiro de Everness. Sua aula é em outro lugar?
Questionei aflita, não queria me separar dele.
Caminhava efusivamente dentro do labirinto de corredores e escadarias, havia contado cem até o momento. Como iria sobreviver nesse lugar? Ir a aula sem se perder já era um desafio hercúleo!
— Sim, nos vemos mais tarde. – Amon disse melancolicamente, e nos separamos em uma bifurcação de corredores.
Como a cabana de Amon, tudo em Malefici era encantado, havia portas que não pareciam portas, paredes que eram portas e escadas que apareciam e desapareciam de acordo com os horários e dias da semana, era o primeiro dia e já estava com dor de cabeça, apenas com a tentativa de encontrar a maldita sala de aula, como seria meu desempenho acadêmico aqui?
Eu não sabia, mas suspeitava que seria a coisa mais medíocre do universo.
Ao passar pelos corredores trombei com algumas garotas, e adentrei a sala da professora Harris, já estava suada diante do esforço de encontrar a sala, congelei na porta enquanto varria o cômodo a procura de um lugar.
Maenads ao que parecia, não ficavam constrangidas em apontar e encarar alguém, e a atração de circo do dia era eu.
Conseguia escutar os murmúrios, conforme caminhava pela sala, havia diversas mesas com bancos, cada mesa acomodava três pessoas, a maioria estava cheia e apenas um lugar estava vazio, o lugar ao lado de Mei.
Esperei que nossos olhos se encontrassem e que ela me desse qualquer sinal permissivo e quando ela sorriu, meu peito voltou a expandir, nem me dei conta que estava prendendo a respiração, caminhei ignorando os comentários a respeito da cor do meu cabelo, dos meus olhos... Gostaria que elas parassem de olhar para mim, me esforcei para mostrar uma expressão amigável para Mei.
- Posso me sentar aqui?
Ela balançou a cabeça concordando, mas franziu as sobrancelhas, não tive tempo de perguntar o motivo, a professora entrou na sala e me sentei, mas meu estômago se contraiu quando vi a garota m*l-humorada do dormitório se aproximar pelo lado oposto e se sentar à esquerda de Mei. Divino senhor.
Não acredito que essa sebosa está na mesma mesa.
Mei me deu um sorriso de desculpas e a tranquilizei com um esgar de sorriso amarelo.
-Bom dia, alunas.
A professora alta e loira com um coque apertado saudou, rezei, orei e supliquei para qualquer divindade daquele mundo, clamei com fervura para o tal fogo sagrado, para que não tivesse que me apresentar, sempre odiava esse tipo de dinâmica, onde tinha que falar de onde veio, quem era e quais os planos para o futuro, isso se tornara corriqueiro depois que entrei para o ensino médio, e como se ouvisse meus pensamentos a professora direcionou os penetrantes olhos castanhos-mel para mim.
- Temos um rosto novo. Querida, que tal se apresentar à turma?
Sugeriu com um sorriso dócil, eu queria morrer.
Como deveria me apresentar? Dizer onde nasci? Meu nome completo ou apenas o primeiro? Mei me cutucou e disse baixinho ao notar minha hesitação.
– Diga apenas o primeiro e último nome.
A encarei aliviada e me levantei observando apenas a professora e ignorando o resto da turma que me encaravam como abutres.
-Sou, Keira O’Donnell.
Disse um pouco alto demais, uma série de ooohs e aaahs foram ouvidos, a mulher sabiamente silenciou os outros quando notou meu constrangimento e em seguida o silêncio tomou conta da sala, mas ela sorriu.
– Seja Bem-vinda Srta. O’Donnell, sou Agatha Harris. Estamos no capítulo três do livro de história da magia, está familiarizada com o material?
Demônios, ela queria me pegar de surpresa e fazer perguntas?
– Ontem dei uma olhada rápida no livro.
Respondi relutante, ela me mostrou um sorriso afiado.
– Chegou à parte que menciona do tratado com os Homines? – Questionou de forma arrogante. Soube naquele momento que ela não era tão amigável quanto aparentava.
- Sim senhora. - Respondi cautelosamente, todos estavam olhando para nós.
– Pode citar os impactos desse tratado nos feiticeiros e Maenads, Srta.?
Ela tentou parecer casual, mas vi o brilho malicioso em seus olhos.
Ela sabe de onde vim e quer me pegar desprevenida, m*l sabia ela que me dediquei e havia lido cinco capítulos de cada livro que usaria nas aulas de hoje.
-Claramente, isso impactou no desenvolvimento da magia dos feiticeiros e Maenads, o que acarretou no atraso da aparição de seus dons e assim postergou-se o ingresso na escola, pois a maioria agora tem os dons despertados na adolescência.
Respondi o mais serenamente possível, tentando não deixar transparecer o meu nervosismo, os lábios finos da professora se contraíram em uma linha rígida.
– Algo mais? – Questionou impassível.
-Bem, devido a restrição de magia, foi necessário interromper a fabricação de varinhas e vassouras, pois a reposição de madeira não poderia ser tão rápida, pois não havia uma boa quantidade de Maenads versadas em magia. Os estudiosos descobriram então que os caelendus eram mais do que companheiros e agiam como condutores, foi um estímulo para descobrir outros meios de transporte, como a habilidade de Transirar.
Disse orgulhosamente, mas a professora me mostrou uma expressão de desgosto e fiquei tensa.
-Esqueceu de mencionar o número absurdo de feiticeiros dizimados, dentre eles, muitos que estavam destinados a ser poderosos.
Ela me encarou friamente, engoli em seco ao lembrar da história que Sir Arnold contou.
– Se tivesse nascido naquela época, seria uma das que morreria ao nascer, já que também nasceu no Samhain. – A turma ofegou surpresa, ignorei o arrepio que desceu pela minha coluna.
– Sente-se srta. O’Donnell, abram o livro na página 235.
Me sentei constrangida, e abri o livro sem ter coragem de olhar para o lado, me perguntava quantos sabiam que eu vivia no mundo dos Homines, e será que também desprezavam os Homines como a professora Harris?
– Você se saiu bem. – Mei sussurrou ao meu lado, li superficialmente o conteúdo da página.
– Então por que parece que fui atropelada por um trem?
Questionei aborrecida, mas sem esperar uma resposta. Mei não respondeu e nos concentramos na aula.
(...)
Magia não era uma coisa fácil de aprender, foi que concluí ao caminhar pelos corredores ao final da quinta aula do dia.
Tínhamos uma série de matérias com os mais variados conteúdos, Astronomia, que se resumia a aprender sobre solstícios, conhecer as estrelas e o alinhamento dos planetas, isso incluiu uma matéria extra para mim, pois as Maenads se orientavam através do calendário celta, em Everness, o tempo era algo cíclico.
Os Imortais morrem, “em algum momento”, as estações mudam, mas tudo retorna, de uma forma ou de outra.
Era um pensamento estranho e contraditório, mas a magia era complicada, Vitologia, era a arte de estudar tudo aquilo que tem vida, desde plantas, animais e todo o resto que vivia no mundo mágico, era ministrada por um senhor ranzinza chamado, professor Evans.
Mas ninguém superou a professora Harris, pois a mais chata era a aula de História da magia, não pelo conteúdo, mas porque ela passou a aula inteira me alfinetando e fazendo perguntas bem elaboradas, com certeza com a intenção de me envergonhar, odiava professores mesquinhos.
Estreitei os olhos quando vi a animação das fêmeas no caminho para o dormitório, teríamos que trocar o uniforme para participar da última aula do dia, a aula de autodefesa e combate mágico. A maioria dos alunos odiava aulas de educação física, mas aqui, elas estavam todas alvoroçadas subindo as escadas de dois em dois degraus.
– Por que tanta animação?
Perguntei curiosa para a Mei quando entramos no quarto para trocarmos o uniforme.
-Essa é uma das aulas que faremos com os aspirantes a Cavaleiros Imperiais, geralmente, Maenads e cavaleiros lutam juntos, então, as habilidades de ambos têm de estar sincronizadas e bem desenvolvidas.
Meu sangue gelou e comecei a me trocar sem me importar com a presença de Mei, alguém teria que me tocar, se a aula fosse mesmo sobre combate direto, teria de lutar com alguém... um homem.
- Habilidades? – Questionei casualmente. – Pensei que iriam nos ensinar a combater magia contra magia. Temos que aprender combate corpo a corpo também? Teremos que usar armas?
Me exaltei tentando fechar o maldito zíper do agasalho de malha, mas ele emperrou e quando o forcei, arrebentou contra meus s***s volumosos e praguejei, Mei lançou um feitiço, percebi por que o ar mudou, pisquei ao ver que meu zíper havia sido reparado.
–Obrigada. – Agradeci mortificada.
- Não há de quê, qual o problema? Não gosta de armas? – Perguntou ao finalizar uma trança bem elaborada ao redor da cabeça, ela a deixou de lado caindo por cima do ombro.
– Não é que não goste, atividades físicas realizadas em grupo, não são o meu forte. – Disse tentando despistá-la, ela sorriu divertida.
– Duvido muito. Não há nada que se prontifique a fazer que vá dar errado, se não é boa ainda, basta treinar para melhorar seu corpo, praticar para afiar as habilidades com armas e estudar para adquirir conhecimento. – Disse casualmente e eu quis estapeá-la.
– Nossa, quando fala assim parece fácil. – Disse zombeteira.
O que será que Amondiel está aprendendo na aula dele? Prendi meu cabelo no alto da cabeça e Mei olhou com reprovação.
-Não use coques nessa aula, eles se desfazem facilmente e seu cabelo pode atrapalhar. Me permite?
Perguntou ao se aproximar e assenti.
Fiquei tensa quando ela começou a trançar algumas partes do meu cabelo, e com destreza fez uma coroa de tranças e firmou com um grampo, se usasse um penteado desses naquela noite... será que isso teria me poupado? Afastei os pensamentos e voltei a encarar o espelho quando ela terminou.
– Sempre que precisar de ajuda com o cabelo me chame, eles já caçoam demais das fêmeas, e temos que nos orgulhar do nosso cabelo e não ter vergonha.
Ela disse determinada, me perguntei se já haviam feito algo a ela, podia sentir meu couro cabeludo formigando quando aquele homem puxou meu cabelo e me jogou ao chão, estremeci e afastei novamente a lembrança ao perguntar quando ela fechou a porta atrás de nós.
– Já fizeram algo assim? – Perguntei, desconfortável com o silêncio enquanto nos encaminhávamos para o campo de treinamento.
- Já fizeram todo tipo de coisa, sei que em outros mundos as fêmeas são menosprezadas por serem fracas, mas em Everness, somos menosprezadas por sermos mais fortes. Então, tentam nos diminuir de todas as formas possíveis e aqui em Malefici, a discriminação chega a níveis alarmantes.
Pensei por um momento no que ela havia me dito, quando alcançamos o gramado perguntei.
– Por que somos mais fortes?
Ela se dirigiu para um lugar onde tinha algumas armas perfeitamente organizadas em um cavalete de madeira.
– Somos capazes de gerar, carregar e trazer ao mundo uma nova vida. Isso é um dom sagrado, a quantidade de magia em uma fêmea, é muito superior à encontrada em um macho, por isso eles são cavaleiros, paladinos e usam demais habilidades para completar seu arsenal, eles não podem apenas confiar em magia.
Ela pegou o que reconheci ser uma Katana, e colocou a frente do rosto, testando o equilíbrio.
– Então, eles ficam putinhos quando nós, gananciosas e arrogantes fêmeas, invadimos o território deles e chutamos suas bundas mimadas.
Ela apontou para um local mais afastado do campo, onde a garota do nosso dormitório estava derrubando com brutalidade um macho com o dobro do tamanho dela, fiquei boquiaberta, ela era apenas alguns centímetros mais alta que eu.
– Quem é aquela garota?
-Ela...
Mei estreitou os olhos ao fitar um macho alto e forte, possuía cabelos castanhos um pouco abaixo dos ombros, estavam presos em um r**o de cavalo baixo, pele acastanhada e lustrosa, ele caminhava determinado em direção a garota, mas não consegui ver seu rosto.
– É a irmã dele, são os gêmeos Akello. O Príncipe e a princesa de Solarian.
Estalei a língua, isso era ainda pior que minha escola, parece que estava destinada a conviver com nobres mimados.
– Isso explica a arrogância. – Murmurei distraidamente observando o príncipe repreender a irmã.
– Eles têm motivo para serem arrogantes, o reino deles é o mais rico de Everness.
Me senti m*l ao lembrar que não tinha nem um reino para herdar, ele havia sido massacrado e reduzido a cinzas. Herdeira das Cinzas, era como a garota Akello havia me chamado.
-Deveriam ser gratos, mas perdoo a arrogância deles.
Ela sorriu e nos aproximamos do grupo, agora misturados com alguns aprendizes de cavaleiros e maenads. Me esforcei para não fazer careta quando vi aquele grupo de homens majestosos.
Homens não, machos.
Machos espetaculares em toda a virilidade da palavra, não garotos, caras ou homens.
Eles eram altos e fortes, vestiam couro e linho, não pareciam adolescentes, não via sinais de puberdade em nenhum deles, eram todos assombrosamente bem desenvolvidos e lindos, os feiticeiros deveriam ser descendentes de Apolo, era a única explicação.
-Já chega, srta. Akello.
O príncipe disse ao erguer a irmã com facilidade e tirá-la de cima do oponente, todas as alunas suspiravam diante da beleza daquele macho, um príncipe acobreado, foi o que pensei assim que o encarei.
A semelhança entre eles era assombrosa, pareciam gêmeos idênticos, era raro gêmeos fraternos serem tão parecidos, ambos possuíam um brilho selvagem nos olhos e cabelos do mesmo tom de castanho-chocolate.
-Quero que se juntem à sua dupla.
Proferiu olhando em volta, seus límpidos olhos verdes se cravaram em mim.
- Como temos uma novata, irei deixá-la com você... Sr. Trabelsi.
Procurei na multidão para ver de quem se tratava, o tal “senhor” se virou para mim, um macho imponente e forte, de longos cabelos avermelhados, que me encarava com raiva.