Capítulo 6

5000 Words
Keira Encarava ameaçadoramente aquele par de olhos castanho-avermelhados, eram quase cor de ferrugem, nenhum de nós cedeu. -Precisamos iniciar a aula. O príncipe disse rispidamente. Todos se moveram para perto de sua dupla, Mei me lançou um olhar encorajador e estremeci quando todas, literalmente, todas as garotas se armaram com espadas pesadas demais para segurar, apenas Mei segurava habilmente uma Katana e sua postura era a mais natural de todas. -Srta. O’Donnell, não conheço suas habilidades terei de começar com o básico, alongamento, fortalecimento e todo o resto. O olhei com raiva, não iria fazer a merda de exercícios de alongamento e respiração e o c*****o a quatro na frente de tantos olhos, era boa em artes maciais, meu corpo era forte o suficiente, mas tinha certeza de que minhas habilidades pareceriam ridículas diante de guerreiros imortais. -Não. Disse simplesmente, todos me olharam. –Não? Questionou com o olhar salpicado de ódio incandescente. – Sabe que sou o instrutor, e deve me obedecer se realmente quer aprender algo? - E você? - Não parecia correto chamá-lo de senhor. Sustentei seu olhar devolvendo o ódio na mesma proporção. - Está ciente que a maioria não está apta a usar uma espada? – Rebati. – Se quer realmente nos ensinar, comece explorando o ponto forte de cada uma, nem todas terão vocação para brandir uma espada pesada como esta, sinceramente, com exceção de Mei, nenhuma outra parece habilidosa o suficiente para usar qualquer lâmina, então, não acho que seus alongamentos e fortalecimentos farão diferença. Ele se empertigou, não mencionei a irmã de propósito, deduzi que ela também deveria ser habilidosa, mas não daria o gostinho a ela, e pela sua expressão de indignação, percebi que estava certa. – Pois bem, e no que é boa? Perguntou com a voz carregada de sarcasmo, conseguia ouvir os insultos silenciosos, arrogante, insignificante, inútil... mas o encarei com petulância ao responder. – Judô. – Ele franziu o cenho e esclareci. – É um tipo de arte marcial. Revelei despreocupadamente, eu era faixa preta. Na infância havia usado o judô como uma válvula de escape para o ódio e a raiva, foi tão eficiente quanto o desenho e a leitura. -Que seja, se é um combate, vamos ver como se sai lutando contra a melhor guerreira... Aina! Burra, garota ingênua e burra. Ele abriu um sorriso vitorioso, como se eu tivesse dado exatamente o que ele queria, mas foi ao olhar no rosto de sua irmã que me surpreendi, julguei que ela ficaria feliz ao ter a oportunidade de me surrar, ironicamente, ela não parecia nada feliz. Merda. f**a-se. -Comecem. Ordenou enquanto os demais formavam um círculo ao nosso redor, todos sorriam empolgados, exceto Mei que nos observava apreensiva. – Satisfeita? Ela perguntou andando em círculos, estava estudando meus movimentos, buscando uma a******a, ergui os braços fechando a minha guarda enquanto a estudava, Aina tinha uma postura boa, boa demais para ser negligenciada e algo em seu rosto inexpressivo me fez acreditar que uma luta não era território estranho a ela. -Apenas disse a verdade. Me movimentei em sentido horário esperando-a avançar, ela o fez e desviei por um fio, o movimento me lembrou o de um felino tentando agarrar algo, o expandir e retrair de garras, gracioso e letal. Ágil como um gato, mas Aina não era um gato, ela era a p***a de uma leoa. Ela saltou em cima de mim agarrando meu tronco, caímos no gramado e girei, fiquei por cima dela e com um golpe habilidoso mantive a posição e milagrosamente encaixei uma chave de braço enquanto montava em suas costas, ela se contorceu como um gato levado a força para o banho, mas não soltei, não era uma questão de força, apenas de habilidade ao encaixar o golpe. - Acha que se manter indiferente ajudará elas a aprender algo? Ela continuou se debatendo e ignorei todos que batiam palmas e gritavam para Aina revidar. Todos torciam por ela, não por mim. – É mesquinha o suficiente para sentir-se superior diante dos mais fracos? Questionei com desprezo ao lembrar do quanto havia apanhado nas primeiras aulas de Judô, sem ter pais para contestar, apenas havia me acostumado a chegar com hematomas e contusões em casa. Ela bateu freneticamente em meus braços, Aina estava quase perdendo a consciência e a soltei, me levantei rapidamente esperando o próximo golpe. Ele não veio. -É nisso que é boa, em montar os outros? Captei imediatamente a ofensa, o encarei, meus olhos ficaram úmidos e tive a certeza de que a intensão era essa quando o príncipe sorriu maliciosamente. -Ela tem de se agarrar a algo... – Aina disse me encarando. -Já que não tem mais nada a oferecer. Ignorei o latejar insistente daquele poder adormecido em minhas veias, banhando meus ossos em ira, quente e escura, mesclando com ódio frio e mortal, todos me encaravam assombrados, me perguntava se conseguiam sentir meu desejo de deixar aquele poder tomar o controle apenas para ver o estrago. -Venha. Pisquei afastando aquele sentimento, alguém segurou meu pulso, tentei revidar, mas o aperto se intensificou e me virei para encarar meu captor. Era ele, o macho que havia me olhado com raiva, seu olhar era complacente e me perguntei o que ele viu em meu rosto para interferir, mas ele sorriu e me puxou, e eu fui. – Comandante, irei treinar com minha dupla. Informou ao olhar por cima do ombro sorrindo maliciosamente, me deixei ser conduzida para longe dos olhares julgadores. – Tem meu respeito, bonitinha. Disse ainda sorrindo e me conduzindo pelo gramado segurando minha mão. – Ninguém nunca ousou enfrentar os gêmeos Akello. De onde saiu essa coragem? - Cansei de me encolher e esperar pelo golpe. Murmurei, levantei a cabeça temerosa ao notar que iríamos entrar na floresta, ele só voltou a me olhar quando chegamos a uma clareira protegida pelas árvores. Estávamos afastados o suficiente para que ninguém nos visse e ouvisse, e não pude deixar de ficar aliviada, não queria que ninguém soubesse o quão patética era, já bastava não ser boa em usar magia. –Quer preparar seu corpo para brandir uma espada? Encarei o projeto de cavaleiro e assenti um pouco, uma concordância quase inexistente. Ele começou a fazer uma série de movimentos e pediu que eu repetisse, acredito que para analisar minha postura. E quando errava alguma coisa, me encolhia antecipando o fato de que ele iria me tocar, mas ele não o fazia, apenas apontava meus erros. Fiz agachamentos, flexões, e toda a série de coisas estúpidas que fazia durante meus treinos na escola, quando ele enfim decidiu que eu não era tão inútil, me ensinou a trabalhar minha respiração, para utilizar cada grão de força em meu corpo, cada músculo e cada movimento de forma eficiente. Uma hora depois, estava acabada, deitada no gramado, ofegante e asquerosamente suada, começei a encarar a copa de um salgueiro imenso. – Até que não é tão imprestável, bonitinha. Grunhi irritada. - Tenho nome. -Mesmo? E qual é? Chiei ao virar o rosto, ele foi legal comigo, deveria retribuir a gentileza? – Deixe-me mostrar como funciona... Sou Liam. -Disse fazendo uma mesura exagerada. – E a senhorita é...? O ignorei. – É agora que se apresenta. Ciciou baixinho, os olhos dançando em divertimento. Praguejei e o escutei estalar a língua quando não respondi. –Keira. – Disse ofegante. - Meu nome, é Kira. Ele me mostrou um sorriso travesso ao oferecer a mão. -É um prazer, Keira. Seremos uma dupla e tanto. (...) Uma coisa que se aprende quando se é a indesejada, é lidar com desprezo. O desprezo, aprendera desde cedo, era a arma mais poderosa quando se está em frente a um bastardo ou um órfão e preferia a hostilidade sincera dos gêmeos, ao desprezo enrustido dos outros. Quando o treinamento acabou e nos juntamos aos outros, recebi olhares reprovadores. Raiva injustificada, era sempre isso, parecia que em qualquer lugar que fosse teria a sombra de alguém me odiando, será que era o carma? Devo ter feito algo r**m na vida passada. Foda-se, não me importava, não ficaria quieta, não mais. Mei se aproximou, e quando me virei para ir com ela, a voz cheia de malícia de Liam me deteve. – Treinaremos todos os dias, naquele mesmo lugar. O encarei por cima do ombro, ele sorriu e piscou o olho, depois nos deu as costas. – Isso foi promissor – Mei comentou sorrindo. -Ele quer me matar, só não sei se é de raiva ou de tanto fazer agachamentos. Ela riu e fomos em direção ao banheiro. (...) A água quente caiu como um porrete em cima do meu corpo dolorido, fazia mais de um mês que não praticava nenhuma atividade física, mas não achei que meus músculos ficariam tão rígidos. Férias, essa era a parte r**m de viajar, mas algo me dizia que o treinamento rigoroso de Liam me deixaria em forma novamente e muito em breve, e havia a questão dos machucados... foi tudo tão rápido em Callanish, não achei que pudesse ser tão incomodo, passei a mão na coxa e estremeci, havia um hematoma feio ali. Já não era para ter me curado? Será que até mesmo meu sangue mágico era defeituoso? Quando terminei, saí a passos lentos do box arcaico de madeira, cada movimento provocava fisgadas de dor, meus músculos gritavam, me enrolei na toalha, mas quando me preparei para sair do banheiro, dei de cara com Aina. -Feliz? – Perguntou e chiei irritada. – Apenas por uma chave de braço? – Inclinei a cabeça a estudando, ela também estava de toalha e muito mais ameaçadora que eu. – Você não é tudo isso. Zombei, estava completamente rígida e dolorida, como se tivesse ido a uma academia pela primeira vez na vida e precisasse de uma cama. -É arrogante, para uma órfã sem teto. -Passei por ela e a ignorei, ela estalou a língua. – Me pergunto onde uma bastarda como você, aprendeu a lutar. Parei. Bastarda? Ignore Keira, é só ignorar, mas ela não parou por aí. – Seus pais devem estar se revirando no túmulo por terem uma cria como você, isto é, se é que fizeram túmulos para eles. O rugido foi grutural, em um momento estava em pé respirando rápido, no outro estava em cima de Aina. As garras negras agora á mostra, prestes a rasgar seu pescoço, fogo e escuridão rugindo dentro de mim, mas ela colocou os braços a frente e os rasguei, ela se esquivou e me jogou para o longe com um impulso poderoso, bati as costas na parede e a pancada me deixou sem fôlego, em seguida ela estava em cima de mim, socando, com força, com punhos de ferro. O sangue inundou minha boca e rosnei irritada, só precisava acertá-la uma vez. A afastei quando ela acertou um soco em meu estômago, me curvei, escuridão e chamas negras explodiram no banheiro quando me levantei despida da toalha, Aina empalideceu. Mãos fortes me seguraram e sibilei irritada quando fui imobilizada e jogada contra a parede fria de mármore. – O que está acontecendo?! Mei gritou irritada, fiquei em silêncio respirando rápido contra a parede, sentindo a magia fervilhando em mim, o banheiro estava embaçado e me esforçei para empurrar o poder para baixo. Aina virou o rosto branco á procura da toalha, em silêncio. – Não devemos brigar, será que não entendem que isso nos deixa vulneráveis? Vistam-se! Me abaixei irritada e enrolei a toalha ao redor do corpo. -Chamaram a sra. Walsh, é bom inventarem uma boa desculpa para não serem expulsas. Saí do banheiro irritada, Mei saiu atrás de mim. Nos vestimos ainda sem olhar uma para a outra, minutos depois a Sra. Walsh invadiu o quarto e nos encarou irritada. – O que houve? Perguntou olhando para nós duas, apertei os lábios, Aina virou o rosto e Mei ficou tão impassivel quanto uma estátua, a expressão congelada no rosto pequeno e delicado. Silêncio. Essa era a regra não-verbal das brigas na escola, “Se forem pegos, não falem nada.” -Muito bem, se é assim que vai ser, irei levá-las para a diretora. Ela sorriu perversamente e indicou a porta. -Me acompanhem. Me esgueirei pela porta fechando o moletom. – As três! Congelei no lugar e fiquei tensa ao ver a Sra. Walsh lançando um olhar acusatório a Mei, ela saiu seguida por Aina, em seguida a fêmea carrancuda tomou a dianteira e a seguimos escadaria abaixo. A caminhada foi rápida, mais rápida do que fora na minha primeira noite aqui, e suspeitei que a sra. Walsh usou caminhos que eram desconhecidos para os demais, passagens secretas, no entanto, estava nervosa demais para prestar atenção no caminho, nossa entrada foi permitida e a imensa porta de carvalho se abriu, nos revelando a sala suntuosa da diretora. -Como arranjaram os olhos roxos? A diretora questionou ainda de costas para nós enquanto arrastava o dedo em cima de alguns livros empoeirados na estante, me perguntei se ela tinha olhos atrás da cabeça. Não respondi, nem mesmo quando ela se virou para nos olhar, os olhos escuros brilhando em sagacidade, minhas companheiras de crime permaneceram em silêncio também, olhando para a frente, braços para trás, e sem encarar diretamente a diretora. Adotei a mesma postura. -Muito bem... terei de notificar os pais de vocês. Disse friamente estudando nossos semblantes, pelo canto do olho vi Aina tremer e cerrar os punhos atrás das costas, encarei seu rosto e ele estava pálido e doentio, assombrosamente pálido e esverdeado, como se ela estivesse prestes a vomitar. Meu estômago afundou, e me vi naquela mesma situação, anos atrás quando acontecia algo na escola e chamavam minha tia, os resultados variavam, desde ficar a pão e água durante alguns dias ou ficar trancada na escuridão do porão, ou os dois. Mas algo me dizia que Aina não receberia esse tipo de punição e sem pensar nas consequências, eu agi. – Eu caí. – Disse tranquilamente. Todas se viraram para me observar boquiabertas, a Sra. Walsh chilreou irritada, e Aina arregalou os olhos verdes me encarando. – Caiu? – A diretora questionou incrédula. – Caí na escada. – Esclareci encarando seus olhos escuros e inteligentes, e ela os estreitou me analisando. – Uma queda na escada a deixou de olho roxo e com hematomas e arranhões nos braços? – Perguntou impassivel. -Foram muitos lances de escadas. – Enfatizei indiferente, e pude jurar que vi um brilho de divertimento em seus olhos. – E quanto a srta. Akello, o que houve com ela? - Ela caiu também, ao tentar me ajudar. Acabei a arranhando sem querer ao tentar me segurar. – Dei de ombros inocentemente. – Desculpe, Srta. Akello. Proferi ao encará-la, toda aquela situação era uma mentira tão descarada, o queixo de Mei caiu aberto, mas ela se recompôs rapidamente. -Srta. Yamamoto. – A diretora chamou ainda me encarando. -Sim? – Mei respondeu de prontidão. – Tem algo a me dizer? – Lancei um longo e suplicante olhar a Mei, ela se virou e olhou diretamente nos olhos da diretora. – Não senhora, quando escutei o barulho saí do quarto e encontrei as duas logo abaixo da segunda escadaria, eu as ajudei a ir para o quarto. Talvez o barulho da queda tenha assustado as outras. -Muito bem, se é assim. – Suspirei aliviada e mortificada, não acredito que isso funcionou. Mas a diretora se virou ao ouvir chiados de protestos. -Diretora, essas pequenas encrenqueiras estão mentindo! A sra. Walsh acusou, a diretora lançou um olhar de aviso e ela se encolheu. – Irei castigá-las por andarem pelos corredores a essa hora, isso é contra as regras da escola. – Engoli um palavrão. – As três, irão cumprir detenção por um mês. Um exercício servirá, já que estão com as pernas fracas, acredito que duas horas com um subordinado de Sir Arnold serão suficientes. - Mas diretora... – Mei protestou e a Sra. Alekseeva se virou com uma expressão irritada que a calou. – É só isso, estão dispensadas. Conduza-as ao dormitório Sra. Walsh. Me empertiguei quando a inspetora me atirou um olhar suspeito. -Exceto, a srta. O’Donnell. Arregalei os olhos, minhas companheiras também ficaram surpresas, mas foram convidadas a sair pela mão encarquilhada da Sra. Walsh, me surpreendi ao ver que Aina continuava plantada a minha esquerda, me encarando. - Desculpe, se irá puni-la, deve estender a ação a mim também, não irei deixá-la. Um tremor sacudiu meu corpo e me virei para encará-la, Aina tinha o queixo erguido com ousadia, os braços cruzados a frente o corpo, sem demonstrar nenhum sinal de fraqueza, uma guerreira... era a postura de uma guerreira. Um rubor se espalhou em meu rosto, ela decidiu ficar, para ser punida também, mesmo ela, que me odiara desde o primeiro instante, ela não ia me abandonar. Meu peito se aqueceu com aquilo e me esforçei para me manter impassivel. -Seu senso de lealdade, é admirável. – A diretora nos encarou, um brilho de orgulho iluminando seus olhos. – Não se preocupe, não se trata disso e já puni as três. É um assunto particular. Ela me olhou com mais atenção, como se quisesse me convencer do mesmo e assenti para Aina, ela continuou me encarando sem demonstrar nada, mas Mei a puxou e ela ficou nos observando até que a porta se fechou em suas costas e fiquei observando tudo em silêncio, as palavras de Sir Arnold ecoando em minha cabeça “Não julgue tão apressadamente. As coisas nem sempre são o que parecem.” Isso era verdade, e parecia se aplicar muito bem ao meu relacionamento com a princesa de Solarian constatei ao me virar para a diretora. -Ela tem uma personalidade difícil, mas se conquistá-la, não encontrará amiga mais leal. – Estreitei os olhos.- Isso vale para as duas. -Se não acabar empalada, talvez haja um caminho para nós... Murmurei, minha voz morrendo a cada sílaba, queria ter amigas, amigas que não me abandonassem, simplesmente... “Amigas.” – Do que se trata essa conversa? Questionei me recordando do motivo de ainda estar aqui. Um calafrio desceu por minha espinha quando os olhos cautelosos e preocupados me encararam, soube imediatamente que não ia gostar do que ela iria dizer. -Teremos essa conversa apenas uma vez... Meu coração afundou em meu estômago. -Foi violada em Callanish? Minhas pernas tremeram, me esforcei para permanecer em pé, Amon sabia o que havia acontecido. Sir Arnold... agora sabia que ele também suspeitava, pois deve ter dito a diretora. Não falava sobre isso, não pensava sobre isso, mas nesse exato momento pude sentir o cheiro de Whisky barato no hálito deles, as mãos sujas e calejadas corrompendo meu corpo, o barulho da minha blusa sendo rasgada, não precisei responder e minhas pernas não suportaram meu peso, meus joelhos se chocaram contra o chão frio e a voz da diretora era distante, como se estivéssemos em um corredor repleto de ecos. Sabiamente, ela não me tocou, mas se abaixou e vi seu vestido preto se abrir á minha frente quando a diretora se ajoelhou. – Eles estão mortos, Keira. Tentaram destruí-la, ferir seu orgulho e quem você é, mas estão mortos. Mal senti lágrimas molhando minhas bochechas, a última vez que havia chorado fora naquela noite. – Eles não irão lhe fazer m*l, não mais. -Eles não conseguiram...- Disse aos sussurros, a garganta inchada pelo pesar. –Mas dói... Baixei os olhos incapaz de encará-la, observei tristemente seu vestido esvoaçante raspando na sujeira do chão, ela não devia estar ajoelhada. Seu dedo tocou com cuidado meu queixo, era quase doloroso senti-lo ali, mas quando nossos olhos se encontraram, havia ira neles, ira e algo parecido com admiração. Não pena, nem compaixão. -Eles não podem destrui-la, você é forte, é uma Maenad. Criaturas assim, buscam poder corrompendo a integridade e humilhando, mas é uma rainha, uma rainha não se curva. -Aquiesci. – Somos fêmeas, eles não podem nos destruir. Você sobreviveu, mas irá “viver” daqui em diante, entende? Ela me ofereceu a mão, hesitei, mas algo em seu olhar era acolhedor e confiante. Tão confiante que acreditei nela, ao segurar sua mão, eu acreditei, não era uma vítima... eu resisti e continuaria resistindo. -Serei punida? – Perguntei ao me levantar, ódio aqueceu seu olhos quando ela me encarou. – Ninguém se atreverá.- Disse friamente. -O Sr. Doyle curou seus machucados? – Perguntou analisando meu corpo, assenti com cuidado. – Precisarei olhar nas memórias dele apenas para elucidar os fatos, por conta do tratado. Crimes como esse, são severamente punidos em Everness, ao menos, quando chegam as autoridades. – Ela suspirou e segurou em meus ombros. – Isso não é o procedimento, mas posso fazê-la esquecer... quer isso? A oferta era tentadora, mas não queria esquecer. – Não. Respondi, a voz assombrosamente mais equilibrada do que eu me sentia no momento. – Não quero esquecer, quero lembrar do que fizeram, quero lembrar da sensação de seus corpos se rasgando sob minhas garras. Quero lembrar do motivo pelo qual matei, quero lembrar por que... gostei de fazer isso. – Suspirei ao encará-la. – Sou uma pessoa r**m? -Não, isso não define se é r**m ou não. É apenas uma fêmea que revidou, e é uma loba. Franzi o cenho ao notar que em nenhum momento ela ficou com medo de mim, ela sabia desde o início o que havia feito. – Uma loba revida, morde e dilacera quando é encurralada, isso está gravado em seus ossos, não há o que contestar. Não chorei mais, esperei até as lágrimas secarem por si só no meu rosto, elas finalmente secaram, a diretora ainda me olhava, um pedido silencioso de desculpas em seus olhos. -Precisamos examiná-la. Já esperava, mas fiquei enjoada.. Se dissesse que não, ela entenderia, no fundo sabia disso, mas não queria recuar, não queria me encolher e me consolar com Amon mais tarde, não queria esquecer, queria colocar um ponto final, embora já tivesse feito muito mais que a maioria das vítimas. – Eu farei... -Pigarreei. -Farei o exame. Em um piscar de olhos estavamos em uma enfermaria, a diretora dispensou uma enfermeira que estava lá, me dirigi a um biombo de pano, começei a me despir, a brisa gelada endureceu meus m*****s, me deitei na maca enrijecida. Fechei os olhos e fui para aquele lugar seguro em minha mente, aquela escuridão familiar do sótão, meu sótão. O lugar em que ninguém me julgava, ali ninguém me machucaria, o lugar em que era apenas eu e a escuridão me acolhia, não como uma vítima, mas como uma velha amiga. Quando tudo acabou, fiz menção de me levantar, mas a diretora me deteve. –Você ainda é virgem. – Ela disse e seus olhos se voltaram para baixo, para minha pelve, onde ainda havia um corte profundo. -Não. -Minha voz falhou. -Por favor, não. Implorei, não suportaria alguém me tocando ali, não enquanto ainda estava machucada, não quando era lembrada do que aconteceu toda vez que me sentava, e a dor da humilhação me atingiam, mesmo quando fazia coisas básicas, como urinar. Eu não poderia suportar isso. -Não pode ficar assim, por favor, deixe-me ajudá-la. Suplicou, vi tristeza em seus olhos, mas não podia deixar ela fazer aquilo. -Chame Amon. – Algo dentro de mim implorou por ele, apenas ele poderia me tocar. – Por favor, chame-o. Não sabia quando havia começado a chorar novamente, a diretora havia sumido dali, mas em seguida, o biombo foi escancarado com violência e quando foquei nos olhos preocupados e urgentes de Amondiel, eu desabei. Solucei quando senti um corpo forte e quente me envolver, não era um lobo, mas sim uma pessoa, a minha pessoa e o meu guardião. E ele estava chorando, tão dolorosamente, e soube naquele instante que ele sentia minha dor e que não estava mais sozinha, não impedi quando sua mão foi para o meio de minhas pernas, desde aquela noite havíamos quebrado as barreiras do constrangimento, Amon era uma extensão de mim, éramos uma coisa só. Não sabia onde Kira terminava e Amondiel começava. Com um toque de magia, o alívio percorreu o centro do meu corpo, não ardia mais, não doía quando me movia, mesmo assim, permaneci quieta e aninhada ao corpo esguio de Amondiel. Depois de um tempo limpei o rosto. – Veio rápido. -Minha senhorita precisava de mim, então eu vim. – Disse casualmente e meu corpo se aqueceu. -Ainda assim, foi muito rápido. -Estava á caminho da sala da diretora. – Franzi o cenho intrigada e ergui a cabeça de seu peito, arregalei os olhos quando reparei em seu rosto, no hematoma em seu olho para ser exata. - O que aconteceu com você? - O mesmo que com a senhorita. – Afirmou com um sorriso atrevido. Fechei a cara. -Eu caí da escada. -Declarei. -Também tive um breve encontro com uma escada. Sorri, não... eu gargalhei. Apenas Amon me fazia gargalhar daquela forma, os olhos dele se arregalaram e me dei conta de que talvez não soubesse gargalhar graciosamente, era como ouvir um porco asmático roncando, e minha aparência também devia ser como a de alguém tendo um derrame, me recompus. -Ria novamente. – Pediu e me empertiguei. - Por quê? - É o som mais bizarro e lindo do mundo. - Pisquei atordoada. -Quando acrescentar nomes a lista das pessoas que irei matar, lembrarei desse som, pois ele é a razão da minha felicidade. E é por isso, que jamais permitirei que tirem isso de nós. - Então a lista não será longa. – Afirmei com meu coração aquecido. - Não darei tempo para que seja, mesmo que esteja sempre banhado em sangue. Me recostei no peito dele novamente, estava em paz. Quando consegui me recompor a diretora nos liberou e informou que iria me manter a par da conclusão de tudo, me vesti e fui com Amon para o dormitório, me sentia exausta e só queria dormir, amanhã seria outro dia de batalhas. Assim que abri a porta fui cercada por Aina e meu humor despencou. - Se acha que irei agradecer pelo que fez... -p***a. Cale a boca. Ela arregalou os olhos e escutei Mei derrubar alguma coisa, não iria tolerar essa merda agora. - Qual é o seu problema?! - O problema é que quase fui estuprada! – Esbravejei e o silêncio recaiu sobre o quarto. – Acabei de passar pela pior situação da minha vida e você está me enchendo a paciência com seu orgulho ferido! Me recompus ao encarar os olhos chocados de Aina. – Então, um “Obrigada” viria a calhar. Me desvencilhei dela e peguei uma toalha para ir ao banheiro, precisava de outro banho. Não tive coragem de encarar Mei, agora todas sabiam da minha merda. – Não dou a mínima se salvei sua pele hoje, apenas deixe-me em paz. O banho foi longo, quando voltei ao quarto já vestida, todas já estavam com as cortinas dos dosséis fechados, mas não queria dormir. Apenas dei um olhar tranquilizador a Amon, pedindo silenciosamente para que não me acompanhasse, precisava mesmo espairecer um pouco. Ele surpreendentemente entendeu. Saí do quarto e subi por uma escadaria lateral, estava curiosa para explorar aquele lugar, subi até o final e me surpreendi ao ver que havia um cômodo pequeno, e uma janela que levava diretamente ao telhado da torre leste que abrigava o nosso quarto, me esgueirei por ela e saí para a brisa leve da noite. Me sentei com cuidado no telhado, apenas um cobertor de estrelas acima da minha cabeça, meu corpo ficou rígido ao notar que fui seguida. -O que quer? Perguntei ao ver a cabeleira castanha e encaracolada de Aina espreitar pela a******a e sair para o telhado. - Não sabia... Ela argumentou ao se arrastar para meu lado, como se buscasse pelas palavras certas, ela ajeitou uma mexa de cabelo atrás da orelha e olhou a nossa volta antes de se sentar. – É muito alto aqui. -Esse é seu jeito de se desculpar? Ela enrubesceu e voltei a olhar para o céu. – Você é uma babaca. – Declarei e sorri ao ouvir um grunhido. -Desculpe. Disse com uma bravura surpreendente e tive que reprimir o riso. -Bem melhor, mas ainda precisa praticar. Ela se empertigou e se aproximou um pouco mais, e manteve uma distância cautelosa, mas não me importei com a proximidade. – De onde venho, não é comum... pedir desculpas. -Então seu reino é repleto de babacas. – Me surpreendi quando ela sorriu, era ainda mais bonita sorrindo. - Pode apostar. – Ela espalmou as mãos no telhado em cada lado do corpo e se inclinou para observar as estrelas. – Você está bem? -Sim, estou. – Respondi sem pensar. -Então, não quer se vingar? Perguntou interessada e sorriu perversamente, como se estivesse esperando um convite para ir junto. -Já fiz isso. Revelei sem saber bem o motivo, antes que pudesse pensar muito a respeito Mei pulou para fora do telhado equilibrando três xícaras fumegantes em uma pequena bandeja. -Chá? Ofereceu ao se sentar á minha esquerda, ergui as sobrancelhas assombrada com a graciosidade dela em servir chá num telhado escorregadio e lodoso e levemente inclinado. -Mei acha que tudo pode ser resolvido com chá. Aina comentou revirando os olhos e engasguei-me com uma risada ao ver uma careta no rosto da morena e peguei a xícara que ela me estendeu. -É de hibisco! Beberiquei a bebida, fiquei feliz com o gosto levemente amargo. -O que está te incomodando? Mei perguntou ao estender a outra xícara para Aina, me senti confortável com a presença delas ali, depois de ter revelado sobre o estupro, não havia mais nada a esconder. -Se sente m*l pelo que fez? Perguntou, fiquei com vergonha de dizer que não me sentia m*l, nem um pouco. - Às vezes, queria estar morta. Aina declarou, nos viramos perplexas, mas ela bebericou o chá tranquilamente como se estivessemos conversando sobre moda. – Não é sempre, mas quando a diretora falou que ia avisar meus pais, foi o que desejei.
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