Keira
No breu da noite, o silêncio estendeu-se entre nós enquanto absorvíamos as palavras de Aina.
- Os seus pais devem ser péssimos. – Mei comentou, a primeira a quebrar aquele silêncio. – Mas confesso que às vezes preferia furar os meus tímpanos á ouvir os meus.
Elas riram, bebi o chá, o clima ficou leve, mas sabíamos, no fundo, sabíamos que Aina não estava apenas interpretando um papel de filha dramática, e senti que deveria compartilhar algo, algo que não revelaria aos outros, algo que me fizesse parte daquilo e elas precisavam disso. Precisavam saber que não eram apenas elas que se sentiam insuficientes, inadequadas e inúteis, também sentia e queria compartilhar.
— Não tenho vontade de morrer.
Segurei a xícara com mais força e olhei para a frente, para além da floresta sombria, o que haveria ao norte dali?
– Quando lembro do que aconteceu, apenas tenho vontade de matar. Não matar simplesmente... tenho vontade de dilacerar e queimar o mundo. E sabe o pior?
Encarei o céu, o mundo ficou em silêncio, mesmo as cigarras se calaram, como se também se preparassem para ouvir aquilo.
– Sinto que posso, mesmo sem querer, e isso me assusta.
A minha voz era apenas um sussurro na noite, a xícara de repente não estava mais tão quente entre minhas mãos, e pisquei quando as duas as seguraram, me aquecendo com o seu próprio calor.
-Sei que vai soar clichê, mas entendo parcialmente o que sente.
Aina disse, seus olhos me encararam como se me vissem pela primeira vez.
– Não quero que se ofenda, mas realmente acredito que seja capaz disso. – Pisquei atordoada.
-De quê? – Perguntei confusa e ela deu um olhar tenso a Mei.
-De destruir o mundo. – Disse ao voltar a me encarar.
E após vê-la lutando hoje, depois da sua confissão, aquilo pareceu-me realmente preocupante.
– Vi algo em seus olhos.
Disse baixando o olhar, e o arrepio que levantou os pelinhos em seus braços não me passou desapercebido, suspeito que nem a Mei.
– O que viu?
Perguntei sentindo o meu coração bater mais forte, e quando os seus fascinantes olhos verdes se ergueram para mim, havia medo neles.
- Vi a morte. Fogo e trevas. Uma sombra, terrível e poderosa capaz de apagar a minha luz, foi o que vi, Keira.
— Eu vi também, m*l consegui contê-la, tenho 200 anos, a minha família me treinou arduamente, mas o que quer que tenha dentro de si Keira, é diferente de qualquer dom que já foi dado as Maenads de nossa geração, e suspeito que de qualquer outra.
-Deveria conversar com a Sra. Alekseeva sobre isso.
Aina sugeriu ainda segurando minha mão e suspirei, era desconfortável pensar que alguém que viveu tanto tinha medo de mim, mais desconfortável ainda, porque não me sentia totalmente m*l com aquilo. Talvez a ignorância me deixasse corajosa.
-Algo me diz que nem ela, nem ninguém aqui, me diriam o que quero saber. Nem ao menos sei porque meus pais morreram, porque meu reino foi dizimado.
Cerrei os punhos e Mei pegou a xícara das minhas mãos.
– Deveria saber essas coisas, sou a princesa herdeira não é? Mesmo que seja herdeira de cinzas... cinzas nem sempre foram apenas cinzas, elas são os vestígios de algo que um dia fora outra coisa.
-É claro que merece saber, mas nenhuma de nós sabe ao certo, e mesmo os que sabem, não poderiam dizer, nem se quisessem. – Franzi o cenho, me preparei para perguntar, mas Aina me interrompeu.
– Não é uma escolha nossa. – Ela ergueu a manga da camisola de seda e mostrou o antebraço direito. – Fizemos um voto de obediência.
Não era uma marca comum, não.
Uma tatuagem preta com uma estrela de cinco pontas espreitou em sua pele acastanhada, Mei ergueu o braço direito e me mostrou o mesmo símbolo.
– Essa é a razão da Sra. Alekseeva não ser a criatura mais popular de Everness, todos que tinham idade suficiente para fazer votos há 16 anos, foram obrigados a fazer.
-Porquê? – Foi tudo que consegui perguntar, havia algo de muito errado acontecendo em Everness, e precisava descobrir o que era.
-Tem sido assim desde que o senhor das sombras caiu, todos tem medo até de pensar naquela época, foram tempos difíceis. Kira. Para todos de Everness.
Observei Aina atentamente, tanto ela como Mei tinham a mesma expressão complacente naqueles rostos majestosos, não as conhecia muito bem. Mas no meu íntimo, tive a sensação de que se pudessem me contar algo, elas o fariam.
-Tem uma forma de saber a verdade. – Aina disse com uma calma que me deixou em alerta.
-Como? – Questionei afoita.
-Será arriscado.- Certo, consigo lidar com isso, Aina prosseguiu com um sorriso travesso estampado no rosto. -E infringiremos um bocado de regras.
-Perdão? – Mei protestou. – Não me lembro de ter aceitado participar de nenhum crime.
-Aceitou quando mentiu para a diretora e nos acobertou. – Aina rebateu despreocupadamente, como se estivéssemos planejando praticar bordado juntas.
Fiquei alternando o olhar entre as duas, me perguntava se rolariam telhado abaixo, mas aquilo parecia algo capaz de acontecer apenas entre mim e Aina, Mei era calma e imperturbável como uma montanha, exceto para quebrar regras.
– Além disso, agora temos um segredo em comum, somos uma unidade.
Aina me apertou junto a ela, Mei chamou sua atenção por estar me tratando tão informalmente, mas naquela hora, não estava em mim mesma porque só conseguia pensar que ninguém além de Amon havia me abraçado, não me retraí ao toque dela, como se meu corpo soubesse que ela não era o inimigo.
Me endireitei e passei ambos os braços envolta das duas, ignorei os olhares espantados.
– Estou feliz, por ter conhecido vocês.
Disse olhando as estrelas e mantendo elas em meu abraço.
– Hoje foi a primeira vez que fui para a diretoria por algo que realmente fiz, fico feliz por ter feito isso com vocês.
Elas sorriram e continuamos no telhado, observando o esplendor da noite em Malefici.
Talvez pudesse finalmente ter alguém a quem chamar de amigo, e em meio aquele silêncio confortável, desejei, desejei ardentemente e de todo o coração que elas fossem minhas amigas pela eternidade.
(...)
Talvez fosse exagero da minha parte, mas ao me sentar de frente a janela do quarto para estudar para as primeiras provas, me perguntei como sobrevivi todos esses anos sem amigos.
Mei e Aina estavam focadas em me transformar em uma estudante troféu, elas repassavam todos os dias as matérias comigo, relíamos resumos de aulas passadas, e sentia cada vez mais que meu cérebro estava prestes a virar lama.
-Não tem um feitiço para enfiar toda essa matéria acumulada na cabeça?
Perguntei ao me jogar dramaticamente na poltrona com um livro enorme de feitiços no colo, fechei os olhos exausta, depois os abri apenas para assistir o revirar de olhos exasperado de Aina.
-Isso é bem coisa que um Homine diria, se eles tivessem acesso à magia, duvido que levantariam o traseiro para fazer qualquer coisa que fosse. – declarou presunçosamente e franzi o nariz irritada.
– E isso é bem o que uma bruxinha arrogante diria. Por acaso, vossa majestade já lavou um banheiro, com essas mãos reais?
Perguntei arqueando levemente a sobrancelha.
-Por que faria tal coisa?
Rebateu espantada, como se não houvesse sentido lavar um banheiro, imaginei que para alguém da realeza, isso fosse irrelevante, já que nem mesmo as criadas dela deveriam fazer uma tarefa dessas, desde que usavam magia para quase tudo.
Decidi deixar isso quieto, por hora.
– Por que não temos uma Imperatriz? Em todos os livros que li referem-se a Everness como um império, e a legião mais poderosa do exercito são nomeados como Cavaleiros Imperiais, existe até um juramento sagrado pelo império, mas não achei nada que indicasse que houve uma Imperatriz.
-Nunca houve uma. – Mei esclareceu deixando seu livro de Vitologia de lado.- Os reinos nunca entraram em unanimidade quanto a isso, e para haver uma Imperatriz é necessário que todos os reinos concordem, a não ser que...
Ela fez um suspense dramático e revirei os olhos, sem querer ceder aos seus caprichos.
-A não ser que?- Perguntei exasperada.
Aina interrompeu a conversa e se jogou graciosamente em outra poltrona.
-A não ser que haja uma profecia.
-Uma profecia? Tipo, coisas que um vidente prevê?
Ambas ergueram as sobrancelhas, com uma indignação genuína.
-É claro que não, são coisas que um Oraculum-Delfos anuncia.
- Oraculum-Delfos, eles são criaturas capazes de ver o futuro não é?
-O futuro, é só o que eles podem ver. – Aina respondeu sombriamente e um olhar de preocupação pairou entre as duas e estreitei os olhos.
-Não sei se entendi.
-Eles não tinham olhos Keira, não como nós temos.
Mei se levantou da cama e se sentou na terceira poltrona.
– Eles são criaturas quase esqueléticas, uma boca com fileiras duplas de dentes, duas fendas no lugar do nariz, e um olho atrás da testa, um olho que não é possível ver, mas sabemos que está lá.
-Que horror, mas por que se refere a eles no passado? Eles mudaram de aparência?
- Não se vê um há 16 anos. Foram um dos povos que o senhor das sombras aniquilou.
Aina lançou um olhar de advertência a Mei, provavelmente porque estávamos entrando em um assunto proibido.
– Acredito que era arriscado deixar criaturas que poderiam ver o futuro vivas, foi uma medida de segurança.
-Ou talvez eles tenham previsto algo que deixou o senhor das Sombras aborrecido. – Aina emendou dando de ombros.
-Faz sentido. – Comentei abandonando o livro de vez, a conversa havia se tornado muito mais interessante que estudar para as provas.
-Bom, mas tenho uma boa notícia. – A solariana sentou-se ereta, Mei e eu fizemos o mesmo. – Consegui confirmar aquela suspeita a respeito do que vive na floresta.
-Refere-se a criatura que mencionou aquela noite no telhado?
Relembrei, Aina havia mencionado a respeito de algo que talvez pudesse responder às minhas perguntas.
-Essa mesma. Conversei com o meu irmão, ano passado os cavaleiros tiveram que resgatar uma aluna do covil dela.
- Você só pode estar de brincadeira?! – Mei vociferou pulando da poltrona e Aina se empertigou.
- A Arantha, vive no interior da floresta Sombria, a sua cabana fica em baixo de um imenso carvalho, mais antigo que a própria escola.
-Arantha? O que ela é?
- Ela descende de uma Maenad e um Oraculum-Delfos, é o que dizem. Os Oraculum nem sempre foram criaturas deformadas e repugnantes, dizem que eram machos belíssimos.
-Então, o que houve?
-A lenda diz que um grupo deles violaram uma Maenad. A Deusa ficou furiosa e os puniu, deformou sua aparência para que ninguém conseguisse olhar para eles, e negou o direito de se procriarem.
Fiquei rígida na poltrona e o clima ficou desconfortável. A temperatura do quarto havia despencado.
– Violar uma Maenad é um pecado terrível, uma blasfêmia das mais repugnantes, sua alma é condenada a vagar pelos sete infernos pela eternidade.
-Justo. – Murmurei enojada. – Mas e quanto a Arantha?
-Dizem que a Arantha é filha da Maenad que foi violada. Uma criatura que acabou sendo afetada pela punição da Deusa, por carregar o sangue corrompido do pai. Ela tem o rosto de uma Maenad, mas parte dela também é um monstro. Dizem que produz uma seda magnífica em um tear encantado presenteado pela Deusa, ela se sentiu em débito por tê-la afetado com a punição, e se olhar nos olhos dela, ela tece toda a sua vida numa profecia e terá que seguir essa linha independente da escolha, por isso é perigoso visitá-la.
- Esqueceu de mencionar o risco de sermos devoradas, após ficarmos sendo curtidas em veneno. – Mei comentou acidamente.
Algo dentro de mim se agitou, olhei para Aina em busca de esclarecimentos, ela parecia inquieta e suspirou ao se recostar novamente na poltrona.
- A garota que mencionei? – Ela pigarreou. – Ibrahim disse que não conseguiram encontrar o corpo, m*l conseguiram se aproximar da cabana, pelo menos os que tiveram coragem suficiente para fazê-lo.
-Pensei que ela não gostasse de fêmeas, no livro informa que devora apenas machos.
-Quando se está faminta, qualquer coisa é um banquete. E ouvi dizer que depois que se injeta veneno, a carne das fêmeas se torna tão suculenta quanto a dos machos, portanto, não deve fazer muita diferença mesmo.
Mei esclareceu, a voz salpicada de sarcasmo e deboche.
Me perguntei se valia mesmo a pena me arriscar, arriscar a vida delas, criaturas centenárias que mostraram medo em apenas falar da Arantha, valia mesmo a pena nos arriscar tanto por informações? Elas m*l me conheciam.
- Sei o que está pensando. É besteira na minha opnião.
Arregalei os olhos em espanto. E Aina se inclinou para me encarar de perto.
- A odiei no momento em que passou pela porta do quarto. – Ela tomou fôlego, apenas nossas respirações perturbavam o silêncio. – Te odiei, porque sua aparência era tudo que minha mãe desejava para mim, linda, sem pretensão de ser altiva, mas ainda sim... simplesmente majestosa, afiada, pura e bem-nascida.
A ideia de que Aina, a princesa de Solarian.
Aina, a criatura mais linda de todas, me achava linda e pura, aquilo era inconcebível.
O meu rosto esquentou diante do olhar admirado dela.
- Então, decidi que iria provar a mim mesma que era melhor que você, fui uma... babaca.
Ela franziu o cenho, como se o termo ainda lhe fosse estranho.
Sorri como uma garotinha tola e cheia de risinhos, só conseguia pensar que Aina me achava bonita, não Violet ou suas amigas pretenciosas e cheias de soberba, mas a mim, a bastarda selvagem, antissocial e arrogante.
-Mas quando mentiu... mentiu por mim, mentiu por nós?
Ela estremeceu e seus olhos brilharam.
– Provavelmente não sabe, mas ninguém jamais se atreveu a mentir para Morgana Alekseeva e saiu com vida, e você o fez sem piscar, foi uma tolice, mas você o fez. Acho que a própria diretora deve ter ficado perplexa com seu atrevimento.
-O que Aina está tentando dizer e falhando miseravelmente Kira, é que estaremos juntas. A partir do momento que mentiu por nós, conosco. Estaremos juntas para o que der e vier.
Pisquei atordoada, não fizera nada demais e elas estavam enaltecendo tudo como se tivesse salvado o universo. Mas sabia que não era pela mentira em si ou por algum senso de dívida de lealdade e companheirismo estudantil.
- Deve ser estranho, mas Maenads... não costumam ser “amigas.”
Havia notado durante a semana, não que fosse uma criatura muito sociável, mas nenhuma das outras fêmeas se aproximaram. A maioria só dirigia a palavra as colegas de mesa e acabava aí, notara que todas eram arrogantes, muito mais que arrogantes na verdade.
Mas havia uma pequena criatura que sempre que nos via baixava a cabeça e se encolhia, ela parecia uma pequena ratinha.
Gallagher, era o nome dela, ela tinha cabelos brancos, brancos mesmo. E olhos negros.
Ela era a princesa de Hibaernis, foi o que Aina dissera, mas todas ás vezes que olhávamos para ela, a garota escapulia como uma catita pelos corredores, e estava curiosa sobre ela. Não sei o motivo, mas algo em seu olhar me atraía e fazia aquele poder pulsar dentro de mim.
-Isso é uma idiotice. -Constatei ao me voltar a conversa novamente.
- Pois é, houve um tempo que não era assim, mas isso ficou esquecido com o passar dos milênios, a amizade foi substituída por disputas por território, poder e qualquer ninharia que resultasse em guerra, imortais tendem a ficar entediados conforme atravessam os séculos.
-Ninguém confia em ninguém, e todos são apenas peças de xadrez no maldito jogo de mentiras e manipulações da corte. – Aina comentou amargurada.
-Tenho de informar os riscos, pois sou prudente. Mas se fosse comigo? Também iria querer descobrir.
Mei acrescentou e se inclinou para frente juntando as mãos apoiadas no joelho.
– Tudo é estranho Keira, todos pensavam que estava morta, o próprio senhor das sombras caiu convencido disso. Mas aí, você aparece 16 anos depois com o último Shapeshifter como seu caelendus... Não sei se tem total noção do quanto a raça de Amondiel é poderosa, mas consigo entender depois de ver uma faísca de seu próprio poder, entendo o motivo da existência do elo de vocês.
- Não tenha receio do perigo por nossa causa, busque as respostas das quais precisa, estaremos atrás de você guardando suas costas.
(...)
Não demorou para que estivéssemos andarilhando pela escuridão da floresta, a parte mais difícil fora nos livrar de nossos Caelendus, e mesmo assim, tudo deu errado e eles acabaram por nos seguir e nos encontraram 15 minutos depois de entrarmos na floresta, os três ainda estavam emburrados, mas tiveram a precaução de caminhar á nossa frente e usar sua verdadeira forma, ambos criaturas imponentes e poderosas, mesmo a gata de Mei, exalava perigo e morte.
Uma hora depois, eles pararam e subitamente paramos também, uma clareira se abriu diante de nós, avistamos um imenso carvalho e embaixo dele, uma cabana.
Era simples, o lugar era escuro e não dava para ver muitos detalhes, mas através de uma janela lateral vi a claridade de uma lamparina acesa, o lugar era silencioso, a floresta era quieta ali, como se nem mesmo os insetos ousassem entrar naquele lugar, era uma situação de merda, uma grande e catastrófica merda, e todos os meus instintos me mandavam correr dali, fui empurrada e reprimi um palavrão terrível ao notar o bufar exasperado de Amon que me empurrava em direção a cabana escura.
Não precisei bater, assim que pisei na soleira da porta escutei barulhos vindo de dentro.
-Diga a que veio. – Uma voz tão suave quanto seda perguntou, por um instante fiquei paralisada, e imaginei uma doce donzela deitada em um emaranhado de lençóis de seda a espera do seu amante, Aina pigarreou e respondi como havíamos treinado.
-Vim do noroeste e busco respostas.
- Lhe ofereço abrigo e... respostas. Entrem, princesas.
Uma parte de mim, uma parte considerável quis virar as costas, puxar minhas amigas e correr para a segurança de Malefici, foi com esforço que me obriguei a dar um passo á frente na soleira e adentar através da porta. Os Caelendus montaram guarda do lado de fora, mas senti de longe a inquietação de Amondiel.
O lugar estava decorado caprichosamente, era luxuoso e bonito demais para ser a morada de um monstro no meio da floresta.
E o monstro?
A beleza do rosto daquela criatura era algo impossível de ser absorvido, algo que deveria ser impossível de existir..
Nesse breve instante esqueci o motivo de estar ali, esqueci do que e como teria que fazer, esqueci quem era e só havia aquela criatura linda, linda e terrível á minha frente.
-Keira?
Pisquei.
Pisquei novamente, a criatura estava de frente a um tear de madeira escura.
Um cabelo longo e liso e prateado como o luar, jogado na lateral do corpo e escondendo metade do rosto, ele brilhava majestosamente diante da luz do luar que entrava pela janela.
A saia bufante do vestido azul-petróleo, a fazia parecer uma pintura, o tom magnifico do azul reluzia, mas algo na forma como ela manuseava o tear, a destreza e a rapidez daquelas mãos delicadas, aquilo fez um calafrio descer pela minha espinha.
– Sinto seu cheiro, posso até sentir a doçura de sua carne, nem precisaria do meu veneno para amaciá-la... criança. Está com medo?
Não minta, jamais minta para ela.
Mei disse sem mentiras... tentei não pensar nisso ao vê-la salivando ainda concentrada no tear.
-Estou.
-Por que sou mais bonita que vossa alteza?
-Porque é mais terrível que eu.
-Nada é mais terrível que vossa alteza. Nada. Algumas criaturas antigas que caminham por outras florestas de Everness talvez se equiparem. Mas ainda é a mais terrível desse mundo, terrível e escura, terrível e bela, terrível e selvagem. Terrivel e poderosa.
-O que quer dizer?
-Não quer saber sobre isso, é a pergunta errada.
Ela se virou em um movimento fluido e baixei os olhos imediatamente, a roda do tear parou.
Não escutei os passos, mas sabia que ela estava perto.
-Trouxe algo para mim?
Do fundo do bolso do casaco puxei os três botões de obsidiana.
Os coloquei em sua palma e prendi a respiração, o cheiro era terrível, carne apodrecida e algumas especiarias que não reconhecia o cheiro, e heather.
O cheiro se tornaria enjoativo, apesar de ser terroso e herbóreo, sempre gostei da flor por conta do cheiro pouco floral, mas agora sempre associaria aquele odor a Arantha, ele se entremeava em meu nariz, conhecia muito bem a fragrância, tia Maisie gostava de uma cerveja artesanal irlandesa onde usavam essência de heather.
Cada fôlego que inspirava me mandava fugir, suspeitava que o cheiro da heather era para disfarçar o cheiro de carne podre, mas eu era uma loba e Amon estava me ajudando a apurar meu olfato e identificar odores, mas suspeitava que tanto Aina quanto Mei também haviam percebido, elas estavam ao meu lado, minhas amigas permaneciam com olhos no chão e imóveis, a postura tensa.
-Pode olhar em meus olhos, já tem uma profecia em seu destino.
Vacilei, mas Aina disse que a Arantha não podia mentir, mas as perguntas teriam de ser cuidadosas e precisas, a verdade poderia ser distorcida. Ergui o olhar, mas Aina segurou firme em meu braço, olhei para ela, estava pálida e balançou a cabeça negativamente.
-Responderei a três perguntas. Mas apenas se olhar para mim, suas amigas devem manter a cabeça baixa, o destino delas ainda é incerto. Mas se quiserem determiná-lo agora, olhem.
Nenhuma das duas se mexeu.
Devagar, ergui a cabeça, olhos grandes e completamente negros me encararam, não havia íris, bem... não visíveis pelos menos, era uma f***a infindável de escuridão. Ela indicou uma mesa com duas cadeiras, na lateral da sala, caminhei devagar e me sentei em frente a ela.
-Por que obsidiana?
Perguntou levemente interessada ao se sentar, tentei não prestar atenção naqueles lábios perfeitamente delineados e corados, tentei não pensar no fato de que não escutava os passos dela, era estranho. A saia bufante do vestido não me permitia ver seu pés.
-É minha pedra preferida. – Respondi baixo demais para soar confiante, Mei e Aina se posicionaram atrás de mim ainda de cabeça baixa, mas sabia que estavam armadas, e sabia que se necessário, elas sacariam as espadas em segundos.
-Preto é sua cor, de fato. Nossa cor. E obsidiana é sua pedra, nossa pedra.
Nossa cor, nossa pedra... não minha, mas “nossa.”
– Lhe incomoda que me equipare a vossa alteza?
-É estranho... – Respondi e Aina ficou tensa. – Mas não me incomoda.
-Pergunte. -Ordenou sorrindo maliciosamente e cerrei os punhos no colo, quando ela começou a b*******a unha preta na mesa de madeira.
Tec, tec, tec...
-Por que a Sra. Alekseeva impôs o voto de obediência há 16 anos?
-Pergunta perigosa, doce criança. Ela fez para manter em segredo a sua suposta morte, o motivo da sua morte, e para dar esperança de derrotar a escuridão, pois é através de vossa alteza... ou melhor, a sua existência é uma ameaça direta aos planos dele, a existência dele.
-Como sobrevivi?
-Sua mãe tinha dons. Uma vidente poderosa, a rainha de Caelestis. Ela teve uma visão sobre o ataque ao reino, sabia que a escuridão tinha voltado os olhos para a joia do império, então, ela interferiu nos planos dele, ardilosa e astutamente, e tomou a decisão enquanto a empurrava para fora do útero dela. Um feito assombroso se quer saber, é perigoso manipular acontecimentos para que visões se realizem.
- Sabe o que ela viu. - Constatei. Ela sabia com certeza, mas tinha apenas mais uma pergunta e não queria desperdiçar.
Como se lesse meus pensamentos a Arantha sorriu, um sorriso digno de uma aranha venenosa e ardilosa.
-Sim, eu sei. – Ela me encarou ainda batendo a unha na mesa e me xinguei, tola, i*****l e ingênua. Será que ela era legaere?
Se fosse já havia perdido uma pergunta por idiotice. Mas ela continuou...
– Ela viu fogo e escuridão, sangue e cinzas. Uma luz na escuridão, um lobo n***o e um dragão. Duas bestas selvagens unidas por um propósito, duas criaturas iguais e tão diferentes, uma balança que equilibra vida e morte, salvação e devastação, unidos e reunidos por um golpe do destino.
Estava prestes a perguntar o que significava, mas a Arantha sorriu e garras de gelo entremearam minha espinha quando ela continuou batendo a unha na mesa, insistentemente, sem descanso.
Cerrei os dentes, iria perder outra pergunta por nada.
Me acalmei, me preparei para perguntar uma coisa que queria muito saber.
-Visões, não são uma coisa clara, uma visão pode ter várias interpretações, sua mãe agiu de acordo com que interpretou, se quer minha opinião, o significado é bem óbvio e sua mãe percebeu isso imediatamente.
Não me abalei, o que significava...”Lobo e o dragão, luz na escuridão, vida e morte?” há anos os dragões sumiram de Everness, tivera uma aula sobre isso. Engoli a pergunta silenciosa.
-Quem foi o responsável pelo ataque a Caelestis? - Outro sorriso ardiloso.
-Faça a pergunta certa.
Estremeci, ela poderia simplesmente responder rei de Béllenian, porque sentia que ela estava me ajudando?
-Por que Caelestis caiu?
-Por você. O filho dele, o aprendiz de seu pai, o herdeiro do trono executou o ataque e levou seu pai a tortura na corte do norte, e ele matou a rainha de Caelestis, assim que a amparou quando vossa alteza nasceu.
Empalideci, o sorriso da Arantha aumentou.
-Não sabia? O herdeiro de Béllenian foi aquele que ajudou a rainha de Caelestis a dar à luz, e ele levou o corpo da usurpadora. Como foi enganado, eu não sei, o seu reino foi traído covardemente, criaturas egoístas e gananciosas traíram seus pais e por isso naquela noite, sangue foi derramado, não apenas em Caelestis, mas em Béllenian, coisas atrozes aconteceram naquele lugar...
Um silêncio mortal se estendeu no lugar, no mundo, uma pequena aranha solitária subiu pelo braço dela e seus pelos se arrepiaram, podia sentir minha alma querendo fugir do corpo quando ela voltou os olhos escuros para mim.
-Precisa ir, não estamos sozinhas. Ele mandou seus cães.
Estremeci ao ouvir o canto agudo de aço sendo desembainhado, ao me virar encontrei Aina e Mei empunhando as espadas.
**Em um Reino Distante**
Batia o dedo impacientemente na mesa, ela já estava atrasada e odiava atrasos.
Ela sabia que o segredo do sucesso da estratégia da Sociedade Pró-Imperial dependia do cuidado que tínhamos em executar cada parte do plano.
Suspirei quando a esfera se acendeu.
-Francamente. Foi apenas um minuto!
A imagem da fêmea apareceu perante a pedra de Oduím e bufei, já havíamos tido aquela discussão mais vezes do que conseguia contar.
— A quantidade de coisas que podem acontecer em um minuto é infinita. -Me estiquei em baixo da mesa tentando aliviar a tensão. – Um mísero beija-flor bate as asas cerca de 90 vezes por segundo e o seu coração bate 1200 vezes por minuto.
-Certo, certo. Para um imortal você é bem impaciente. – Ela bufou e meu corpo ficou ainda mais tenso. – Fico feliz em saber que mantém algum conhecimento a respeito do reino animal dos Homines. – Ela desviou o olhar e suspirou.
– Tive uma emergência com uma das alunas. – Grunhi irritado com o arrepio que percorreu minha espinha, movimentei o pescoço tentando controlar aquela centelha de poder que sacudiu meus ossos e o casebre.
— Não me interessa.
-Não tem curiosidade em conhecê-la? – Cerrei a mandíbula me forçando a ficar calado. – Ela tem os olhos do pai, os mesmos olhos de Maeve, mas a selvageria e ousadia...É ainda pior que a de Kiara e Maeve juntas.
-Lamento. – Não me permiti pensar em como seria seu rosto, astuto como o da rainha? Ou imponente como o do rei? Grunhi. Era isso que ela queria, instigar minha curiosidade a respeito da garota.
-Você deveria...
-Morgana.
A cortei antes que iniciasse outro de seus sermões maternos.
– Tem rumores no leste, hordas de Inanis e Orcans tem se reunido em Ballybofey, as atividades nas terras de Malefici aumentaram, criaturas que deveriam estar dormindo, estão despertando.
-Estão atrás dela. – concluiu.
-Mantê-la na ignorância é problemático. – Agora foi ela quem bufou e revirou os olhos.
Contive um gemido de desgosto, não iria entrar em uma discussão a respeito de como dirigir uma escola de Maenads em pleno frenesi adolescente. E achei oportuno esclarecer meu ponto de vista, já que era raro quando insistia em algo, mas isso se fazia necessário nessa questão.
– Jovens imaturos, tendem a ser curiosos e se meterem em confusão. Não vai querer a garota da profecia xeretando por aí em busca de respostas, não quando os cães dele estão á sua procura, sem jamais descansar. Estão se espalhando rápido e por todo o continente, as sentinelas dos reinos m*l conseguem detê-los e consigo fazer pouco daqui.
-Ela é poderosa.
Pela primeira vez na noite, me dei ao trabalho de encarar os olhos escuros dela, tão diferentes dos meus, ela estava séria, séria demais para aquilo ser uma coisa boa.
-O quão poderosa?
— O bastante para me fazer perder noites de sono.
Xinguei, um xingamento c***l e terrível e ela prosseguiu como se estivesse a refletir consigo mesma.
– Despistou cinco Inanis perto da fronteira de Arestia, atravessou para Everness pela f***a em Callanish. Arnold disse que eles pareciam responder a ela de alguma forma, e não esboçaram intenção de persegui-la depois disso. O caelendus matou três espectros...
-O que houve?
Ela se recostou na cadeira.
— Se ela fizer com os cães, metade do que fez com os seus agressores... - Gelo tomou conta do meu estômago.
-Quem ousou tocá-la?