Capítulo 8

5000 Words
Keira Era difícil controlar a respiração, conseguia ouvir rosnados cruéis vindos de fora, da floresta. A Arantha permanecia imperturbável perto da janela, observando, sempre observando, como se pudesse ver muito além da mata escura, um uivo perturbador agitou o silêncio sombrio da floresta e meu estômago se apertou. -O que foi isso? -Snipheirs. – A Arantha respondeu tranquilamente, Aina e Mei correram para a outra janela. - E o que seria isso? – Perguntei baixinho. - Criaturas diabólicas e profanas, dizem que foram nascidas e criadas nas profundezas de Amrat, para vigiar e manter os prisioneiros, maleáveis e dóceis. Nos tempos sombrios, o senhor das sombras os usou para caçar e matar os que eram contra seu governo. Eles não são alimentados, os deixam com fome para caçarem com mais afinco. -E o que comem? -O que encontrarem. Os raros tolos que conseguem escapar de Amrat, ou os que ousam desafiar a autoridade de seu senhor, o que vier primeiro e depois... ambos, acabarão sendo caçados e devorados. - Consegue lutar? – Ela virou o rosto para me observar, a expressão serena. – Consegue se defender deles? – esclareci, com receio de que ela pensasse que a forçaria a nos defender. -Com um ou dois, talvez, mas há muito mais lá fora e minhas filhas precisam de tempo para montar armadilhas. Filhas? Alguém gritou e fiquei lívida, devagar os pelos de meus braços se eriçaram e escutei bem baixinho, barulhos e chiados, pequenas patinhas ao que parecia e... talvez, quelíceras se chocando? Lentamente, levantei a cabeça e suprimi um grito ao ver o que Mei também observava, o teto da cabana, estava repleto de aranhas de todas as espécies e tamanhos. - Melhor ficarmos aqui. – Aina argumentou. Quis socar a cara dela, a encarei incrédula e Mei fez o mesmo. Acredito que por motivos diferentes. -Iremos sair. Não sabemos o que querem, mas estaremos mais seguras em Malefici. – Argumentei, sem muita firmeza. -Doce criança... Não percebeu que é a presa deles? – A Arantha perguntou com um sorriso ladino. – Eles só obedecem ao senhor das sombras, ele deve saber que está viva, o cometa cerúleo anunciou mudanças, o seu retorno estava descrito na profecia, sempre esteve descrito, ninguém acreditou. - Merda. – Xinguei, Amon expressou algo parecido de onde estava. - É, isso é literalmente uma merda. – Mei comentou olhando ao redor, tentando se manter a distância das aranhas. -Vamos sair. -Enlouqueceu? – Aina sibilou. -Não vou deixar Amon sozinho, a Arantha cumpriu com o trato, esses Snipheirs são problema meu. -Nosso. São problema nosso. -Aina enfatizou me encarando, Mei revirou os olhos exasperada e praguejou baixinho, ela abriu a capa escura e me entregou uma de suas facas. - Pegue, não posso ceder minhas espadas. Use esta. Assenti e peguei a lâmina curta, era longa demais para ser uma faca de caça, mas era curta demais para ser considerada uma espada, uma arma leve para braços despreparados e fracos. Respirei fundo, com elas em meu encalço fui até a porta sem saber realmente o que me aguardava do outro lado. -Por quê? – Me virei ao ouvir a voz sedosa da Arantha e franzi o cenho. – Por que se arriscar lá fora, quando pode aguardar em segurança aqui? -Essa é sua casa. – Respondi casualmente e sua testa lisa se enrugou. – Você nos recebeu, e contou mais do que foi paga para contar, estou retribuindo a cortesia. Sorri. Ela sorriu também e baixou os olhos, éramos estranhamente parecidas, em seguida ela olhou pela janela e de volta para mim. -Irá encontrar o dragão em seu caminho. Não se deixe enganar pelas aparências, olhe uma segunda vez, atentamente, seja cautelosa. Lembre-se das palavras que ouviu aqui. Nem tudo que é, é. Mas tudo o que foi, pode ser disfarçado e transformado, olhe além das aparências. Ela deveria estar falando outro idioma, pois não entendi bulhufas do que disse e tinha certeza de que meu semblante também transmitia isso. — Considere, uma cortesia... por ter me tratado com respeito e sinceridade. Não me demorei mais na cabana, ao me virar, Aina já estava abrindo a porta com a espada em punho, nossos Caelendus posicionados na clareira, ambos farejando a floresta. — Iremos sair rápido e silenciosamente, montem nos caelendus, vamos em direção a academia. Prontas? Aina perguntou ainda segurando a maçaneta, assentimos e assim que ela soltou a porta com um leve empurrão, corremos a toda velocidade, Amon se abaixou minimamente, pronto para correr. Saltamos, as três montadas em nossos companheiros em uma sincronia perfeita, um guincho terrível ecoou pela mata. — Melhor nos apressarmos. – Mei comentou, Lana grunhiu e saltou para dentro da mata. A seguimos, corremos por minutos antes de escutar patas ligeiras as nossas costas, um silvo profano ecoou e me segurei com força em Amon, virei o rosto para ver nossos perseguidores, meu coração parou. -Aina! – Berrei em alerta, ela e Mei viraram os rostos, as capas pretas ondulando nas costas contrastaram assustadoramente quando seus rostos ficaram mortalmente pálidos. -Pelos sete infernos! O que é isso!? – Aina praguejou. Não ousei respirar, Amon desviou o caminho correndo na direção noroeste, Lana e Luena o seguiram sem hesitar, mas Amon parou repentinamente deslizando e jogando cascalho para todos os lados ao cravar as patas no chão, estávamos cercados, por cinco deles. Eram criaturas saídas de algum conto terrível, aquelas histórias terríveis demais para se ler á noite ou talvez eles tenham escapado das profundezas do inferno. Os caelendus se posicionaram em um círculo, e de costas uns para os outros, rosnando e rugindo enquanto assistiam as criaturas se aproximarem e nos arrebanharem como ovelhas, e a passos lentos. Muito lentos. Pele acinzentada, olhos escuros, focinho alongado e amassado na ponta, a pelagem era rala em partes das costas e os dentes... alguns eram encurvados para dentro outros para fora da boca, feitos para prender e dilacerar, eram sustentados por uma mandíbula forte, garras negras e longas, tinham quase o mesmo tamanho de Amon em sua forma verdadeira. Eram mais musculosos e estranhamente esguios, criaturas perfeitas para caçar e matar. E aquele olhar, aquele olhar de interminável escuridão, uma fome infinita... — Precisamos de uma distração para fugir. Não temos chance contra isso. São muitos. Aina leu muito bem a situação, eu não era uma presa, mas sabia reconhecer quando estava diante de outros predadores. E essas criaturas, pareciam algo terrivelmente errado, algo profano demais para estar nesse mundo. O olhar de Amon me disse que não estava errada. -Mande-as ir, cuidaremos disso. Era o que ele estava me dizendo, daquele jeito silencioso dele, não precisávamos de palavras para nos comunicar. — Ao meu sinal, corram. — Não! – Aina protestou, a encarei. -Não irei deixá-la aqui. Fiquei rígida, seus lábios não se moveram, mas as últimas palavras chegaram a mim como um sussurro ao vento. O que foi isso? Balancei a cabeça confusa. -Não consigo me controlar, preciso que estejam longe quando usar meu poder. – Disse entredentes, já sentindo o limiar do descontrole. Ela permaneceu me encarando, sem dar indícios de ceder. – Entendeu? -Não vou a lugar algum, somos uma unidade. Isso significa que não precisa lutar sozinha... -Não iremos, Keira. – Mei completou. Suspirei derrotada e desmontamos dos nossos caelendus, lâminas em punhos, a magia estalando enquanto encarávamos aquelas criaturas profanas em busca de aberturas. -Não ousem morrer. -disse ao avançar contra eles. Não me virei para ver a resposta, não pude. Me preocupei em desviar do primeiro ataque, um dos Snipheirs avançou e Amon o atacou no ar, saltando sobre mim. O barulho abafado de aço contra carne chegou a mim no instante em que me levantava e outro Snipheir me atacava, não conseguia ver como as outras estavam se saindo, escuridão jorrou de mim e jogou o Snipheir para longe, primitivo, descontrolado e enfurecido, aquele poder também era errado, era algo vivo e temperamental. O Snipheir estava ganindo e envolto em sombras intensas e sibilantes, vivas... aquilo era definitivamente algo vivo. E apertei o punho até sentir os ossos dele se quebrando, até sentir o corpo musculoso mole e morto. Não houve comemoração, não quando outro saltou sobre mim latindo ensandecido até que finquei a lâmina em sua boca e meu braço se prendeu nos dentes imundos, a dor me dilacerou e gritei. Ele me chacoalhou e me arremessou longe ao dilacerar meu braço, que queimava de dor quase me levando a inconsciência ao me chocar com uma árvore, o rosnado enfurecido de Amon me manteve em alerta, me levantei atordoada, o sangue escorrendo pelo braço rasgado e destruído. Amon estava ocupado com o maior deles, o Snipheir que ataquei caminhava até mim, rosnando e babando com a lâmina ainda brilhando em sua boca, sedento por sangue. E quando aquele poder pulsou fazendo minha cabeça queimar e pressionando meus ouvidos, me preparei respirando com dificuldade, então, ele surgiu, dourado e feroz. Ibrahim. Ele golpeou o Snipheir com ferocidade, fez uma finta e girou, golpeou duas vezes o afastando de mim, não... Ele não estava o afastando de mim, percebi, estava levando a criatura para perto de uma moita, o leão espreitava atrás dela e saltou fincando as garras no flanco do Snipheir, sua mandíbula o abocanhou, com um pulsar de magia o príncipe cegou a todos com uma luz ofuscante, protegi os olhos, mas fiquei momentaneamente desorientada, as sombras sibilaram antes de sumir, o barulho do aço contra osso foi o que denunciou o golpe, quando a luz se apagou o Snipheir jazia morto com a espada imensa fincada em seu crânio. -Sabia que eram imprudentes, mas não ao ponto de arriscarem um passeio noturno na floresta. – Comentou me encarando. Notei o silêncio e vi minhas amigas caírem de b***a no chão ao matarem o último Snipheir, Aina estava ofegante e com a perna ensanguentada, Mei tinha um corte no rosto e segurou o braço com uma careta de dor, os Caelendus estavam bem, apesar de terem ambos, cortes nas patas e Lana exibia um arranhão profundo na lateral do corpo. Eu quase as matei. -Tem ideia do que fez? – Ele perguntou rispidamente, e ia responder que sim, mas percebi que era Aina que ele encarava com desprezo. – Você é estúpida? -Não fale assim com ela. – Protestei e ele me encarou, sua expressão não se suavizou, ele franziu o nariz, com certeza estava furioso. -Sir Arnold está vindo. – Disse e estremeci. -Avisou ele? – Aina questionou irritada ao se levantar. -Como acha que enfrentaríamos um bando de meia dúzia de Snipheirs? Acharam que eram apenas esses cinco? – Ele não esperou por nossa resposta. - Sir Arnold, está enfrentando o resto a poucos quilômetros daqui. Agradeçam a Anika, se ela não tivesse me avisado que saíram, não chegaria a tempo. -Ficaríamos bem. – Grunhi para evitar um gemido de dor, ele encarou meu braço com um sorriso arrogante. -É, estou vendo. -Ignorei o impulso de despedaçá-lo, Amon se aproximou, farejou o ferimento e grunhiu. -Tem que tratar isso, e logo. –disse irritado, pelo menos ele estava falando. - Quem é Anika? – Perguntei ao me apoiar nele para me levantar. - A segunda princesa de Hibaernis. – Aina esclareceu ao se aproximar e rasgar a capa para garrotear meu braço, urrei de dor quando ela amarrou o tecido. -Ratinha dedo-duro. – Comentei amargurada. - Ela salvou sua vida. – Uma voz fria declarou. Não precisei me virar para ver quem era, imponente, ele surgiu entre as árvores, a armadura prateada brilhando, a capa cinza imaculada, sem nenhuma gota de sangue ou grão de poeira, a espada já embainhada e furioso como apenas o próprio d***o estaria, caso jogassem água no inferno. – O que estava pensando, Keira? Mesmo Amondiel se encolheu com aquele tom, não protestei quando ele se transformou em Homine e me segurou. -Estava curiosa. – Respondi inabalável e não poupei insolência. Amon apertou meu braço ileso, o encarei com raiva e ele rebateu meu olhar na mesma intensidade, Cale a boca. Era o que seus olhos irados diziam. -Curiosa? – Sir Arnold repetiu com frieza, como se ponderasse sobre aquilo. – Sua curiosidade... – Disse com desprezo. - Quase fez com que fosse morta, e não apenas você, suas amigas também! Tem alguma noção do perigo em que se meteram?! Ninguém falou, sentia aquela raiva se agitar dentro de mim como uma b***a acuada. -Não teria acontecido se tivessem me dito o que queria saber. – Rebati, maldita boca incontrolável, Sir Arnold se aproximou e me encarou. -Há um motivo para o silêncio... – Começou e explodi. -Não me interessa! -Vociferei e ignorei a pontada de dor nauseante no braço. – É a minha vida, que direito tem de me negar isso, seja você ou a diretora? -Ela é sua tutora. E eu... sou sua família, seu tio. Ri, ri com escárnio ao ouvir aquilo. Meu tio? Que desgraça... que hora oportuna para se revelar. -E onde estava, tio... quando Béllenian atacou Caelestis? Ou quando o príncipe me aparou entre as pernas de minha mãe e a matou em seguida? Hm? Suponho que como cavaleiro Imperial, deva ter alguns deveres, então, onde estava qualquer um de vocês quando meu reino caiu e levaram meu pai para a morte? Ele ficou pálido, mas não respondeu. O silêncio caiu entre nós, a única coisa que me lembrou onde estávamos foi o aperto caloroso de Amon em meus ombros. -Não fale comigo desse modo paternalista, não tem o direito de me recriminar, não quando escolheu me manter na ignorância a respeito de nosso parentesco e sobre todo o resto, não tem esse direito! – Esbravejei, ele se empertigou. -Posso não ter o direito, mas é meu dever. E está em detenção, por mais um mês aos cuidados de Ibrahim. E isso vale apenas para você, e é apenas a minha sentença, ainda irá enfrentar a Sra. Alekseeva. Chiei irritada, ele me deu as costas, aquele era o fim da conversa. Amon apertou meu ombro, dessa vez me mantive em silêncio com esforço. - Vamos para o castelo, ajude-a Ibrahim. O príncipe fez menção de me carregar e afastei sua mão com uma tapa estridente. - Consigo andar. -Coisinha ingrata... irei me divertir durante a detenção. – Disse e um sorriso m*****o ganhou vida em seus lábios. Franzi o nariz e me aproximei, queria rasgar sua maldita garganta. -Cuidado... não tenho medo de você. -Então terei de me esforçar mais. – Disse suavemente, sua voz era como um ronronar preguiçoso e continuei encarando-o, até que Amon pigarreou e notei que apenas nós estávamos na clareira, os demais seguiam Sir Arnold em direção a escola. Comecei a caminhar e o deixei para trás, ao sair da clareira dei de cara com Aina, ela estava parada esperando por nós e quando olhou de mim para o irmão, seu semblante ficou subitamente carregado e ela voltou a caminhar atrás de Mei, e essa agora? Amon franziu o cenho, intrigado com a atitude dela e depois deu de ombros ao me dar o braço para me apoiar. -Deveria aceitar minha ajuda, não mordo. – Me virei para encarar o príncipe e ele sorriu, um sorriso brilhante, arrogante e principesco. Revirei os olhos. Cretino prepotente. -Li sobre caras como você. -Não há “caras” como eu. O encarei com a expressão mais entediada que consegui fazer. - Há sempre caras como você, a academia está repleta deles, e é o líder. Ele me mostrou um sorriso feroz e atrevido que me fez querer socá-lo até que engolisse os dentes e sufocasse com a língua. -Estou curioso, me diga, o que pensa de caras como eu? Supondo claro, que tais criaturas existam, de fato. -O típico principezinho, que tem uma penca de admiradores ao seu redor. – zombei, enquanto caminhávamos em direção ao portão da academia, que já estava próximo. - De repente, chega uma garota que não desfalece com sua beleza celestial e você vê a oportunidade de sair de sua rotina repleta de bajuladores. - Me apressei em apertar o braço ao sentir uma fisgada no ferimento, Amon me agarrou e assenti positivamente para tranquilizá-lo. -Hm, então acha a minha beleza celestial? -Apenas o encarei indiferentemente, mas senti minhas orelhas quentes. - Não serei sua diversão, principezinho. Ele parou e semicerrou os olhos ao tombar levemente a cabeça para me observar, fiz o mesmo gesto, ele era muito mais alto, uns bons 20 centímetros, ignorei o fato de que estava perto o suficiente para que sentisse sua respiração quente. Sentia os olhares em cima de nós, provavelmente estavam se perguntando se teriam que apartar uma briga antes de chegarmos à enfermaria. -Sim, você será… - Ele se inclinou perigosamente e prendi a respiração, nossos lábios quase se tocaram. - E acabou de deixar tudo mais interessante, princesa. Disse presunçosamente e continuou caminhando como se tivesse conquistado uma vitória, o que me deixou completamente irritada e querendo dilacerar gargantas. Amondiel Ainda com os ouvidos zunindo com a repreensão de Sir Arnold, fui para a enfermaria. Precisava ficar perto dela, sabia que estava bem e se recuperando, mas precisava ficar por perto. Parei abruptamente ao ouvir vozes alteradas no corredor, meus instintos pediram por cautela, me escondi atrás de uma parede nas sombras para ouvir mais. -Está tensa, irmã. –O príncipe disse sorrindo encostado na porta da enfermaria. - Parece que a princesa de Caelestis lhe é preciosa. - Não se meta com ela. – A princesa grunhiu e cerrou os dentes, ele se posicionou à frente da fêmea, altivo e imponente, uma postura ameaçadora, a que se usa quando está prestes a entrar em uma luta, e não para falar com a irmã, ele ainda estava com a espada e não havia tirado a armadura, ele ficou esse tempo todo aqui? Estava interessado em minha senhorita, estava claro agora. Os olhares, as brigas, toda aquela hostilidade entre os dois, como não percebi? -Você já tem muito, não se cansa de tomar tudo? - Perguntou incisivamente, cada palavra com a intenção de cortar e magoar. – Deixe-a, irá apenas arruiná-la. O’Donnell é fria como gelo, e duvido que terá sucesso de qualquer forma. Sorri, pobre Ibrahim… ele não sabia quem era minha senhorita, ainda não viu o que espreita sob a pele dela, o que está sob a camada de gelo em seu coração. Estava tentado a deixá-lo prosseguir, apenas para ver seu fracasso. Mas me surpreendi ao sentir a ira palpável da princesa. -Ela jamais será sua. –disse com desprezo. A Princesa de Solarian se aproximou ameaçadoramente mostrando os dentes, tão perto do pescoço do príncipe que poderia dilacerá-lo com um simples movimento. - É você quem irá arruiná-la, com seu egocentrismo e sua submissão ao reino, guarde minhas palavras irmão, se ousar magoá-la, o matarei e o transformarei em retalhos de carne, sem ao menos me lembrar que um dia dividimos o útero de nossa mãe. O Príncipe não se intimidou, apenas emitiu um rosnado c***l e se curvou sobre a irmã. Ela empalideceu. -Se a colocar em perigo novamente... Aina… - Ele levou a mão a espada e grunhiu. – É melhor que não faça isso. -Você... - Sussurrou horrorizada. – Gosta dela? – Perguntou assombrada. -O aviso está dado. Disse friamente e saiu pelo corredor ignorando a pergunta. Ignorando tudo, como se ele não tivesse acabado de ameaçar a própria irmã e herdeira do trono, tudo de uma só vez. Pelo fogo sagrado, o que acabou de acontecer? Esperei até que a princesa se afastasse, depois entrei silenciosamente na enfermaria, fui para o leito onde minha senhorita dormia com o braço já enfaixado e curado, os ossos precisariam de mais tempo para se recuperarem, mas haviam preenchido a carne que faltava com magia. Me aproximei e escorreguei para sua cama, me deitando ao seu lado, sabendo que agora, ela precisava desse tipo de contato. Não de Amondiel o lobo, mas de Amondiel o homine. -Você sabia? – Perguntou quando a abracei, ela se virou para me encarar, olhos azuis nebulosos que buscavam uma resposta, um conforto. -Não. – Respondi baixinho ao afastar uma mecha prateada do seu rosto. – Não sabia, por que nunca me perguntou sobre isso? -Em parte, porque temia que soubesse mais que eu, e também, porque caso soubesse, ficaria com raiva por esconder de mim e não queria ficar com raiva de você. -É um motivo t**o. – Comentei e ela fez um bico engraçado. – Mas compreendo sua atitude, isso não abalaria nossa relação, faz parte do nosso crescimento e entendimento. Jamais deixarei de segui-la e protegê-la, mesmo que me odeie e me repudie, sempre irei protegê-la, mesmo que seja nas sombras e jamais faria algo conscientemente para magoá-la. Ela piscou, apenas um sinal de que continuava me ouvindo e prestando atenção, ela abriu a boca e me apressei em responder. -Não, não sei qual a profecia sobre você. O que quer que seja, não me foi dito, esconderam de mim também. -O que sabe? – Ela perguntou ao se ajeitar na cama, e ficou me encarando. – Sobre o que aconteceu, no dia que nascemos? E como sabe tanto sobre outras coisas? Me deitei de barriga para cima e fitei o teto branco ao colocar as mãos atrás da cabeça. -Durante o nascimento, há um ritual para receber uma Maenad, os nascimentos são raros. Quando isso acontece, no dia do parto é aberto um portal, entre os reinos, para que Maenad e Caelendus venham ao mundo lado a lado, é um rito repleto de magia e dizem que é incrível, tudo é feito instintivamente. Pigarreei para limpar a garganta. - Naquela noite, quando o portal foi aberto, ambas as nossas mães deram à luz juntas. E nossos reinos, estavam sendo atacados ao mesmo tempo. -Como sabe? -Sou da realeza, todos os caelendus nascem com algum conhecimento, mas apenas sobre coisas mundanas, para que o ajudem a crescer e evoluir. Sei sobre outras coisas por causa da pedra de Oduím. -O quê, do quê? -É uma pedra poderosa, é possível se comunicar através dela, e guardar memórias. Cada reino possui uma, foram dadas oito pedras, uma para cada reino. -Pensei que inicialmente fossem sete reinos? -Não, Líber foi considerada um reino séculos depois da divisão do território, mas meu reino foi varrido da face da terra naquela noite, poucos conseguiram fugir, da família real... apenas eu escapei e fui levado para aquela cabana na floresta, junto com a pedra herdada por Líber. -Quem o salvou? -Não sei. Tudo que aprendi foi vendo as memórias da pedra. Mas não havia nenhuma informação sobre isso. -Você sabia, sobre as circunstâncias da morte de minha mãe? -Não, pensei que o próprio senhor das sombras a havia matado. Sinto muito. -Você ouviu o que a Arantha disse. – Não era uma pergunta. -Ouvi cada palavra. - O que pensa disso? Sobre o que ela disse de mim? -Acho que ainda não vimos nada de seus poderes, senhorita. - Em que sentido? -Cada herdeiro, tem como herança o poder da linhagem... das primeiras Maenads. Minha senhorita, deveria herdar os dons de Brighid, acredito que por isso foi nomeada com esse nome. A encarei com cautela, ela parecia saber que devia esperar pelo que viria a seguir, mas achei melhor que fosse eu a dizer isso. -Mas não possui apenas o dom de Brighid. O fogo pode ser parte do poder de Bellenían, mas as sombras... não conheço esse poder. O que elas sussurram para você? -Como é? -As sombras, elas vivem sussurrando, o que dizem? -Bem... nunca ouvi nada delas, eu acho. Você as ouve? -Sim, ouvi na nossa primeira noite aqui. Sempre as escuto quando elas aparecem. -ela empalideceu e me encarou atônita. - Nunca ouvi falar que os demais reinos herdaram algo assim. Nem vamos falar da transfiguração parcial em forma de lobo, e... parece ser Legaere. Consegue ler meus pensamentos, não é? -É meu Caelendus, isso não é normal? -Sim, seria. Se fossem apenas os meus, mas parece ler o de outros também. Os da princesa de Solarian, talvez? – Blefei erguendo a sobrancelha, ela abriu a boca por diversas vezes, depois ficou boquiaberta quando a compreensão a atingiu. -Você tem medo? – Sussurrou baixando a cabeça, a ergui novamente para que me olhasse enquanto ouvia minha resposta. -Não tenho medo de você, apenas do que pode acontecer se continuar reprimindo, sei que, constantemente tem tentado reprimir, sinto o poder transbordando, pressionando para sair e minha senhorita não permite essa vazão. -Não sei como, é muito... não sei se consigo, Amon. -Estou aqui, sempre estarei. Mas reprimir, trancar... – Balancei a cabeça. – Isso não é solução. -Não sei o que fazer com isso. -Por isso está aqui, para aprender. Mas se quer saber, acho que precisará de aulas extras. Inicialmente, todos os herdeiros conseguem se transfigurar, mas isso leva tempo e treino, e fez isso apenas por instinto, o que quer tenha recebido... foi em quantidade maior que os outros. Muito maior. -Estou com medo. – Admitiu. -Seria uma tola se não estivesse. Ela bufou e se deitou encarando o teto. Um silêncio confortável se estendeu, resolvi contar tudo que sabia, mesmo que ela não tenha perguntado. -Fale de uma vez, o que é? -resmungou impaciente. -Isso é muito invasivo. -Está praticamente gritando as palavras. Praguejei, ignorei sua repreensão e suspirei exasperado enquanto ela resmungava sobre o quanto isso era desrespeitoso. - A rainha de Béllenian, ela era irmã gêmea de seu pai. Ela se calou, fechou os olhos momentaneamente e engoliu em seco, prossegui. -Isso explica o fogo, o fato de ser Legaere, a forma de lobo... Keira continuou encarando o teto, apenas seu corpo estava presente. -Isso quer dizer... -Não, mas apenas porque o herdeiro de Béllenian não era filho biológico de sua tia, ele não era seu primo de sangue. -Mas... -Ele era filho da Sra. Alekseeva. -O quê? -Dizem que o senhor das sombras o matou naquela noite. Ninguém sabe o motivo, alguns dizem que ficou furioso porque o filho levou o bebê e a mãe mortos. Agora, sabemos que isso era besteira, pelo menos, no que diz respeito a criança. -Isso é estranho, por que ele o mataria? Caelestis havia caído, a família real estava morta e destruída, não havia motivo para matá-lo. -A não ser que soubesse que aquele bebê morto não era a herdeira do trono. - Não, tem algo mais aí. A Arantha disse que sangue foi derramado aquela noite, em Béllenian e Caelestis, disse que minha mãe alterou os acontecimentos para que tudo fluísse de acordo com sua visão. - O que ela disse exatamente sobre a visão de sua mãe? Não ouvi essa parte. -Disse que ela viu, fogo. “Fogo e escuridão, sangue e cinzas... Uma luz na escuridão, um lobo n***o e um dragão. Duas bestas selvagens unidas por um propósito, duas criaturas iguais e tão diferentes, uma balança que equilibra ambos, vida e morte, salvação e devastação, unidos e reunidos por um golpe do destino.” Escolha de palavras peculiares. Não era coincidência... me empertiguei ao encarar o teto, como se montasse um quebra-cabeças. -Amon? Fogo e escuridão? O poder de minha senhorita, poderia ser isso? Sangue e cinzas, ela pode matar e queimar, mas um herdeiro de Béllenian também pode. Um lobo n***o e um dragão... só há um lobo n***o atualmente e o dragão... um dragão? Um dragão não é visto há séculos o último foi... por todos os demônios. Pulei da cama. -Amon! – Chamou alarmada. Ignorei-a, “Duas bestas selvagens, unidas e reunidas por um golpe do destino.” Golpe do destino, golpe do destino... por que essa expressão? Parei. Me virei para Keira, ela me encarou confusa. -Golpe do destino... -Sim, foi isso que a Arantha disse. -Não, é como chamam a queda de Caelestis, um golpe do destino pela prosperidade e riqueza, muitos tinham inveja do reino pois era poderoso. Os fanáticos acreditam que a grandeza do reino incomodou os Deuses e sua queda foi... -Um golpe do destino. - Murmurou pálida. - E o dragão? -Só houve uma linhagem que herdou poder dos dragões. A linhagem de Eoghan, a linhagem a qual pertencia o senhor das sombras e seu filho. Keira se sentou ereta, pálida como a morte. -Ambos tinham dragões como Caelendus. – Esclareci ao encará-la. -O que isso significa? -Significa que, sua vida está ligada a um daqueles dois, talvez sejam os dois. Não sei dizer, é tudo incerto. - Se o filho dele está realmente morto, então, só resta o senhor das sombras. -Ela disse algo mais? -Quando estava saindo, ela disse que eu o encontraria, encontraria o dragão, pediu que olhasse duas vezes pois, as aparências enganam... -Quais as palavras, exatamente? -“Nem tudo que é, é. Mas tudo o que foi, pode ser disfarçado e transformado, olhe além das aparências.” -Não faz sentido. - Qual parte? -Tudo, nada faz sentido, o herdeiro de Béllenian está morto. O senhor das sombras está aprisionado, junto ao seu caelendus. Não pode sair, e a última frase, remete a alguém disfarçado, alguém que não é o que aparenta, mas que disfarçou e transformou seu verdadeiro “eu.” - Pelos deuses, você é bom demais nisso. Eu não havia entendido nada. -A senhorita sabe pouco sobre si, e sobre o resto. Por isso não juntou as peças. -Mas ainda assim... e se houver uma chance de ele ser solto? Temos de evitar isso. -Bem, deveríamos falar com a diretora. – Sugeri e ela fez uma careta. - Acabei de receber um bocado de punições, por que deveria procurá-la? -Porque foi ela quem derrotou e prendeu o senhor das sombras, deve ser avisada sobre isso. -Mentira. -Eu não minto. – Protestei e ela ficou vermelha, mas não de vergonha e sim de raiva, que os deuses me poupem. -Vamos. -Agora? Ela me empurrou e jogou as pernas para fora da cama ao mesmo tempo em que puxava um robe. -Imediatamente!
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