Capítulo 9

5000 Words
Keira  Era engraçado ver como a magia funcionava em Everness, talvez não fosse completamente engraçado, e sim, curioso. Digo isso, pois a novidade a qual fui exposta na semana seguinte ao meu encontro com os Snipheirs, fez-me rir em alguns momentos, mas também deixou-me a beira das lágrimas uma ou duas vezes. Existia um sintoma que afligia Maenads que viajavam por muito tempo fora do véu, ele se chamava sinal de Velamen, é como se fosse um jet lag mágico, ou seja, o meu corpo estava literalmente com um delay-mágico. Ele ainda estava se adaptando a sua condição natural de recipiente de magia e descobri que eu nunca me conhecera de verdade, nem um pouco. Amon já me havia prevenido de que eu ainda estava sob influência e proteção do véu e que gradualmente esse manto de proteção iria se extinguir naturalmente, até se exaurir completamente e só aí, poderíamos ter uma total ciência dos meus poderes. Estava preparada para tudo, menos para o que encarei em frente ao espelho. Havia procurado a Sra. Alekseeva, de modo a explanar e esclarecer as minhas dúvidas a respeito do que Amon e eu havíamos discutido, porém, foi-me dito que ela havia se ausentado da escola e ido a uma conferência muito importante e não havia uma estimativa para seu retorno, furiosa, voltei ao dormitório com intenção de evitar a aula de prática de feitiços, mas congelei assim que passei pela porta e vi-me diante de um espelho de corpo inteiro. Vi um vulto no meu encalço, e, devagar, um frio congelou as minhas entranhas, recuei alguns passos para olhar no espelho, e empalideci ao notar que não era um vulto, eram sombras. Não havia luz suficiente no quarto para gerar aquelas sombras e elas estavam ao meu redor, como se o meu corpo estivesse mergulhado numa áurea obscura, pior que isso, parecia que o meu corpo emanava aquilo, estava coberta de fumaça escura dos pés a cabeça, o meu sangue gelou ao vê-las movendo-se no meu entorno. Sombras esvoaçantes, elas pareciam borboletas de fumaça que se espiralavam e se enroscavam em mim, numa dança animada e graciosa, risinhos chegaram aos meus ouvidos e fiquei lívida ao perceber que vinham das sombras. — Que p***a é essa? — Sussurrei completamente atordoada, tentando acertá-las para que se afastassem de mim, elas riam e enroscaram-se em mim, esvoaçando os meus cabelos, mas apenas para se aproximaram do meu ouvido. — Somos amigas. Esqueceu de nós? — Não me lembro de ter amizade alguma com sombras irritantes. — Amigas do sótão, na solidão escura... E ali eu permaneci, como se os meus pés tivessem se enraizado no chão, estava pálida e coberta de sombras, em frente ao espelho de corpo inteiro, em choque. Sempre acreditei que quando se olha por muito tempo para escuridão, algo lhe encara de volta. Nunca tive medo dessa constatação, ao contrário, era ela que me mantinha firme nos dias muito ruins, quando a solidão daquele sótão ameaçava engolir-me, quando a minha própria insignificância ameaçava esganar-me e drenar todo o ar dos meus pulmões, era no doce abraço da escuridão que eu me aconchegava, uma criança amaldiçoada e renegada e ter a certeza anos depois que nunca estive realmente sozinha... isso fez o meu coração vacilar, essa certeza estava quase explodindo a minha cabeça. — Eu não estava sozinha… — Não, nunca. Guardamos seu corpo, seu sono... Desde que a senhora das sombras nasceu, sempre estivemos juntas... sempre. Lágrimas desceram por minhas bochechas, eu não estava só... — Obrigada. — Proferi numa voz rouca, porém esganiçada. Sentei-me em frente ao espelho, admirando, conhecendo a minha nova versão, e tentando processar a vastidão do que esse novo eu significava, o total impacto da minha existência, o meu corpo sacudiu como se uma corrente elétrica o tivesse percorrido, como se uma descarga de energia tivesse sido injetada diretamente nas minhas veias, ondas e mais ondas me banhavam, mais e mais, era magia, aquilo tudo era minha magia... o meu poder. E eu gostava dele, gostava muito. (...) Se eu já era maldita, profana e obscura antes, devo dizer que ao ver o meu novo visual, a escola tremeu nos mais profundos alicerces, e não havia mais desprezo nos olhos alheios, a escola inteira exalava medo, isso era nítido no cheiro de cada uma das Maenads que cruzavam comigo, eu era evitada como uma praga nos corredores E isso começou a despertar um gosto agridoce de satisfação e orgulho em mim, o desconhecido gerava medo, mesmo numa sociedade repleta de seres superiores, mesmo aqui, a ignorância levava a melhor. E para o azar de todos, não poderia dizer sinceramente que estavam errados em temer. As aglomerações se abriam para mim, Mei e Aina olhavam-me vez por outra e pareciam preocupadas em como eu reagiria aquilo, mas eu estava bem. De verdade. Aina estava distante, muito. Por vezes havia sondado a solariana em busca de respostas para seu comportamento, mas ela sempre fora evasiva e se tem uma coisa que aprendi, foi a não comprar briga com um silêncio deliberado, ela não queria conversar e não a forçaria a falar, ela me diria quando estivesse pronta, ou não. Em silêncio nos encaminhamos para fora do castelo, iríamos procurar e catalogar ervas medicinais, mas não fomos a única turma a ter a excelente ideia de ter uma aula em campo, em uma amena manhã de outono. (...) Havia algo peculiarmente excitante em observar vários machos, lindos e atléticos num combate corpo a corpo. Achara belíssimo um combate de espadachins, era fascinada por histórias medievais, principalmente nas batalhas envolvidas no tema, mas devo admitir. Ver os machos sem camisa, os seus músculos ressaltados e liberando toda aquela agressividade viril que a maior parte do tempo estava reprimida… ah! Era uma imagem impagável. E agora, tinha uma vaga noção do que Amondiel quis dizer, éramos todos bestas contidas em uma fina camada de pele, o convívio em sociedade nos obrigava a reprimir o nosso eu bestial, mas aqui, em meio a grama, os machos haviam deixado de fingir. Nem mesmo as minhas colegas de quarto conseguiam disfarçar a admiração sobre aquele bando de criaturas vigorosas, não tinha uma só fêmea que não tivesse parado de apreciar as ervas no campo oposto, elas haviam até mesmo esquecido a minha presença enquanto babavam em cima dos rapazes, a professora Macduff com certeza deve ter se arrependido de realizar uma aula em campo durante o treino dos cavaleiros. Mesmo Keira O’Donnell não estava imune a tal estímulo, era impossível não se afetar, o lado animalesco deles despertava os instintos mais primitivos em qualquer fêmea. Mas havia um par de machos em particular que me chamavam a atenção mais do que os outros, um deles era meu parceiro nas aulas de combate direto, meu belo e atrevido cavaleiro em formação. Liam. O outro, era o líder destemido dos Cavaleiros Imperiais, o comandante da legião de guardiões do Sol e irmão da minha amiga emburrada, Ibrahim... Também conhecido como o meu detentor e pior inimigo. O convívio com Ibrahim havia piorado drasticamente desde o incidente na floresta, ele estava mais atrevido e maliciosamente mais sarcástico, o reflexo do sol no cabelo avermelhado de Liam fez-me piscar, ele tinha uma beleza exótica, leve e descontraída e que não deixava nada a desejar. Era muito atraente. — Gostaria de praticar combate corpo a corpo com eles. Parei a minha pena com a fala de Mei e o queixo de Aina praticamente caiu no chão. — Não com um, mas com eles? — Perguntou a solariana, perplexa. — Isso mesmo, “eles.” Não deixaria escapar nenhum. — A princesa Kalaediana se espreguiçou e voltou a sentar-se em posição de lótus. -Que o fogo sagrado me asse no espeto. Aina praguejou ao ver o semblante tranquilo de Mei enquanto observava lascivamente os aspirantes a cavaleiros, ela estava surpreendentemente corada. Comecei a observar os machos com mais atenção, ambas estávamos à sombra de um velho salgueiro compilando algumas informações sobre as ervas que vimos hoje. Suspirei, não seria eu a recriminar os pensamentos de Mei, que moral tinha quando comia Ibrahim e Liam com os olhos, rezando para que eles não percebessem o quanto desejava rolar na grama com eles, ou talvez substituindo um deles? Não, a imagem de mim entre os dois, era infinitamente melhor. Estremeci ao notar a direção dos meus pensamentos, e como se Aina tivesse conexão direta com eles, ela explodiu. — Mas o que diabos aconteceu com vocês?! — ela esbravejou e tanto Mei quanto eu, a encaramos, ambas surpresas com o surto. — Nenhum deles é adequado para vocês, eles serão oficiais do Império. Não devem cobiçar algo que não podem ter. A insígnia ainda não apareceu, em nenhuma de nós... — Franzi o cenho, confusa, e Mei abaixou a cabeça envergonhada, Aina suspirou. Percebi que estava consternada com o próprio destempero. — Somos princesas, pior, somos princesas herdeiras dos nossos reinos, nossos casamentos serão importantes, não podemos envolver-nos com um reles aprendiz e não estão olhando para eles como se quisessem montá-los e nada mais. Isso não pode acontecer, entenderam? Não era uma pergunta retórica, seus olhos límpidos exigiam uma resposta que nenhuma de nós deu, queria ter olhado mais atentamente para ver quem Mei observava, mas Aina olhava especificamente para mim e quando abri a boca para perguntar se tinha algo no meu rosto, ela interrompeu-me. — Com você é ainda pior, está destinada a ser a mais poderosa de nós, sei que será aquela a nos guiar para uma era de ouro. — Ela suspirou antes de continuar e focou a sua atenção em Ibrahim. — Sir Arnold… ele não deixará que se case com qualquer um, não seja tola e se apaixone prematuramente, tem de deixar o seu coração livre e esperar até a Insígnia aparecer. Voltei a observar o irmão dela, com certeza Aina viu a cobiça nos meus olhos, pois continuou a pregar os seus sermões, gostaria de dizer que ouvi um terço do que ela disse, mas isso seria uma mentira, mas quando voltei a encará-la vi uma ordem explícita nos seus olhos. — Não se envolva com ele, não virá nada de bom disso. Ela murmurou de forma sombria e continuei a encará-la, as sombras sibilaram ao meu redor, mas seu rosto permanecia sombrio, frio e rígido, algo havia acontecido entre eles, sabia que não eram próximos, mas não queria ser inconveniente perguntando os pormenores, mas o aviso dela deu-me a brecha que precisava. — Julga que sou inferior? — queria não soar tão magoada com a ideia, mas foi inevitável, ela levantou-se e sacudiu a grama da saia e olhou-me um pouco mais complacente. - Não. Você que é simplesmente inalcançável. Por isso, apenas o ego de Ibrahim seria alimentado com essa união. — E como um raio, ela se foi após pegar os livros com um único movimento. — Não pense demais sobre isso, Keira. - Mei chamou a minha atenção ao recolher os cadernos. — Os dois tiveram uma criação difícil, a mãe deles é uma víbora sem coração e só enxerga Aina á sua frente... — ela suspirou pesadamente. — Não que isso seja bom para ela. Ela olhou na direção em que Ibrahim e Liam rolavam por uma parte lamacenta do campo em uma disputa árdua de combate corpo a corpo, sem nenhuma técnica, apenas dois machos extravasando o excesso de energia. — Mas ele age diferente perto de você. __Diferente? Refere-se as piadas de mau gosto e os olhares assassinos? __Não seja dramática. — Ele me olha como se quisesse comer o meu fígado. — Não faz m*l deixar essa rixa de vocês de lado e conhecê-lo melhor, se é importante. — Não sei do que está falando. — respondi secamente, isso não era importante. Não seria o cliché da garota que se apaixona pelo cara bonitão que faz bullying com ela, eu não era um cliché, em nenhum ponto de vista, uma antagonista talvez... Ela suspirou ao se levantar e ofereceu-me a mão. — De qualquer forma, se ele fizer algo a você, irei garantir que o seu corpo e a sua cabeça sigam caminhos distintos. Ela mostrou-me um sorriso de gelar o sangue, soube que não era uma ameaça vazia, não vinda de Mei, ela era habilidosa demais com Katanas para blefar. — Vamos logo, estou louca para comer pudim de arroz. — Disse animada e mostrou-me um raro sorriso que exibia todos os seus dentes perfeitos, segurei na sua mão, fomos correndo em direção ao castelo tentando alcançar os passos firmes de Aina. (...) Era raro quando me sentia intimidada, mas devo confessar. Sir Arnold deixava-me inquieta, aquela aura gelada ao seu redor deixava-me nervosa além da conta, mesmo com as sombras me tranquilizando era difícil aturar aquela presença sem se empertigar, acredito que a única que não ficava intimidada com ele era a Sra. Alekseeva. — Não respondeu os meus bilhetes e recusou as minhas visitas. Ainda está zangada? O encarei, ele serviu Amon em uma tigela com um enorme bife sangrento e suculento, p****e vendido. Encarei o lobo e pude jurar que ele revirou os olhos, às vezes esquecia-me que ele não era uma pessoa de verdade e apenas assumia a forma de uma, não podia culpá-lo por suas raízes lupinas, mas seu ardil fora realmente traiçoeiro, atrair-me para a floresta com a desculpa de encontrar-me com a Sra. Alekseeva, apenas para ser capturada pelas garras imensas de Félix, quanta canalhice. A sala dele era aconchegante e bem mobiliada, para alguém tão rígido, imaginava espaços abertos com uma vibe meio clean. Ele sentou-se e serviu-se de uma xícara, Félix estava empoleirado perto da janela e não quis olhar ao redor. Talvez fosse porque eu estivesse a fulmina-lo com o olhar, os meus ombros ainda estavam doloridos por causa de seu agarre. — Félix só cumpriu ordens, tente não queimar o meu pássaro. __O quê? -perguntei bruscamente, ele ergueu as sobrancelhas. — As suas mãos, estão queimando.- atordoada, levantei-me e ergui as mãos. Chamas negras bruxuleavam de ambas, as pontas dos meus dedos estavam cobertas em tons que variavam entre um negrume brilhante e preto esfumado, era lindo. -Acalme-se. — pediu, pisquei, ao sair do transe. Amon ficou tenso e encarou-me, fechei os olhos, imaginei aquele poder se apagando, como se fosse um fogão desligando, boca a boca, girando lentamente cada chave, e eram tantas... tantas chaves a fechar. — Você conseguiu. — Disse orgulhosamente, mas aquilo deixou-me feliz e com raiva. Meu poder era lindo, intenso, perigoso e o meu temperamento volúvel não ajudava. — Odeio mentiras. — declarei ao sentar-me, e fingi não notar o suspiro aliviado de Amon que voltou a comer seu precioso bife. — Foi uma omissão. — Um dos muitos nomes da mentira, apenas o mais bonito, mas tem o mesmo significado. — Me servi de chá e soprei o vapor ao recostar-me na poltrona. — Você não é meu parente de sangue, é? -Não. Isso é tão importante assim? — Só um esclarecimento, já que o senhor sempre deixa tudo nebuloso. -Keira… — Diga-me o que aconteceu naquela noite, diga-me o que aconteceu na noite em que nasci. — Direi o que puder, lembra-se do que disse sobre ser cuidadosa com palavras?-assenti em silêncio. — Procure uma brecha, faça perguntas inteligentes. É uma dança, tudo relacionado a magia e acordos pode ser resumido a uma dança. —É uma dica? — Pode chamar assim. -Estou ouvindo. -Antes, precisa saber que cresci com seu pai. Éramos ambos filhos de Béllenian, mas eu era apenas um filho de uma lavadeira do palácio. Conhecemo-nos em um dia comum, quando estava ajudando minha mãe a estender os lençóis, ele surgiu em meio as roupa de camas estendidas, praticamente se mesclando com o tecido, tão branco e pálido, os cabelos longos e prateados esvoaçando, como se ele todo fosse um pedaço da lua. Ele sorriu, eu quase cuspi o chá. Essa criatura já havia sorrido na minha frente? Nunca. — Ele não disse uma palavra, apenas se abaixou com as mãos no cesto e começou a estender os lençóis. Minha mãe ficou horrorizada com a cena. Ele era um príncipe, não deveria sujar as mãos, perguntei o que ele estava fazendo, mas ele não respondeu e quando tentei interrompê-lo, bastou um olhar dele para me convencer de não fazer aquilo, fogo azul queimou naqueles olhos. Então, afastei-me e deixei que fizesse como queria, aquilo repetiu-se por mais de 90 dias, e no nonagésimo primeiro, ele terminou de estender os lençóis, se virou para mim e me estendeu a mão num cumprimento. Ele sorriu mais e eu congelei diante daquilo, a xícara imóvel em cima do meu colo. — Ele disse que havíamos nos tornado amigos e que a partir daquela dia, eu iria treinar para me tornar um cavaleiro e o braço direito dele. — Assim do nada? — Assim, do nada. É claro que fiquei curioso, o príncipe era uma criatura peculiar, perguntei como ele havia chegado aquela conclusão, m*l conversávamos, eu apenas o impedia quando achava necessário, afinal, aquele era o trabalho da minha mãe e se ele fizesse algo errado quem pagaria seria ela, tirando esse momento, sempre permanecíamos em silêncio. -O que ele disse? — Ele disse-me que havia feito aquilo com vários servos e nobres, a maioria o impedia e o bajulava, outros tentavam denunciá-lo a rainha para que ela o impedisse e uns poucos, o ignorava e deixava que ele fizesse tudo errado sem jamais o corrigir. — E o que fez de diferente, para chamar a atenção dele? — O corrigi, ele era um principezinho arrogante e ensinei a maneira correta de se estender lençóis, não era o comportamento correto para se ter com um príncipe, mas eu ainda era um jovem ignorante e ele disse-me que no decorrer do ano, fizera muitas coisas erradas e eu fora o primeiro a interrompê-lo e corrigi-lo. Ele ordenou que deveria aprender a manejar uma espada pois estava destinado a ficar à direita de um soberano e não estendendo lençóis o dia inteiro ou limpando e organizando estábulos. — Isso foi... — fiquei sem palavras, esperava que o meu pai fosse no mínimo arrogante, mas ele era estranhamente amigável, lembrava-me de tio Maxwell. — Ele havia ordenado a construção de um pátio de treino e no dia seguinte, os cavaleiros mais experientes de Béllenian estavam me ensinando a manejar uma espada, a sua tia Maeve estava dentre os aprendizes. -Minha tia? -A gêmea de seu pai. Ela era uma força da natureza, onde o seu pai era frio, ela era quente, onde ele era calmo, ela era agitada. Era uma garota selvagem, destemida e teimosa feito uma mula. -Você a amava. — constatei, ele encarou-me, os olhos amendoados se tornando imensos, conforme se arregalavam. -Como uma garota de 16 anos, consegue afirmar isso com tanta certeza? — Faz ideia da quantidade de romances que já li? — me gabei arqueando a sobrancelha, ele serviu mais chá e Amondiel se deitou no tapete aos meus pés quando terminou de comer seu suborno. -Então, tiveram momentos felizes? — Alguns escassos momentos, mas que foram tudo. Eles são o combustível que me mantém queimando até hoje. — O que houve? -Muitas coisas. Em resumo? -ele suspirou ao pousar a xícara no pires e olhou-me no fundo dos olhos, vi como aquelas emoções tornavam Sir Arnold, mortal. -Ela apaixonou-se e a Insígnia apareceu. -Sinto muito. -Ela era amada, isso deixou-me feliz, por um tempo, mas isso fica para outra hora, sei que as garotas gostam de fantasiar sobre romances trágicos e dramáticos. É aqui Keira, que as perguntas inteligentes começam. -Como assim? — Lhe direi como segui o meu caminho. Me formei com honra como um cavaleiro, mas estava de coração partido e não podia mais permanecer em Béllenian, seu pai, conhecendo bem os meus desgostos deu-me permissão para entrar nos Cavaleiros Imperiais e tornei-me o protetor do leste, sendo assim, separei-me do meu bom amigo quando tinha 120 anos, logo depois ele conheceu a sua mãe em uma visita a Caelestis, fui ao casamento deles e mantínhamos contato, os visitava quando podia e isso era frequente, isso até aquele ano. — O ano em que o senhor das sombras revelou-se e rebelou-se contra o império. — Constatei e ele assentiu. Aina havia falado que o voto de obediência se resumia aos acontecimentos daquela noite, especificamente ao meu nascimento... então, posso perguntar sobre coisas que aconteceram antes. — Descobri que a minha mãe tinha dons. -Ele piscou, surpreso com a minha afirmação. -Ouvi dizer que era uma vidente poderosa, ela sabia que o reino seria atacado? -Sim, até onde sei ela e o seu pai prepararam-se para isso. No entanto, algo deu errado. -Os sete reinos têm um protocolo, um protocolo que foi determinado quando Everness se tornou um Império e aceitaram viver em paz, um sinal luminoso deve ser enviado em casos de ataques e invasões. -engoli em seco, Sir Arnold encarou-me com os olhos castanhos-dourados queimando de ansiedade. – Como estava o céu naquela noite? -Escuro, como se a deusa mãe tivesse ofuscado a lua como um cobertor espesso, foi a noite mais escura do Samhain. Meu coração tremeu, minhas mãos formigaram e fechei os olhos em agonia ao constatar que de fato, o meu reino foi traído, uma fogueira azul deveria queimar do topo da montanha Alphein. Mas não houve fogueira, e se houve, alguém a impediu de ser vista, a pergunta é, como? E quem detém tal poder? Minhas sombras inquietaram-se e todos os olhos da sala voltaram-se para mim. — Fique calma, estamos com você, ninguém a fara m*l. — Não, eu farei m*l a eles. -Foco, Keira. Concentre-se. -Vacilei diante do tom ríspido dele, mas percebi que também estava irritado, ele não havia pensado nisso ainda? -Seu pai era arrogante, mas não ao ponto de arriscar a vida dos súditos em uma batalha sem chances de vitória, ele e a sua mãe eram poderosos, mas ela estava vulnerável devido à gravidez, tenho certeza de que acenderam o sinal. -Então já investigou isso? -Não sobraram muitas evidências para investigar. Quando o resto de Everness soube do ataque, Caelestis já queimava há sete dias. -Sete dias. Sete dias, sem ninguém ver fogo ou fumaça de um reino em chamas? Isso é impossível. -Pode imaginar a minha surpresa ao ser convocado pela Sra., Alekseeva, ela não havia conseguido falar com a sua mãe e ao transirarmos para lá... Só encontramos cinzas. Ele fez uma careta e coçou o braço, bem na parte em que sabia onde estava a marca do voto, aquilo era o máximo que... espera. Consternada, dei-me conta do que ele disse, por sete dias Caelestis queimou antes que o resto de Everness soubesse... o “Resto”, não ele ou Sra. Alekseeva, eles já sabiam. O encarei, ele assentiu minimamente quando notou as minhas suspeitas. Eles sabiam e foram até lá, então apenas a Sra. Alekseeva poderia dizer-me com detalhes o que aconteceu, como Tia Maisie escapou, como eu escapei. -Há algum feitiço capaz de ocultar a fogueira de Brighid? -Não há feitiço com tamanho poder, é impossível. As fogueiras são acesas com a chama do poder de cada uma das sete Maenads superiores, apenas os descendentes diretos delas podem acendê-la e nenhum feitiço consegue apagá-la ou ocultá-la. -Nenhum feitiço, e quanto a magia pura? -ele franziu o cenho ao entender a pergunta, eu não era a criatura mais formidável praticando magia, mas era boa em estudar, e havia lido bastante desde que havia chegado em Malefici, em teoria, eu sabia de muitas coisas. -Então? -Seria necessário muito poder... Keira. Isso é... — Quão poderoso a pessoa deveria ser? -Apenas uma rainha, mesmo assim, ainda poderia ser insuficiente... -Uma rainha e uma herdeira bastariam? -as engrenagens giravam na minha mente, cada vez mais rápido, várias hipóteses se formando... -Uma rainha e uma herdeira? Talvez. O que está insinuando? -Olhei ao redor, os meus olhos pousaram em Félix, a ave tombou a cabeça me encarando profundamente, mas eu olhava além dele, para a janela. – Ele é confiável. — Afirmou e voltei a encarar Sir Arnold. — Não é com ele que me preocupo, sua casa é segura? -Ela está enfeitiçada, se é isso que quer saber. Mas deveria ter questionado isso antes de iniciar essa conversa. -Não importa. -Bufei, minha cabeça latejou com as minhas dúvidas e massageei as temporas, exausta. Amon se aproximou e apoiou a cabeça no meu colo. -Naquela noite a Arantha disse que Caelestis foi traída, que os meus pais foram traídos. -Caelestis mantinha boas relações com todos os outros reinos. -Béllenian nos traiu. -Não foi Béllenian, Keira. Foi o rei deles, o povo era inocente e nada tiveram a ver com isso, monarcas gananciosos levam reinos a ruína, mas não se pode culpar o reino todo. -Houve assassinatos em ambos os reinos. Quem lucraria com a queda do norte e noroeste? Caelestis era próspera e rica em minerais, com o conflito com Béllenian, suponho que muitos lucraram com o declínio de rendimentos do reino. -Acha que outro reino interferiu? -ele questionou, os olhos estreitaram-se e acariciei a cabeça de Amon, tentando conter o meu poder a medida que as sombras tentavam me acalmar. -Sei que alguém lucrou com a queda de ambos os reinos, qual deles se tornou próspero após a queda de Caelestis e não falo da prosperidade em fornecer aço ou grãos, falo de riquezas expressivas, espólios de guerra talvez. -Apenas um reino prosperou tão expressivamente, a que se deve a riqueza deles não se sabe com certeza, mas tornaram-se a nova joia do império. -Qual?- ele hesitou, cerrei os punhos no meu colo e Amondiel levantou a cabeça para encará-lo, a ira fluindo entre nós. -Solarian, a terra natal dos gêmeos Akello. Minha consciência instantaneamente protestou contra aquela possibilidade, Aina era leal, a diretora mesmo mencionara isso brevemente na noite em que brigamos, mas a Sra. Alekseeva estava metida até o pescoço nesse emaranhado de mentiras, ela com os seus milênios de sabedoria deve ter suspeitado que traíram Caelestis, sim, ela com certeza deve ter chegado a essa conclusão. Seria ela, capaz de induzir-me a aproximar-me de Aina com más intenções? O que ela ganharia com isso? A diretora tinha as respostas para as minhas perguntas, ela e apenas ela. Eram perguntas demais e respostas de menos, e como se esperasse uma deixa, uma sensação opressora tomou conta da pequena sala, Amondiel ergueu as orelhas em simultâneo, Félix empertigou-se perto da janela e Sir Arnold sacou a espada sabem os deuses de onde. — Fique atrás de mim, estão quebrando as minhas proteções. -Não consigo sentir ninguém. -Amondiel se aproximou da porta rosnando. -Está ocultando o cheiro e a presença, nem mesmo eu consigo detectar. -Meus pelos se eriçaram ao ver a prontidão de Sir Arnold, imediatamente ele conjurou um escudo ao meu redor e estendeu até Amon, franzi o cenho. — Não podem saber quem vocês são. Um som abafado, uma brisa, neve e terra molhada encheram as minhas narinas, quando uma criatura encapuzada e coberta de neve adentrou o chalé. E reconheci o animal ao seu lado imediatamente. — Precisa melhorar as suas proteções, Arnold. -Elas foram aperfeiçoadas, mas acho que não há proteção que possa detê-la, minha senhora. Não pude evitar a careta quando ela ergueu a cabeça, os seus olhos escuros e penetrantes observavam-me de cima a baixo, como se eu fosse seu jantar. — Senhorita, que surpresa vê-la aqui. -a encarei em silêncio, ela tombou levemente a cabeça e de esguelha vi Ava roçando nas suas pernas, de uma forma parecida com a qual Amon fazia quando queria me acalmar. -Está diferente. -Teria notado se não tivesse se ausentado por uma semana. — comentei acidamente, e Sir Arnold lançou-me um olhar de censura que decidi ignorar. -Ou talvez se tivesse aceitado receber-me. -Está devaneando, senhorita. Não estava ignorando-a, estava ausente. E muito ocupada. -Foi o que disseram, mas a senhora não está vestida como alguém que acabou de encontrar a Grã-mestre. -foquei a minha atenção no grosso manto escuro, as botas de couro forradas com lã, ela estreitou os olhos. — Parece que a senhora aprecia passeios noturnos na floresta... -Ava sibilou e Amon rosnou para ela ignorando uma repreensão severa de Sir Arnold e Félix.- E uma floresta bem distante a julgar pela neve descongelando no seu manto e pelo cheiro da terra. — Não acho que lhe devo satisfações, não deveria estar na cama? — Ela está cumprindo a detenção. -Sir Arnold declarou, mas em nenhum momento ela parou de me encarar. -Quer me dizer algo, srta. O’Donnell? -Sim. -respondi bruscamente. – Para começar, quero que me entregue a pedra de Oduím de Caelestis. Todos ofegaram e olharam-me perplexos, é tão surpreendente assim que eu saiba da pedra? -Como sabe sobre a pedra? -Com todo respeito, isso não é da conta da senhora. -Ela ergueu as sobrancelhas e sorriu ao tirar o capuz e mostrou o rosto. -Muito bem, algo mais? -Sim, quando pretendia revelar-me o seu parentesco com o assassino da minha mãe? Foi como jogar uma bomba silenciosa na sala, não era possível ouvir os passos de uma aranha. Me concentrei em assistir o rosto da diretora ficar mortalmente pálido. — Descobriu tudo isso em uma única conversa com aquela aranha traiçoeira? — Não tenho certeza se é a Aranthanque é traiçoeira. — Murmurei acidamente, Ava encarou-me friamente, os olhos escuros me perfurando a ignorei, sorri maliciosamente e perguntei: -Esclareça-me, foi apenas uma barriga de aluguel ou era uma amante fixa do rei? Esperei por uma bofetada, um feitiço ofensivo, um rosnado, mas ela permaneceu impassível, e gradualmente um sorriso debochado adornou o seu belo rosto. -Do rei? Não criança... -Sua risada rouca ecoou pela sala e o meu sorriso morreu nos lábios. - Era amante e amada por ambos os soberanos, mas a cama onde nos deitávamos, nossas almas e corações, eram da rainha.
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