PRÓLOGO
Tudo o que ficou para trás
O silêncio nunca existia em Atlanty City.
Mesmo durante a madrugada, quando a maioria das janelas permanecia apagada, a cidade continuava respirando. O som distante das sirenes misturava-se ao ronco dos caminhões que cruzavam as avenidas industriais. Helicópteros sobrevoavam os prédios iluminados, letreiros de LED coloriam o céu cinzento e milhares de pessoas ainda caminhavam pelas calçadas como se o dia jamais terminasse.
Atlanty City era conhecida como a cidade das oportunidades.
Mas também era conhecida por destruir aqueles que já não tinham mais nada para oferecer.
Christ Leake observava tudo da janela do pequeno apartamento que, durante dezesseis anos, chamou de lar.
Na rua abaixo, pessoas entravam e saíam dos restaurantes, táxis cortavam o trânsito em alta velocidade e executivos apressados falavam ao telefone sem sequer olhar para quem passava ao lado.
Era estranho perceber que o mundo seguia exatamente igual.
Como se a morte de Adrian não tivesse significado absolutamente nada.
Ela apertou o tecido fino da cortina entre os dedos.
Ainda podia sentir o perfume dele impregnado em alguns móveis da casa.
O relógio de parede marcava sete horas da manhã.
Dentro de poucos minutos, entregaria as chaves daquele apartamento.
Respirou fundo.
— Acabou...
Sua própria voz pareceu estranha naquele ambiente vazio.
Os móveis já não estavam mais ali.
As fotografias haviam sido retiradas.
As estantes permaneciam nuas.
Restavam apenas duas malas, uma mochila e algumas caixas de papelão.
Tudo o que sobrou de uma vida inteira cabia agora em poucos objetos.
Atrás dela, ouviu passos leves.
— Mãe...
Christ virou-se lentamente.
Bene apareceu na porta do antigo quarto.
Mesmo aos quatorze anos, ainda conservava a expressão doce de criança.
Era alto para a idade, magro, tinha os cabelos castanho-escuros levemente ondulados e os mesmos olhos castanhos da mãe.
Nas mãos segurava um porta-retrato.
— Encontrei isso dentro do guarda-roupa.
Christ aproximou-se.
Era uma fotografia tirada muitos anos antes.
Ela estava sorrindo.
Adrian a abraçava pelos ombros.
Bene, ainda pequeno, gargalhava enquanto tentava segurar um cachorro que insistia em correr pela praia.
Aquela havia sido uma das últimas férias realmente felizes da família.
Christ passou delicadamente o polegar sobre o vidro.
— Eu pensei que essa foto tivesse sido perdida.
Bene sorriu de lado.
— Acho que o pai escondeu para ninguém quebrar.
A palavra "pai" fez um vazio atravessar o peito dela.
Adrian não deveria ter morrido daquela maneira.
Não depois de tudo o que havia descoberto.
A polícia encerrara o caso em poucos dias.
Acidente automobilístico.
Pista molhada.
Perda do controle.
Fim da investigação.
Mas Christ jamais conseguiu acreditar naquela versão.
Adrian dirigia havia mais de vinte anos.
Conhecia aquela estrada melhor do que qualquer motorista.
E, três dias antes de morrer, repetira inúmeras vezes que precisava conversar com ela.
Que havia descoberto algo muito sério na empresa para a qual trabalhava.
Nunca houve tempo.
Nunca existiu aquela conversa.
Depois da morte dele, pessoas estranhas começaram a aparecer.
Primeiro foram ligações sem resposta.
Depois carros estacionados durante horas em frente ao prédio.
Homens perguntando por Adrian.
Outros querendo saber onde estavam documentos que ela sequer sabia que existiam.
Em menos de dois meses, sua conta bancária foi bloqueada por causa de um processo envolvendo bens da empresa.
O apartamento foi tomado.
O emprego desapareceu.
Os amigos começaram, aos poucos, a se afastar.
Era como se o simples fato de permanecer ao lado dela representasse algum perigo.
Ela não culpava ninguém.
Mas também não podia continuar ali.
Sentiu Bene tocar suavemente sua mão.
— Você está pensando nele outra vez, não é?
Christ levantou os olhos.
Tentou sorrir.
— Um pouco.
— Eu também penso.
Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio.
Então Bene olhou ao redor do apartamento completamente vazio.
— Estranho...
— O quê?
— Parece que as paredes ficaram diferentes.
Ela sorriu.
— Não foram as paredes que mudaram.
— Então o que mudou?
Christ olhou novamente para a fotografia.
— Nós.
...
O relógio marcou sete e meia.
Era hora de partir.
E nenhum dos dois imaginava que, a quase quinhentos quilômetros dali, uma pequena cidade chamada Finyx Fool os aguardava.
Uma cidade onde um homem chamado Kolter Evans acreditava que jamais dividiria sua casa com alguém.
Muito menos seu coração.
Esse é o nível de profundidade que pretendo manter em toda a obra: capítulos extensos, com ritmo de romance literário, descrições ricas, diálogos naturais e desenvolvimento emocional gradual.
Nos próximos trechos, vou reescrever o Capítulo 1 nesse mesmo padrão, aprofundando a viagem para Finyx Fool, a relação entre Christ e Bene e os primeiros sinais de que o passado ainda está à espreita.