A Liberdade

1746 Words
É real! É realmente real! Está acontecendo! Enfim está acontecendo e eu m*l posso acreditar! Meu coração chegava até mesmo a bater mais rápido, meu corpo inteiro parecia já entender que o que tanto queríamos finalmente estava prestes a acontecer, a tão sonhado liberdade estava prestes a cantar para nós! Talvez quarta-feira tenha se tornado o melhor dia da semana para mim. Antes eu o odiava, era apenas um dia sem graça no meio da semana, não era tão próximo a segunda como a terça-feira, nem tão próximo ao final de semana quanto a quinta-feira, era apenas um dia sem graça que dividia a semana, onde nada costumava acontecer... Bom, ao menos era o que eu achava. Enfim eu havia recebido alta, iria poder saborear o doce sabor da liberdade verdadeira, sem fugas, livre de verdade. Eu tirava minhas roupas da cômoda e as colocava em minha bolsa com um sorriso tão grande que m*l cabia em mim. Chega de agulhas, chega de soprar canudos para levantar bolinhas, chega de passar horas acamada, chega dessas paredes brancas! Chega! Finalmente chega! Se eu tivesse fôlego poderia dançar tamanha a minha alegria. — Anna. — Ouvi a voz de Jackie seguida de algumas batidas na madeira da porta. — Oi. — Olhei para ela ainda com o sorriso no rosto enquanto apertava minhas roupas. — Estou fazendo as minhas malas. — Estou vendo querida. Estou tão feliz por você. — Disse aproximando-se de mim. — Eu também estou feliz por mim. — Comentei a fazendo rir. — Parece que eu já havia começado a sonhar acordada com esse momento! Quer dizer, tenho certeza que já. — Eu imagino criança, sabe que vai ter muita gente para se despedir não é? Por mais que a felicidade por você ir embora seja grande, vamos todos sentir sua falta, principalmente a vovó Ruth. — Jackie começou a me ajudar a dobrar as roupas e guardar na bolsa. — Não é um adeus para sempre, eu vou voltar para visitar todo mundo e por mais que não queiramos aceitar isso, sabemos que eu vou voltar pra cá, eu sempre volto... — Você só vai voltar a deitar nessa cama quando o seu pulmão chegar mocinha! Nem pense em voltar antes! — Repreendeu-me conseguindo me arrancar um riso nasal enquanto eu fechava com dificuldades o zíper da minha bolsa estufada. Jackie me levou quase que por um tour pelo hospital para que eu pudesse me despedir de todos no hospital. Fomos a ala infantil da uncologia, a sala de quimio, a ala psiquiátrica e a ala de idosos para que eu pudesse me despedir da vovó Ruth. — Eu prometo que volto para te visitar... — Sussurrei já que ela dormia com uma máscara de oxigênio. Jackie me disse que à noite não havia sido fácil para ela. Não querendo acorda-la me aproximei com cuidado e depositei um beijo em seu testa próximo ao seu lenço azul com estampa de mar e barcas. Vovó Ruth adorava barcas, quase sempre comentávamos sobre passear juntas um dia pelo Tâmisa... Depois de me despedir até mesmo das amáveis enfermeiras, voltei ao meu ex quarto –É tão bom dizer EX quarto! – apenas para esperar Jess e o Dr. Clarke para me liberar oficialmente. Sentada na minha ex cama –É de suma importância frizar a palavra EX!– senti meu celular vibrar com algumas mensagens, assim que o tirei do bolso percebi que seu remetente era o Tony. Nós começamos a trocar mensagens desde que marcamos o nosso encontro na sexta, o que tornava esse dia mais feliz ainda! Eu não teria que cancelar e ainda teria tempo de preparar algo. Voltei a realidade ao ouvir baterem na porta novamente, quando olhei para a mesma o sorriso foi instantâneo ao ver Jess e o Dr. Clarke entrando enquanto eu me levantava. — Pronta para ir pra casa, Anna? — Perguntou o Dr. Clarke começando a auscultar meus pulmões com o estetoscópio azul. — Macaco gosta de banana?! — Disse entre as respirações fundas com certa dificuldade. Percebi que ele fez uma cara estranha, como se não gostasse do que ouvia. — Tudo bem doutor? — Tudo... Quero que volte em uma semana para fazermos alguns exames. — Respondeu sério colocando o estetoscópio envolta de seu pescoço. — O Hunter está se comportando m*l? — Perguntou Jess me fazendo rir com o apelido. — Um pouco. Mas nada muito preocupante, como sempre Anna, não faça muito esforço, se alimente direito, não corra, tente não subir muita escada... — Ok doutor, prometo não tentar atravessar Londres correndo. — O cortei conseguindo arrancar-lhe um riso nasal. — Se é assim, já pode ir para casa, está de alta. Essa, com certeza, é a melhor frase que eu já ouvi em toda minha vida, até agora. Depois de lhe dar um forte abraço, que dizia por si só o quanto eu estava grata por tudo que ele fez, e principalmente por ir embora, Jess pegou minha bolsa e como regra do hospital me empurrou em uma cadeira de rodas em direção a liberdade. No instante em que senti a gélida brisa de Londres bater contra as minhas bochechas quase escorre uma lágrima! Eu olhava para tudo como se fosse a primeira vez, cada detalhe para mim era importantíssimo, desde os táxis pretos clássicos que passavam pela rua naquele momento, até o cheiro do amado chá com leite que emanava do café ao lado do hospital. No caminho de volta para casa uma preocupação apertou o meu peito enquanto o taxista dirigia. — Jess, quanto foi dessa vez? — Perguntei a olhando sério. — Não vamos falar sobre isso. — Me respondeu mais sério ainda. — Jess... — Eu recebi uma promoção sabia? Vou ser assistente ao invés de secretaria. — Disse com zero empolgação. — Você devia trabalhar de maquiadora como sempre quis. — Não ganha bem no começo, eu faço b***s como maquiadora, o que ajuda, e eu gosto. — Não é justo com você Jess... Você é tão nova, eu que devia cuidar de você, não o contrário. O que vamos fazer quando a poupança que a nossa mãe deixou para nós não for mais o suficiente para as contas do hospital?— Perguntei emanando preocupação. — Daremos um jeito, como sempre damos! — Respondeu pegando a minha mão e a apertando com firmeza. — Agora chega desse assunto, podemos voltar a ficar feliz com a sua alta? E com seu encontro na sexta! Eu sinceramente havia esquecido dele por uma fração de segundos. Me permiti ficar feliz novamente pelos eventos de hoje tentando ao máximo não me preocupar com o restante. — Temos comida em casa ou vamos ter de passar no mercado? — Depende do que você quiser servir no seu jantar romântico. — Respondeu de forma boba, principalmente ao falar a palavra "romântico". — Mas acho melhor darmos um pulinho no mercado depois de deixarmos as coisas em casa. Não demoramos a chegar à frente do nosso apartamento, eu amava o jeito que a eu fachada parecia antiga, ou velha como dizia Jess. O grande problema era que o elevador vivia quebrado o que nos forçava a subir três andares de escadas. — Tudo bem, Anna? — Perguntou Jess tocando o meu ombro enquanto eu encarava minha velha inimiga. — Tudo... — Assenti. Eu e Jess começamos a subir as escadas devagar, mas depois do primeiro lance eu já sentia minha respiração se tornar mais ofegante, no segundo lance de eu tossisse era capaz do Hunter saltar para fora e quando finalmente chegamos a porta do nosso apartamento meu peito queimava como brasa enquanto eu me apoiava em um extintor tentando puxar o fôlego da forma mais discreta possível. — Anna? — Ouvi Jess me chamar girando a chave na fechadura. — Eu to bem... — Disse não conseguindo esconder totalmente a minha falta de ar. Assim que Jess abriu a porta eu entrei e me joguei no sofá azul e fofinho olhando para o teto e puxando o máximo de ar que eu podia. — Acho que esses dias no hospital me tornaram sedentária. — Disse soltando um riso nasal. — Quer um copo d'água? — Quero. — Respondi sentando-me. A casa estava totalmente impecável, o chão amadeirado estava tão limpo que eu via o meu reflexo na madeira escura, o lugar cheirava a lavanda e tudo estava absolutamente em seu devido lugar. — Limpou a casa com uma escova de dentes? — Perguntei pegando o copo com água que Jess me entregava. — O Dr. Clarke disse que você precisava ficar em um ambiente limpo. — Respondeu sentando ao meu lado. — Limpo, mas da para fazer uma cirurgia nesse chão de tão estéril que ele deve estar! — Disse fazendo ambas rirem. — É que você ainda não viu o seu quarto. — Você limpou o meu quarto? — Eu a olhei sentindo meus olhos saltarem das órbitas. — Ta brilhando! Chega ofusca a visão! — Eu tenho realmente até medo de ver. — Meu medo era claro e real. Depois de me recuperar das escadas tomei coragem para ver como estava o meu quarto. Como Jess havia dito ele estava impecavelmente limpo, o lençol de cama novo assim como as fronhas, não havia nem se quer uma partícula de ** visível aos olhos. — Achei que colocaria uma babá eletrônica aqui depois do "incidente". — Disse fazendo aspas no ar e abrindo minha bolsa com as roupas do hospital. — Não precisa, as paredes desse lugar são tão finas que quando você espirra o corredor inteiro diz "Deus te crie!". — Jess aproximou-se sentando na cama enquanto ambas ríamos. — Pode colocando essas roupas para lavar, roupas de hospital. — Tá bom mandona, eu mesma lavo. — Revirei os olhos tirando minha escova de dentes e cabelo. — Tem certeza que quer ir ao mercado hoje? Podemos ir amanhã aí você pode descansar um pouco. — Eu já descansei de mais Jess, estou ótima! — Sei... Vem cá... — A ruiva me puxou pelo braço sentando-me ao seu lado. — Te amo tanto irmãzinha... — Eu também amo você Jess... — Acariciei seus cabelos depositando um beijo no topo de sua cabeça. Por mais que eu não gostasse dessa inversão de papéis, Jess sempre cuida de mim e se preocupa comigo. Eu a amo mais que tudo neste mundo e realmente não sei o que seria de mim sem ela...
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