— Tenho que lembrá-la, querida esposa, que não era só você a infeliz com nosso casamento iminente, eu apesar desejar possuí-la, sofri demais por abrir mão da minha vida de solteiro. No entanto, hoje gosto bem mais da vida que levamos juntos. Todos nós três passamos pelo mesmo sentimento de receio de não saber o que esperar de nossa união, mas isso é normal quando se tem que se casar por obrigação e não por amor. Uma hora ou outra, todos teríamos que ceder o matrimônio, Lorenzo, isso já era o esperado e não entendo por que de você parece estar tão chateado com seu noivado. Irá desfrutar de uma bela noiva, deveria ficar feliz — provocou-me Nicolo, ele fora um dos primeiros a descobrir sobre meu interesse por Ambra, e o maldito sempre zombou da minha paixão platônica pela irmã mais nova de Carmine.
— Não irei me dar ao trabalho de respondê-lo, Nicolo, não vale a pena — respondi, ríspido, seu sorriso somente se alargou ainda mais diante a minha irritação.
— O que eu falei demais, amigo? Não entendo por que ficou chateado. Não acha sua noiva bela? — ele novamente me provocou, e eu bufei em resposta
— Eu a acho tão bela quanto sua esposa, meu caro. Somos homens sortudos, você tem ao lado uma mulher que jamais sonhava em merecer, enquanto eu terei Carmine Marino, outra mulher extraordinária e interessante — alfinetei, pois estava a par do lado ciumento e possessivo de Nicolo com sua esposa. Sienna se engasgou e depois riu, da expressão de descontentamento que tomou o rosto de seu marido.
— Não ligue para as provocações do meu marido, Lorenzo. Só porque ele teve a sorte de se casar por querer e não dever, ele fica zombando do seu infortúnio — intrometeu-se Sienna criticando o marido.
— Quem disse que me casei por querer, minha ruiva? Como disse antes, estava infeliz no início, com o matrimônio.
— Você não foi obrigado por Tommasso a se casar comigo, assim como Lorenzo fora, meu amor, pelo contrário, você se ofereceu para se casar comigo. Não aja como se tivesse sido colocado uma arma na sua cabeça para te obrigar a se casar, você fez porque já me queria e não admitia para si mesmo.
— Somente me ofereci de bom grado para me casar com você, amore, com propósito de irritar os capos e, principalmente, Andrea, eles estavam loucos para ter você só para eles. Tem sorte de eu tê-la escolhido, seu destino seria c***l se algum daqueles velhos nojentos a escolhesse, e se Andrea tivesse conseguido sua mão, hoje você, querida esposa, seria uma viúva de um caporegime. Eu te escolhi, e agora me vejo preso a uma mulher insolente e respondona para o resto da vida.
— Não seja por isso, meu bem, se estiver r**m para você estar preso a uma mulher de verdade e de personalidade forte, me permita deixá-lo livre para buscar por outra esposa do seu agrado — retrucou Sienna, petulante, fazendo Nicolo abaixar a crista. Ele agarrou ainda mais firme a esposa.
— c*****o, minha rosso demone[1], sabe que nunca te substituiria por mulher nenhuma do mundo, amore. Você é e sempre será minha, apenas minha, e eu serei para sempre seu. Nem Dio ou o Diavolo podem mudar isso.
— Acho bom mesmo, marido — rebateu Sienna, deixando ser agarrada por Nicolo. Eles eram um casal estranho, desde o começo achei que não teria salvação. Sienna sofreu muito nas mãos de Nicolo quando foi presa por nós. Por pouco, não fora morta. Se não fosse o acordo de casamento que favoreceu as duas máfias, Biachi e Caccini, ela não estaria aqui entre nós. Quando Nicolo tomou sua mão em casamento, pensei que ela sofreria ainda mais, porém, ela conseguiu algo que nunca esperei que alguém conseguisse, transformar Nicolo Caccini em um homem apaixonado e bom marido. — Voltando ao assunto Carmine, Lorenzo. Sabia que eu a conheci? Bem, não foi uma apresentação muito longa, mas cruzei com ela no banheiro feminino do evento de dias atrás. A achei linda, um tanto tímida, confesso, mas tem uma personalidade que parece única.
— Ela realmente tem uma personalidade única — sussurrei, passando a mão pela barba lembrando da forma pontuda e confiante que ela respondeu minha pergunta há uma semana sobre boas esposas.
— Vou ter que discordar de vocês, ela é bonita, mas não parece ter uma personalidade instigante, tem cara de submissa, pura demais e um tanto monótona — Nicolo opinou, rudemente.
— Ainda bem que você não acha a personalidade dela instigante, porque quem tem que achar isso, é o Lorenzo, querido. Não me faça te colocar para dormir no quarto de hóspedes hoje, Nicolo, não torre minha paciência. — Per Dio. Por que ruivas tem que ser tão bravas? Você é um homem sortudo, Lorenzo, por sua noiva ser loira e não ter cabelos cor de fogo — resmungou Nicolo.
— p***a, vocês dois podem parar? Estão me deixando mais nervoso do que já estou. Deixem a discussão para um momento particular de vocês, c*****o! — falei, sem paciência alguma para uma briga de casal.
Seguimos em silêncio até a porta de entrada, onde Antônio Marino e sua esposa, Teresa, já nos aguardavam, com sorrisos cordiais nos rostos.
— Senhores Caccini, senhora Caccini, que prazer recebê-los em minha casa. Fico muito contente com a presença de vocês aqui. Por favor, entrem! — pediu Antônio, recepcionando-nos. Entramos na sua casa, passamos pelo hall de entrada para chegarmos até a sala, grande, elegantemente decorada. — Você já conhecem minha esposa, Teresa, acredito.
— O prazer é nosso, agradecemos por nos receber tão cordialmente, Marino — respondi, educado, então olhei Tereza, reparando que ela tinha o rosto parecido com os das filhas, que, com certeza, deveriam ter herdado a beleza de sua mãe e não do pai. — Como está, Tereza?
— Muito bem, senhor Caccini — respondeu ela, com sorriso discreto no rosto.
— A casa dos senhores é belíssima. Amei como as cores dos móveis combinam perfeitamente com a do ambiente. E a decoração é de extremo bom gosto. Será uma honra jantar aqui com os senhores e suas filhas — pronunciou Sienna, simpática.
— Com certeza será um jantar marcante — exclamou Nicolo, logo após a esposa. — Desculpe a curiosidade, mas onde estão suas filhas? Achei que elas iriam nos receber também.
Antônio fitou Nicolo e depois Tereza.
— Acho que minhas filhas estão terminando de se arrumar, sabe como são as mulheres, adoram se produzir, levam horas para ficarem prontas — respondeu Antônio e,
então, direcionou a atenção à esposa. — Querida, vá chamar Ambra e Carmine.
— Sim, querido.
A mulher sorriu para nós, antes de deixar a sala e chamar as filhas.
Aguardávamos ansiosos até que a esposa de Antônio voltou para sala, trazendo as suas duas filhas. Meu olhar se fixou em Carmine assim que ela apareceu na sala, parecendo tímida. Rapidamente a medi de cima a baixo, reparando no vestido azul-escuro de seda fina, curto, elegante e sensual na medida certa. Um sentimento estranho tomou conta de mim ao reparar o quanto seu corpo era bonito. Ela era alta, e tinha uma postura de modelo, costas eretas, e o queixo sempre estava erguido. Carmine tinha uma cintura fina, a barriga plana, que sequer marcava alguma gordura no vestido fino, as coxas eram um pouco torneadas, brancas, sem marcas. Logo mais para cima da barriga ela carregava s***s pequenos, no entanto, que já chamariam atenção com um decote mais avantajado. No pescoço a ragazza tinha três pintas, uma em cada canto.
Uma de suas partes que mais me chamava atenção era o seu cabelo grande que ia até o meio da cintura, marrom- claro, ondulado nas pontas, com um brilho excepcional. Carmine estava lindamente maquiada, era a primeira vez que a via com um batom vermelho tão escuro, que a deixava com a boca provocante. Vários tipos de sentimentos percorreram meu corpo, todos eles com uma pitada de depravação.
Busquei voltar a respirar normalmente, então tomei coragem e fitei Ambra, que caminhava ao seu lado. Como sempre, a Marino mais nova estava maravilhosa. Ambra era mais baixa que Carmine, tinha um corpo magro, parecido com uma boneca de porcelana, o rosto respirava inocência assim como o da irmã. Elas tinham as mesmas feições, só que a diferença era que Carmine conseguia se expressar seus sentimentos através do olhar bem mais que Ambra.
Não demorei a olhar em Ambra, não podia demonstrar o que sentia ao seu respeito.
E tinha plena noção de que a única mulher que deveria roubar a minha atenção naquela noite era Carmine, não a sua irmã.