SELENE
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O porão da mansão Monteiro cheirava a mentira.
Selene parou no topo da escada de madeira, a mão tremendo sobre o corrimão. A luz fraca da lâmpada do corredor m*l alcançava os degraus inferiores, engolidos por uma escuridão que parecia viva. Respirou fundo. O ar que subia de lá era denso, úmido, com um cheiro metálico que ela não conseguia identificar.
Nunca desci aqui.
A frase ecoou na mente dela como uma confissão.
Trinta anos vivendo naquela mansão. Trinta anos passando pela porta do porão todos os dias. Trinta anos ouvindo o pai dizer: "Ali é só bagunça, filha. Coisas velhas. Não vale a pena."
E ela nunca questionou.
Nunca abriu a porta.
Nunca desceu.
Até agora.
— Você está com medo. — A voz de Kael ainda ecoava na cabeça dela. O jeito como ele disse aquilo. Como se soubesse. Como se estivesse vendo dentro dela.
Selene apertou o corrimão com mais força.
Ele está errado. Meu pai não era um assassino. Ele era um empresário. Um homem bom. Um pai que me ensinou tudo o que eu sei.
Mas as palavras de Kael não saíam da mente dela.
"Seu pai era um caçador. Ele matou minha família."
— Mentira — sussurrou Selene para a escuridão. — É tudo mentira.
Ela deu o primeiro passo.
A madeira rangeu sob o salto do sapato. O som ecoou no vazio como um grito abafado.
Segundo passo.
Terceiro.
A escada descia em curva, e a cada degrau, a luz do andar de cima diminuía, substituída por uma penumbra cinzenta que vinha de lugar nenhum.
Selene chegou ao fundo.
Uma porta de ferro à sua frente. Fechada. Trincada. Uma fechadura antiga, daquelas que se abrem com chave de verdade — não com código digital, não com biometria.
Ela tocou a porta. O metal estava gelado.
— Isso não é um porão comum — murmurou.
O pai dela sempre dizia que ali era só "tralha de família". Mas tralha de família não fica trancada com uma fechadura que parece de fortaleza medieval.
Selene olhou para a porta. Não tinha chave. Mas a maçaneta... ela girou.
A porta rangeu ao abrir.
O cheiro a atingiu primeiro.
Sangue. Pólvora. Ferro. E algo mais. Algo que ela não conseguia nomear. Algo antigo. Selvagem.
Selene pisou no cimento frio.
E congelou.
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O porão era enorme.
Muito maior do que o andar de cima da mansão. Como se alguém tivesse cavado um bunker secreto sob a casa.
Prateleiras de metal cobriam as paredes, lotadas de caixas, pastas e objetos que brilhavam na penumbra. Selene caminhou lentamente, os olhos se ajustando à escuridão.
Uma prateleira inteira de livros. Enciclopédias. Diários. Manuscritos.
Ela puxou um volume. A capa de couro estava gasta, o título gravado em letras douradas:
"Manual do Caçador — Volume III — Lobisomens."
O coração dela parou.
Abriu o livro.
Páginas amareladas. Desenhos anatômicos de criaturas — metade homem, metade lobo. Instruções detalhadas sobre como identificar, rastrear e eliminar cada uma.
— Isso não é real — sussurrou. — Isso não pode ser real.
Ela largou o livro. Pegou outro.
"Diário de Caça — Monteiro, 1982."
Abriu.
Letra do pai.
Ela reconheceu a caligrafia torta, as letras maiúsculas desleixadas que ele usava quando escrevia à mão.
"14 de março de 1982. Alcateia localizada na Serra do Mar. Sete lobos. Macho Alfa identificado. Atacaremos ao amanhecer."
Selene folheou as páginas. Cada uma era um relatório de caça. Cada uma descrevia a morte de uma criatura que ela nunca soube que existia.
O pai dela não era empresário.
Ele era um assassino.
Ela jogou o diário no chão.
As pernas fraquejaram. Ela se apoiou na parede, ofegante. A respiração vinha em ondas curtas, aceleradas.
Não. Não. Não.
— Isso é mentira — repetiu, como se as palavras pudessem proteger a verdade. — Isso é mentira.
Mas o porão continuava ali.
As prateleiras. Os diários. As armas.
Selene olhou para o canto. Uma mesa de metal. Em cima, uma caixa de munição. E ao lado...
Ela engoliu em seco.
Ao lado da caixa, uma arma. Não uma arma comum. O cano era de prata. Incrustações na coronha. Uma inscrição:
"Monteiro — Caça Ancestral."
Selene pegou a arma. O peso era estranho. Familiar. Como se aquela peça de metal tivesse sido feita para a mão dela.
Ela segurou a arma e olhou ao redor.
Parede à esquerda: mais livros, mais diários.
Parede à direita: um mural.
Ela foi até o mural.
Fotos. Dezenas de fotos. Lobos mortos. Homens sorrindo ao lado de carcaças. Selene reconheceu alguns rostos — parentes distantes, amigos do pai. Todos com a mesma expressão de triunfo.
E no centro do mural...
Selene sentiu o chão sumir.
Uma foto do pai. Ele estava abraçado a outro homem. Sorrindo. Ao lado de um lobo morto.
O lobo tinha olhos amarelos.
Os mesmos olhos de Kael.
— Meu Deus — sussurrou.
Ela recuou. O corpo colidiu com a mesa de metal. O barulho ecoou no porão como um tiro.
Selene caiu de joelhos.
As lágrimas vieram. Quentes. Dolorosas. Elas escorriam pelo rosto enquanto ela olhava para a foto do pai. O pai que ela amava. O pai que ela defendia. O pai que era...
— Um assassino.
A voz dela era um eco no vazio.
Selene ficou ali, de joelhos no cimento frio, a arma de prata caída ao lado, a foto do pai a encarando com um sorriso que ela nunca mais conseguiria ver da mesma forma.
O pai dela matava criaturas.
Kael era uma delas.
E agora...
E agora eu sei a verdade.
Ela ficou horas no porão. Ou minutos. Ela perdeu a noção do tempo.
Quando finalmente se levantou, as pernas estavam dormentes. Os olhos vermelhos. A alma em frangalhos.
Selene pegou a arma. Guardou-a na bolsa. Não sabia por quê. Mas sentia que precisava.
Pegou um dos diários também. O mais antigo. O que tinha o nome do pai na capa.
E saiu do porão.
A escada rangeu debaixo dos pés dela, mas ela não ouviu. Tudo parecia abafado. Longe. Como se ela estivesse dentro de uma bolha.
Ela chegou à sala de estar. Largou a bolsa no sofá. O diário caiu sobre a mesa de centro. A capa de couro preta parecia um corpo morto.
Selene sentou-se e encarou o diário por um longo tempo.
Finalmente, abriu.
A primeira página:
"Este diário pertence a Orlando Monteiro. Caçador. Pai. Herdeiro do legado Monteiro."
A caligrafia do pai.
Ela começou a ler.
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"3 de janeiro de 1975 — Hoje, meu pai me levou pela primeira vez. Disse que eu tinha idade suficiente para entender o que é ser Monteiro. Matamos um lobo jovem. Ele tinha olhos amarelos. Chorou antes de morrer. Eu vomitei. Meu pai disse que isso passa."
Selene sentiu o estômago revirar.
"15 de agosto de 1980 — Conheci uma loba hoje. Ela era diferente. Não tentou me matar. Ficou me observando. Tive vontade de não atirar. Mas meu pai estava olhando. Atirei. Ela caiu. Olhou para mim antes de morrer. Como se estivesse perguntando 'por quê'. Eu não sei a resposta."
"7 de maio de 1983 — Minha filha nasceu hoje. Selene. Quando segurei ela nos braços, fiz uma promessa: ela nunca vai saber o que eu faço. Ela nunca vai sujar as mãos. Ela vai ser melhor do que eu."
Selene soluçou.
O pai não queria que ela soubesse.
Ele queria protegê-la.
Mas ele também matava. Ele também caçava.
O pai dela amava ela. E matava criaturas como Kael.
As duas coisas coexistiam no mesmo homem.
— Como eu vou lidar com isso? — sussurrou ela para o vazio.
O telefone vibrou.
Selene olhou para a tela.
Uma mensagem de um número não salvo — mas ela já sabia quem era.
"Você foi ao porão. Eu senti. — K.A."
Ela congelou.
Como ele sentiu?
A mensagem continuou:
"A verdade é mais pesada do que você esperava, não é? Mas ainda há mais. Você precisa saber tudo antes de decidir quem é o monstro."
Outra mensagem:
"Amanhã, 9h. Minha sala. Vou te mostrar o que seu pai escondeu. — K.A."
Selene segurou o telefone com as mãos trêmulas.
Ela podia ignorar. Podia apagar. Podia fingir que nada daquilo era real.
Mas a arma de prata estava na bolsa.
E o diário do pai estava na mesa.
E a verdade estava em algum lugar entre os dois.
Ela digitou a resposta:
"Estarei lá. E vou querer respostas. Se você mentir, eu vou saber."
O telefone vibrou quase instantaneamente:
"Nunca menti para você, Selene. Só escondi a verdade para te proteger. Mas a proteção acabou. É hora de você dominar o lobo dentro de você. — K.A."
Selene leu a mensagem três vezes.
Dominar o lobo dentro de você.
O que aquilo significava?
Ela não era loba. Ela era humana. Ela era caçadora.
Ou era?
A última mensagem chegou:
"Durma bem. Você vai precisar de energia para amanhã. E Selene? Não leve a arma. Você não vai precisar. — K.A."
Ela soltou o telefone na mesa.
O coração disparado. A mente em parafuso.
Kael sabia.
Ele sabia que ela tinha a arma. Sabia que ela tinha ido ao porão. Sabia que ela estava lendo o diário.
Sabia até o que ela estava sentindo.
Ela não sabia se isso a aterrorizava... ou se a excitava.
Selene apagou a luz da sala. Ficou ali, no escuro, com o diário do pai e a mensagem de Kael.
O lobo estava do lado de fora da porta.
E ela estava prestes a abri-la.