Dulce
Cansada de ficar sozinha em casa, resolvi que seria uma boa ideia ir até uma academia para me exercitar. Por mais que eu tivesse um local próprio para isso em minha casa, dessa vez preferi ir à um lugar onde eu pudesse ver outras pessoas. Talvez assim eu me sentisse menos solitária.
Depois de terminar a ginástica, peguei minha garrafinha de água com o intuito de ir direto para o bebedouro.
Podia sentir que minha pele estava vermelha, pelo calor que transcorria sob ela.
— Senhorita Saviñon! — fui abordada por Christopher Uckermann assim que cheguei ao bebedouro.
— Uckermann. — acenei com a cabeça.
— Não imaginei que um dia te veria em uma academia. Pessoas ricas não tem um tipo de espaço próprio em casa? — a maneira como ele conversava despreocupado comigo era irritante.
— Isso não me impede de querer vir à um lugar mais frequentado. — dei de ombros.
— Faz bem. Não há nada mais saudável do que o contato humano. — ele deu um gole em sua água e eu observei uma gota percorrer sua boca, depois seu pescoço, até ser parada pela camiseta de algodão que ele usava.
Era a primeira vez que eu via os braços que ficavam escondidos debaixo das camisas sociais que ele vestia na empresa.
Involuntariamente, corri meus olhos por seus músculos, me perguntando o quanto ele se esforça para cultivá-los. Nem notei que estava com a boca levemente aberta.
Christopher olhou para mim e depois em direção aos seus braços, onde meus olhos se fixavam.
— Eu costumo treinar às vezes, mas a maior parte disso é genética. — sorriu de lado.
— O que? — balancei a cabeça em confusão.
Ele riu pelo nariz e se aproximou, deixando um pequeno espaço para que nossos corpos não se tocassem.
— Percebo que se preocupa em ter um corpo saudável. — ele disse com um tom de voz mais baixo.
— Percebe?
— É... — esquivou um pouco a cabeça para me olhar de cima a baixo. — Percebo.
Ficamos em silêncio enquanto nos encarávamos. Não sabia dizer se ele estava tirando uma com a minha cara, ou se estava mesmo dando em cima de mim.
Seja lá o que fosse, qualquer uma das respostas era desrespeitosa e me dava vontade de esgana-lo.
Mas naquele momento, eu não consegui dizer nada e paralisei olhando aquele mar castanho dos olhos dele que me prendiam como imãs.
— Dulce! — uma voz feminina, irritantemente familiar cortou toda a cena. — Que surpresa te ver aqui, sempre achei que odiasse estar cercada de pessoas. — ela forçou um abraço e eu não disfarcei minha cara de descontente.
— Ah... Catarina? — Christopher a chamou.
— Bonitinho! — falou de forma íntima. — Não achei que te veria de novo hoje. — tocou o rosto dele de forma peculiar.
Intercalei meu olhar entre os dois ligando os pontos e consequentemente, ficando chocada.
— Vocês estavam conversando? Se conhecem?
— ela perguntou.
— Dulce é minha chefe. — ele respondeu.
— Uau, sério? — riu. — Isso é interessante... e então, Dulce, soube que meu irmão te convidou pra acompanhá-lo no próximo baile beneficente. Eu espero que dessa vez você não se sinta tão superior e resolva dar as caras. — ironizou. Eu cruzei os braços e dei risada.
— Talvez eu me sinta superior porque não sou falsa à ponto de dar uma festa pra gritar ao mundo "olhem pra mim, por favor! Eu estou gastando uma pequena parte do meu dinheiro com gente pobre! Me deem atenção!" — fiz minha melhor imitação de dondoca.
— Melhor fazer com interesse do que não fazer nada. — insinuou.
— Claro. — falei despreocupada. Não tinha que dar explicações das minhas caridades à Catarina.
— Bom, vou voltar pro meu treino. Espero te ver amanhã, Dulce. E Christopher, espero te ver... — ela deu uma piscadela e ele a acompanhou com o olhar e um sorrisinho no rosto até ela entrar em uma sala.
— Fala sério! — cruzei os braços e o encarei. — Catarina?
— O que? Qual o problema?
— Com tantas mulheres pra você agarrar e você ataca justo a Catarina Morgan?
— Espera, "Morgan"? Da Morgan's Company?
— pareceu surpreso.
— Saiu com uma mulher que nem conhece? Pelo amor de Deus, Uckermann! — falei indignada.
— Ela me disse que era publicitária, mas não fazia ideia que era dona de uma empresa.
— Tecnicamente, o irmão dela é o dono, mas ela é vice-presidente. E o pior disso tudo, Uckermann: são meus rivais. Você dormiu com uma rival da minha empresa! — a minha reprovação era aparente.
— Não vejo problema nisso. — deu de ombros.
— Eu devia demitir você!
— Uou, calma aí! — estendeu as mãos na defensiva. — O que eu faço ou deixo de fazer na minha vida particular só diz despeito à mim. Não tem porquê ficar irritada com uma besteira dessas.
— Ok, Uckermann. Como quiser. Mas não pense que Catarina vai procurar você de novo. Ela enjoa rápido dos homens. Tenho certeza que nem o número de celular dela você tem.
— Mas ela tem o meu. — se defendeu e eu ri.
— É claro que ela tem. — ele pareceu entender e logo sua expressão se tornou desapontada. — Não se preocupe, você não perdeu nada. Catarina é uma megera.
— É, tem razão. Detesto megeras. — me olhou divertido.
— O que quer dizer com isso? — fiquei séria.
— Só que eu detesto megeras. — sorriu. — Bom treino, senhorita Saviñon.
Ele saiu andando. Refleti sobre suas palavras e custei a acreditar que ele estava mesmo me chamando de megera. Claro que camuflou a frase pra que eu não tivesse a chance de prejudicá-lo se quisesse.
Maldito, Uckermann! Parece que apareceu na minha vida exclusivamente pra me infernizar!
Em todo final de conversa que tinha com ele, eu sentia a minha cabeça latejar como se todo o sangue do meu corpo fosse drenado para cima, me deixando com os nervos à flor da pele.
Continuei minha rotina de exercícios e acabei cruzando o caminho de mais alguns de meus funcionários, incluindo a minha favorita, Annie. Ela foi a única a parar para me cumprimentar. Os outros ou desviavam os olhos para o chão, ou apenas acenavam com a cabeça de maneira incerta.
{...}
Chegando em casa, eu me joguei no sofá e atendi meu celular que havia começado a tocar.
— Alô?
— Dulce, pensou se vai ao baile?
— Ah, oi, Allan. — revirei os olhos. — Não tenho certeza.
— Por favor, será bom pra mim e pra você. Como uma empreendedora, sabe que precisa manter uma boa imagem.
— Como um empreendedor, você é bem persuasivo.
— É um dom. — eu podia imaginar que estava sorrindo de orgulho. — O que me diz? Aceita? A gente nem precisa se falar durante o evento. Só vamos chegar juntos e ser fotografados, talvez responder algumas perguntas sobre como nós estamos construindo uma boa amizade... e aí?
Olhei em volta para a sala vazia da minha casa. O que faria num domingo aqui?
Provavelmente, todas as pessoas estariam com seus amigos e família, ou mesmo nesses eventos chatos.
Continuar sozinha era reafirmar a minha total incapacidade de ser uma pessoa com a qual as outras se importam. Precisava pelo menos fingir que estava bem.
— Ok. Mas vai ser só amanhã. Nem pense em tocar no meu nome novamente, seja pelo motivo que for.
— Eu prometo. Te busco às 20:00. Até amanhã.
— Até.
Subi para o meu quarto e tomei um banho gelado. Quando entrei debaixo do chuveiro e fechei os olhos, a imagem de Christopher surgiu em minha cabeça e eu rapidamente a afastei.
Tornei a abrir os olhos sentindo toda a água fria percorrer meu corpo e todas aquelas gotas me fizeram lembrar da gotinha de água que eu vi percorrer o pescoço dele.
Esfreguei meu rosto tentando apagar qualquer pensamento indevido que viesse a surgir.
Por que diabos Christopher invadia minha mente? O que estava acontecendo comigo?