CAPÍTULO 1 - O HERDEIRO PERFEITO
*CASTIEL ROCHA, 23 ANOS. ALFA.*
Se você pesquisar o nome dele no Google, aparece: herdeiro da Faculdade Rocha de Tecnologia, melhor aluno desde o ensino fundamental, comportamento impecável, futuro CEO.
O orgulho da família Rocha.
Ninguém vê o resto.
Em casa, ele nunca foi filho. Foi projeto.
O pai, Henrique Rocha, também Alfa, é um homem ocupado e frio. Casou com Elisa, uma Beta de família de sócios, não por amor. Por conveniência. Um casamento político para unir empresas.
E todo mundo sabia.
Elisa era uma mãe incrível. Dócil, carinhosa, tentava ser o calor que faltava naquela mansão gelada. Ela amava o filho como se ele fosse o único motivo pra continuar ali. Fazia bolo, ajudava na lição, abraçava Castiel quando ele tirava 10 e o pai só dizia "é sua obrigação".
Ela esperou a vida toda por um amor, por um olhar quente do marido que nunca chegou.
O que chegou foram as humilhações. Os gritos quando ele bebia. O desprezo por ela ser Beta. Anos e anos sendo diminuída dentro da própria casa.
Elisa adoeceu. Não foi de uma vez. Foi aos poucos, de tristeza. Uma depressão profunda por viver num casamento frio e abusivo. Castiel tinha 14 anos quando a encontrou. Ela não aguentou mais.
E desde aquele dia, Castiel ficou sozinho com o pai. Uma casa enorme, silenciosa, com dois Alfas que m*l se olhavam. Foi ali que ele jurou: nunca seria igual ao pai. Nunca faria alguém se sentir tão pequeno.
Foi nesse vazio que Alice Valente apareceu.
Alice era Beta, filha do prefeito, rica, alegre, divertida. Era aquela garota que seguia ele nas festas, na escola, que ria alto e puxava ele pra dançar quando ele só queria ficar no canto. Ela entrou na vida dele como um sol.
Eles se apaixonaram. Foi o primeiro amor dos dois. Começaram a namorar ainda no fundamental. Alice era ciumenta, todo mundo falava da má reputação dela, que ela era briguenta, que já tinha arrumado confusão com outras meninas.
Castiel ignorava. Pra ele, ela era a única que tinha ficado.
Tanto que depois de anos, ele fez planos. Alugou um apartamento só pros dois. Combinaram: depois da formatura dela, eles iam casar. Ter a família feliz que ele nunca teve.
Até Ariel Lima se mudar pra cidade.
No começo, Castiel nem notou. Ariel era do primeiro ano, ômega, 18 anos, filho de advogados, sempre de fita amarela no cabelo. Lindo, delicado, chorava por tudo.
E Alice odiou na hora.
Começou com piadinhas. Depois comentários maldosos nos corredores. Depois empurrões. Castiel via, ficava irritado, falava pra Alice parar. Ela dizia que era ciúme bobo.
Até o dia em que ela empurrou Ariel da escada da faculdade.
Castiel estava lá embaixo. Viu o corpo pequeno do ômega rolando, a fita amarela se soltando, o joelho sangrando. Viu o olhar de pânico do Ariel, igualzinho ao da mãe dele anos atrás, sendo maltratada sem poder se defender.
Aquilo foi a gota d'água.
Naquele dia, algo dentro dele quebrou com Alice. Não era mais amor de infância. Era nojo daquela crueldade. E ao mesmo tempo, nasceu uma coisa diferente pelo Ariel. Uma vontade louca de proteger.
Ele terminou com Alice. Ou tentou. Ela não aceitou sair do apartamento. Disse que era dela também, que a família dela tinha ajudado a pagar. E ficou.
Castiel, pra não surtar, começou a sair mais com os colegas da faculdade.
Numa dessas festas, numa república barulhenta, ele bebeu. Muito mais do que costumava. Ele não é de beber, ficava sempre no canto, quieto, ouvindo os outros rirem, socialmente distante mas presente.
Até que tudo escureceu.
A última coisa que lembra é de um cheiro doce. Baunilha.
Depois, nada.
Quando abriu os olhos, a luz do hotel queimou. Dor de cabeça insuportável. Boca seca. Estava sem roupa, debaixo de um lençol barato.
E ao lado dele, dormindo, enrolado no lençol, com o pescoço marcado de chupões roxos...
Ariel Lima.
As costas de Castiel ardiam. Ele sabia o que era aquilo, eram arranhões.
O chão sumiu.
Ele levantou rápido, o coração batendo a mil. Olhou pro ômega tão pequeno, tão doce, dormindo de boca aberta, todo marcado.
A culpa esmagou o peito dele.
"Que merda eu fiz? Eu me aproveitei dele. De um ômega inocente daquele jeito."
Sem fazer barulho, antes que Ariel acordasse, ele vestiu a roupa, deixou dinheiro suficiente pra pagar o quarto e duas noites a mais na recepção, e foi embora.
No caminho pra casa, com a consciência pesada e a cabeça doendo, ele não conseguia lembrar de nada daquela noite. Só do cheiro de baunilha.
Ele não fazia ideia de que, enquanto ele fugia se sentindo o pior Alfa do mundo, no quarto do hotel, o "ômega inocente" estava acordado, com o celular na mão, sorrindo e tirando foto das marcas no pescoço.
O plano tinha dado certo.